Arquivos Diários: 21 agosto, 2008

LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda

                                                                                                                                 para os palavreiros

 

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

A RELIGIÃO DA ARTE DE WILLIAM BLAKE por flávio calazans

 

 William Blake é um artista que hoje nós chamaríamos de multimídia. Versátil e eclético, tal qual Leonardo Da Vinci, Göethe e outros, Blake não se deixava restringir por preconceitos estéticos.
Blake nasceu em 28 de novembro de 1757 em Londres, expressou suas idéias por desenhos, pinturas, gravuras, poesias, prosa, etc; mesclando a produção simbólica do cérebro esquerdo com as imagens do cérebro direito.
Seu profundo conhecimento esotérico ajudou-o a compreender e expressar sua intuição mística com uma obra híbrida de imagens, palavras e cores que transmitem bem suas visões.
Aos 12 anos escreveu o livro “Esboços Poéticos”.Lia clássicos ocultistas como Paracelso, Jakob Boheme, Swedenborg, Gnósticos, Filosofia, Literatura, etc…
Blake revolucionou as técnicas de gravura com um método à base de cera e ácido em placas de bronze, coloridas à mão com aquarela.
Em 1782 casou-se com Catherine Boucher, filha de um jardineiro e analfabeta. Ele a ensinou a ler, escrever e pintar, e ela passa a ajuda-lo a colorir manualmente as gravuras, tornando-se sua admiradora apaixonada por toda a vida.
Um visitante intelectual encontrou Blake e Catherine nus no quintal da casa, lendo trechos de “Paraíso Perdido” de Milton, um para o outro, representando Adão e Eva.
Suas imagens mágicas refletem sua rica vida interior, inspiração visionária que o leva a auto-editar dois livros: “Cantos da Inocência” (1789) e “Cantos da Experiência” (1794), cada exemplar colorido à mão e diferente dos outros.
Quem teve a oportunidade de manusear estes originais afirma ter experimentado uma experiência estética e mística indescritível!
O texto e o desenho juntos lembram a arte taoísta chinesa, o E-Makimono japonês, as filacteras sacras medievais das catedrais e as nossas histórias em quadrinhos, uma linguagem de mistura de códigos, intermídia, intersemiose, meio poesia concreta, só que tudo, duzentos anos antes!
Os aforismos lembram haikais e arte calígrafa chinesa, e cabalisticamente, Blake explicou:      “Arte é a árvore da vida”.
Seus livros proféticos são de um misticismo altruísta, social, defende a Revolução Francesa e critica a miséria e exploração até de crianças, pela revolução Industrial inglesa, sendo várias vezes processado.
Blake cria um universo próprio, uma complexa mitologia pessoal que antecede Lovecraft e Clive Barker.
Para Blake, o cordeiro não é bom para representar o Cristo, o certo seria o tigre da revolta que expulsa os mercadores do templo.
Deus (Urizen) comete um pecado ao criar o universo, a separação (solve), Los (imaginação criativa) e Enitharmon (o espírito feminino), visão cósmica da ilusão humana (Maya para os yogues) até a “Filosofia dos Cinco Sentidos” (Materialismo).
O livro “Jerusalém” descreve o despertar do gigante Albion (A Humanidade) do sono de Ulro (materialismo) quando Los constrói Golgonooza, a Cidade da Arte.
Em 1809 realiza uma exposição que é sucesso de público e duramente atacada pela crítica acadêmica incomodada por suas inovações criativas, incompreendido, passa por dificuldades financeiras e ilustra catálogos de fábrica de porcelanas.
Somente depois de surgir o movimento simbolista, sua obra começou a ser compreendida em sua força criativa e coerência, chegando a influenciar até os surrealistas.
No livro ‘Casamento do Céu e Inferno”, Blake concilia bem e mal, razão e emoção, e de forma que lembra a tantra yoga, ele prega o amor sexual como via de condução para um estado de transe místico.
Sua sinceridade e amor à humanidade transparecem em toda sua obra, inclusive na figura cruel, castradora e tirânica do seu DEUS URIZEN que convida à rebelião criativa.
Blake faleceu amado por todos que conhecia a 12 de agosto de 1827.

                                                                        “Ver o mundo num grão de areia
                                                                         e o céu numa flor silvestre.
                                                                         Detém o infinito na palma da tua mão
                                                                         E a eternidade numa hora”.
                                                                                          W.Blake


 

 

           foto da nasa. feita pelo telescópio hubble. ilustração do site

 

 

A SOLIDARIEDADE É ! por rubem alves

“Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras… Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?

