Arquivos Diários: 22 agosto, 2008

HABEAS PINHO poema de ronaldo cunha lima e roberto pessoa de souza / joão pessoa

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serenata foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido, o  famoso poeta e  senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

Senhor Juiz.

Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime”que se arrola

Nesse processo de contravenção

Não é faca, revolver ou pistola,

Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade

Não feriu nem matou um cidadão

Feriu, sim, mas a sensibilidade

De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,

Instrumento de amor e de saudade

O crime a ele nunca se mistura

Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores

Dos menestréis de alma enternecida

Que cantam mágoas que povoam a vida

E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção

É sentimento, é vida, é alegria

É pureza e é néctar que extasia

É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.

Mas seu destino, não, se perpetua.

Ele nasceu para cantar na rua

E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo

Para a alma da noite em solidão,

Não se adapta, jamais, em um arquivo

Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite

Que se sente vazia em suas horas,

Para que volte a sentir o terno acoite

De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz

Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,

Será delito de tão vis horrores,

Perambular na rua um desgraçado

Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia

(a consciência assim nos insinua)

Não sufoque o cantar que vem da rua,

Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

Na certeza do seu acolhimento

Juntada desta aos autos nós pedimos

E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso

E, despachando-a sem autuação,

Verbero o ato vil, rude e perverso,

Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,

Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,

É desumana e vil destruição

De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,

E volte á rua, em vida transviada,

Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,

Noite de luz, plena madrugada,

Venha tocar à porta do Juiz.


SONHO DE AMOR poema de mário oliveira

Vivo num mundo tão belo, cheio de dúvida e incerteza.

Meus versos são tão singelos para definir tua beleza.

Teu escravo eu queria ser, para te servir toda hora.

Muitas flores te oferecer, e morar onde você mora.

 

Foi bom eu te ver calada, para eu ficar te olhando.

Por favor não diga nada para eu continuar sonhando.

Com essa imagem querida, não vou mais viver tristonho.

Se eu não for feliz na vida deixa-me ser feliz no sonho

 

Não quero ouvir a semelhança, da triste palavra não.

Para dormir com a esperança, e acordar com a ilusão.

Você não tem culpa de nada eu tenho culpa de tudo.

Tu me vê e fica calada, e eu te vejo e fico mudo.

 

Queres saber quem sou eu, sou um mendigo sonhador.

Que pede pelo amor de Deus, um pouquinho do teu amor.

Sê queres saber quem te ama, olhe em minha direção.

Com certeza verá uma chama, que sai do meu coração. 

 

Meu pensamento me carrega, pelos tempos em que vivi.

E meu coração só se alegra, quando estou pensando em ti.

Lembrar de ti é reviver, mesmo sentindo saudade.

Lembrando eu consigo ter, momentos de felicidade.

 

Gostaria de ser o ar, para tua respiração.

Para quando tu respirar, embalar teu coração.

Não sinta-se constrangida, tu não tens culpa de nada.

São os erros de minha vida, de amar a pessoa errada.

 

Teu olhar longe daqui, perdido pelo alem.

Estou tão perto de ti, tu olha e não vê ninguém.

Sê busca pelos campos, consolo paro teu coração.

Meu amor é um lírio branco ao alcance de tua mão.

 

Gostaria de estar distante, por esse mundo sem fim.

Para que esse olhar ausente estivesse olhando em mim.

Queria eu parar o tempo, para mandar no espaço.

Ter o teu consentimento, para te envolver em meus braços.

 

Queria ouvir o teu coração, tuas verdades me dizendo.

Mas, temo a desilusão de um sonho que estou vivendo.

Vivo de sonho e saudade, não me acorde, por favor.

Brincando com a felicidade, e sonhando com teu amor.

 

Não sei se você existe de verdade, e nem sei o teu endereço.

Sei apenas que és a felicidade, e teu amor neste mundo não tem preço.

Sê tu não podes amar este pobre sonhador, ao Mestre vou perguntar.

Se lá no céu tem lugar para quem morre de amor.                             

DENÚNCIA: A CNTBio vista por dentro. leitura indispensável. – pela editoria

 “A carta de Lia Giraldo é leitura indispensável para entendermos como os impulsos políticos de governo são transformados em “decisões técnicas” pelos já conhecidíssimos “especialistas”.

