Arquivos Diários: 14 agosto, 2008

HIROSHIMA poema de manoel de andrade

              

Hiroshima, Hiroshima
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.

Farol de luz no estuário
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.

Verão de quarenta e cinco
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.

Surge o Sol, se abre o dia
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.

Teus colibris revoavam
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.

O arroz na água e na espiga
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.

Vidas…teu rosto eram vidas
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.

Folguedos, danças, cantigas
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.

As horas cruzavam o dia
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.

De repente nos teus ares
a Águia do Norte, o Falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.

O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.

No céu… um avião se afasta
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e  a  cidade  destruída. 

Quem eras tu, Hiroshima
naquele dia distante…?
Eras sonhos e  esperanças
incendiados num instante…

Quantos projetos de vida
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.

Eras  filhote no ninho
eras fruto no pomar                                        
canteiro de brancas rosas                                
e toda a vida a cantar.

Eras mãe, eras criança
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente

Por que Hiroshima, por quê…?             
o punhal de fogo, a explosão…?           
Por que cem  mil corações
ardendo sem compaixão…?

Tua inocência  cremada
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.

Teu sangue vive na história
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas,  na memória
na dor dos sobreviventes.

Quem previu tua agonia ?
Quem explodiu tua paz ?
Quem tatuou nos teus  lábios
as palavras: nunca mais!?

Comandantes, comandados…
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?

Por tanta dor, rogo a Deus
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.

Hiroshima, flor da vida,
semente, ressurreição.
Fênix, face  renascida.
PAZ, santuário, canção.
                                                                       

Curitiba, agosto de 2005

Este poema consta do livro “CANTARES” publicado por  Escrituras.

      com todos os créditos. ilustração do site.

