Arquivos Diários: 24 agosto, 2008

SAPOS, COBRAS e BOLSA-MÁFIA – por alceu sperança

O saudoso advogado Octacílio Ribeiro, que foi um dos chefões do antigo Banestado, em sua primeira campanha à Assembléia Legislativa estava sendo levado a um “antro de perdição”. Lá, seu cabo eleitoral era aguardado pelas “tias”, que desejavam conhecer o candidato antes de votar nele. Ao saber que o destino era um “puteiro”, como se dizia, Octacílio, carola e puritano, recusou-se terminantemente a ir. O cabo eleitoral, inutilmente, tentou argumentar: “Quando cai na urna, voto de puta e de santa valem a mesma coisa!”

Na recente campanha italiana, onde a direita venceu em vários lugares, a compra de votos chegou a um tamanho grau de sofisticação que tornou completamente inviável a campanha em torno de idéias e propostas.

A fórmula é simples. Contrata-se um instituto de pesquisas para saber o que o povo quer ouvir. A equipe de marketing mistura tudo isso numa gosma coerente e bem ilustradinha. Faz um comercial de sabão em pó, só trocando a marca do sabão pelo nome do candidato ou coligação. Não vai ser nem melhor nem pior que os demais, pois isso não importa. O que conta é aquele celular com câmera que o candidato mafioso dá de presente ao eleitor nos bairros e vilas.

No dia da eleição, o eleitor vota, tira uma foto do voto e ao apresentar o “comprovante” ao mafioso, ganha, além do celular, mais 50 dólares. A compra de votos, assim, chegou de vez, além da urna eletrônica, ao mais sofisticado padrão tecnológico jamais imaginado, a ponto de que o voto consciente, fruto de boa educação e cultura, cai lá urna e vale menos um celular e 50 dólares que o voto do vendilhão.

Os religiosos que propagam a máxima “voto não preço, tem conseqüência” estão certos, mas o eleitor-meretriz que vende o voto-corpo prefere a conseqüência, uma espécie de aids cívica. Acha que nada vai mudar, por isso prefere tirar alguma vantagem do sacrifício de ir votar, antes de retornar à vidinha escrava de sempre.

O professor Pedro Cardoso da Costa em uma de suas aulas desenhou um sapo no meio de diversas cobras. O sapo era o eleitor e cada cobra, um partido. A data da eleição era o único dia, a cada dois anos, em que o sapo escolhia qual cobra deveria picá-lo. O vendedor de voto se deixa picar pela cobra já antes do dia da eleição.

Uma camaradinha nicaragüense nos disse: “Não devemos votar de vez em quando. Temos que escolher a cada minuto. Eleger a atitude que vamos tomar diante de tudo, e a todo instante”. Por isso, essa agitação toda em torno da contratação de cabos eleitorais, campanha aquecida e nas ruas nada mais é que a mera compra de votos, talvez ainda não tão sofisticada quanto a da Itália. Mas eles estão caprichando: um dia chegarão lá. Se depender da ilusão das urnas, limitando-se apenas a votar no dia da eleição, o voto da pessoa esclarecida vai valer menos uns cem dólares, gasolina, telha ou tijolos, que o voto vendido do sujeito agraciado pela Bolsa-Máfia.      

 

AROLDO MURÁ G. HAYGERT lança seu livro “VOZES do PARANÁ – RETRATOS DE PARANAENSES” no PALACETE DOS LEÕES – ESPAÇO BRDE

LEMINSKI:HOMENAGEM DO SITE AO SEU ANIVERSÁRIO COM POEMA DO CARTUNISTA SOLDA

o escritor e poeta paulo leminski, o artista visual rogério dias e o cartunista y otras cositas luiz solda. foto de francisco kava que também já entregou as moedas para o barqueiro.

         vai

        meu amigo

        desta vez

        eu não vou contigo

 

        a morte

        é um vício

        muito antigo

        só que nunca

        aconteceu comigo

 

        pode ir

        que eu não ligo

        eu fico por aqui

        separando

        o tijolo do trigo

 

        (7/6/89)

 

SOLDA

 

GETÚLIO VARGAS: HÁ 54 ANOS A MESMA REAÇÃO DE HOJE “SUICIDARAM” O GRANDE PRESIDENTE

CARTA TESTAMENTO DO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

24 de agosto de 1954

     Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

     Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

     Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

     Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

     Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história

Getúlio Vargas

 

 

o estadista gaúcho GETULIO VARGAS em sua estância em São Borja no Rio Grande do Sul. (1950).

 

você ouve a Carta Testamento com música de Villani-Cortes (parte I):

 

você ouve a parte II da Carta:

Rumorejando, (Assustado com uma inflação avançando).

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (“Poesia”, dedicada aos jovens da atualidade).