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Brasília, 17 de maio de 2007.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia

Excelentíssima Senhora Ministra do Meio Ambiente

Ilustríssimo Senhor Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

Referente: Notificação de desligamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança e declaração de motivos.

Há 31 anos sou servidora pública dedicada à Saúde Coletiva, dos quais 20 anos como médica sanitarista, tendo por esse período trabalhado na região siderúrgica-petroquímica de Cubatão – SP, promovendo a saúde dos trabalhadores e ambiental. Fiz meu mestrado e doutorado investigando biomarcadores para análise de risco. Há dez anos sou pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e docente do programa de Pós-Graduação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, onde sou responsável pelas disciplinas obrigatórias de “Filosofia da Ciência e Bioética” e de “Seminários Avançados de Pesquisa”.

Como técnica, gestora, cientista e professora tive que lidar com diversas situações de conflitos de interesses que muitas vezes emergiam de forma aguda e tenho claro que os conflitos são parte do processo social e por isso mesmo devem estar subordinados a regras de convivência civilizada, em respeito ao estado de direito e à democracia.

Sou membro titular na CTNBio como Especialista em Meio Ambiente indicada pelo Fórum Brasileiro de Organizações Não Governamentais, a partir de uma lista tríplice à Ministra do Meio Ambiente, a quem coube a escolha. Hoje, após quinze meses de minha nomeação, peço o desligamento formal dessa Comissão e apresento a titulo de reflexão algumas opiniões críticas no sentido de colaborar com o aprimoramento da biossegurança no país.

Na minha opinião, a lei 11.105/2005 que criou a CTNBio fez um grande equívoco ao retirar dos órgãos reguladores e fiscalizadores os poderes de analisar e decidir sobre os pedidos de interesse comercial relativos aos transgênicos, especialmente sobre as liberações comerciais.

A CTNBio está constituída por pessoas com título de doutorado, a maioria especialistas em biotecnologia e interessados diretamente no seu desenvolvimento. Há poucos especialistas em biossegurança, capazes de avaliar riscos para a saúde e para o meio ambiente.

Os membros da CTNBio têm mandato temporário e não são vinculados diretamente ao poder público com função específica, não podendo responder a longo prazo por problemas decorrentes da aprovação ou do indeferimento de processos.

A CTNBio não é um órgão de fomento à pesquisa ou de pós-graduação ou conselho editorial de revista acadêmica. O comportamento da maioria de seus membros é de crença em uma ciência da monocausalidade. Entretanto, estamos tratando de questões complexas, com muitas incertezas e com conseqüências sobre as quais não temos controle, especialmente quando se trata de liberações de OGMs no ambiente.

Nem mesmo o Princípio da Incerteza, que concedeu o Prêmio Nobel à Werner Heisenberg (1927), é considerado pela maioria dos denominados cientistas que compõe a CTNBio. Assim, também na prática da maioria, é desconsiderado o Princípio da Precaução, um dos pilares mais importantes do Protocolo de Biossegurança de Cartagena que deve nortear as ações políticas e administrativas dos governos signatários.

O que vemos na prática cotidiana da CTNBio são votos pré-concebidos e uma série de artimanhas obscurantistas no sentido de considerar as questões de biossegurança como dificuldades ao avanço da biotecnologia.

A razão colocada em jogo na CTNBio é a racionalidade do mercado e que está protegida por uma racionalidade científica da certeza cartesiana, onde a fragmentação do conhecimento dominado por diversos técnicos com título de doutor, impede a priorização da biossegurança e a perspectiva da tecnologia em favor da qualidade da vida, da saúde e do meio ambiente.

Não há argumentos que mobilizem essa racionalidade cristalizada como a única “verdade científica”. Além da forma desairosa no tratamento daqueles que exercem a advocacy no strito interesse público.

Participar desta Comissão requereu um esforço muito grande de tolerância diante das situações bizarras por mim vivenciadas, como a rejeição da maioria em assinar o termo de conflitos de interesse; de sentir-se constrangida com a presença nas reuniões de membro do Ministério Público ou de representantes credenciados da sociedade civil; de não atender pedido de audiência pública para debater a liberação comercial de milho transgênico, tendo o movimento social de utilizar-se de recurso judicial para garantia desse direito básico; além de outros vícios nas votações de processos de interesse comercial.

