Arquivos Diários: 17 agosto, 2008

POEMAS BREVES de sara vanegas/Ecuador

como en los viejos tiempos:

tu corazón será enterrado en medio del desierto para que los pájaros recuerden su ruta más allá del mar

 

 

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dunas: oleaje de fuego. aúlla el viento en tus manos resecas

bajo un cielo de vidrio molido y el espanto de la luz

te arrastras entre fantasmas arrugados. oasis imposibles

imploras la noche. allí. de bruces sobre el espejismo del agua

 

vomitando soledad y arena

 

 

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un latigazo de arena acaba por doblegarte. lames ese fuego que te circunda y sabes que has descendido al hueco más oscuro de la noche en pleno día. los buitres se aproximan a tus despojos. en un último intento vomitas el corazón

 

           

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río de ojos que surca este paisaje

una palabra apenas se levanta

seca

como vómito de sol

y ciega el río para siempre

 

                       

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pero es cierto que estamos solos. solos

como el aire roto de una ocarina

o el espejo de un crustáceo en la arena ardiente

estamos solos /luchando con nuestro ángel

 

y así somos

QUASE – poema de mário de sá carneiro

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que,desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

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o poeta.

QUANDO SETEMBRO CHEGAR poema de ludmila guarçoni

Quando setembro chegar…

Quando setembro chegar o inverno terá acabado e o amanhecer virá me acordar,
apressado.
Não mais haverá folhas secas caídas ao chão, pois as cores, antes tímidas,
voltarão em puro êxtase, bailando num festival deliciosamente provocante.

Quando setembro chegar o sol estará pleno, iluminando os mares do meu mundo.
Uma brisa suave teimará em bater de leve em meu rosto, desajeitando meus cabelos
úmidos e pesados. Um aroma antigo se fará presente, trazendo consigo a quietude
do meu ser.

Quando setembro chegar serei embalada por uma música e por alguns instantes
deixarei de respirar. Em órbita, minha razão terá sido arrancada de mim por algo
que não pretendo explicar.
Teremos tempestade. Ventania.
Um doce fechar de olhos.
Um meio sorriso preso nos lábios.

Quando setembro chegar correrei ao encontro dos sentidos. Ao abrir uma janela
descobriria um novo cheiro, ao escancarar uma porta um novo gosto. Na intimidade
de um toque, desvendaria um olhar.
Uma onda de felicidade atingirá todo meu corpo. Alegria em forma de espuma nos
pés, contentamento em forma de grãos de areia nas mãos. Não haverá nuvens no meu
céu.

Quando setembro chegar eu serei todas as estações do ano…

TRANS/BORDAR poema de bárbara lia

 

Sinto desejo de desaparecer na aragem
Um rosto rima em viagem

Anagrama ao invés de alma ferida.


A poesia era hipótese escondida
Vida – mais que vida –
que engendrou versos da mulher alada

Fluía em mim um rio uma enxurrada
Não me cortava guilhotina afiada
que ora me degola

Ando escondendo versos na gola
Querendo engoli-los com coca-cola
Para não dizer de mim e sem pudor
delatar meu mais sublime amor.

CARTA AO CANDIDATO por alceu sperança

Sr. Candidato:

Sei que não é psicanalista, mas tens alguma idéia do motivo desse meu medo? Tenho pavor dos moreninhos: é só ver um e já fecho a boca do bolso onde está a carteira. Não aperto mais bochecha de criança com medo que a mãe me denuncie por assédio a ela e pedofilia ao rebento. E esse medo de ser roubado? Desconfio do balconista, do vizinho, do carrinheiro de papelão. O motoqueiro me dá tremeliques e aquela menina magérrima de olhos duros e crackentos me faz sentir o inferno em vida.

V. S. poderia me dizer por que não me sinto cidadão em minha própria cidade, mesmo sendo um contumaz pagador de impostos? Olho para a praça tri-iluminada e não posso usar, mesmo sendo um logradouro pelo qual paguei caro, pois se a freqüentar posso ser logrado por um desses mendigos que exercem sem parar o direito de ir e vir. Eles não poderiam só ir e não vir mais? Será que um dia vou poder usar meu direito à cidade e também ir e vir, e quando vir, não encontrar a casa arrombada e vazia?   

Por que, Sr. Candidato, fala-se tanto em gestão democrática da cidade e só meia dúzia decidem, inclusive para rasgar o Plano Diretor, em reuniões de quadrilha? Por que a gente lê em dezenas de programas de governo coisas sobre a “função social” da cidade e da propriedade, e a cidade me atropela a cada atravessar de rua e é mais fácil construir um palacete que uma casinha para favelado?

Por que tenho que pagar mais caro pelo lixo que pelo IPTU? Pelo que sei, o IPTU paga médico e professor, e a taxa do lixo paga só os lixeiros e os donos da empresa. Posso parecer maluco, mas me sentiria melhor pagando mais IPTU do que lixo. E por que o Estado consegue me cobrar mil vezes mais rápido que devolver meu dinheiro em serviços públicos decentes? Por que em Cuba o lotação custa centavos e aqui custa 20, 30 vezes mais, a gente gastando num dia o que lá gasta num mês? Por que estudante tem que pagar lotação, se ele vai estudar justamente para tirar este País do miserê?

