Arquivos Diários: 25 agosto, 2008

OLIMPÍADAS COMEÇAM EM CASA por cleto de assis

 

 

Nos jogos olímpicos que hoje se encerram, uma pequena ilha do Caribe nos deu uma grande lição. Entre os países americanos, a Jamaica ficou em segundo lugar no ranking olímpico, atrás apenas dos Estados Unidos da América do Norte e à frente do Canadá, do Brasil e de Cuba.  A Jamaica chegou ao final dos jogos em 13º lugar, enquanto os três outros países alcançaram, respectivamente, os 19º, 23º e 28º lugares.

A Jamaica, senhoras e senhores, literalmente isolada no mar caribe, ocupa uma área de apenas 10.991 km2, exatamente a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Com uma população de 2 milhões e 700 mil habitantes, cem mil a menos do que a nossa Bahia, equivale, portanto, a pouco menos de 1,5% da população brasileira total.

Até o ano de 1940, quando foram descobertas reservas de bauxita naquela ilha, a economia jamaicana era inferior à nossa da época colonial. Lá se vivia apenas da agricultura, que tinha na banana e na cana-de-açúcar seus principais sustentáculos. Além do famoso rum, é claro. Segundo o Banco Mundial, hoje a Jamaica tem um PIB anual de cerca de 20.183 milhões de dólares americanos, enquanto o Brasil alcança um bilhão e 695 milhões. Seu PIB per capita, portanto, ascende a de cerca de US$ 7,500, contra US$ 9,700 do Brasil.

O que nos diferencia, culturalmente, da Jamaica? Nosso inter-relacionamento cultural tem se dado principalmente por meio da música. E muita gente vê na Jamaica uma irmandade com a Bahia, hospedeira do reggae jamaicano como se baiano fosse. Também há identidade entre o sincretismo religioso, igualmente herdado das raízes africanas. As bandeiras de ambos os países têm as cores verde e amarela. E quase nada mais. Ao contrário do Brasil, eternamente administrado ao vai da valsa, isto é, de acordo com os acontecimentos do dia, a Jamaica tem um plano de desenvolvimento que visa o ano de 2030. Isso significa que eles decidiram atingir toda a próxima geração de jamaicanos para que a pequena ilha tropical possa alcançar a coesão social e o desenvolvimento pretendido. Plano de estado e não um simples plano de governo.

A Jamaica ainda pertence à comunidade britânica, mas goza de relativa independência. Deve ter recebido dos ingleses o respeito à educação, o mesmo sentimento que fez prosperar outro filho da Grã-Bretanha, os Estados Unidos da América do Norte.

Os jamaicanos, conforme declarou há alguns dias o seu herói esportivo Usain Bolt, desenvolveram um grande diferencial para poder galgar pódios: determinação e muito trabalho. Aliás, essa determinação foi provada em 1988, quando o pequeno país antilhano, com temperaturas anuais variando entre 25 e 38 graus centígrados, foi representado por quatro teimosos atletas nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, em Calgary, no Canadá. Eles pilotaram um desengonçado bobsled, trenó de corrida habilmente dirigido por atletas de países que têm neve na porta de casa.

Acredito que muita gente lembra esse fato. Ele foi documentado em um filme dos Estudios Disney, em 1993, dirigido por Jon Turtletaub, Cool Runnings, que no Brasil recebeu o título de Jamaica Abaixo de Zero. Embora o roteiro tenha optado por um clima quase caricato e um pouco fantasioso, o que valeu, na verdade, naquela aventura esportiva, foi a tenacidade dos quatro atletas, que enfrentaram todas as dificuldades para realizar um sonho. Não ganharam prêmios na début olímpico, mas a equipe voltou aos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, na França, terminando em 14º lugar, à frente dos Estados Unidos, da Rússia, da França e da Itália. A equipe de trenó de dois lugares terminou em 10º, batendo a equipe sueca. E a pertinácia valeu: no ano de 2000 eles ganharam sua primeira medalha de ouro nessa modalidade no World Push Bobsled Championships, nos Estados Unidos.

Usain Bolt não comentou, mas o contínuo trabalho para criar atletas, na Jamaica, começa nas escolas, com meninos e meninas. Não foi à toa que o país conquistou seis medalhas de ouro em Pequim, o dobro das medalhas do Brasil, com uma delegação de apenas 57 atletas.

Enquanto isso, nos preparamos, com Pelé de embaixador, para lutar pelas Olimpíadas de 2016. O presidente Lula foi à China, na abertura dos jogos de Pequim, com a missão explícita de defender a nossa candidatura perante o Comitê Olímpico Internacional. E acredita-se que o Brasil tem todas as condições políticas para reclamar a sede de 2016, já que poucas vezes os jogos olímpicos se realizaram no hemisfério sul.

