CORPORATIVISMO, BRASILIA, CORRUPÇÃO, CEILÂNDIA e CASA DA MÃE JOANA – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Como estão os ares do sul e os ares de Curitiba? Espero que, embora fria como sempre, a cidade esteja vivendo bom astral, mesmo em tempo de eleições.

 

Sobre eleições considero este o momento mais desprestigiado do País. Aliás, por “bom” costume ainda escrevo País com caixa alta. Bobagem, não existe mais países. O planeta está ferrado e países são ficções mantidas para iludir os incautos. Hoje o predomínio é dos blocos. São blocos de nações, algumas nem isto são. Blocos de continentes; blocos de interesses econômicos fortes, capazes de juntar inimigos figadais; blocos de sem terras; blocos de juízes; blocos de favelados. Parece que o corporativismo se instalou em todos os setores. Marx ensinou ao trabalhador e estes ensinaram aos patrões. Ferrou. Agora todo mundo sabe que aliados são ocasionais. Mas e as eleições, o que têm a ver com tudo isto? Tudo meu caro. Este pascácio barbudo que vos fala insiste na tese, vivemos num paiseco que vota porque a lei impede o cidadão de não votar. Se por um ato sonolento qualquer passasse no congresso uma lei deixando ao livre arbítrio do brasileiro a escolha de votar ou não votar, teríamos certamente mais de 50% de abstenções nas capitais e um bom percentual no interior. Assustaria aos mais assustados dos parlamentares. Se vivo estivesse, Enéas esbugalharia os olhos, cofiaria a barba e iria vociferar para as câmeras de TV toda sua indignação, carregada de perdigotos e palavras deletérias de baixíssima compreensão ao cidadão comum. Mas eles não dormem para estas questões, Caro Vidal. Ali no congresso reside o maior de todos os corporativismos. É questão de sobrevivência. Para eles e para os cartórios eleitorais. Se eleições não houvesse onde empregar tantos juízes que trabalham apenas de dois em dois anos? Uma corporação puxa a outra. Assim, como já disse Fellini – “La nave va”.

 

Mas estes são assuntos mundanos desinteressantes, volto a perguntar: como está passando, meu amigo? Pela sua última missiva percebo que anda um tanto indignado com esta Lei Seca.

 

É verdade, ela nos afastou dos bares e lugares onde um copo e outro podiam nos levar a viagens muito mais perigosas do que aquelas nas vias e rodovias. A lei de fato não é burra, ela é idiota. Digo isto porque a lei anterior já era por demais severa. A diferença é que agora fazem fiscalização. “Pero non tanto”, não é mesmo? Dias atrás deu na TV que a autoridade maior de uma capital de um dos estados do Norte do Brasil – que não cito para não ser injusto com a cidade – atropelou e matou o garupa de uma moto e seu estado etílico estava para lá de Marackech. Está claro, algum advogado impetrou “habeas corpus” e o “cidadão” foi solto. Pobres bebuns nós, que jamais atropelamos a lingüiça dos nossos cachorros nas garagens. Passei a beber mais em casa. Acho que muita gente aderiu a isto. Mas parece que não tem o mesmo prazer. Tomamos uma e logo desistimos. Vamos dormir ou fazer outra coisa. Um terço do prazer da bebida está na conversa; o outro terço está no prazer em pedir mais uma e se quem nos está servindo for amigo, encaixar um tira-gosto ou um comentário pueril; o terço final está em pedir a saideira, que jamais acaba e vai se prolongando até quando não há mais desculpas para o adiantado da hora.

 

Aqui no Planalto continuam roubando muito bem. Para todos os lados e em todos os poderes há uma precatória, uma liminar, uma contenda judicial etc.