ESCREVER & EDITAR: O TRIUMPHO DO GUERREIRO – por jairo pereira

O q. nos leva a editar livro de poesia hoje? Amor q. temos ao ofício?! Ato de materialização/exteriorização do ego?! Necessidade de aplauso e amostragem de talento!? Mero exercício de profissionalismo, de quem escreve?! Creio q. tudo isso ao mesmo tempo. Além de reagir o poeta, a um estado de coisas q. o oprime. A poesia não tem o merecido valor. Os editores (vendedores de livros e na acepção plena dessa palavra “livro” cabe todo tipo de lixo subliterário e literesseiro) tão nem aí, com a melhor poesia brasileira contemporânea, editada por conta e risco dos próprios poetas. Muitos vendem o carro, a velha bicicleta & outras tralhas, pra ver seu livro publicado. Comigo, isso cansou de acontecer. Quem sabe, se nada tivesse editado, não amargasse a situação q. vivo hoje?! Bem q. aquele dinheirinho investido ali, no meu, digamos assim, projeto ético-estético-existencial, me quebraria agora aquele galho. Foram sete livros editados de edição do autor, com alguma parceria parcial, num q. outro. Conheci muitos gráficos beberrões e altaneiros. Meu novo livro de poemas Anemoria, pacote de biscoito protonathural, 180 pgs. de pura vertigem, esforço e acidente dos sentidos, jaz na cabeceira da cama, como ser natimorto em sua palidez de ofício 4. Contemplo-o no todo dia, e fico imaginando qual a alma ediográphica a bancá-lo um dia!? Não tenho mais carro, nem bicicleta, nem outras tralhas. Os horizontes são de névoa densa, e nada vejo. Um mecenas pra poesia. Um louco, anárquico em ato, transgressor no mercado ordinathural de livros, é o q. todos esperamos, baixe por aí um dia, e ilumine as trevas. Escrever & editar, publicar: o triumpho do guerreiro. Assim é como vejo a sanha desses poetas insubservientes ao sistemão castrador. Um brinde à imaginação companheiro. Um brinde ao prazer. Logótica, concepção: fazer e mostrar. Fazer e empurrar goela abaixo, ante toda torpeza dos tiranos. A crítica destruidora. As “igrejas poéticas” com seus bispos consagrados, aliados a mídia lacaia, operando a exclusão do talento. Contra tudo isso e mais um pouco os jovens poetas e a poesia lutam, insurgem-se, com as catanas afiadas a dente.  Nem aí estou, com a corja q. sacrifica o talento alheio. Cuidem-se os meninos com os falsos mestres. Em poesia o superlux, está em ti mesmo poeta, teu imaginário, projeção de ser, ideovisão de mundo, etc e tal. Abaixo os diluidores. Afaste de mim Senhor, a forma q. atravessa o tempo e cala no conteúdo do viver/hoje. Maestro de seus ritmos dissolutos, o poeta, impõe sua própria presença (ideophilotética). Entenda como quiser, q. essa tirei do fundo mais fundo da alma. Alma de poeta é thurva. Disso é bom q. todos saibam. Poeta suja e confunde, embaralha as coisas, por mero deleite. O signo trai significante e significado, na busca do outro eu, q. está em outra linguagem/linguagens, e um dizer no tempo, revoluciona todos os modos de ver e apreender as coisas. A poesia deixa de ser ingênua. Abaixo os líricos. O poeta não é mais o otário dos signos. Otário, ante os poderosos. Otário entre editores e livreiros desclassificados. O poeta erigir seu próprio mundo: compra, venda, transações afins, edições, publicações, prêmios, contidos no gesto ecumênico, de reação aos falhos atos dos pulhas. Um mundo poético há de ser erigido, com seu pequeno livro, meu amigo. Seu pequeno volume de poemas, sustenta uma coluna importante, nesse coliseum q. construímos da noite pro dia. Depois, da saída do boteco aquela noite, foi q. deliberamos revolutear o tudo. Linda aquela poeta, na manhã singela, dizendo poemas aos motoristas no sinaleiro. Um caos, o q. o poeta provocou na missa de sétimo dia do terceiro Drummond. Febre, vertigem do dizer e ser dito. Meu cavalo no vendaval. Meu cavalo (eu) meu corpo, oferecido ao tempo e ao vento. É isso menino, de um poema frágil alma lêtrica, enlevar a vida, como pode-se, e deve-se. Q. a força de minhas palavras, arem essas terras secas. Q. a força de tuas palavras, configurem a nova vida. Q. a força de nossa action poétic, invada todos os estádios do conhecimento. Poeta é de saber resistir, resiste a todas as realidades. AMOR é de se ter amor. Amor deixa tudo lindo. Pra ficar bonito, deve se ganhar amor. Amor q. anima e ilumina em amor as coisas e os seres. É de se ter amor, meu filho, minha menina de operações nathurais do viver e amar (POESIA). Um pai merece mais q. dois beijos por dia. Um pai de amor imensurável, convolar vontades de só amar. Amar na palavra q. encanta e ilumina. A poesia veste-se com roupas simples (palavras perdidas no dicionário). Anima e revoluciona o dizer. Tua consciência torpe, refratária à poesia, silencia ante o poder da palavra em estado de graça. No ritmo dessa nova música, um novo poeta se enleva como gram nominador das coisas. Pra q. poesia, se o povo não lê? Pra q. pão se o povo não come? Pra q. revolução dos ditos, se o sol continua o mesmo? Pra q. crescer, vituperar, no mesmo santo lugar? Perguntam os deuses aos seus filhos, das palavras e dos pensamentos. Enganam as imagens, pra um mesmo fim, de exercitar as linguagens. Espiritho santo da poesia, baixe sobre nós, no primeiro evangelho dos tempos novos q. tudo se renova na face dessa terra dura. Meus filhos pastoreiam signos difusos, só por prazer, e outras linguagens nascem de seu viver, estar no mundo. Tá vendo, não consigo manter o pensamento numa só linha. Os empeços, emoções desenfreadas, golpeiam meus ditos no transespaçotempo. Outro texto, a compor um livro, onde botei tudo pra fora, com a ira santa de poeta convulso. Foda Sr. dos Precipícios, com suas ofertas de consumo, dinheiro e poder. Minhas palavras sempre as mesmas, renovadas nas energias cósmicas. Minhas palavras pastoreadas, como vespas límias, dos pântanos (escrever, viver, editar) aos céus da lira entusiasmada. Minhas palavras, minha serventia e meu deus. Carne de minha carne, nervo de meus nervos, vida de minha vida. Onde andam as inaugurações?! Espaços no espaço, das novas gerações?! Onde os princípios alentados do futuro?! Poeta q. é poeta sabe disso: como um mar as linguagens existirem em fluxos/refluxos. Pela primeira vez, enganei-me com meus livros. Enganei, menti pra mim mesmo, q. o q. fiz, sonhei, realizei era poesia. Pela primeira e última vez, não senti os golpes da sorte, os chega-pra-lá dos insanos. Toda loucura-boa, é de ter futuro, construir no tempo. Meu são desiquilíbrio-construtivo. Animar o inanimado. Porfiar, no escuro de noites azeviches. Prata minha espada poética. Não tem futuro a não-convicção dos ditos. Não tem futuro, não expande, não progride… uma alma fleme no mundo. Escrever & editar, o triumpho do guerreiro, sói armado, com suas palavras de luz e sombra. Ninguém nos irá conter, meninos. Este SOL intenso. Este mar aberto em azul. Horizontes de luz extensa. Veredas de poemas, palavras, inscritos na memória, levantes de signos, semeaduras, hígidas inaugurações com os signos. Adiante, poeta, uma luz particular te ofusca. Uma luz um bólido transluzente, incendeia tua alma. Das estrelas longínquas o lux-singular desafia teu talento. Em muitas estrelas passei com minhas variações do dizer. Abduzi sentenças, naquelas espheras cósmicas. Quando peguei a esphera positrônica, q. emitia linguagens raras, em minhas mãos, percebi no Asteróide Azqhiph’tz 8800, a confluência universal das matrizes sígnicas. É dali amigo, q. tudo provém. Tudo emana, em luzes cálidas. Tudo, lança conceitos, atos, projeções, reflexos, de seres e coisas, espectros diluidores de imagens matriciais. E, foi só de colocar minhas mãos ali, tocar as espheras de ditos, detratoras almas contritas, q. assimilei linguagens novas, invasoras de meus ditos. Vou te dar no favo protonathural, menino uma pequena mostra do q. vivo. Vivo bem, com meus conflitos. Penso, logo insisto, persigo a mônada passageira no meu dia de domingo. O pai, meu pai, dispensou-me da marcenaria um dia, porque a serra circular quase me atora as mãos. Naquele exato momento, me nascia o primeiro poema estroncho q. quase me decepa. Lembro até hoje, a circular rangendo seu grito-trabalho, nas tábuas planas. Longos anos de ofício, de mascar pau, destinados a meu pai, q. assim dizia: mascar pau… mascar pau. Sete filhos, pro sustento: seus livros escritos pro futuro. Cada qual com seu ofício. Meu destino, minha fé, meu espaço no tempo do superespaço. O pai me tocou pra fora da oficina, e depois daquele dia, nos irreconhecemos nas pretensões megacósmicas, embora, nos reconhecêssemos em tudo mais q. era aventura de viver e amar a nathureza. Pro pai, o seu louquinho-bom, não iria dar certo nunca. Mas uma grande alegria (pensou) é vê-lo em debate, no viver sem precedentes, vestido de poema para o futuro. O futuro esse pássaro de asas de prata ou carbono, q. dá rasantes vôos sobre as pitangueiras em flor.