Creio, em princípio, que é muito boa essa candidatura, pois os jogos olímpicos trazem vários benefícios para os países que os sediam. O difícil é acreditar que estaremos preparados, nos próximos oito anos, para levar a cabo tamanha responsabilidade. À exceção dos jogos de 1928, o Brasil participou de todas as demais Olimpíadas realizadas a partir de 1920. Parece que aprendemos pouco sobre o que é a preparação de delegações esportivas para representar o país em eventos que reúnem a nata do atletismo e dos esportes em geral. Não sei do que vive o Comitê Olímpico Brasileiro, mas suas dificuldades financeiras são visíveis e declaradas por seu próprio presidente, apesar de seu ufanismo, quando diz que, de quatro em quatro anos, o Brasil dá saltos para se transformar em uma potência olímpica.

Foi no site do COB que conheci algumas historinhas interessantes sobre essa escalada histórica.  Por exemplo, a melhor performance da equipe brasileira nos jogos olímpicos foi registrada em sua primeira participação, nas Olimpíadas de Antuérpia, na Bélgica, que levavam o número VII. Ficamos em 15º lugar, no ranking final, apesar da exígua representação de 21 atletas. De lá para cá, descemos e pouco subimos. Até mesmo a última, que hoje se encerra com a vitória monumental da China, registra um decréscimo em relação à de Atenas, de 2004,  quando 125 homens e 122 mulheres  fizeram mais dos que os 145 homens e as 132 mulheres de agora. Para quem quiser fazer um estudo comparativo mais apurado, ofereço um quadro resumido da história do Brasil olímpico, que vai ao final dessas considerações não muito breves.

E por falar em história, vejam só o que nos conta o mesmo site do COB (http://www.cob.org.br/) , ao relatar o que se passou com a sofrida delegação brasileira presente nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1932:

 Dos 82 atletas (81 homens e uma mulher) que integravam a delegação brasileira enviada a Los Angeles, somente 67 participaram dos Jogos. Para cada passageiro que deixasse o navio Itaquicê, onde viajaram durante um mês, as autoridades locais cobravam um dólar. Como os recursos eram escassos, os organizadores decidiram que só desceriam os que tinham chances de medalha. Em seguida, os integrantes das equipes de pólo aquático, do remo e do atletismo também receberam autorização para desembarcar.

Uma exceção foi aberta por cavalheirismo e a nadadora Maria Lenk, aos 17 anos, foi a primeira sul-americana a participar de uma competição Olímpica. Ela nadou em três provas: 100m livre, 100m costas e 200m peito.

Outra história, em especial, teve um desfecho inusitado. Adalberto Cardoso era um dos que estava impedido de desembarcar, mas escapou do navio rumo ao Estádio Olímpico, a cerca de 19 quilômetros. O atleta chegou a dez minutos do início dos 10.000m e participou da prova com os pés descalços.

A missão enviada a Los Angeles ainda guardou outros detalhes curiosos. Um deles é que o navio em questão estava camuflado de barco de guerra para não pagar pedágio no Canal do Panamá. Não adiantou: ao aportar, inspetores subiram a bordo, verificaram que os canhões eram mera decoração e a delegação teve que arcar com o tributo. Além disso, os porões do Itaquicê transportavam 55.000 sacas de café e os atletas tinham o compromisso de vendê-las nos portos durante as paradas do percurso. Quem não desembarcou em São Pedro para os Jogos, seguiu viagem até São Francisco para encontrar compradores.

Naqueles jogos não conquistamos qualquer medalha, mas poderíamos nos ter auto-premiados com as medalhas do descaso governamental, da pobreza cultural e, para não ficar de fora, do tradicional jeitinho e da corrupção.

Para entender melhor meu aparente pessimismo (que não quer dizer derrotismo), façamos algumas perguntas muitos simples. A primeira é: de onde surgem nossos atletas? Já respondendo, verificamos que a grande maioria dos que se destacam no atletismo nasce de sonhos de superação econômica, nas corridas de pés descalços pelas estradas poeirentas do sertão nordestino ou das periferias das cidades. Outra parte de ocasional incentivo de clubes esportivos ou sociais das grandes urbes. Uma minoria, aquela que participa dos chamados esportes de elite, como o hipismo, a esgrima, a vela e o tiro, de seu autopatrocínio. Muitas vezes, um hobby que se transforma em esporte olímpico.

Outra perguntinha inconveniente: onde estão os antigos jogos colegiais e universitários, que também revelavam craques em várias modalidades? E o esporte nas escolas, ainda existe? Apesar da proliferação dos cursos universitários de Educação Física? Não sei responder em detalhes a essas duas últimas questões, pelo menos no momento e não quero perder muito tempo procurando respostas na Internet. O que me espanta é que, a exemplo de alguns candidatos às próximas eleições de Curitiba, muita gente está reinventando a roda na área esportiva e esparramando pérolas, como aquele que se diz jovem e “criador dos jogos colegiais” (deve ter nascido há muito mais tempo do que ele próprio imagina) e do prefeiturável que quer construir centros de lazer para os jovens das periferias, quando a solução mais simples (que defendo há muito tempo) é fazer de cada escola um centro de convivência social, melhorando e aproveitado as suas estruturas esportivas e culturais para que toda a comunidade circunvizinha aproveite e respeite mais o templo escolar. Ele mesmo não se dá a entender quando afirma que “a prática desportiva deve começar na escola” mas “não há participação das escolas nos jogos escolares” (sic).

