Arquivos Diários: 27 agosto, 2008

FILOSOFIA poema de garcia de garcia

 

 

não sirvo-me do pensamento alheio

alimento-me dos meus,

nascidos na história do meu viver,

do meu olhar cósmico,

 

não seria eu se fosse o pensar de outros

seria eles,

 

não sentiria eu, sentiria eles

não veria o mundo, veria como eles

 

não, sou eu próprio

com meu próprio processo,

 

engana-se quem crê no que outros pensaram

apenas reprisam,

anulam-se,

não são,

 

e não sendo

 

[….]

 

nulos!

RELANCE poema de seth báratro

Olímpico e alheio aos olhos impudicos
meu pênis inflado é objeto de gratidão:
nunca se estafa, no maior convencimento
engalanando seus propósitos lúbricos;
pelo mais ao menos não me deixa na mão.
Destarte, assim vai exaltado em tempo.

Destino injusto que me foi traçado
todos reconhecem no caralho o rei
da espécie e boceta apenas o seu fado;
de toda experiência tida apenas sei
que a cada um se reserva conquista:
o homem enfraquece, a mulher lista
sai de uma cama para o dossel ao lado.
Portanto tal homem vazio enfurece,
por desmerecido se não lhe batesse.

Gloriosa a divina boceta da Sílvia
jamais deixou a desejar se excitada
teve homem com a glande esfolada
houve mulher gemendo à recidiva.
E nem tão pouca glória se completa
se uma bela se bastasse na punheta.

VOLÚVEL poema de marilda confortin

 

Tem hora sou da paz.

Quero casa,

casar,  czar,

morar num harém,

ser oásis, caça,

presa, amélia, amém.

 

Outra hora quero guerra,

pena de morte,

porte de arma,

tormenta, fogo,

terremoto, correnteza.

Pura brabeza.

 

Tem hora creio em buraco negro

camada de ozônio, câncer no seio

falta de hormônio, aids, escorbuto

corrupto, degelo, desgraça

apocalipse… Vixe!

 

Noutras acho graça

de tudo que disse

quero viver mais cem anos

fazer planos,

plástica, ginástica

poesia, música

teatro, cinema

amor.

 

Ontem te amei

Hoje não sei.

 

EDU HOFFMANN e seus HAICAIS

poeta nua

 

      no moon

 

        da lua

 

 

=

 

 

                      lado         a         lado

 

                         sobrevoamo-nos

   

                             abismados

 

 

 

=

 

 

                 intacto

 

 

          apenas o coração

 

 

              do cacto

 

 

=

 

 

 

                pequeno acrobata

 

 

                       o tudo

 

 

              num brinquedo de lata

 

 

=

 

 

 

              sombra no jardim

 

             ave chama contente

 

                minúsculos sóis

CANTATA EM SOL MAIOR poema de bárbara lia

Como quem clareia sonhos
com o fogo de deuses desgarrados
fecha-se em silêncio?Na solidão da montanha desenha
a partitura que incendeia
a noite das Bacantes
e os orgasmos das sereias.

Eis o poeta: Alquimista
que filtra a alma da rosa
no bosque dos invisíveis.

E a adormece, à distância,
cantando anil ao celular
uma canção de McCartney:

Day after day
um homem sozinho
em uma montanha.

Day after day
vendo o sol se por
os olhos na memória do mundo.

Day after day
a voz do homem da montanha
tal qual na canção
– uma centena de vozes
falando claramente –