Adios minhas almas noctâmbulas, olhares de asco & indiferença, adeus centauros gordos dos gabinetes dos maus espírithos, adeus céu e adeus amar de minha solitude: abandono-me no dentro de um poema em sendo, áspero como uma pinha.

 

 

jAirO pEreIrA

Autor de O antilugar da poesia,

O abduzido e outros.

 

 

 

                                          ilustração do site. 

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (IV) – por alberto moby

Aparentemente, é por mera coincidência que, ao mesmo tempo em que os compositores da MPB são empurrados para o hermetismo de canções de difícil compreensão até para o público intelectualizado e admirador da música “universitária”, comece a surgir no país uma preocupação com o resgate da memória musical brasileira. Essa coincidência, no entanto, não seria senão resultado de uma tática cuja estratégia visa à sobrevivência profissional de cantores, compositores (no Brasil, é comum que ambos se encontrem em uma só pessoa, embora não tenhamos, como na língua espanhola, uma palavra – cantautor – para designá-la) e da própria MPB. No entanto, entre o quebra-cabeças e o jogo da memória, “ludicamente”, a indústria fonográfica optaria por ambos. Já nos shows, nem sempre era de trânsito fácil o primeiro. Paralelamente à onda de regravações dos antigos, velhos compositores ainda vivos àquela época e já praticamente esquecidos pelo mercado musical e fonográfico começam a ressurgir: Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e outros são alçados de seu quase total ostracismo para “reiluminar” o cenário musical brasileiro. O ressurgimento dessas “vozes que nos chegam do passado”, para usarmos uma expressão, ainda que impropriamente, de Phillipe Joutard[1] , parece estar mais ligado à invenção de uma tradição, nos termos em que Eric Hobsbawm a utiliza[2] do que a uma coincidência. Hobsbawm lembra que “inventam-se novas tradições quando ocorrem transformações suficientemente amplas e rápidas tanto do lado da demanda quanto da oferta”[3] . Ele afirma ainda que as tradições inventadas podem ser de três tipos: as que estabelecem ou simbolizam a coesão social ou as condições de admissão de um grupo ou de comunidades reais ou artificiais; as que estabelecem ou legitimam instituições, status ou relações de autoridade; ou as que têm como objetivo a socialização, a inculcação de idéias, sistemas de valores e padrões de comportamento[4].