E é para ele a outra questiúncula: e as universidades, Magnífico Reitor, onde é que estão? Pois todos sabemos que, nos EUA, as instituições de ensino superior catam atletas até em outros países, concedendo-lhes polpudas bolsas de estudos para enriquecer suas equipes esportivas. Aposto que cada universidade brasileira, pelo menos as federais – as chamadas universidades públicas para as quais as chamadas elites econômicas são mais chamadas – mantêm estruturas esportivas de alto nível e cursos de formação para a área. Mas quantos atletas têm formado? Quais seus legítimos representantes nos jogos olímpicos? Elas valorizam os talentos que surgem nas camadas mais pobres e os atraem para seus bancos escolares? O que vemos é um caminho inverso: o atleta profissional bem realizado é que procura, quase ao final de sua carreira, uma matrícula em um curso de Educação Física para consolidar o status social que conseguiu.

O que eu queria, como brasileiro e não como atleta que não sou (os únicos músculos que utilizo, em matéria de esportes, são os faciais, para mostrar satisfação ou decepção com alguns eventos que assisto pela televisão, além dos glúteos que às vezes se mexem na poltrona), era ver uma revolução educacional e cultural em nosso país nos próximos oito anos, que nos tornasse merecedores de recepcionar os demais países nos ainda virtuais XIX Jogos Olímpicos de Verão (?) do Rio de Janeiro. Com todas as reformas necessárias. Reforma da Educação, da Segurança Pública, da Saúde, dos programas de geração e manutenção de empregos, das condições de moradia, entre as principais. É muito? É o mínimo que podemos querer. Vejam que até a velha Londres está pensando em um programa de múltiplas reformas para 2012.

Embora não seja seu eleitor, me orgulharia muito se pudesse ver o presidente Lula receber, na próxima semana, todos os nossos bravos atletas de Pequim em uma solenidade no Palácio do Planalto (ou no Maracanãzinho, por que não?) e entregar-lhes um diploma de agradecimento pelo muito que fizeram pela representação do Brasil. Com vitórias ou derrotas, com medalhas ou com muito choro.

Gostaria de ouvir, em seu discurso de agradecimento, a notícia de que ele estaria criando a Universidade dos Esportes do Brasil (a Jamaica tem uma), que coordenaria os demais centros de excelência que todas as IES brasileiras, oficiais ou particulares, passariam a montar, já nas próximas semanas, com reformulação dos seus cursos afins e um grande direcionamento para as escolas fundamentais e de segundo grau. Adoraria ouvir dele um convite para que todo atleta que agora volta da China se transformasse em um agente dessa revolução cultural que necessitamos para receber os jogos de 2016. E assumisse, em nome de seus sucessores, companheiros ou não, o compromisso simples e exeqüível de arrumar a casa para poder receber as visitas.

Porque as Olimpíadas devem começar em casa.

 

Curitiba

24.agosto.2004

 

 

ilustração de cleto de assis.

 

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RESUMO HISTÓRICO DA PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NOS JOGOS OLÍMPICOS

 

 

Ano: 1920

VII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Antuérpia, Bélgica

Posição: 15º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               01 Ouro      Tiro rápido (25m) masculino Guilherme Paraense

                                                                                                                                                            01 Prata           Tiro Pistola livre (50m) masculino Afrânio Costa

01 Bronze Pistola livre (por equipe) masculino – Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Guilherme Paraense, Sebastião Wolf

 

 

Ano: 1924

VIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Paris, França

Número de Atletas: 12 homens

Modalidades: Atletismo, remo e tiro esportivo

Medalhas:               nenhuma

 

 

Ano: 1928

IX Jogos Olímpicos de Verão Olimpíada

Local: Amsterdã, Holanda

O Brasil não participou, em razão da crise financeira

 

Ano: 1932

X Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Número de Atletas: 66 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1936

XI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Berlim, Alemanha

Número de Atletas: 88 homens e seis mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1940

XII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1944

XIII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1948

XIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Londres, Grã Bretanha

Posição: 34º

Número de Atletas: 70 homens e 11 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, hipismo, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1952

XV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Helsinque, Finlândia

Posição: 25º

Número de Atletas: 193 homens e oito mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

               02 Bronze  Salto em altura masculino – José Telles da Conceição

                                                                  Natação – 1.500m livre masculino – Tetsuo Okamoto

 

Ano: 1956

XVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Melbourne, Austrália

Posição: 25º

Número de Atletas: 47 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

 