A CORNUCÓPIA OFERECIDA AO POETA – por jairo pereira

Teu cu Senhor dos Precipícios. Pótria cloaca a céu aberto. Deixo o prato cheio pra epistemólogos, semiotas, críticos, exegetas e xeretas em geral. Quando o prato resta cheio, até os santos desconfiam. Mas é o q. deixo deixarei no futuro aos pulhas. Meu prato cheio do melhor alimento do espíritho. Ainda não me leram em vida. Nem lerão os crástimos letargidos. A vida é dos güentadores e güento, os piores espinhos. Num único livro, escrevi e reescrevi trezentas vezes o mesmo poema, só pra encher o saco dos tolos. Nem perceberam a fraude institucionalizada nos fins. Comigo é assim, não deixo pra depois o q. é de se dizer hoje. Meninos, não sabem vós um décimo da reza, quando li as inscrições nas pedras da caverna e depois abduzido, andei por aquelas estrelas cults, cheias de módulos oferecidos aos transnautas como eu. Meninos, vi as espheras em piscas-piscas, reflexos de reflexos sígnicos, tudo assimilei, conformei, desconstrui. Meninos, a poesia é mais do q. almejam os beletristas. Mais do q. sequer imaginam os acadêmicos e diluidores. Mais q. ornamento e prenda. É mais q. linha direcionada a um fim de não ter fim, ser só-linguagem. Linguagem em estado de fonte, matriz, vertente dos contraditos. Quando vi, estava só, sem família, e o poema não tinha o q. comer, beber. Vertigem essa viagem transfulgínia, em busca da linguagem a denotar teu tudo. Quando senti, um cosmos se abriu a minha frente. Um cosmos, um emaranhado de fios invisíveis, com miçangas, ou tipo miçangas, onde era de se colocar sentido, significado, sonâncias… Me abro com o indizível, o imprescrito, o irreversível, de fato sobre fato, matéria sobre matéria, e acelero o ímpeto (renovado) em cada gesto. Poesia brinca com isso, sim Senhor. Adentra searas virgens, contempla despenhadeiros, reconstrói edifícios, só por prazer. Tive medo de enlouquecer naquelas prospecções: a vez q. fiquei no Asteróide ZHUFPHIZT’S 109, e as espheras de significados difusos, ardiam em minhas mãos. Cada esphera um conjunto de significados/significantes, signos rotativos, a refletir linguagens recém-criadas no teto da nave. Outra vez, admirei a fossa imensurável, onde as linguagens eram desovadas, de ciclo em ciclo. Linguagens atiradas fora. O lixão dos signos em desserviço naquele sistema estranho. Olhei os pequenos corpos esphéricos ainda em luminiscências cálidas naquele imenso fosso. Morreram muitas linguagens ali, muitas almas sígnicas, contritas pra sempre no grande canion. O fisgador de espheras apareceu por ali, pálido, superconvicto de q. poesia necessita disso, dos novos signos, como vespas transitoritas, acidentalícias. Fisgo espheras como quem fisga peixes no super-piscoso pantanal. Cada corpo comunicante, daqueles do lixo-espacial, me acrescenta signos novos. Não serei, não posso, ser compreendido. Um ser assim, passado do ponto, em suas razões, fisgador de signos (espheras matriciais) andar a solta na vida. Muitas almas tresenquistas, condenam-me aos infernos e purgatórios de Dante. Selva