Dado o quadro que tentei traçar acima, parece que a invenção da tradição no sentido da reincorporação de compositores mais antigos no cenário musical dos anos 70, seja resgatando os ainda vivos, seja através da regravação de antigos sucessos na voz de cantores novos, tinha como objetivo, além de produzir condições de coesão social – principalmente entre o público ouvinte das grandes cidades, de classe média e nível universitário – na luta contra a ditadura militar, tam-bém ocupar uma lacuna criada pela forte censura às letras de canções que fez com que caísse tanto em termos quantitativos quanto em qualidade (apesar dos defensores descabelados da qualidade intrínseca do texto musical sob censura) o padrão da MPB em relação à década anterior.
O cantor, talvez mais nesse momento do que em qualquer outro, é, sem dúvida, um agente da memória. Movidos talvez não apenas péla necessidade de furar o bloqueio da Censura, mas também pelo sentimento de que era necessário resgatar do passado uma tradição de beleza e criatividade da MPB, ou ainda pelo desejo de implodir, através de um discurso produzido pelos que já não faziam parte do presente – e, portanto, praticamente imunes à tesoura da Censura -, o bloqueio do discurso interdito, os cantores dos anos 70 viam no repertório de compositores de outras décadas uma opção bastante eficaz. Não é por outra razão que o compositor, mas também (e principalmente, nesse momento) cantor Paulinho da Viola declara à revista Veja, a respeito de seu disco Nervos de aço, de fins de 1973: “O disco ficou meio nostálgico porque a gente acaba se voltando para uma época onde as coisas eram melhores, mais abertas”[5].

Ironicamente, Paulinho da Viola consolidaria seu repertório de cantor gravando, ao lado de composições suas e de parceiros, canções de compositores como Ismael Silva e Wilson Batista, que também viveram período de censura rigorosíssima, mesmo que de caráter bastante diverso.

A onda de nostalgia era reconhecida até pela imprensa da época. Embora fosse “presença inevitável nos discos de cantores de prestígio no Brasil”[6], a revista Veja chamava a atenção para o fato e que “impacto brusco de um vagalhão e a extensão de uma epidemia, a nostalgia, que já foi até capa de revista, invadiu também o mercado musical”[7], apontando para estratégias semelhantes talvez em outras manifestações culturais do país. E continua: “Regravam-se canções que o mais ferrenho colecionador tinha esquecido”[8]. Só em 1973 foram lançados, entre outros, os discos Elis, de Elis Regina, Nervos de aço, de Paulinho da Viola, Caminhada, de Marília Medalha, Canto por um novo dia, de Beth Carvalho, Alaíde Costa & Oscar Castro Neves, todos contendo duas canções de compositores antigos cada um.

Ao mesmo tempo, shows como o da ex-“jovem-guarda” Wanderléa (Maravilhosa, no Teatro Tereza Raquel, em fevereiro) traziam em sua maioria sucessos dos anos 40 e 50[9], como também foi o caso do show Drama, de Maria Bethânia, em outubro.

Ao mesmo tempo, cantores/compositores praticamente esquecidos voltavam à cena musical. É o caso, por exemplo, do cantor e compositor Synval Silva que, aos 61 anos de idade, gravava o seu primeiro LP, de Lupiscínio Rodrigues, que aos 55 anos gravava o LP Dor de cotovelo, depois de 21 anos sem gravar, e de Moreira da Silva (dois LPs, por gravadoras diferentes, no mesmo mês – novembro de 1973), com 71 anos de idade. Além disso, cantores/compositores não tão antigos no cenário musical brasileiro, mas com obras relativamente consolidadas, gravaram também discos retrospectivos, como Zé Kétti (um LP e um compacto simples) e Jorge Ben (LP com pout pourris contendo 21 de suas canções lançadas nos anos 60).