Ano: 1960

XVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Roma, Itália

Posição: 40º

Número de Atletas: 80 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               02 Bronze    Basquete masculino

                              Natação – 100m livre masculino – Manuel dos Santos Junior

 

Ano: 1964

XVIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Tóquio, Japão

Posição: 39º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, futebol, hipismo, judô, natação, pólo aquático, pentatlo moderno, vela e vôlei

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1968

XIX  Jogos Olímpicos de Verão

Local: Cidade do México, México

Posição: 35º

Número de Atletas: 81 homens e três mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, futebol, hipismo, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Prata      Salto triplo masculino – Nelson Prudêncio

               02 Bronze         Boxe – Classe Mosca – Servílio de Oliveira

                                               Vela – Classe Flying Dutchman – Burkhard Cordes e Reinaldo Conrad

 

Ano: 1972

XX Jogos Olímpicos de Verão

Local: Munique, Alemanha

Posição: 41º

Número de Atletas: 84 homens e cinco mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, futebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino –  Nelson Prudêncio

                                               Judô – Meio-pesado masculino – Chiaki Ishii

 

 

Ano: 1976

XXI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Montreal, Canadá

Posição: 41º

Número de Atletas: 86 homens e sete mulheres

Modalidades: Atletismo, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, futebol, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

                                     Vela – Classe Flying Dutchman – Peter Ficker, Reinaldo Conrad

 

Ano: 1980

XXII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Moscou, União Soviética

Posição: 18º

Número de Atletas: 94homens e 15 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, ginástica artística, judô, levantamento de peso, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Vela – Classe 470 masculino – Eduardo Penido e Marcos Soares

                                     Vela – Classe Tornado – Alex Welter e Lars Björkström

                              02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

Natação – Revezamento 4x200m livre masculino – Cyro Delgado, Djan Madruga, Jorge Fernandese e Marcus Mattioli

 

Ano: 1984

XXIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Posição: 19º

Número de Atletas: 129 homens e 22 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, natação sincronizada, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, hipismo, judô, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      Atletismo – 800m masculino Joaquim Cruz 

05 Prata    Futebol masculino

                              Judô Meio-pesado masculino – Douglas Vieira

                              Natação – 400m medley masculino – Ricardo Prado

                              Vela – Classe Soling – Daniel Adler, Ronaldo Senfft e Torben Grael

                              Voleibol masculino

               02 Bronze         Judô – Leve masculino  – Luís Onmura

                              Judô – Médio masculino – Walter Carmona

 

Ano: 1988

XXIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Seul, Coréia do Sul

Posição: 19º

Número de Atletas: 135 homens e 35 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica artística, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      JudôMeio-pesado masculino – Aurélio Miguel                

02 Prata    800m masculino – Joaquim Cruz

                      Futebol masculino

03 Bronze  200m masculino – Robson Caetano

                      Vela – Classe Star – Nelson Falcão e Torben Grael

                      Vela – Classe Tornado – Clínio de Freitas e Lars Grael

 

Ano: 1992

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Barcelona, Espanha

Posição: 25º

Número de Atletas: 146 homens e 51 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Judô – Meio-leve masculino – Rogério Sampaio

                                               Voleibol masculino

               01 Prata    Natação – 100m livre masculino  – Gustavo Borges

 

Ano: 1996

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atlanta, EUA

Posição: 25º

Número de Atletas: 159 homens e 66 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, natação, futebol, ginástica artística, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

                                               Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

                                               Volei de Praia feminino – Jacqueline Silva e Sandra Pires

               02 Prata    Basquetebol feminino

                              Natação – 200m livre masculino – Gustavo Borges

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Mônica Rodrigues

09 Bronze  Revezamento 4x100m masculino – André Domingos, Arnaldo Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e Robson Caetano

               Futebol masculino

                      Hipismo – Saltos por equipe  – Álvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo e Rodrigo Pessoa

               Judô – Meio-leve masculino – Henrique Guimarães

               Judô – Meio-pesado masculino – Aurélio Miguel

               Natação – 100m livre masculino – Gustavo Borges

               Natação – 50m livre masculino – Fernando Scherer (Xuxa)

               Vela – Classe Tornado – Kiko Pelicano e Lars Grael

               Voleibol feminino

 

Ano: 2000

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Sidney, Austrália

Posição: 52º

Número de Atletas: 111 homens e 94 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, triatlo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas: 06 Prata   Revezamento 4x100m masculino André Domingos, Claudinei Quirino,                    Edson Luciano Ribeiro, Vicente Lenilson  

                                      Judô Leve masculino – Tiago Camilo 

                              Judô – Médio masculino – Carlos Honorato

                              Vela – Classe Laser masculino  – Robert Scheidt

                              Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

                              Volei de Praia masculino – Ricardo e Zé Marco

         06 Bronze Basquete feminino

Hipismo – Saltos por equipe Alvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo, Rodrigo Pessoa