selvagem selvagínia, buceta bucetânia bucetínia, cresci revendo as almas q. significam sem expressar vida. Vivi com meus tormentos, a discernir os códigos inescritos. Meus pais me viram ali, com menos de seis anos, em pesadelos horrendos, visitando esses mundos, onde tudo é des-é, transignifica. A tela no céu de minha convulsa mente, era monocromática no pior amarelo-solar. Amarelo, amarelo… Por isso agora, quando entro pra dentro dos corpos aparentemente gélidos dos signos, e encontro vida ali, vida de força de investimento, nos atos, fatos, pensamentos, entendo q. a missão não fora vã. Um louco com seu cavalo, um louco como um messias protovérbico, espelhado de luz estelar, correndo desertos de almas, pra ver onde a energia mínima se concentra. Dentro do signo, já limpei paredes, tracei projetos, esbocei construções singulares. Dentro do signo, me perdi e me encontrei. Não há morte na vida dentro do signo. Não há morte, não há sofrer, não há ilusão de vida sem sentido. Ali me refugiei com minhas almas-irmãs, minhas almas, meus cães, meus cavalos, meus versos queridos, extraídos de obras de amigos. Ali foi q. inventei de inventar o antilugar, só pra ver no q. ia dar. E deu, se transtornar, se entorpecer, de realidades díspares, transvivências, iluminações, tudo q. é, está, longe do lugar comum, da primeira e segunda nathureza. Inventei de inventar nathurezas transversas nos meus ditos. Um perigo, só correr, desesperar sem motivo. Reflexo no reflexo no reflexo, foda Sr. dos Precipícios, com sua pótria cloaca a céu aberto. Nenhum dinheiro, cala meu canto orfiothermotercial. Nenhum poder e asco, emudece minha voz, transvoz, tubervoz, na veloz empreitada do fazer sem precedentes. Me precederam almas transitas, turboanímoras, de outros orbes. Me precederam com obras erigidas em transmundos. Obras sobre obras, perdidas no vasto universo dos signos. Depois da terceira grande explosão cósmica, muitas obras se perderam no caos. O caos q. organizou-se em caos novamente, e ofereceu-se a vida. Vc físico de aluguel, não entende eu sei, o q. poesia tem a ver com isso. Tudo e nada, é o q. sempre direi, em meus relativismos de inteligência. A poesia, era apenas vento e poeira cósmica quando os mundos se erigiram em matéria consistente. A poesia, errante ser no cosmos. Os transpoetas das estrelas, esqueceram as ferramentas do fazer, e as obras deambulavam os espaços, acidentalmente, como em apoteóticas aparições. Antropomísticas minhas miragens interiores, quando penso nisso, e em tudo quanto foi, fui naquelas imensas clareaduras estelares. Bem q. meu filho poderia estar ali comigo, nossos pobres cavalos, encilhados no básico, visitando estrelas de muito capim. Não tenho jeito pra essas coisas de só-razão nos ditos. Sempre comecei ensaios com razão e terminei em ficção das mais ficta inverdade. Não há grilhões a manear os loucos intuitivos. Um poeta, poetar armadilhas do pensamento. Na philosophia me encontrei, na philosophia, menti e não me penitenciei, na antropologia matei e comi aqueles animais peludos, de príscas eras, na psicologia repeli energias invasoras, íncubos & sucubos, tudo o q. pensei não pensei, disse, desdisse, esteve ali em minha mente, como um tratado só-firmado pro próprio tratadista. Há os loucos investidos nisso, sim, os loucos-bons, como eu, inventores do desinventado, compondo mundos novos no transespaçotempo. Cuidado, vc. q. acha me conheceu, conhece-me. Cuidado, vá com mais calma em suas conclusões. Transei transmundos com minhas invenções e não sei porque parei aqui. Parar aqui, nessa terra de meu deus e de nossa esperança, uma escala pra outra aventura no tempo. Vou pegar os últimos signos do meu tempo, as últimas espheras q. vejo nos grandes fossos do pensamento desutilizado, e criar uma lânguida deusa pra poesia, numa grande escultura trans-semiótica. Ninguém jamais ouviu falar do cara q. fez isso, naquele tempo. Do cara q. de tanto ver a poesia no chão da simplitude, subserviente & solíptica de linguagem, resolveu provocar o quinto big-bang dentro de si. Q. os reflexos reflexos quintessências do mesmo corpo implodido em mim, atinjam no espaço as almas refratárias de linguagens. Muitos corpos-almas, conquistados pro nosso mundo Sr. do Superlux. No superlux me dispersei, imortalizei, alma alucinada com as espheras transignificadas. Divulgo formas nos horizontes crispados de veios subterrâneos. Divulgo estrelas no teto da caverna. Divulgo cenas míticas, centauros gordos nos salões pomposos, unicórnios nas fontes de águas cristalinas. Divulgo mulheres leitosas e nuas, confundidas com esculturas de gelo, nas estepes. Caio em transes repetidos, quando conspurco contra o intelecto. A cornucópia prata está cheia do sangue dos inocentes, do sangue dos poetas recusados. Como um deus de mentirinha, bebo da nova e gloriosa vida da poesia. Bebo três goles do líquido espesso. Três goles e três arrotos, subseqüentes. Avante camaradas! Longe de mim, os q. só agiram para o certo, o determinado, os q. só perseguiram verdades matutinas, quando a noite grande deitava signos como imensas nuvens de gafanhotos negros. Um poeta paranormal, sabe muito bem do q. estou falando, do q. sinto, transmito em minhas sãs preleções. Desconfie, dos q. não amam, dos q. não cantam, não dançam, não emocionam. Soy fantástico, patético e particular, como disse-me um de meus filhos, certa vez. Não há razão onde há só razão. Não há conflito onde há só conflito. Não há dialética onde há só diálogo. Não consumo o produto de tuas oficinas, Sr. dos Precipícios. Roupas, relógios, carros, tvs, calçados, merenda escolar. As  embalagens de cliclet’s condizem com tua ira insana. Na penúltima noite da verdade, menti pra mim mesmo, q. o SOL esse SOL soliníssimo de segunda-feira, vai clarear pra sempre os meus caminhos. Sobre a imensa pedra do deserto, um ser esmerilando signos. A contingente realidade do meu futuro. No amplo deserto da poesia, um ser inglorioso, a esmerilar os signos. Continuo não acreditando, nos monstros dominadores dos signos. Almejo vencer o desvencido: o poder q. nos rouba a energia-matriz da criação. O poder q. desencanta e atormenta o criador. Intenciono, tenho fibra e coragem pra isso. Melhor fazê-lo com poemas, e é o q. farei.