Também a falta de estrutura da Secretaria Geral da CTNBio é outra questão que nos faz pensar como é que é possível ter sido transferido para essa Comissão tanta responsabilidade sem os devidos meios para exerce-la? Assistimos a inúmeros problemas relacionados com a instrução e a tramitação de processos pela falta de condições materiais e humanas da CTNBio.

Para ilustrar cito o processo No. 01200.000782/2006-97 da AVIPE que solicitava a revisão de uma decisão da CNBS. O mesmo foi distribuído para um único parecerista pela Secretaria Geral como um processo de simples importação de milho GM para alimentar frangos. Graças à interpretação de um membro de que haveria necessidade de nomear mais um parecerista, em função dos problemas antigos deste processo que sofrera recurso da ANVISA e do MMA junto ao CNBS, é que se descobriu que este processo estava equivocado. Mesmo porque a CTNBio só poderia dar parecer a pedidos de importação de sementes para experimentos científicos. Importação de sementes para comercialização para ração animal, por exemplo, não é uma atribuição da CTNBio.

Outro fato ilustrador é o caso da apreciação do pedido de liberação comercial da vacina contra a doença de Aujeski (em que também fui um dos relatores). Os únicos quatro votos contra a liberação não seriam suficientes para a sua rejeição. No entanto, o fato de não se ter 18 votos favoráveis impediu a sua aprovação e este fato foi utilizado amplamente para justificar a redução de quorum de 2/3 para maioria simples nas votações de liberação comercial de OGM. Ocorre que o parecer contrário à aprovação desse processo trouxe uma série de argumentos que sequer foram observados por aqueles que já tinham decidido votar em favor de sua liberação.

Essa vacina está no mercado internacional há quinze anos e só é comercializada em cinco países, nenhum da comunidade européia. Esta observação levou-me a investigar as razões para tal e encontrei uma série de questões que contraindicam o seu uso na vigilância sanitária de suínos frente aos riscos de contrair a doença de Aujeski e que também são seguidas pelo Brasil.

Infelizmente este fato foi utilizado politicamente no Congresso Nacional como um argumento para justificar a redução do quorum para liberação comercial, mostrando que os interesses comerciais se sobrepujam aos interesses de biossegurança com o beneplácido da CTNBio.

Desta forma, em respeito à cidadania e a minha trajetória profissional de cientista e de formadora de recursos humanos, não poderei mais permanecer como membro de uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que, a meu ver, não tem condições de responder pelas atribuições que a lei lhe confere.

Faço votos que uma profunda reflexão inspire todos aqueles que têm responsabilidade pública para que os órgãos com competência técnica e isenção de interesses possam de fato assumir o papel que o Estado deve ter na proteção da saúde, do ambiente, da sociedade, da democracia e do desenvolvimento sustentável.

Brasília, 17 de maio de 2007.

Profa. Dra. Lia Giraldo da Silva Augusto

Membro Titular da CTNBio

 

 Meio Ambiente

DEBATE: TENTANDO RECONSTRUIR A HISTÓRIA DO BRASIL

Parte da história do Brasil está em debate.

 

O Ministério Público Federal, por meio de uma ação pública conduzida pelos procuradores Marlon Alberto Weichert e Eugênio Fávero, pede a reinterpretação da lei de Anistia. A idéia é que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo comando do DOI-Codi, em São Paulo, nos anos 70, seja responsabilizado pela tortura, morte e desaparecimento de mais de 60 pessoas.

A lei de Anistia de 1979 diz que estão isentos de responsabilidades as pessoas que cometeram crimes políticos ou conexos. Ustra não reconhece os crimes que cometeu. No entanto, o coronel usa do argumento que a tortura e os desaparecimentos ocorridos poderiam ser interpretados como crimes políticos ou conexos.

Em entrevista à Radioagência NP, o procurador Marlon Alberto Weichert explica que o argumento utilizado pelo coronel não é válido, e afirma que a responsabilização dos torturadores da ditadura militar e a abertura dos arquivos sobre o período, são fatores essenciais para que o Brasil conheça seu passado e se consolide como uma República democrática.

Radioagência NP: Porque não se pode enquadrar a tortura, assassinato e outros crimes como “conexos”?