Natação – Revezamento 4x100m livre masculino Carlos Jayme, Edvaldo Valério, Fernando Scherer (Xuxa) e Gustavo Borges

       Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Sandra Pires

Voleibol feminino

 

Ano: 2004

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atenas, Grécia

Posição: 16º

Número de Atletas: 125 homens e 122 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica – artística e rítmica, handebol, hipismo, judô, lutas, natação, natação sincronizada, pentatlo moderno, remo, saltos ornamentais, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               05 Ouro      Hipismo – Saltos  – RodrigoPessoa

Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia masculino – Emanuel e Ricardo

Voleibol masculino

               02 Prata    Futebol feminino

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

03 Bronze  Maratona masculino – Vanderlei Cordeiro

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Flavio Canto

 

Ano: 2008

XXVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Pequim, China

Posição: 23º

Número de Atletas:   145 homens e 132 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, futebol feminino, ginástica artística, ginástica rítmica, halterofilismo, handebol, hipismo, judô, luta livre, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro, tiro com arco, triatlo, vela, vôlei de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Salto em distância feminino – Maurren Higa Maggi

                                               Natação – 50m livre masculino – César Cielo

                                               Voleibol feminino

               04 Prata    Futebol feminino

Vela – Classe Star – Bruno Prada e Robert Scheidt

       Voleibol masculino

08 Bronze  Futebol masculino

                      Judô – Leve feminino – Ketleyn Quadros

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Tiago Camilo

                      Natação – 100m livre masculino – César Cielo

                      Tekwondo – > 67kg feminino – Natalia Falavigna

                      Vela – 470 feminino – Fernanda Oliveira e Isabel Swan

                      Volei de Praia masculino – Emanuel, Ricardo

 

Quadro das Medalhas do Brasil em todas as Olimpíadas

 

20 medalhas de ouro

25 medalhas de prata
46 medalhas de bronze


Colocação geral do Brasil no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos: 37º

 

Fontes: http://www.cob.org.br/    http://www.quadrodemedalhas.com/

 

 

 

 

 

 

 

 

QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP? por affonso romano de sant’anna

 

            Há, pelo menos, duas maneiras de ver essa  retrospectiva de Marcel Duchamp no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A primeira é com o olhar de 1917. A segunda é com o olhar de 2008. Com o olhar de cem anos atrás ficaremos pasmos e/ou encantados que alguém tenha decretado o fim da arte transformando, paradoxalmente, qualquer objeto cotidiano em peça de museu. Com o olhar de hoje, de quem  já atravessou os caminhos e descaminhos da história e da arte no século 20, exercita-se uma visão crítica que ensine a ver o ontem e questionar o agora.

            Duchamp tem sido vítima de dois tipos de leitura: a primeira é uma  leitura precária, superficial, repetitiva do que vem sendo dito há cem anos. Pura celebração, escrita de endosso, subserviente, intimidada diante da celebridade e da história. A rigor, é uma leitura anti-duchampiana. É´ o que se faz nos cursos de arte e nos manuais. O  segundo tipo de leitura que vitimou Duchamp é a hiper interpretação. Aí situam-se grandes ensaístas, tanto Octávio Paz e sua alucinada interpretação do  “Grande Vidro” ou Jean Clair que compara Marcel Duchamp a nada mais nada menos que Leonardo da Vinci.

            Não seria já hora de fazemos uma revisão crítica da modernocontemporaneidade? Duchamp é peça fundamental neste processo. Contraditoriamente, o dessacralizador foi sacralizado e os que o seguem são paradoxalmente anti-duchampianos. Contudo, a melhor homenagem que se pode fazer a Duchamp é contestá-lo. Não gratuitamente, mas com argumentos e conceitos pertinentes.

O séc. 20 viveu às custas de três contribuições do sec. 19: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna. O marxismo entrou em processo de revisão,  a psicanálise está sendo reanalisada. Por que   temer a revisão da arte moderna? Uma revisão, enfatizo, não com os olhos do sec. 19, mas do sec. 21.

 

 

A COISA AUSENTE

 

            As pessoas que estão indo ver a retrospectiva de Duchamp no MAM devem estar sentindo uma certa estranheza. Além de não conseguirem conferir  as obras expostas com as teorias e as expectativas que as precedem, estão indo ver uma coisa que não está lá.  Existe um vazio, que se explica, porque na arte conceitual, o conceito é mais importante que a obra. Algumas obras são só o conceito. Por essa razão os objetos que lá estão, o urinol, a roda de bicicleta, o vidro pintado, não têm  uma singularidade,  podem ser substituídos, replicados por outros urinóis, rodas de bicicleta, etc.

