Arquivos Diários: 15 agosto, 2008

COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO? conto de marilda confortin

Me dá um misto frio e um pingado.

 

Encostados no balcão de uma lanchonete da rodoferroviária de Curitiba, Dionísio e Abreu tomam o costumeiro café da manhã.  Trabalham na redondeza  e divertem-se ouvindo trechos de conversas de pessoas desconhecidas que passam pela estação. Quando elas partem, os dois continuam o trecho do diálogo que ouviram, colocando-o no contexto de suas próprias vidas.  

O viajante que pediu o misto frio, dá uma mordida no sanduíche, mastiga, faz uma expressão de quem está experimentando um sabor inesperado e olha intrigado para o lanche.  Toma um gole do pingado, dá uma abocanhada maior, mastiga, mastiga, franze a testa, morde de novo, engole e olha interrogativo para sanduíche esperando uma explicação. Repete isso várias vezes, até restar somente um terço do pão.

 

    Moça, não tem queijo aqui nesse misto!

 

A garçonete pega o resto do sanduíche que sobrou na mão dele, abre-o e constata que não tem queijo. Mostra para as outras moças. Cochicha no ouvido da amiga, dizendo que talvez o sujeito já tenha comido todo o queijo. Uma delas cheira o sanduíche e confirma que não tem cheiro de queijo. A outra sugere dar uma fatia de queijo para o freguês ficar quieto.

 

     Não quero uma fatia de queijo. Eu pedi um misto: pão, presunto e queijo.

A moça, tentando evitar discussões constrangedoras, lhe oferece mais um misto frio de graça.

 

  Não quero outro. Quero esse que pedi. Comé que fica meu prejuízo!

 

Sem saber mais o que fazer, a garçonete chama o gerente e explica a situação. Ele propõe descontar o valor da fatia de queijo. O passageiro com expressão de descontentamento fala: 

 

   Não quero desconto, já perdi a fome. Quero saber comé que fica meu prejuízo!

 

O gerente, sem saber o que responder para o freguês, tenta acalmá-lo e propõe devolver todo o dinheiro que ele pagara pelo sanduíche.

 

   Não quero restituição. Não quero dinheiro!  Você não entende? Você não pode me restituir o que eu nunca tive. Você não pode me dar o que não tem. Você não pode fazer nada.  Nada!  Eu só quero saber COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO! 

 

         Dionísio e Abreu retiraram-se calados. A pergunta do passageiro martelava em suas mentes.  

Como é que fica meu prejuízo? Quem vai nos restituir o apetite depois de enganada a fome?  Como preencher a ausência daquilo que nunca existiu? Como explicar a frustração de algo que nem aconteceu? A quem explicar? Por que explicar? Como cobrar uma dívida de alguém que nem sabe que é devedor? Como consolar quem passou dois terços da vida esperando encontrar a “fatia de queijo”, que nuca existiu? Como ressarcir o tempo, o gosto, a vontade, o prazer? Quem vai nos restituir a vida que tínhamos direito de viver? Quem? Comé que fica meu prejuízo? 

 

COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO? VOCÊ NÃO ENTENDE?

 

VOCÊS NÃO ENTENDEM?

 

rodoviária. ilustração do site.

GÊNESE da MORTE poema do joão batista do lago

Ó criatura iluminada da minha existência

Vens a mim com tua soberania imaculada (e)

Viajemos pelos túneis diversos dos tempos

Que nos revelam o espaço de novas moradas

 

 

Vens, ó doce criatura, em majestosa carruagem

Traze contigo as jovens filhas do Sol

Para podermos atravessar o mágico portal

Que nos levará à eqüidade voluptuosa do fogo eterno

 

 

Vens e traze contigo o fogo do deus Sol

Para queimarmos nosso tempo invernoso

Para que eu não retorne às casas noturnas

Onde só a escuridão e o sono são companheiros

 

 

Vens, ó santa criatura, e atravessemos os umbrais

Ainda que eles nos queiram impingir as dores

Dores do parto que haveremos de fazer (e assim)

Quebremos os grilhões de amores infaustos

 

 

Vens, ó irmã gémea, vida e morte do meu ser

Filha, como eu, do Oráculo do Saber

Templo que tudo principia – e finda! –

Casa do instante, senhor de toda democracia

 

 

Vens, ó espírito do minha alma,

Viver, não é preciso não!… Morrer toda Necessidade!…

Necessidade do Princípio sem início… sem fim

Sem as correntes que sufocam toda Verdade

 

 

Vens, enfim, ó bela e santa Morte!

Gruda-me ao peito e me carregas ao seio

Quero contigo sorver do vinho da Virtude

Quero contigo embriagar-me nas vinhas da Justiça