Arquivos Diários: 26 agosto, 2008

O FREI VOADOR ou o noviço rebelde – por jb vidal

 

 

 

certamente ele queria estar mais próximo da aventura do que de Deus. servir ao Senhor seria aqui, em baixo, na terra, em solo, na igreja.

 

ver o mundo “de cima” como os governos, os poderosos (sic) e quem sabe ver como Deus vê. certamente tudo que lhe vinha aos pensamentos era eletrizante, fascinante, algo que nunca sentira mas imaginara. fantástico. recorde. guines!

 

por que não? e ainda, por algumas horas, perder contato com a realidade dos pobres, dos sofredores que lhe acudiam desde as primeiras horas da manhã, exalando álcool, éter e loucura, outros, desesperança, fome e suicídio.

 

por que não? afastar-se das carpideiras, rezadeiras, puxadoras, não de samba nem de baseado, pior, de ladainhas intermináveis que até os santos se fazem de surdos.

ausentar-se da hipocrisia das senhoras first class xeirando à xanel nº5 das três fronteiras e de seus xás beneficientes onde oferecem mais desfiles e fuxicos do que esmola. de lambuja, se distanciaria, dos candidatos a prefeito e vereador, todos em fila indiana a pedir-lhe os votos de quem comunga, não comunga e excomunga, a benção sagrada sobre aquela urna desgraçada que irá receber os votos, e assim conter um X divino no seu nome.

 

por que não? sentir e ouvir o silêncio total das alturas, usá-lo, respirá-lo, absorve-lo e refletir sobre o que foi vivido até então; distante de tudo o que poderia influenciá-lo, tv, rádio, jornais, senhoras pecadoras, crianças mijadas, mendigos sujos, pecadores que não pecaram, virgens putas, putas santas, homens cínicos, hipócritas, falsos, corruptos que se consideram espertos, pessoas enfim que formam o mar de lama em que convive.

 

por que não? quem sabe essas poucas horas nas alturas fossem o mais importante momento a ser vivido? ser uma ave de arribação, voar a rota completa, ver abismos e penhascos como pontos de descanso, falar e não ser ouvido; quem sabe, de lá, pudesse compreender a humanidade? e, aí, não desejar mais retornar?

 

quem sabe?… por que não?…

 

– soltem os balões!!

 

 

 

 

             arte livre. ilustração do site.

ROPA USADA poema de francisco cenamor – Madrid/Espanha

yo me llevo la ropa usada

otros se llevan mis regalos

los besos, las caricias

la piel joven

 

se quedan el dinero

la posición social, el buen coche

la casa, el perro, los niños

las noches de amor

 

se quedan también mis ideas

mientras me asolan mis actos

ella se va con otro en el coche

mis manos se alegran

con su ropa usada para mis pobres

 

a mí me quedan mis niños y niñas

que un día me hacen tocar el cielo

para bajarme al día siguiente a los infiernos

si es que hay varios infiernos abajo

y un solo cielo en lo alto

 

mi familia también me queda

junto a esa pléyade de amigos y amigas

algunos de los mejores

 

también me queda dios

por eso ellos pasan con sus coches

mientras yo permanezco

con mis bolsas de su ropa usada

 

vale, sí, me duele

pero no me duele por sus coches y así

sino por ella, o sea por mí entonces

porque no podré sentirla, sólo quererla

por qué no podré sentirla, sólo quererla

 

 

Del libro Amando nubes (Talasa Ediciones, Madrid, 1999)

 

POEMA DE DESENCANTO – de leonardo meimes

Se, pelo menos, eu pudesse fazer um soneto.

O soneto que todos se lembrarão.

Um que as pessoas pedirão para ouvir,

Para bandas musicarem e amantes cantarem.

 

Um soneto para lembrar as pessoas da paz?

Ou um para falar de amor?

Talvez alguma coisa sobre a Terra…

Eu preciso que seja real, só o que eu preciso.

 

Eu criarei cada linha como se fosse uma parte do meu coração.

……………………………………………………………………………………….

Vou chorar por cada linha,

Um rio de criatividade,

  Um rio de dor.

 

O soneto solitário,

O soneto quebrador de corações,

Um para falar dos humanos

E fazer o verdadeiro sentimento

Vir a tona como lagrimas.

.

                                                                        .

Mas não um soneto como todos os outros.

Um soneto que não precisa estar em nenhum padrão,

Sem limite de linhas, sem forma para seguir.

 

Eu quero um soneto livre, real e expressivo.

Um para amantes, professores, garotas…

Poesia para se viver com e esquecer o resto.

UMA LINHA D’ÁGUA poema de lilian reinhardt

                              

Com esta pele d’água
te bebo   no espelho,
além da transmigração dos segredos,
além dos estranhos reinos dos ossos,
entre os esboços das rosas,
no rosto do chão,
na noite marinha da montanha,
na fermentação do absoluto magma da fera,
essencialmente na lâmina do tempo,
nesta linha perdida d’água!…

ORIGENS poema de vera lúcia kalaari – Angola/Portugal

 

 

 

Eu vim da terra dos traídos

Vim dum monte de sonhos destroçados

Vim de cidades em ruinas

Dum bando de famintos revoltados.

Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.

Fui choro, fui pranto de muitos lares,

Fui o roçar de facas, de chibatadas.

Entrei nos templos, p’ra  achar pureza,

Desci às ruas, p’ra conhecer tristeza.

Fui bandeira branca, desfraldada,

Fui lágrima de noiva abandonada.

Fui grito de dor, brado de morte,

Fui brinquedo morrendo com um menino.

Fui solidão e fui miséria

Fui flor de sangue derramado.

Eu vim da terra dos traídos…

 

Da terra sem lares, ou maternas mãos…

Sem portos, sem ruas, sem amores,

Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas…

Vim dum bando de crianças inocentes

Qu´esperavam com fé p´la madrugada,

Que não conheciam ódios raciais

E tinham direito à sua sobrevivência.

Eu sou a que está convosco, incompreendidos,

Que não querem curvar-se ao cativeiro,

Que querem ser livres, encontrarem-se,

E acreditam que num futuro aurifulgente,

Num mundo sem ódios, nem concessões,

Tudo será melhor, será diferente.