Por que a função social daquela igrejinha e da escolinha no acampamento dos sem-terra foi vandalizada por terroristas e a coisa ficou por isso mesmo? De onde brota esse ódio à religião cristã e à educação? Por que nos terrenos abandonados ao matagal não são construídas casas, postos de saúde, escolas profissionalizantes, creches? Por que toda a riqueza gerada pelo agronegócio não é capaz de eliminar as favelas? Por que andam dando tiros em jovens, assustando as crianças, assaltando os idosos, atropelando as velhinhas, trombando os carros, ofendendo-se uns aos outros?

Até pensei em me mudar para a Europa. Meu amigo Zé mandou uma carta dizendo que é difícil e dá paranóia ficar escondido. Lá, ganha três vezes mais do que gasta, enquanto aqui também ficava sempre com três tipos de medo. Pensando bem, Sr. Candidato, aqui também fico escondido, trancado no barraco, paranóico e assustado, sem poder ir e vir, pois se for não sei se volto e, se volto, já me tomaram até o pouco que eu tinha.

Boa eleição e vê se dessa vez, pelo menos, toma tento e cumpre alguma coisa do que prometeu.

 

                        sem crédito. ilustração do site.

 

Rumorejando (O epinício do dever cumprido cantando). – josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Balanço e Balancete de Pessoa Física).

Rico sempre tem na coluna “Ativo”: Realizável a Curto e Longo Prazo; pobre, na coluna “Ativo”: quase nada e na coluna “Passivo”: Exigível a Curtíssimo Prazo.

Constatação II

O meu grande amigo e ex-colega do BADEP – Banco de Desenvolvimento do Paraná S.A., Renato Emilio Coimbra, um dia, após ler o jornal, me perguntou o que queria dizer Yom Kipur. –“É o dia do Perdão”, respondi. “Nesse dia, os religiosos vão à sinagoga, a fim de pedir perdão a Deus pelos pecados cometidos durante o ano”. E a pergunta veio rápida: “E chega só um dia?”…

Constatação III

Cada vez que um novo governo assume a liderança do nosso país e novos deputados, senadores e demais são eleitos, tem-se a impressão que o pessoal vem com o intuito de que “agora é a nossa vez”*.

*Fica a critério dos meus prezados leitores a interpretação do que se refere a tal da “nossa vez”…

Constatação IV

E como elucubrava aquele obcecado: “A erectibilidade é tão importante, se não mais, do que a liberdade, igualdade, fraternidade da revolução francesa”.

Constatação V

Não se pode confundir Hong Kong com King Kong, muito embora Hong Kong possua prédio alto, como Nova Iorque, que King Kong podia alcançar, como ficou provado no filme realizado no país que é a maior potência do Planeta.

Constatação VI

E, ainda, não se pode confundir chuncho com funcho, até porque funcho é uma erva aromática que, evidentemente, cheira bem e chuncho sempre envolve determinado tipo de erva que cheira mal, muito mal…

Constatação VII (Perdão, antecipadamente, caros leitores).

Não se pode confundir ocupado com culpado, até porque o cidadão que tenha ocupado o banheiro público, anteriormente às necessidades de quem veio depois, não é culpado pelos apuros eventualmente ocasionados. A recíproca é como é. Tenho espontânea e didaticamente dito.

Constatação VIII (De matemática concernente ao bem-bom).

Dependendo da idade da parceira e da gente mesmo, espelho no teto não resolve o objetivo colimado. Há que se valer dos remédios. Diretamente proporcional, portanto.

Constatação IX

Deu na mídia: “Vítimas de violência sobrecarregam hospitais no país”. Data vênia como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que as cadeias, nem tanto…

Constatação X (De diálogos repetitivos).

-“Doutor. O senhor não acha que essa minha dor de cabeça pode ser algum tumor que eu tenha na cabeça?”

-“Não. Eu acho que o senhor botou minhoca na cabeça”.

Constatação XI (De diálogos políticos mentirosos [político mentiroso é pleonasmo…]).

-“Deputado. Não tenho lhe visto mais na nossa rua”.

-“É que mudei de casa”.

-“Quer dizer que não somos mais vizinhos?”

-“Ah! Isso não. Gente como vocês serão sempre meus vizinhos, porque morarão, eternamente, junto ao meu coração”.

 Constatação XII

Rico tem lesão parcial do complexo ligamentar lateral do tornozelo esquerdo; pobre, pisa na bola.

Constatação XIII

Errar é humano; perdoar é induzir a pessoa que errou novamente ao erro…

Constatação XIV (De diálogos matrimoniais).

Comentou a paulista pro marido, depois de ouvir o noticiário na televisão:

-“A Polícia apreendeu, em 2007, aqui em São Paulo, mais de 11,5 milhões de produtos falsificados, importados sem nota fiscal. A maior parte, veio da China”.

Disse o marido, sem tirar os olhos da página esportiva, quando o Corinthians estava ameaçado de rebaixamento como de fato veio a acontecer:

-“É. Parece que nisso nós também somos bons. E a China, hein? Anda estourando em matéria de exportação”.

Constatação XV

Não se pode confundir opacidade, que o dicionário Houaiss define como “qualidade, estado ou propriedade do que é opaco; ausência de transparência”, com capacidade, até porque muito deputado e senador que no seu mandato passa numa opacidade total tem a capacidade de faturar uma nota alta, usando o que instituiram ser de direito através dos seus altos proventos – ainda que as custas do povo –, acrescido de outros negócios não necessariamente transparentes. A recíproca não é verdadeira. Tem gente que, com sua elevada capacidade  recebe proventos compatíveis a ela. Como exemplo, os ganhadores de prêmios científicos, literários, artísticos, etc.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br