 

Apenas quero fazer uma correção, meu Caro Vidal. Brasília não é de forma alguma apenas uma Brasília. Não sei se você sabia, mas existem aqui vinte e três cidades. O território do Distrito Federal tem Taguatinga, Ceilândia, Gama, Paranoá, Sobradinho, Planaltina e tantas outras que iria preencher mais três linhas para citá-las. E nestas cidades florescem vidas, se produz economia, artesanato, serviços e até mesmo um pouco de ciência. É claro que o resto do Brasil vê Brasília como uma ilha. Vê o congresso e suas duas casas legislativas, ou os ministérios e o planalto como casa de mãe Joana. Afirmo peremptoriamente: esta turma é temporária. Mais do que isto, noventa e nove por cento do congresso é constituído de gente que não é daqui. Para cá,  pelo famigerado voto, comprado ou barganhado, todos estados mandam seus representantes. A cácá que eles produzem e espalham pelo país é produzida aqui, mas por cidadãos daí e de todos os lugares. As outras Brasílias se envergonham da lamaceira, mas resiste. Fazer o quê? Tem gente que se aferra ao lugar e dele não sai, nem com reza braba. Torna-se refém, vira pedra. Até um dia quando viram pó, em meio as minhocas, debaixo da terra.

Deixemos os políticos e Brasília de lado, falemos de amenidades, sejamos mais terrais. Como vai passando Dona Beatriz? Espero que muitíssimo bem. Caso encontre uma peça boa para o próximo fim de semana me avise, pois estou voltando e pretendo levar a “frau” para passear.

 

Lembro do nosso último encontro dominical e da peça teatral que assistimos. Eu fiquei totalmente apartado, por força das contingências da venda dos ingressos. Assisti a peça num balcão do Teatro Positivo. Certamente ali é o pior lugar para ver qualquer coisa naquela casa de espetáculo. Muito tempo depois arrisco a comentar a peça. Acho que ela é uma paródia bíblica interessante, com montagem estudada e alguns personagens hilários. Mas não precisava ir tão distante para traçar paródias da nossa desgraça cultural e política. Qualquer fábula gaudéria ou mesmo um cordel nordestino, consegue ter tanto ou mais graça do que as histórias bíblicas apresentadas.

 

Também já vou passando deste para outro assunto. Como vai nosso “blog” e desculpe-me por minha possessividade, ao me arvorar em proprietário do alheio. E logo no alheio que pertence ao amigo.

 

Ocorre, Vidal, que a linguagem tem sido companheira de muitos momentos em minha vida. O gosto pela literatura não somente vem do conteúdo dos textos, muitas vezes vêm como na música, do arranjo da frase ou do improviso na interpretação. Esta minha queda, ou cachoeira despregada do paredão para o poço musical é tão forte que a maioria dos meus poemas foram feitos ouvindo canções, a maior parte jazz. Como é o caso agora, que ouço Winton Marsallis tocando “Round About Midnight”. É um sax barítono entrando dentro dos ouvidos e dos sentimentos, como lêndea invisível gerando coceiras as quais não há remédio ou creolina capaz de aplacar o incômodo. Mas qual o quê, bobagem cheia, besteira de mais para tanta conversa que poderia ser.

 

Vou fechando a conversa Vidal, como sempre prometo novo encontro em breve, acompanhado de uma garrafa de vinho. Levarei a garrafa na minha bicicleta, com certeza. Levarei o vinho, o saca-rolhas, o pão e a vontade. Somente não levarei o azeite, o prato e o sal. Mas que isto seria bom, com certeza seria. Não deixe de ir porque tenho tantas novidades que até as moscas parariam de voar para escutar. Conversa para boi e mateiro dormir. No entanto, tem conversas mais, de boa prosa. Certamente convidados mais viriam, se soubessem deste meu retorno. Mas caso queira, marque encontro na feirinha no próximo domingo. Leve a Marisa, o Lago e outros que faltaram aos últimos encontros.

 

Grande Abraço.

Ánton Passaredo

 

Brasília, 5 de Agosto de 2008.

ilustração do site. “boteco ambulante” pega, leva e traz.

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