Arquivos Diários: 13 agosto, 2008

AS MUITAS VIDAS DE ANNA AKHAMÁTOVA por affonso romano de sant’anna

Anna, a Voz da Rússia – Vida e Obra de Anna Akhmátova (Algol Editora) é o produto  de uma paixão literária  que dura já quatro décadas, surgida quando Lauro Machado Coelho aos dezoito anos adolescia em Belo Horizonte. Mas, sendo obra de  “amante”,  não é coisa de “amador”. Anteriormente, Lauro havia publicado Akhmátova: Poesia 1912-1964 (L&PM, 1991), uma antologia daquela que foi qualificada, pela também poeta   Marina Tsvietáieva, como “Anna de todas as Rússias”.  E, recentemente, ele nos deu a reveladora Poesia Soviética (Algol, 2007), cerca de 600 páginas com uma série de poemas  de autores desconhecidos do grande público, e por ele traduzidos diretamente do russo.

Anna, a Voz da Rússia é não só uma monumental biografia, mas uma requintada façanha editorial, com a capa e    gravuras em preto e branco de Klara Kaiser Mori, um dossiê de fotos sobre a poeta  e seu tempo, a partitura de uma composição de Gilberto Mendes sobre um dos poemas de Anna e um CD com  a voz da poeta e poemas  declamados em português por Beatriz Segal. E, no momento em que este livro está sendo lançado, o compositor Rodolfo Coelho de Souza está terminando a partitura do monodrama Visita  Noturna para a Senhora Akhmátova, cujo libreto foi escrito para ele por Lauro. Ocorre assim a confluência do trabalho do Lauro Machado Coelho tradutor com o do crítico e historiador de música, que tem-nos dado uma enciclopédica História da Ópera  em vários volumes. Mais do que um livro esta edição é um acontecimento.

 

VIDAS E SOBREVIDA

 

             Quantas vidas cabem numa vida? Na de Anna Akhmátova, pelo menos três. Há uma primeira Anna, feliz na infância e parte da juventude. É aquela que vivia  em Pávloski e depois em Tsárskoie Seló, a “aldeia do tsar”, onde  o  arquiteto italiano Rastrelli  erguera,  para Catarina a Grande, um esplêndido palácio.  Ali, ela passeava nos bosques, visitava a coleção de arte do Museu Alexandre III, assistia a concertos e vivia como uma moça culta e bem educada. Aos 13 anos, descobriu a poesia de Aleksandr  Blok, mas quando escreveu seus primeiros versos, o pai advertiu: “Vê se, pelo menos, não envergonha o nome da família”.

            Não envergonhou. Essa descendente longínqua do clã da “Horda Dourada” do Grande Cã conheceria a glória em vida, e compartilharia sua dramática vida  com uma geração de artistas excepcionais como Erenbúrg, Khlébnikov, Maiakóvski, Mandelshtám, Shostakóvitch, Isaac Bábel, Pasternák, Prokófiev, Anna Pávlova, Nijínski, Modigliani. E Iósif Bródski, o Nobel de 1987, cujo talento ela estimulou desde o princípio, foi o encarregado de  escolher onde seria sua sepultura, quando ela morreu, em 1965.

            Enquanto ia se transformando em  um  ícone da poesia russa moderna, Anna experimentou, na carne e no espírito, os círculos dantescos do inferno stalinista, acrescidos do inferno hitlerista. Sua vida sofreria uma abrupta transformação: “Eu como um rio,/fui desviada por esses duros tempos./Deram-me uma vida interina./E ela pôs-se a fluir num curso diferente, /passando pela minha outra vida/ e eu já não reconhecia mais as minhas margens.”

 

            Assim é que o seu biógrafo brasileiro rastreia pormenorizadamente a trajetória da segunda vida de Anna Akhmátova, desde a eclosão da Revolução de 1917, até a implantação dos “gulags” siberianos, à resistência durante o cerco nazista de Leningrado, ao horror da repressão durante a Guerra Fria até que, a partir de 1956, Khrushtchóv iniciasse a abertura que só se consumaria quarenta anos mais tarde.