Era um sujeito empírico

Metido a satírico.

Livro, nunca havia lido

Sem, da vista, ter sofrido.

O máximo era ler gibi

Que fazia desde guri.

E nisso estacionou.

Um dia se enamorou.

Por uma jovem formosa

Que lembrava um botão de rosa.

Ela era exatamente o inverso:

Tanto em prosa como em verso,

Lia com sofreguidão de tudo

Mesmo aquele livro maçudo

Que no cara daria arrepio.

Afinal, ele era vazio!

E ela se deu conta na hora

E mandou ele embora.

“Vá pastar”, ela exclamou

Ele de dor quase gritou,

Quase soltou um urro.

“Quando fala parece um zurro.

Seu burro!”

Ele ficou casmurro.

“Você só dá na gente enfado!

Seu abobado.”

Coitado!

Constatação II (Quadrinha didática de mau exemplo).

Cada um se serviu regiamente

Três baitas pratos de feijoada.

Aí, foram pro motel ali em frente.

Quase acaba mal a patuscada*.

*Patuscada = 1. reunião festiva para comer e beber

2. folia animada, divertida e barulhenta; pândega, farra (Houaiss).

Constatação III

Rico sempre é bem-vindo; pobre, é malvisto.

Constatação IV (Reminiscências).

Quando os cursinhos, a fim de preparar candidatos para enfrentar essa excrescência que se chama vestibular, eram específicos para os cursos de engenharia e medicina, por exemplo, no do Dom Bosco havia uma turma de 70 rapazes e uma única moça para o de engenharia. Evidentemente que os tiques e o vocabulário dos rapazes, mesmo que a vestibulanda assim não o desejasse, acabaram se incorporando ao seu. O palavreado nos dias de hoje, então, nem falar: cheio de gírias, ainda que mais, digamos, espontâneo, nem por isso, para a velha geração, muito mais passível de enrubescimento. Um dia a moça entra na sala e, já da porta, grita para os mais íntimos: “Gente! ‘Sentei’ em física”…

Constatação V

Rico é sempre imune a…; pobre é sempre suscetível a…

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Será que as sogras, quando assistem as novelas elas torcem em favor dos vilões?

Constatação VII

Foi o jovem padreco

Que no sermão,

Por um momento,

Usou baixo calão

Ao se referir ao paramento

Como aquele treco?

Constatação VIII

E foi a macaca

Que fez fuxico

Com a comadre,

Soltando a matraca

Que o compadre,

O seo Mico,

Com cara de panaca,

Andava de banzé

Com uma jovem chipanzé?

Constatação IX

E foi o polvo,

Num baita revolvo

Deu um amasso,

Ao agarrar a polva,

Que transcendia perfume,

Com seus tentáculos,

Que pareciam aço

Dando espetáculos,

A tardinha,

A um cardume

De sardinha

Que por ali passeava,

E alguém gritava:

“Que ninguém se envolva.

Essa coisa indecente,

Com tanto pé e mão

Enroscado,

Embaralhado

Algum beliscão

Pode sobrar pra gente”.

Constatação X (Pseudo-haicai).

Em lugar onda há futrica

Muita gente curiosa

Não arreda o pé. Fica…

Constatação XI

Ficou a má lembrança:

O truco aquela vez:

Foi uma lambança,

Uma sordidez

Na última carteada

Apareceu naquela jogada

O mesmo três,

Um ilustre conhecido,

Que, na primeira, já havia saído.

Constatação XII

Rico faz charminho; pobre c. doce

Constatação XIII (Quadrinha para ser recitada aonde mais convém).

Perdi minha lapiseira,

Mas não me importei.

Eu só escrevia asneira

Como certo decreto-lei.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Maradona é comunista da boca para fora, afirma Chilavert, o ex-goleiro da seleção paraguaia”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas será que alguém poderia ser comunista da boca pra fora, pra dentro, pro lado, pra cima ou pra baixo, mormente, no tempo das ditaduras da Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Brasil, Nicarágua, República Dominicana para citar as mais, digamos, recentes?

Constatação XV

Rico faz sacrifício; pobre, esforço.

Constatação XVI (Passível de mal-entendido).

Ela vivia mergulhada tanto nos seus pensamentos de casar com seu namorado, um oficial da marinha, que até passou a sofrer de enjôo.

Constatação XVII (Matemática meio confusa).

O candidato que semeia discórdia na cúpula do seu partido político é capaz de colher a simpatia do partido rival e a antipatia no seu próprio partido. Portanto, diretamente proporcional num caso e inversamente proporcional noutro.

Constatação XVIII

E como ponderava o obcecado: “Eu gosto muito de tirar a minha roupa. Mormente depois de ter tirado a dela”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

foto livre. ilustração do site. FRUTOS DO MAR DE POBRE.