             Daí decorre  que esse tipo de obra não é para ser “vista” mas para ser “pensada”. Portanto, insistir em “ver” tais obras não nos dará a chave do enigma. O enigma só será desvendado se pensarmos os conceitos geradores da obra. Não é à toa que, espertamente,   Duchamp era contra  a “arte retiniana” e fazia a apologia do ” homem cego”. Uma análise de tal arte deveria centrar-se nos conceitos que a originaram.

            Mas surge, então, uma pergunta perturbadora: por que esses conceitos nunca foram examinados? Ou melhor: esses conceitos resistem a uma análise? Qual o campo para a análise da “arte conceitual”? Certamente não é a estética nem o campo artístico, até porque Duchamp ambiguamente negava a estética e a arte. Daí surge outra questão intrigante: se as teorias artísticas e estéticas não dão conta desses problemas, em que espaço eles devem ser enfrentados?

            A resposta é: na área da filosofia, da linguística e da retórica. É até possível dizer que a arte conceitual é um ramo da literatura. No entanto, espantosamente, há cem anos que essas áreas ignoram as riquezas contraditórias das falácias duchampianas.

            Trazendo, portanto, o problema para o campo que lhe é próprio, afirmo: Duchamp era um sofista. E os sofistas que prosperaram no  sec. IV a.C.  na Grécia, prosperaram também muito na modernocontemporaneidade. O sofista acredita poder demonstrar qualquer coisa com seu discurso. Pode dizer, como Zenão, que uma tartaruga corre mais que Aquiles  ou, como Duchamp, que qualquer objeto é uma obra de arte. O sofista é um ilusionista da linguagem. Enfrentar o enigma duchampiano é desconstruir o ilusionismo retórico que ele criou. Como alertava Bachelard, há que enfrentar os “obstáculos verbais”. E Lacan,  analisando o conto “A carta roubada” de Poe, dizia que a primeira façanha do ilusionista é nos transformar em personagem de sua ficção. Deste modo, os que estão indo ao MAM ver as obras de Duchamp correm o risco  de   simplesmente caírem numa armadilha verbal. 

            No meu próximo livro “O enigma vazio”, detenho-me pormenorizadamente sobre as idéias e falácias do discurso duchampiano, aprofundando questões levantadas em “Desconstruir  Duchamp”.   Aqui, rapidamente, lembro   duas delas. A primeira falácia é sua definição de “arte”. Numa  entrevista à BBC, em 1968, disse   que “etimologicamente” a palavra “arte” significa “agir” e não “fazer”. Equívoco.  Em sânscrito, no indo-europeu, no grego, no latim, por exemplo, arte está ligada a “fazer”, à “técnica”. Mas nosso Duchamp acha que pode inventar etimologias. Se dissesse que estava inventando, poderíamos dizer como os lusos- ” tem piada”. Mas, não disse. Se bastasse “agir” para ser artista   qualquer pessoa andando na rua seria artista e os animais grandes virtuoses.

                                  

            ARGUMENTAÇÃO EM DECLIVE

 

             A retórica do frasista Duchamp pode ser desconstruída quando surpreendemos nela o que os lógicos chamam de “argumentação em declive”. Douglas Valton diz que ” o declive escorregadio é um tipo de  argumento que começa quando somos levados a reconhecer  que uma diferença entre duas coisas não é significativa. Depois disto, pode ser  difícil negar que a mesma diferença, entre a segunda e a terceira, também não é significativa. Quando esse tipo de argumento começa, pode ser tarde demais para detê-lo: entramos no declive escorregadio”.

É isto que ocorreu com o urinol (“Fountain) apresentado como obra de arte, ou seja,   quando o marchand   Arensberg, a mando de Duchamp, argumentou junto   à direção da exposição, em 1917, que se alguém mandasse cocô de cavalo como obra de arte, teriam que aceitar. Fazia sentido. Deu no que deu. Esta é uma   tática sofista que consiste em encadear afirmações, ilógicas, inverossímeis, absurdas. Se o ouvinte não pára para conferir cada unidade e a des/unidade do conjunto, se verá prisioneiro num encadeamento sem poder achar a saída.

Duchamp exercitou o declive escorregadio quando explicando o “Grande vidro” (-essa obra não terminada e sobre a qual há anotações que os próprios biógrafos chamam de  confusas e inexplicáveis), disse que aquela obra é um “atraso”. Mas como “atraso” é algo que ele não sabia como definir pois tem “diferentes sentidos”, aceitou a  “totalidade deles”; e assim desembocamos naquilo que ele jubilosamente chama de “indecisão”. E a “indecisão” (ou relativismo) de seu discurso sofista é de tal ordem que ele explica que em vez de “atraso”,   poderia dizer que o quadro é um “poema em prosa” ou uma “escarradeira de prata”. Então a obra é tudo e nada, e, sobretudo,  uma coisa que não se sabe o que é­. Assim entende-se porque para ele “tão logo começamos a por nossos pensamento em palavras e frases sai tudo errado”.