Marlon Alberto Weichert: Essa figura de conexão entre crime praticado entre aqueles que se voltam contra o Estado e aqueles que defendem o Estado não existe. Não existe essa possibilidade, se considerar uma conexão, pela essência do crime, entre aquele que atenta contra o Estado e aquele que depois pratica um crime para justamente punir ou reprimir os crimes que pelos primeiros foram praticados. Tão pouco pode se dizer que crimes praticados pelos agentes do Estado são crimes políticos ou por motivação política. Porque os crimes políticos ou por motivação política precisam ter um elemento que se caracteriza pela intenção de você querer ir contra o poder público e, no caso, os agentes da repressão não queriam ir contra o poder público e sim, defender a ideologia e o governo vigente. Então tecnicamente não é possível de forma alguma caracterizar os crimes dos agentes da repressão como crimes conexos aos políticos.

RNP: Você diz que sem a abertura dos arquivos da ditadura “a sociedade não poderá reger sua vida civil e política de forma adequada”. Explique melhor isso.

M.A.W: Se você suprime da sociedade civil o acesso da memória do país, você está suprimindo do povo a possibilidade de conhecer os erros e os acertos que foram praticados no passado, e a partir dessa análise, adotar decisões pro futuro. Não podemos não pode esquecer que o poder é do povo e para você exercer um poder, você precisa conhecer a matéria pertinente ao exercício dessa faculdade de participar do poder. Como é que eu posso trabalhar para o futuro se eu não conheço o passado. Assim nós acabamos todos sendo meros fantoches e coadjuvantes em um processo onde deveríamos ser os protagonistas.

RNP: As ações civis que são encabeçadas pelas famílias das vítimas de tortura no DOI-Codi, pedem que o coronel Ustra apenas reconheça que participou dos crimes. Isso seria o primeiro passo para depois poder punir essas pessoas criminalmente. Mas como fornecer provas para responsabilizar pessoas por crimes que aconteceram há cerca de 30 anos?

M.A.W: Isso tem que ser analisado caso a caso. Mas existem muitas provas de que Carlos Alberto Brilhante Ustra era o comandante de um centro de tortura em São Paulo e que sob o seu comando e com base na sua omissão, se praticavam torturas e homicídios naquele lugar. Então ele [ao se omitir], assume a responsabilidade criminal sobre aqueles atos. Então uma condenação criminal de Ustra não é uma matéria de prova difícil. Há dezenas de depoimentos de pessoas que foram torturadas no DOI-Codi e que tiveram a presença dele, durante a sessão de tortura. Disso não há a menor dúvida, pois está reconhecido no próprio relatório da presidência da república sobre o direito à memória e à verdade.

RNP: Mas os casos de homicídio no Brasil têm que ser julgados em um prazo de até 20 anos. Como fica isso? Já que esses atos foram cometidos há cerca de 30 anos.

M.A.W: Isso é a questão da prescrição. Mas ocorre que quando agente do Estado, por orientação do governo praticam, de forma ampla e repetitiva, a perseguição de algum segmento da população civil, isso é se caracteriza como crimes contra a humanidade. E crimes contra a humanidade, por definição, eles não estão sujeitos a esse tipo de delimitação temporal, que é da prescrição. Então pode passar quanto tempo for que essas pessoas ainda poderão ser punidas.

RNP: Figuras como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se manifestaram contra a retomada sobre o debate da revisão da lei de Anistia. Em sua opinião, a que se deve isso?

M.A.W: No Brasil há certo apego à cultura do esquecimento. Só que esquecimento não constrói futuro e esquecimento não permite reconciliação, pois perdoar pressupõe conhecer e então poder perdoar. A ONU aponta que é necessário um conjunto de medidas para que um país que viveu um regime autoritário consolidar um regime democrático, que é responsabilizar aqueles que gravemente violaram os direitos humanos e reparar as vítimas. O Brasil só reparou as vítimas até hoje, mas não tomou as demais medidas. Nós temos a certeza de que quando um ministro do STF manifesta um entendimento, trata-se de um entendimento precário e provisório. Porque ele precisa ter a isenção de quando chegar o processo em suas mãos, ele não pode ter pré-julgado a causa, sob pena inclusive de ficar impedido de participar do julgamento.

 

 Radioagência NP, Juliano Domingues.