 

jAirO pEreIrA

Autor de O antilugar da poesia,

O abduzido e outros.

 

 

BRASIL GARROTEADO PELA DITADURA por walmor marcellino

DO(S) FUNDAMENTO(S) DA LEI

Qualquer arbitrista pode conseguir impor-se pela força das armas, fazendo-se assim um suposto “jus-agendi”, mas suas decisões não conferirão legitimidade e direitos a seus atos. A desrazão não pode produzir lei positiva. Como uma vaca não entende de leis e uma vaca fardada desconhece o que seja um consensum constitucional, eu (não sendo uma nem outra) quero dizer que farda ou fardão não confere ao engalanado invólucro e à coisa dentro o direito de legislar e jurisprudenciar. Ouço mugidos que repercutem desde o Clube Militar e vejo que remanescem os magarefes políticos, e os coices-de-mula mantêm sua associação conspiratória para o crime.

Se um manipanço chamado Humberto de Alencar Castelo Branco foi alçado ao poder nacional em 1964 por um golpe de traição a serviço de potência interventora, ele e a sua camarilha de fardão e gibão não constituem uma corte de justiça. Partamos desse princípio, para assim argumentar com os nacionais, o povo brasileiro, os contemporâneos a respeito desse dejeto ditatorial chamado “Lei da Anistia”. Em primeiro lugar aquela canalha títere do Departamento de Estado dos EUA promoveu excrescências legalizadas, mas não outorgou a nossa Constituição, seu preâmbulo, artigos e cláusulas; embora seus herdeiros continuem mostrando considerar-se tutores da República e até da Constituição de 1988. Ainda que uma conciliação oportunista os venha querendo sancionar.

A Constituinte de 1988 reorganizou a nação brasileira estilhaçada pelo fascismo de 19641986. A partir do mando nacional restaurado, o Brasil se tornou pátria de cidadania livre e independente, regida por sua própria vontade. Todos os atos e procederes que envergonharam a nação foram de aí proscritos.

Todavia os crimes infames de ofensa aos direitos humanos, entre eles o de tortura, esses não têm prescrição conforme nossa adesão à Carta das Nações Unidas. O direito internacional não confere ex vi a torcionários, escroques e assassinos o direito (ou imposição permanente) de anistiar-se, o direito a salvaguardas como “agentes encarregados de cumprir seus próprios mandamentos” de violência e crimes de toda sorte. Assim, enquanto a vontade nacional não prevalecer sobre os arreganhos fascistas e as ameaças de tutoria não teremos firmado o marco zero da nacionalidade que julgávamos estar claro na redação constitucional de 1988 e seus progressos.

Afinal, quem são esses capitães-de-mato e mercenários a martelo, essa malta que se está opondo ao País? Estão refazendo atos adicionais e leis complementares à Carta Magna? Serão templários, agentes confessionais, que se autoqualificam como “delegados” da lei e da ordem, contra o povo brasileiro?

 

BRENNAND: A CATEDRAL BRASILEIRA – UMA POÉTICA TRIDIMENSIONAL DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA / por flávio calazans

 

“Eu não me envergonho de ter fabricado meus próprios brinquedos.”

Brennand apud Jacob Kintowitz, página 34.

 

Em Pernambuco, minha namorada insistiu em levar-me para conhecer uma fazenda na periferia de Recife,  a “Propriedade São Cosme e Damião”, cerca de uns 20 quilômetros do centro da cidade; Lá fica o atelier do ceramista internacionalmente reconhecido Francisco Brennand.

 

Na verdade, eu já tinha vislumbrado a obra do artista contemporâneo Brennand, como todos os que desembarcam pelo aeroporto de Guararapes, pois lá é impossível não ver o enorme mural de Brennand; vi outro mural dele na Rua Nova, centro de Recife,  um exemplo de muralismo, retratando as duas batalhas de Guararapes, quando expulsamos meus loiros ancestrais holandeses; de quem herdei a memória genética dos olhos claros, misturados aos loiros italianos de Turim no porto de Santos, em São Paulo.