 

            Por que até hoje ninguém se dispôs a analisar tolices de certas frases duchampianas, que passam por sabedoria, como essa: “Pode alguém fazer obras que não  sejam obras de ‘ arte'”? Claro que pode, e Duchamp é um exemplo. Por que não se analisa isto: ” a idéia de julgamento deveria desaparecer”. Ou esse outro disparate: “a palavra não tem a menor  possibilidade de expressar alguma coisa”.

            Em Duchamp há um problema central: o problema da linguagem. E não sairemos da aporia que ele criou enquanto não decifrarmos a linguagem do problema. Dentro da estratégia da indecisão, os recursos estilísticos usados por ele eram a homonia( palavras semelhantes com significados diferentes), a paronomásia (grafia e pronúncia semelhante e sentido diverso) e anfibologia (termos ambíguos, obscuros). Gostava de trocadilhos e chegou a colecionar centenas deles . Com isto  construiu armadilhas verbais e conceituais que iludiram cautos e incautos. Desmontar essas armadilhas é desconstruir um mito.  Como    mentiroso paradigmático,  ele ilustra o clássico  “paradoxo do mentiroso”, pois quando o mentiroso diz que está falando a verdade,  está mentindo ou não?  O fato é que seus   solipsismos levaram várias   gerações a uma paralisia do pensamento, ao enigma vazio. Ele é o cultor do oxímoro paralisante, o avesso do oxímoro dialético este sim,  produtor de conhecimento.

           Ter dito ” sou totalmente um pseudo”  serve para absolvê-lo? Ter dito “cada palavra que lhes digo é estúpida e falsa”   o exime de responsabilidade? E o que dizer desta frase dramática escamoteada por seu adoradores: “Este século é um dos mais baixos na história da arte”. Não é ele responsável por isto?

            Individuo sedutor, inteligência brilhante, ilusionista ardiloso,  acabou por fazer com que outros tomassem como sendo  lei universal, o que era seu modo de ver e de ser. Não se lhe pode negar   o direito de ter feito o que fez, ter dito o que disse ou viver a vida que viveu. Isto tinha certo sentido em 1917. O que não se pode é mitificá-lo e deixar de analisar  objetivamente sua obra e   pensamentos    ficando na  deliquescente imitação ou fiel adoração.

            No final da vida ele disse “os anos mudam e não poderia mais ser um iconoclasta”. Entrou então, ao lado de Calder, para  o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Assim o apóstata voltou ao seio da igreja.  É´ como se alguém tivesse a vida inteira garantido aos seus seguidores que não existe céu  nem inferno, e , no entanto, ao morrer, se despedisse cinicamente de sua grei dizendo, desculpem-me, me equivoquei, mas estou indo para o céu. Desculpem-me se infernizei a vida de vocês.

 

(03-8-08.)

EXPONDO AS VÍSCERAS (sobre poemas de marilda confortin e jb vidal) – por joão batista do lago

Tenho escrito, muito vagarosamente, uma tese sobre a coisa poética visceralista, aquilo que entendo como sendo poesia visceral; ou seja, a poesia que surge do instinto do instante (G. Bachelard) em toda a sua brutalidade fenomenal; a poesia que insurge contra verdades exatas ou absolutas, produzidas a partir de um lirismo de tipologia cartesiana ou kantiana; a poesia que se inscreve e escreve a política e a história na “carne do mundo”, onde o real se mistura à realidade, subvertendo assim a realidade dada, ajustando a poesia e o poeta ao campo de mundanidade – (Merleau-Ponty).

 

Evidentemente que enfoco tudo a partir de uma abordagem epistemológico-fenomenológico-existencial (se é que assim posso conceituar), partindo sempre de fenômenos imagéticos, noutras palavras, dos desenhos ou das imagens que “o texto poético” causa em mim: sou, assim, um caçador de imagens ou um arqueólogo de sombras existentes nas carnes poéticas. O que quero inferir com esta minha frase é que, não tenho quaisquer preocupações com “campos psicológicos ou psicanalíticos”. Acho-os, em verdade, representações de puro “significantes vazios”.

 

Neste artigo, e de forma extremamente superficial, tentarei demonstrar este arcabouço epistemológico-fenomenológico-existencial, partindo da poética de dois poetas que “caminham” por este espaço: Marilda Confortin e J.B. Vidal. Dela utilizarei a poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”; e dele, a poesia “Ofertório-Dor”. Ah! Como eu gostaria de ter escrito essas duas poesias! E mesmo sem tê-las escrito tenho a “impressão” que elas foram escritas por mim! E mesmo sem tê-las escrito elas estão em mim “encarnadas” com todos os seus campos de “mundanidade”, com todos os seus “pré” e “pós” políticos e históricos, me levando a cada leitura às imagens já registradas, bem assim, à criação de novas imagens a serem criadas. E é tudo que peço aos leitores: que captem as imagens contidas em ambas: Vejamo-las:

 

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS…

 

Marilda Confortin

 

Dias em que o corpo

me castiga

por eu ter exercido

o poder divino

de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias

de terra amaldiçoada

que não fecundou

nenhuma semente

dentre as milhares

que foram plantadas.

