TIO SAM nos pagos de STALIN – por helio de freitas

 

São atualmente tão bons e eficientes os meios de comunicação que há muita dificuldade para obter informação realmente objetiva e menos superficial sobre o que se passa em nosso próprio país. Dificuldade que é elevada à enésima potência quando se trata de uma pequena nação encravada no gelo do Cáucaso, independente depois da queda da URSS e pátria de Iossip Vissarionovich Djugashvili (com tão pouca informação sobre o que acontece e o que aconteceu, é bom esclarecer que este era o nome civil do camarada Stalin).

Lá, na Geórgia, nasceu quem viria a ser o mais implacável e obstinado condutor da União Soviética e que, apesar do imenso poder que tinha, jamais fez qualquer gesto (pelo menos nenhum historiador registra) para favorecer ou privilegiar o rincão natal. Os georgianos foram totalmente ignorados pelo compatriota, inteiramente convertido à língua e à mentalidade russas. Mesmo assim, consta que erigiram muitas estátuas ao filho ingrato, eufóricos com o culto da personalidade, e não as derrubaram quando o stalinismo foi banido por Kruschev e seus sucessores no Krêmlin.

Pois bem. Quando a União Soviética caiu e a Geórgia emancipou-se, digladiaram-se dois líderes. Por um lado, Gamsakhurdia e por outro o ex-Ministro do Exterior da URSS, Eduard Shevarnadze, (georgiano de nascimento). Depois de luta sangrenta e algumas reviravoltas, morto Gamsakhurdia (sobre quem tão pouco se sabe), Shevarnadze consolidou-se no poder, de onde foi apeado alguns anos depois por pressão americana, ao que se diz.

 

O fato real é que o atual dirigente da Geórgia, formado em Harvard, apoia os EUA e a Otan, confrontando-se com a Rússia, que por sua vez defende com seu poder militar as minorias russas em território georgiano. Simplificando a questão: os EUA lançaram uma cabeça de ponte no Cáucaso, para contrabalançar o poder russo, de acordo com o clássico e secular modelo das esferas de influência. E aí se vê a ironia da história: tudo isso se passa na terra de Stalin. Ali, onde nasceu e viveu o menino Iossip, estudante de seminário até aderir à militância comunista e atravessar as fronteiras georgianas para fazer História com agá maiúsculo, protagonizando um dos papéis mais controversos do século vinte.

 

A situação deve estar fazendo o ex-ditador se remexer no túmulo, que sabe-se lá onde atualmente se localiza, visto que o próprio Lênin está ameaçado de ser removido de seu mausoléu, se é que já não foi.

Ironia amarga desse gênero, na História, também é a passagem à França, no século dezenove, da cidade italiana de Nizza, onde nasceu o herói da libertação da península, Giuseppe Garibaldi. O pior é Garibaldi ainda estar vivo quando Nizza se transformou na francesa Nice, tendo, depois de tantas lutas, o desprazer de ver sua cidade natal arrancada do território italiano, por artes de arreglo entre um imperador máu caráter, justamente apodado de Napoleão, o Pequeno, e um rei da Savóia não menos velhaco.

“Sic transit gloria mundi” (como os mais jovens não estão afeiçoados a latinório, é bom traduzir: “assim passa a glória mundana”. E nosso tiozinho Sam, quando passará?

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