            Essa é, por consequência, também a Anna de todos os dramas e tragédias. Seu marido, o poeta Gumilióv, foi preso e fuzilado; o filho, Liev, mandado para a Sibéria, enquanto ela era acusada pelos stalinistas de  fazer ” uma poesia  prejudicial e alheia aos interesses do povo” . Expulsa da União de Escritores, ora acometida de tifo, ora  vítima de tuberculose, sendo a “tricentésima da fila” para visitar o filho na cadeia, vendo seus amigos escritores se suicidarem e desaparecerem, mesmo assim, durante o cerco hitlerista a Leningrado, ela lia diariamente, na rádio, poemas que ajudavam a manter o ânimo dos resistentes.  Poderia ter, como outros, abandonado seu país, mas preferiu resistir: “Não , não foi sob um céu estrangeiro,/ nem ao abrigo de asas estrangeiras – eu estava bem no meio de meu povo,/ lá onde o meu povo infelizmente estava”.

            Inacreditáveis e aviltantes  tempos aqueles  em que, “até 1938,  10% da população masculina da URSS foi executada”.  Tempos em que, por causa da morte de uma personalidade como Serguêi Kírov, 40 mil foram deportados, 400 mil se  suicidaram e, só no ano de  1934,  houve 6.501 fuzilamentos: “Esta terra russa gosta,/ gosta do gosto de sangue”.

            Por causa  dessas tragédias, introduz-se na literatura russa um personagem que Akhmátova chama de “o viajante aleijado”, uma metáfora de todos os destroçados pelo  regime comunista e pelas guerras, discursando  melancolicamente sobre os sofrimentos do país, como se fosse um  irremissível ” velho do Restelo” da tradição lusa.

            A poesia de Anna está tão pontuada pela morte quanto pelo amor. Em sua vida tempestuosa, ela casou-se várias vezes e teve trocas afetivas e amorosas com Gumilióv, Modigliani, Nikolái Niedobrovô, Borís Anrep, Shilêiko, Luriê, Púnin, Isaiah Berlin.

            A terceira vida de Anna Akhmátova começa a surgir com o degelo, após a morte de Stalin. Suas obras interditadas começariam a ser republicadas e ela pôde viver numa pequena “dátcha”. Começando a ser reconhecida no exterior, acabou recebendo o  Prêmio Etna Taormina (1960), o título de  doutora “Honoris Causa” pela Universidade de Oxford (1965) e a Unesco decretou 1989 como “o  Ano  Akhmátova”.  Nessa época, os astrônomos russos deram seu nome a uma estrela recém descoberta.

           

ESTRATÉGIAS DA TRADUÇÃO

 

            Lauro Machado Coelho optou por fazer uma biografia em que os fatos e os poemas se explicam e se complementam . Pode-se dizer que é, ao mesmo tempo, uma biografia antológica  e uma antologia biográfica. É uma opção que afasta o vezo formalista que tem afetado tantas vezes a tradução de autores russos para o português. Até porque Akhmátova pertencia ao grupo de poetas de São Petersburgo chamado de  acmeistas, que achavam imprescindível dialogar com a tradição e  não exercitavam o furor vanguardista do grupo de Moscou, a que pertenciam poetas como Maiakóvski e Khlébnikov, siderados pela velocidade das máquinas conforme a ideologia futurista.

 Em Anna Akhmátova, poesia e vida são uma só unidade. Como disse Mandelshtám, antes de ser eliminado pelo regime comunista: “Não sei como é em outros lugares, mas aqui, neste país, a poesia é algo que cura e devolve a vida…Aqui pode-se matar as pessoas por causa da poesia”. 

            Contextualizando os poemas, o biógrafo também recompõe a trágica história dos intelectuais russos no século 20, e nos obriga a repensar a obnubilação ideológica, que fez com que  muitos intelectuais no Ocidente, em sua ingenuidade e alucinação,  fingissem desconhecer o holocausto atrás da “Cortina de Ferro”, mesmo quando, a partir dos anos 30, tornou-se pública e  evidente a política de terror.

            Traduzir é sempre um problema que se procura enfrentar de formas diversas. Há quem queira pretensiosamente recriar e melhorar o original, e  há quem queira ser fiel e transparente ao primeiro texto. No presente caso, o tradutor e biógrafo desobrigou-se de preservar  rimas e métricas que lembrassem o original russo, mas disponibiliza para o leitor o texto original em sua versão fonética.  Cuidou de guarnecer o livro com “anexos” que trazem dados biográficos sobre alguns homens importantes na vida de Anna.

            Em seu acurado trabalho,  Lauro Machado Coelho aceitou o desafio  de fazer um comentário detalhado do longo e  difícil Poema sem Herói de Akhmátova, texto hermético, definido pela autora como mascarada arlequinal  e fantástica,  ocorrida na São Petersburgo de 1913.