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Hoje estou naqueles dias

em que Deus me usa

para abortar a humanidade.

Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

 

OFERTÓRIO-DOR

 

de jb vidal

 

a dor que ofereço não foi provocada

nem apascentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os anéis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

*****

 

Convido-te agora, caro leitor, para, comigo, construir as imagens que ressaltam destas duas poesias. Mas, antes levantemos uma questão que se me parece indispensável e fundamental para a pintura deste quadro: em que ponto os dois “sujeitos” que falam na poesia cruzam e se entrecruzam nos seus caminhares? Em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos?

 

Resgatemos, pois, as imagens que ressaltam destas duas poesias: a) o ponto de cruzamento e entrecruzamento dos dois “sujeitos” que falam nas poesias é, exatamente, o ponto da libertação de suas dores. E com que força eles gritam essa libertação! É tanta e quanta que (penso!) nenhum ser humano escapa ou escapará das palavras vérsico-sálmicas de ambos: (Marilda) – Hoje estou naqueles dias/em que Deus me usa/para abortar a humanidade./Me deixe chorar, sofrer e sangrar só. (Vidal) – ofereço a dor do amor que amei/da partida sem adeus/da saudade sem sentir/da espera inquietante/do futuro irrelevante/da ânsia divina de morrer.

 

Há ou haverá sublimação maior que esta, ou seja, em que os dois “sujeitos” que falam nas poesias se oferecem como “um cristo” oriundo da mundanidade, para “abortar a humanidade (Marilda); da ânsia divina de morrer” (Vidal)? Que imagem (ou imagens?) fenomenal! Só mesmo os poetas conseguem considerar a imaginação como potência maior da natureza humana.

 

Mas continuemos construindo as imagens que nos sugerem os poetas. Consideremos agora a segunda questão: b) em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.

 

Você, caro leitor, pode até imaginar que eu estou falando de um campo metafórico. Contudo ouso dizer-te: não! Não estou aqui me referindo a metáforas – muito embora ela se configure implicitamente -; mas à existência dos “sujeitos” das poesias que fazem (e dão) sentido; falo da existencialidade; falo do real e da realidade, desse mesmíssimo real que subverte a realidade, para ser a realidade do real: a casa-corpo no seu pleno movimento de formas que surgem a cada instante do fundo de si: (Marilda) – Dias em que o corpo me castiga; (Vidal) – Esta dor maior que o corpo. Que imagens! Que imagens! Fantásticas! Perceberam o movimento dialético dos versos que são, per se, construtores de novas imagens? Senão vejamos: (Marilda) – corpo X castigo; (Vidal) dor X corpo. Quantas imagens surgem na mente a partir dessa dicotomia dialética!

Passemos para a terceira questão proposta por mim: c) qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Muito embora fosse prudente falar dos vários quadros que poderiam ser pintados, sugiro que me acompanhem no raciocínio de apenas uma imagem. Os “sujeitos” que falam nas poesias nos sugerem quadros pintados com a cor vermelha em suas “nuanças” várias. Mas aqui podemos ressaltar (também!) que tais “nuanças” não sejam pura e tão-somente matizes figuradas. Não. A cor vermelha que sobressai da imagem que crio é sangue puro… vivo… correndo por todas as veias e saltando por todos os poros para significar uma matiz existencialista, como nos mostra esta estrofe da poesia “Ofertório-dor”, do poeta JB Vidal:

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

ou como nos diz a poeta Marilda Confortin em sua poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”:

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Que imagens! Que imagens! Fantásticas imagens! Fenomenais!

São imagens assim que nos remetem à inferição de Gaston Bachelard: “a Filosofia da Poesia (…) deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento (…). A imagem poética não está sujeita a impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundeza esses ecos vão repercutir e morrer. (…) a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio. (…) a imagem poética terá uma sonoridade de ser. O poeta fala no limiar do ser. (…) a imagem poética é, com efeito, essencialmente variacional. (…) a imagem não tem necessidade de um saber (…) é uma linguagem criança. (…) Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário; nem a percepção, no modo psicológico”.

 

Talvez pensando nessas palavras de Gaston Bachelard foi que C.-G. Jung declarara: o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico , um exemplar que porta um número determinado da psychopathia sexualis. Assim, a psicanálise da obra de arte afastou-se do seu objeto, transportou o debate para um âmbito geralmente humano, que não é de forma alguma específico do artista e principalmente não tem importância para a sua arte”.

 

Quanto às duas últimas questões por mim propostas – Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos? -, caríssimos leitores, se vocês perceberem bem elas se encontram imbricadas no contexto do texto. Transformaram-se, naturalmente, em questões intertextuais.

 

 

veja o poema  de marilda: AQUI

veja o poema de jb vidal: AQUI