“FINAL DO MES” peça de alexandre frança no TEATRO GUAÍRA (auditório)

Sinopse

 

Uma mãe + uma filha que depende desta mãe + uma dívida de R$ 6.000,00, esta é a fórmula utilizada na nova produção da Dezoito Zero Um – Cia de teatro, que vem apresentar um novo olhar sobre a relação de pais e filhos.

 

Depois do sucesso de crítica e público de sua produção anterior (“Um Idiota de Presente”, texto escrito em homenagem a Dostoievski), a Cia quer agora apresentar ao público um olhar sobre a questão financeira no seio da classe média brasileira, utilizando como mote a relação de dependência entre uma mãe e uma filha.

 

No elenco, a consagrada e premiada atriz paranaense Claudete Pereira Jorge contracena com sua filha na vida real Helena Portela. Aqui, mais do que nunca, a interpretação alça vôos de uma realidade marcante.

 

Numa montagem que reúne elementos tanto do teatro do absurdo, quanto do naturalismo típico em comédias de costume, “Final do Mês” quer, de uma forma bem humorada, dialogar o valor do dinheiro nas relações afetivas do mundo contemporâneo.

 

Ficha técnica

 

Elenco: Claudete Pereira Jorge e Helena Portela

Texto e Direção: Alexandre França

Cenário e Figurino: Paulo Vinícius

Luz: Karol Gubert

Trilha: Carlito Birolli, Cauê Menandro e Mazzarolo

Produção: VM Produções

Dezoito Zero Um – Cia de Teatro

Duração: 60 min

Classificação: 14 anos

 

 

De 14 a 31 de agosto de 2008

Mini-Auditório do Teatro Guaíra

Quinta, sexta e sábado às 21h00

domingo às 19h00

Ingressos: R$20,00 inteira e R$10,00 meia

MARCO POLO E A CIDADE DAS MUITAS LINGUAS de frederico fullgraf

“Em seus cálculos o mestre-contador de Kublai Khan estimara sessenta luas-novas sem notícias do mercador de Veneza. Mas agora ele estava de volta, certamente abastecido de estórias. Mal disfarçando sua impudica curiosidade, o imperador parecia sentado sobre espinhos; tanto que se movia sobre a almofada de seda de Sezuan, ornada com delicados apliques de bambu. Estava impaciente, tinha confiado sua filha Cocacin à escolta de Marco Polo por mares do Índico e queria saber se Ilkhan Arghun se revelara marido digno dela.

 

“Contudo, naquele primeiro final de tarde após sua jornada ao Levante, o loquaz Marco parecia estranhamente amofinado; atitude na qual o Khan percebeu-lhe alguma dissimulação, pois o italiano irradiava uma esquisita, mas luminosa expressão. Luzimento potenciado pelo céu, que ardia em cores alaranjadas e púrpuras, e pelo perfume de romãs maduros, do jardim onde aves do paraíso alvoroçadas com o poente, gorjeavam o anúncio da noite”.

 

“Fingindo-se absorto, o viajor ensaiava a elipse que lhe permitiria circunavegar com cautela o motivo de sua excitação; que não resultava de sua viagem, mas era segredo que estava escondido naquele palácio. Observando-o de soslaio, o Grande Khan não se conteve: partiste com a promessa de falar-me das cidades da Pérsia, que horror te aflige, firengi? Hábil, com uma nesga de ironia, o veneziano engatou uma charada: ó Grande Kublai, dizei-me onde fica a “gruta do Tigre Branco” e contar-vos-ei minha aventura.

 

“Gabola, o soberano divagou sobre fantasiosa geografia, mas o mercador atalhou a pimponice, alcançando-lhe o prato de fina porcelana chim com as fragrantes tâmaras de Hormuz. E reincorporado, pareceu içar velas, pondo em movimento a barca da narrativa. Partindo de Quanzhou, fundeara em terras com nomes tão melodiosos como aromáticos seus tabacos, balsâmicas suas essências e perfumosas as suas mulheres – Sumatra, Sri Lanka, Mylapore, Madurai e Alleppey… Depois os litorais do Indh, por Gujarat, e finalmente  a Pérsia.