 

Porém, estes murais não podem ser comparados à experiência estética e espiritual que é  andar pessoalmente dentro da obra viva de Brennand, é esta sensação que quero contar, provocando você a visitar e sentir esta arte brasileira tão pouco divulgada.

 

Uma estradinha de terra passa sob um túnel de copas de árvores que juntam-se sobre a estrada, já criando um clima na entrada da fazenda, uma sombra úmida cujo frescor chega aliviando-nos do sol ardente e abrasador de Recife, uma sensação de acolhida, boas vidas, aquela hospitalidade familiar nordestina que nos faz sentir à vontade, como um abraço carinhoso e feminino…talvez esta impressão tenha ficado pela minha percepção estar enevoada por estar apaixonado e com minha namorada dirigindo e trocando carícias e beijos eu sentia-me muito mimado, inebriado, como só uma mulher nordestina sabe fazer para seduzir seu homem.

 

A fazenda parece uma cidade, com vilas de casinhas térreas bem antigas e muito movimento, dois quilômetros depois surgem enormes chaminés erguidas como arranha-céus ou símbolos fálicos fumegantes, são fábricas de azulejos e pastilhas às margens do rio Capibaribe, a família Brennand produz por gerações as cerâmicas comerciais para o setor da construção civil, iniciada em 1917 como fábrica de telhas e tijolos, com galpões imensos, gigantescos depósitos cuja fachada e arquitetura é idêntica aos edifícios ingleses da revolução industrial, ainda existentes em Bristol, com arcos românicos que já evocavam algo de sacro ou medieval; o patriarca Ricardo Brennand fundou a fábrica e colecionava porcelanas, inclusive chinesas, e isto contagiou o filho Francisco Brennand.

 

A entrada do Ateliê tem seguranças e uma loja de souvenirs com duas funcionárias, vendendo catálogos de exposições, livros de e sobre Brennand, vídeos, cds musicais inspirados em suas obras, camisetas, posters e até peças originais com a grife,  assinadas por Brennand, nada ficando a dever a Museus internacionais como Prado, Louvre ou Museus de um autor como o Rodin em Paris.

 

Já no primeiro pátio vem o impacto desta obra em processo, uma praça que demonstra os espaços generosos, a amplitude luxuosa de vazios, os jardins imensos que recordam a arte zen dos e-makimono e pinturas taoístas, gramados infindáveis pontuados por totens vigilantes, estátuas imponentes e severas como as Mori da Ilha da Páscoa no oceano pacífico, como um exército guardião do espaço sagrado em que entramos e que minha namorada percebia como símbolos fálicos, pênis eretos em uma exaltação ao poder masculino, e ele fez-me dar várias voltas no conjunto de estátuas para convencer-me da semelhança com membros viris, que eu só com muito esforço poderia vagamente perceber assim (para mim ainda são soldados que recordam peças de um tabuleiro de Xadrez: Peões com capacete de conquistador espanhol, Bispo e até  um Rei de cartola capitalista, como se parte de um jogo em andamento jogado por Deuses enormes cujo tabuleiro era a grama em que pisávamos), a interpretação de minha namorada partia de um horizonte de perspectiva feminina, aceitei intrigado e com ressalvas, e em muitas das cerca de mil e duzentas obras expostas ela repetia esta perspectiva com a qual eu discordava, mas foi interessante constatar esta visão feminina.

 

Algum tempo depois li na revista VEJA de 18 de agosto de 1999, página 45,  que Brennand estava fazendo um farol ou torre em Recife, um monumento em comemoração aos 500 anos do “descobrimento” do Brasil, e surgiu o escândalo quando o esboço teve seu desenho  alterado para parecer um minarete árabe, ocasionando uma carta aberta de Brennand aos jornais dizendo que “não tenho mais idade para ser censurado”, os jornais descobrem que a obra fora alterada por ordem da Primeira-Dama do município, Jane Magalhães, religiosa, advogada e defensora dos bons costumes que exige ser chamada de “DOUTORA JANE” até mesmo pelo marido, a doutora teria achado a forma do totem muito semelhante a um órgão masculino excitado; a doutora também teria vetado desfiles de moças vestindo biquínis no concurso Rainha de Recife do carnaval; este escândalo confirma que mulheres teriam mesmo a percepção de genitais do sexo masculino nos totens de Brennand.      