No ano seguinte, o quadro não se modificaria. O LP Aprender a nadar, de Jards Macalé, lançado em maio, continha nada menos que seis composições já consagradas de compositores antigos. Aliás, o próprio título do LP, se estou certo, era já sintomático, numa época em que a censura “afogava” a criatividade desse e de vários outros compositores. O LP Temporada de verão, com Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, continha também três canções antigas, cada um dos cantores interpretando uma delas. Elis Regina, que no disco anterior já comparecia com canções de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, da velha-guarda da Escola de Samba Mangueira, e de Pedro Caetano (É com esse que eu vou, lançada no ano de 1948 pelos Quatro Ases e Um Curinga)[10], em 1974 grava um LP retrospectivo da obra de Tom Jobim. Aliás, outra cantora, também em 1974, gravava LP retrospectivo de Tom Jobim: Eliseth Cardoso. São também daquele ano discos de Cartola e de Adoniram Barbosa, representantes do que o jornal Opinião chamava de “bloco de discos-documentário, um inventário de uma cultura que parece estratificada” em meio a uma “coleção que documenta o folclore do centro-sul, discos de cantores, repentistas e outros ativos exemplos de cultura popular não intelectualizada”, o que leva o articulista a perguntar, ironicamente: “Teria a música popular brasileira parado de pensar?”[11]
Fosse qual fosse a resposta – e o Opinião sabia certamente qual era –, a verdade é que crescia o número de cantores (independentemente de serem também compositores), como é o caso de Paulinho da Viola e, particularmente, de Chico Buarque, com o LP Sinal fechado, apenas com canções de outros compositores, quase todos antigos (à exceção de uma, Chame o ladrão, que Chico atribuía à dupla fictícia Julinho de Adelaide e Leonel Paiva), que incorporavam a seus repertórios de discos e apresentações em público os nomes consagrados da música popular brasileira. Esse movimento, que continuou forte até meados dos anos 80 e que ainda sobrevive no mercado musical brasileiro, além de haver inventado a tradição de se incorporar aos discos e shows compositores antigos do chamado “cancioneiro popular”, foi ainda o responsável por outra invenção mais sutil: a de que a MPB – na verdade um segmento da música popular brasileira ligado à classe média, intelectualizada, universitária, como tentei demonstrar – era a herdeira legítima e exclusiva dos compositores populares surgidos nos cerca de 40 anos compreendidos entre as décadas de 1920 e 1960.

É importante lembrar, com Pierre Nora: “Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções”[12].

Ao cruzarmos a observação de Nora com a de Hobsbawm sobre as tradições inventadas, teremos claramente o surgimento de um movimento, ainda que não planejado – já que as tradições inventadas “são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória”[13] –, cujo principal objetivo é o combate ou, no mínimo, a resistência dos cantores à ditadura militar.

Obviamente, a indústria cultural (fonográfica, de espetáculos, rádio, TV, etc.) soube tirar proveito da nova situação, perpetuando-a praticamente até os dias de hoje.

De qualquer forma, a estratégia parece ter tido os resultados esperados. Cantores como Gal Costa, Maria Bethânia e Elis Regina, por exemplo, ou Ney Matogrosso, Simone, a partir dos anos imediatamente posteriores a 1973-74, tiveram suas carreiras consolidadas devido, em grande parte, a essa estratégia. Ao inventarem a tradição de uma MPB herdeira de uma música popular rica e criativa – uma verdade, mas pela metade – os intérpretes dos anos 70 parecem ter se esquecido (porque a memória é seletiva…), não se sabe até que ponto propositalmente, que em outros períodos, com ênfase para o Estado Novo, a música popular, também sob censura, teve que se adequar às regras do jogo – e quase nunca pela via da resistência. E aí a invenção da tradição, dialeticamente, transforma em elemento de sua estratégia de combate o que antes pôde estar vinculado à capitulação ante a própria Censura.