            Hoje, quando alguns se espostejam na chamada pós-modernidade, rejubilando-se com a ideologia dominante, é  relevante lembrar  uma poeta da resistência. Nesse sentido, o romancista Valientin Fadêiev escreveria a um comissário do povo, rogando que amenizassem os sofrimentos  da poeta, pois “apesar da incompatibilidade de seu talento com o nosso  tempo, ela permanece a maior poeta da era pré-revolucionária”.

            É isso: para o artista autêntico sempre há uma incompatibilidade entre seu talento e seu tempo.

(*) Poeta, professor, ensaista autor de “Barroco, do quadrado  à elipse” e “Drummond, o gauche no tempo”

 

RETIRANTE poema de zuleika dos reis

Impossível descer mais

morrer mais

debaixo deste Sol

debaixo deste Azul.

 

Retirante secando

sob os sepultados sonhos.

Sob os olhos sucessão

de ossos sobre os campos

tão secos, sob o Sol só olho.

 

Impossível morrer mais

sob estas gretas

esconderijo

de bichos esturricados,

companheiros de tumba.

 

Retirante. Só mais uma

entre os infinitos

fugitivos cada qual

de um Sol diverso

os pés nus sobre os campos gretados

sob os campos minados de si mesmos.

 

Apenas mais uma quase sem lembranças

de pretéritos céus de águas

do que águas possam ser.

A TORTURA é a VERDADEIRA herança MALDITA – por elio gaspari

O ministro da Justiça, Tarso Genro, teve a sua hora como guardião dos direitos humanos e amarelou. Em agosto do ano passado ele deportou os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação do seu país durante os jogos do Pan.

Rigondeaux, bicampeão olímpico, foi excluído da equipe enviada Pequim. Erislandy fugiu de novo, está na Alemanha e de lá informou:

“Não tivemos nenhum apoio e, sem ninguém para contactar, fomos obrigados a pedir para voltar para Cuba”.

Há algo de oportunismo e de caça ao evento na auto-investidura do comissário Genro como perseguidor de torturadores. Sua estatura como ocupante da cadeira onde sentou-se Diogo Feijó (1831-1832) cabe numa frase dita por ele: “O presidente pode dar um puxão de orelha em qualquer ministro. Isso é da sua competência, mas eu não levei puxão de orelha.” Mesmo assim, Tarso Genro esteve certo em relação aos torturadores.

A tortura foi uma política de Estado durante a ditadura, particularmente entre 1969 e 1977. Como disse o general Vicente de Paulo Dale Coutinho às vesperas de assumir o Ministério do Exército, em 1974: “Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, quando começamos a matar.” Como reconheceu um estudo do Centro de Informações do Exército, praticaram-se “ações que qualquer justiça do mundo qualificaria de crime”. Os torturadores cumpriam determinações de seus superiores. Prova disso foi a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Fleury, ícone do Esquadrão da Morte e do porão paulista.

A história segundo a qual a tortura e a prática sistemática de assassinatos foi produto de excessos, indisciplina ou deformação moral de subalternos é uma patranha destinada a polir a biografia dos comandantes militares e dos presidentes da República da ocasião.

Se a família de uma vítima da máquina repressiva dos generais, almirantes e brigadeiros, vai à Justiça em busca da responsabilização dos oficiais que comandavam o porão, esse é seu direito. Caberá ao Judiciário decidir se a anistia ampara a outra parte. Pena que fiquem de fora os finados comandantes que mandaram capitães e majores torturar e matar brasileiros.

Há um aspecto relevante nesse debate. É a postura dos atuais comandantes diante da herança maldita da ditadura. Em vez de exorcizá-la, reconhecendo um erro cometido há mais de trinta anos, cavam duas trincheiras. Uma é a do debate inoportuno. Outra é a da negativa da responsabilidade dos hierarcas. Ambas são falsas e o debate é necessário. O desconforto e irritação dos comandantes militares com a tortura é o único tema dos anos 60 e 70 que não desaparece da agenda política nacional. O país já se livrou da inflação e da Telerj, mas a sombra soberba dos DOI-Codi continua aí.

Algo como se o doutor Henrique Meirelles fosse obrigado, hoje, a defender a inflação dos seus antecessores remotos no Banco Central.

Quem vive preso ao passado não são os órfãos do DOI, são os protetores de sua memória.

Os comandantes militares carregam na mochila crimes alheios. (A tortura, assim como o seqüestro, pode ter sido coberta pela anistia, mas crime foi.) Não são as vítimas nem seus parentes que devem calar. São os comandantes que devem se acostumar ao convívio com a História.