 

“Aqui o impaciente Khan interrompeu-o, chasqueando que estava farto de relatos sobre ´cidades invisíveis´ como Antioquina, Teodósia, Cleopatrópolis e italianices quetais (e a propósito: desde quando se interessava por mulheres?). Mas o veneziano prosseguiu imperturbável: na volta navegara por mares bizarros e escaldantes, feitos de areia. Rumando para a Costa do Ouro, transportara-se sobre a corcova de camelos, entre a Somália e o Magreb. Kublai considerou perfunctória a cartografia, então o veneziano o desafiou com novo entrecho, de enviesada concupiscência: e o que é “mergulhar às pérolas”, ó onisciente Khan?

 

Isto não pode ser!, interrompeu, insolente, Italino Calvo, afastando-se bruscamente da fogueira noturna, em torno da qual se reunia com copistas da milenar Biblioteca. Ao silente dervixe da madrassa de  Sankore, que media .o relato, não escapou na reação do italiano, a defesa contra alguma insondável estocada.  Mas antes que o irritado Calvo, há décadas aferrado às andanças de seu conterrâneo, que agora o faziam aportar nas areias abrasadas do Mali, cobrasse aclarações, o mais velho dos escribas brandiu na mão direita um pergaminho aos frangalhos: o Urbi Multilinguae. Como isto era possível, se este texto jamais fora citado em Il Milione? Calvo amuou-se desconfiado.

 

Preguiceiro, um dos copistas reacendeu seu cachimbo com um graveto em brasas e bafejou: segundo os tuaregs o pergaminho fora roubado de um galeão italiano em Darfur, alcançando Timbuktu, este porto faiscante do imenso Saara, no lombo de dromedários. E aqui escondido, como tantos outros manuscritos – este, no entanto, por ser considerado ultrajante, blasfemo, advertiu; e os mocelemanos se entreolharam, não sem ironia, estendendo-lhe o escrito.

 

Calvo lê, mas desconfia de seus próprios olhos. “Distraído pela súbita presença da cortesã que lhes serve o chá (cujas curvas intui sob as dobras do sári e cujo perfume almiscarado, gotejando dos seios fartos, lhe inebria os sentidos), Marco Polo fixa o horizonte, como se buscasse no céu as coordenadas para seu piloto. Respira fundo e diz com entonação de indiferença protocolar: não perdi tempo com o comércio do sal, do marfim e do ouro. Me desviei do curso e fui obrigado a “lamber a macaca”… A fazer o quê?, insiste o Khan, com olhos esbugalhados. Isso mesmo, responde Marco: abocanhar a “crista da concha púrpura” na Terra Santa, se é que me entende. Meca!, redargüiu Kublai. Não, Jerusalém, devolveu Marco, o cristão.

 

“Aborrecido com o relato cacete de Marco, o Khan gritou a um eunuco usbeque que lhe devolvesse a almofada atirada escada abaixo. O veneziano desviou seu olhar impaciente, e puxando da algibeira um pergaminho empoeirado, estendeu-o, desafiador: שררך אגן הסהר אל יחסר המזג ! Que língua era aquela, rosnou o desconsolado Khan. Surpreender-vos-eis com a  l í n g u a, troçou Marco, e Kublai pareceu ouvir uma vaga menção ao Cântico dos Cânticos.

 

Mas isto é um texto apócrifo, protesta Calvo, e escrito em francês arcaico, língua que Polo não falava – correto, infere o capcioso Sidi Ahmad, mas  ditou-o a Rustichello da Pisa, na prisão, durante a batalha de Curzola. Aliás, seu herói não será croata?,  alfineta o muçulmano. Dizem que veio ao mundo naquela ilha de Korčula – ou Curzola, como queira. Absurdo, brada Calvo, se ele nasceu em Veneza! O mouro se diverte, mas Calvo cala-se e lê.

 

“O autor do poema descreve uma coisa movendo-se das sandálias acima, pelo ventre, até os seios da amada, notou Marco. Quê coisa?! insiste o Khan. Espere, desconversa Marco: há nesta geografia um ponto que o faz perder a cabeça: Seu umbigo é uma cratera arredondada, jamais vaza o vinho amalgamado´. Pois o original nos fala de shor, Grande Khan, termo hebreu que deriva do Aramaico, significando ´lugar secreto´ – muito sugestivo, não lhe parece? Então a expressão do Khan fechou-se: quereis dizer-me que viajastes por meio mundo para contar-me que vos submetestes ao miserável ritual de nossa velha imperatriz Wu Hu, mulher satânica!