A invenção dessa tradição foi algo tão importante que, além de demarcar, no mercado, o segmento MPB, na luta contra o regime, um grupo significativo de cantores e compositores identificados com a classe média urbana intelectualizada, conseguiu consolidar-se como representação do real que até hoje é aceita e reproduzida pelos grupos sociais urbanos brasileiros. Em 1991, quando de sua estréia tardia como cantor, aos 44 anos, o compositor Péricles Cavalcanti, autor de vários sucessos gravados por Gal Costa, Caetano Veloso, Miúcha, Fafá de Belém e outros, afirmava, com convicção, no samba Dos prazeres das canções: “Eu sou um mero sucessor/a minha estirpe sempre esteve/ao seu dispor”, citando na canção “Herivelto [Martins], [Dorival] Caymmi, Sinhô, [Assis] Valente, [Wilson] Batista, Noel [Rosa] e Heitor [dos Prazeres]”. Segundo Tárik de Souza, autor de uma resenha do disco para o Jornal do Brasil[14], “a linha evolutiva” retomava “o fio da meada”…

É claro que todas estas reflexões foram construídas apenas sobre indícios. “Quando as causas não são reproduzíveis, só resta inferi-las a partir dos efeitos”[15]. É praticamente impossível sabermos com certeza até aonde ia a estratégia deliberada, até aonde se configurava um processo meramente intuitivo. De qualquer forma, até mesmo a intuição é social e histórica. Não existe consciência solta no espaço e no tempo. “A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais”[16]. Assim, guio-me apenas por algumas poucas entrevistas em que alguns cantores foram instados a explicar suas escolhas de repertório baseadas em compositores tradicionais do cancioneiro popular brasileiro, ou nos “sinais” fornecidos pelo próprio material gravado ou apresentado nos shows realizados naquele período. Nesse sentido, parece-me que o depoimento mais significativo a esse respeito foi o de Elis Regina, nas “páginas amarelas” da revista Veja, em 01/05/1974. Na entrevista, Elis é questionada sobre a validade/necessidade de apoiar-se em Tom Jobim para realizar um disco, ao que responde:

Veja bem, para não fazer uma retrospectiva convencional, eu só rinha duas saídas. Apoiar a LP na obra de um compositor como o Tom, pois o Chico, Caetano e Edu Lobo, por exemplo, começaram comigo. Ou tentar fazer um trabalho baseado em gente nova. Lamentavelmente, porém, por uma série de razões, algumas delas muito conhecidas, nos últimos anos um imenso vazio vem sufocando a música brasileira. A partir dessa triste constatação, estou procurando coisas antigas que possam ser apresentadas, com arranjos de agora, como se fossem atuais ou mesmo inéditas. Redescobrindo Ary Barroso, por exemplo. Não se trata de nostalgia. Há músicas que duram séculos e não são superadas.[17]

Nessa entrevista, três pontos me parecem fundamentais: 1) há razões conhecidas, ainda que não ditas, para um “imenso vazio” na música popular brasileira; 2) Elis fala em redescobrir Ary Barroso, embora a entrevista trate de uma retrospectiva baseada em Tom Jobim, demonstrando uma preocupação mais geral da cantora com um repertório de outros tempos; 3) Elis não admite que sua escolha seja nostálgica, apontando mais (como eu defendo) para uma estratégia de resistência.

No final de 1974, o então ministro da Educação e Cultura, Ney Braga, “ingenuamente” recomendava ao Departamento de Assuntos Culturais, órgão do MEC, iniciar “uma sondagem entre compositores, pesquisadores e órgãos de produção e divulgação a fim de descobrir as causas da aparente decadência da música popular brasileira e, se possível saná-las”, a propósito de que a jornalista Ana Maria Bahiana retruca: “Quanto ao processo criativo propriamente dito, o ministro por certo não ignora que o cerceamento constante e sistemático da expressão artística não pode trazer nenhum proveito à evolução da vida musical brasileira”[18].