Será possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer? Há coisas que não podem ser ensinadas, coisas que estão além das palavras. Cientistas, filósofos e professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas por meio das palavras. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. É possível desenvolver uma psicologia da solidariedade, ou uma sociologia da solidariedade, ou uma ética da solidariedade… Mas os saberes científicos e filosóficos sobre a solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como as críticas da música e da pintura não ensinam a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

Palavras que se ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Não pode ser dita. A solidariedade pertence à classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, eles morrem.

Walt Whitman tinha consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma…” E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz: ela aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem ela se não foi o poeta que a tocou?

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras. Mas há coisas que não estão do lado de fora, coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…

Sim, sim! Imagine isto: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes. Elas poderão acordar, como a Bela Adormecida acordou com um beijo. Mas poderão também não brotar. Tudo depende…

As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam: as pragas, tiriricas, picões… Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

A solidariedade é como o ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!” A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam…

Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna humanos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho das suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo.

Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por um mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Pela magia do sentimento de solidariedade meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade.

O menino me olhou com olhos suplicantes.

E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes…

 

            ilustração do site.

EDUCAÇÃO EM VALORES por vicente martins

 

 

          Pergunto à minha filha Mariana, de 11 anos, o que pensa da seguinte situação: um pai, vendo um filho passar fome, resolve roubar alimentos em um supermercado no bairro em que mora. Ele agiu certo ou errado ao cometer esse delito?”. Ela me responde: “Acho que ele agiu certo porque ao ver o filho com fome não suportou  a cena de  miséria em sua casa e  não teve saída senão roubar. Por outro lado, também agiu errado por ter roubado o supermercado; afinal, roubar é uma ação feia”.

         O que Mariana chama de “ação feia” um promotor, membro do Ministério Público, que representa a sociedade e atua como acusador contra os suspeitos de terem cometido alguma ação criminal,  poderá definir o  ato do pai  como “ apropriação indébita de bem alheio” e  um júri, formado por um juiz togado e cidadãos previamente selecionados  para o  julgamento do caso,  poderá julgar a prática do pai   como uma  transgressão imputável da lei penal por dolo ou culpa, ação ou omissão.

O exemplo acima pode nos dar uma idéia da complexidade que é viver em sociedade. A luta por um mundo melhor, por uma civilização mais humana, mais democrática e mais justa tem sido historicamente construída pelo homem. 

Atualmente, os governos, as organizações não-governamentais e os cidadãos do mundo lutam pela eqüidade. O que é a eqüidade? É uma forma de praticar a Justiça, isto é, o respeito à igualdade de direito de cada um, que independe do que está escrito nos códigos jurídicos.  No século XXI,  a sociedade, civil e política, quer que todos pratiquem a eqüidade como expressão de  um sentimento do que se considera justo,  que seja expressa em forma de  virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos dos homens.

 Por isso, na Filosofia, a ética é o  ramo de estudos que cuida particularmente de investigar os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

Podemos observar que as ações humanas,  em face de sentimentos,  estímulos sociais ou de necessidades íntimas,  requerem, para a boa convivência na vida social,    bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade.  Uma pessoa,  mesmo com as mais contundentes e sensíveis justificativas,  em  situação de privação material ou  situação de fome, comete um crime ao roubar para alimentar-se. Roubar é um ato que fere a moral e os bons costumes.

 Os valores não surgem na vida  em sociedade como um trovão no céu. São construídos  na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e organizações locais. Conhecê-los, compreendê-los e praticá-los é uma questão fundamental da sociedade atual, imersa numa rede complexa de situações e fenômenos que exige, a cada dia, atitudes éticas como  a honestidade, a bondade e a virtude, considerados, em todas as civilizações modernas,  como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens.

 Sem a prática de valores, não podemos falar em cidadania. A cidadania é condição de pessoa que, como membro de uma sociedade, independente da cor de sua pele, raça ou classe social, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política e, outrossim, pode viver, como um indivíduo que usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo  Poder Público e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos para viver em sociedade.
  Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido, historicamente, a instituição escolhida pelo Estado e pela família, como o melhor lugar para o ensino-aprendizagem dos valores, de modo a cumprir, em se tratando de educação para a vida em sociedade, a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho.

Sendo assim, caberá às instituições de ensino a missão, por excelência, de ensinar valores no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos, através da seleção de conteúdos e metodologias que favoreçam temas transversais (Justiça, Solidariedade, Ética etc) presentes em todas as matérias do currículo escolar, utilizando-se, para tanto, de projetos interdisciplinares de educação em valores, aplicados em contextos determinados, fora e dentro da escola.