 

Sem dúvida o texto estava impregnado da tagarelice de Polo, vaticinou Calvo, mas neste ponto a narrativa se interrompia bruscamente, remetendo para algo de versão não autorizada, como se tivesse sido narrada em of, depois anotada de memória, alternando o narrador – uma cilada de Rustichello?

“Contou-me Polo cousas que parecem inventadas, números assombrosos, até mesmo o mundo do pecado: dentro das muralhas de Khanabalik ele contou 20 mil prostitutas, tratadas com respeito pela corte e o povo… Como que adivinhando por onde se movia a narrativa, Sidi Ahmad fixou Calvo, fez um beiço lúbrico e bombardeou-o com uma saraivada da ponta da língua –  indecência que não escapou ao dervixe e respondida obliquamente: Mansa é a palavra do Profeta, Allá esteja com ele!, ferina é apenas a língua dos homens!

 

“Embora Chabi fosse a prima-dona que trouxera os mestres budistas do Tibet à corte, Kublai tinha quatro esposas e numerosas concubinas dentro do palácio. Sendo que trinta delas eram escolhidas todos os anos entre as mais belas moças de Kungurat; segundo Polo a província famosa bela beleza de suas mulheres. Já os pais dessas moças consideravam a escolha de suas filhas como concubinas do Khan, motivo da maior felicidade.

 

Entediado com as alcoviteirices Calvo olhou o céu estrelado do Saara, colocando de lado o pergaminho pegajoso. Lascivo, o mal-educado Sidi Ahmad perguntou-lhe se tinha entendido todas aquelas “línguas”. Trazido de volta à realidade pela cusparada de um camelo, o distraído escritor latino entendeu a ironia e então sobreveio a apoteose:

 

“Segredou-me Polo que por ele se enrabichara Khutulun, sobrinha do Khan, que descreve tão brava e forte, que em todo o exército de seu pai não havia homem que lhe fosse páreo. Seus pais estavam preocupados porque até a idade dos 23 anos não se casara. Mas ela advertiu que só consentiria num casamento, se fosse vencida em combate por algum jovem que lhe desse 100 cavalos em garantia. Era tão imbatível guerreira que em pouco tempo amealhou 10 mil cavalos. Seu último pretendente lhe deixara 1 mil cavalos e retirara-se humilhado. Até seu caminho cruzar-se com o do veneziano, que guerreiro não era, mas bem dotado de outras virtudes”.

 

Apertando a ponta de seu punhal contra minha jugular, exigindo-me juramento de silêncio, disse-me o mercador que cometera traição à confiança do imperador, desonra que lhe teria custado a degola. Fingindo constrangimento, desenhou no ar as curvas do corpo adestrado da mongol e disse, extasiado: Kothulum ergueu suas faldas imperiais, debaixo das quais não vestia quaisquer calçolas, abriu suas coxas flavescentes e fez-me ajoelhar, pressionando minha boca contra seu fruto, já encharcado. Forçou-me a cabeça com as duas mãos, arquejou sobre meus lábios, murmurou coisas que não eram Mandarim nem Mongol, mais se assemelhavam a onomatopéias das cavernas, asseguro-lhe. E então, a apoteose: seu pajem ordenou-me que escrevesse com minha língua as letras do alfabeto sobre o “pico da concha púrpura”; como chamam aquela protuberância. Já sentindo cãibras, no meio da letra “o”, que é o próprio infinito, ela revirou os olhos e inundou minha boca com furiosa arrebentação de mar salgado…

 

Não acredito! praguejou Calvo e Sidi Ahmad disse apenas: pode crer! E então o italiano leu em voz alta o último parágrafo do pergaminho: “Elas (as línguas, suponho) parecem querer nos dizer que paremos de comparar medidas tolas, que o tamanho de uma língua não passa de meio palmo e seu peso não excede duas onças”, conclui Marco, com olhar debochado para Rustichello: “a língua de que falo, não é como o falo, é músculo, muito manobrável, que nunca chega cedo demais (aqui Rustichello confessa ter enrubescido). “Em outras palavras: o importante não é a carne, mas o movimento”. Dito isto, Calvo e Sidi calaram, cingidos pelo primeiro clarão da lua, que emergia por trás das dunas.

 

                             selo comemorativo. ilustração do site.