A preocupação de Ney Braga com a “decadência” da música popular brasileira não era exclusivamente sua. Tampouco se referia exclusivamente à música popular. E resultaria na primeira tentativa “séria”, durante o regime militar, a partir do governo Geisel, de contrapor ao rigor da Censura a utilização da cultura como um espaço para a construção de um projeto de hegemonia[19]. Roberto Schwarz apontava, ainda em 1969, que, “apesar da ditadura de direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país”[20]. A essa hegemonia cultural, o Estado iria contrapor, em 1973, através do então ministro Jarbas Passarinho, o documento Diretrizes para uma Política Nacional de Cultura, que após a sua divulgação foi “misteriosamente” retirado de circulação, demonstrando, ao que parece, não ser aquele ainda o momento. Só em 1975, como resultado da “sondagem” do novo ministro, aparece o documento Política Nacional de Cultura, preparado sob a coordenação de Afonso Arinos de Melo Franco[21]. Mas aí já estamos falando da “distensão lenta, gradual e segura” de Geisel, primórdios de sinais de esgotamento do modelo militar.

O importante é destacar que: a) a expressão MPB não se refere a toda e qualquer manifestação da música popular brasileira, mas à música urbana, produzida e consumida prioritariamente pela classe média intelectualizada; b) diante do rigor do regime militar, cujo auge ocorreu entre 1973 e 1974, a invenção dessa tradição na música popular brasileira pode ter contribuído para que cantores e compositores, paralelamente à luta pela liberalização do regime, sobrevivessem minimamente sem a necessidade de capitulação frente ao autoritarismo, contribuindo, talvez, com sua resistência, para os tímidos passos que, nos anos posteriores, o Estado daria nesse sentido; c) que, contrariamente ao Estado Novo, no período do regime militar estudado nunca houve, efetivamente, uma política de capitalizar as manifestações culturais para seu projeto de hegemonia, nem através da AERP, no governo Médici, nem através do SCDP da Polícia Federal[22], tendo a censura papel apenas silenciador, ao contrário do DIP, responsável principalmente pela propaganda do regime de Vargas.


[1] JOUTARD, Phillipe. Esas voces que nos llegan del pasado. Trad. Nora Pasternac. México: Fondo de Cultura Económica, 1986.

[2] HOBSBAWM, Eric J. “A invenção das tradições”. In: HOBSBAWM, Eric J. & RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] “Comprimido”. Veja, 03/10/1973, p. 92.

[6] “Afinada frieza”. Veja, 08/08/1973, p. 84.

[7] “Naquele tempo…” Veja, 23/05/1973, p. 74.

[8] Ibidem.

[9] Cf. “Para entendidos”. Veja, 07/02/1973, p. 74.

[10] CAETANO, Pedro. Meio século de música popular brasileira: o que fiz, o que vi. Rio de Janeiro: Vida Doméstica, 1984, p. 64.

[11] “Pensamento em crise”. Opinião, n. 92, p. 18, 12/08/1974.

[12] NORA, Pierre Nora. “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. Trad. Yara Aun Khoury. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993, p. 7.

[13] HOBSBAWM, “A invenção das tradições”, cit., p. 10.

[14] “Um tropicalista sai dos sombras com 14 ‘canções’”. Jornal do Brasil – Caderno B, 18/08/1991, p. 2.

[15] GINSBURG, Carlo. “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”. In: GINSBURG, Mitos, emblemas, sinais, cit., p. 169.

[16] BAKHTIN, Mikhail Bakhtin. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988, p. 35.

[17] “Quero apenas cantar”. Veja, 01/05/1974, p. 6. Grifos meus.

[18] BAHIANA, Ana Maria. “O ministro e a música”. Opinião, n. 111, p. 20, 20/12/1974.

[19] OLIVEN, Ruben George. “A relação Estado e cultura no Brasil: cortes ou continuidade?” In: MICELI, Sergio (org.). Estado e cultura no Brasil. São Paulo: DIFEL, 1984, p. 51.

[20] COHN, Gabriel. “A concepção oficial da política cultural nos anos 70”. In: MICELI (org.). Estado e cultura no Brasil, cit. p. 88.

[21] Idem, p. 92.

[22] Foram raras as tentativas de cooptação de compositores de que se tem notícia. Mesmo assim, não eram bem recebidas. Em 1971, por exemplo, Chico Buarque desautorizou o governo a utilizar A banda como peça de propaganda oficial, sobre o Dia do Reservista, do Estado-Maior das Forças Armadas, o que lhe valeu, certamente, o acirramento da perseguição da Censura que o compositor iria amargar por toda a década de 1970. Sobre isso, ver “Chico põe nossa música na linha”. Realidade, v. 6, n. 71, p. 78-20, fev. 1972, e “Gente”. Veja, 22/12/71, p. 35.

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