 

Mais a frente uma imensa fonte esguicha torres de água jorrando com força e sonoramente, circundando um obelisco ou totem que também é percebido como um falo por minha amada, falo gigante cercado de falos menores, estes do tamanho de uma pessoa adulta de pé.

 

Já no segundo pátio, à direita, são paredes afastadas uma da outra em um pátio que, somente aos poucos, virando muitas vezes a cabeça, perplexos pela magnitude do espaço, percebemos formar um conjunto imenso, delimitando um espaço sagrado, um saguão que vai sendo, camada a camada, sentido como a NAVE de uma imensa e descoberta IGREJA ou TEMPLO a céu aberto…evocando memórias de templos indianos e chineses, de uma outra tradição…ou talvez até de uma Reconstrução do mítico  Templo de Salomão em Jerusalém, aquele desenhado pelo arquiteto Hiran…ou mesmo o mausoléu indiano TAJ MAHAL com seus espelhos de água nos jardins frontais.

 

Neste Saguão ou NAVE é onde passeiam livres três anjos da guarda de plumas negras, três lindos e elegantes cisnes negros nos seguem com um olhar severo e vigilante, como parte viva desta obra única, que poderia ser chamada até de faraônica sem com isso ser pretensiosa, pelo contrário, sua importância passa despercebida, e é aí que reside sua força e verdadeiro poder.

 

Espelhos de água enormes como piscinas  revelam-se como aquários povoados por miríades de CARPAS vivas e coloridas, dançando lenta valsa no lago circundando o ovo da abóboda azul em cuja sombra repousa a TRINDADE de cisnes negros ao sol do meio dia, fazendo do espetáculo arquitetônico um ser vivo e orgânico.

 

As carpas são animais simbólicos, no oriente equivalem ao SALMÃO dos celtas, representam a sabedoria, a alquimia taoísta da tranqüilidade e longevidade, pois ultrapassam os cem anos de idade, nestas lagoas vivem comunidades de carpas, flutuam lentamente tais cardumes de carpas de todas as cores e idades-tamanhos, em um convite à meditação zen, a sair da mente estressada que vive remoendo remorsos e re-escrevendo fantasias do pretérito imperfeito e projeções de um futuro improvável, para ficar no PRESENTE PERMANENTE dos alquimistas e sufis, dos taoístas e zen-budista, o aqui-agora. 

 

Somos suavemente conscientizados de estar DENTRO da obra de Brennand, contemplando um complexo conjunto orquestrado de arquitetura sacra, inacreditavelmente projetado e realizado por um homem sozinho executando um CONCEITO, uma obra hercúlea que nos abriga como um útero, que nos cerca e abraça com ternura e força, sem ser ostensiva e sem que percebamos sua imponência…um espaço que evoca STONEHEGE dos Druidas Celtas e sua harmonia com a floresta, seu culto panteísta da natureza (mais naturalmente e de modo vivenciado e visceral do que a filosofia de Spinoza) com Menires e Dolmens.

 

Este pátio que apresenta-se como uma humilde exposição, secretamente é uma lição de vida, mil mensagens em um livro de pedra e céu aberto, oculta por estar escancaradamente aberta para quem souber relaxar e sentir…um pátio que transcende nomenclaturas e classificações da mente racional, mente que luta por chamar de INSTALAÇÃO por convidar a entrar nela, de RITUAL ARTE por delimitar um espaço com símbolos como as performances ecumênicas de um Alex Grey (“Sacred Mirrors”), de BIO ARTE pela  presença dos cisnes e das carpas…de  ARTE SACRA pela abundância de simbologias,orçando analogias com ESCHER, Willian BLAKE e outros artistas, até que, vencida, a mente consciente relaxa e o inconsciente pode fluir entre o desfile de arquétipos e figuras ancestrais e arcanas.

 

Brennand demontra uma extensa erudição em seus livros e entrevistas, impressionam as citações, por exemplo: em uma parede um mural de lajotas quase tridimensional põe em relevo as letras de uma frase: “The horror, the horror” últimas palavras do Coronel Kurtz no  livro clássico de Joseph Conrad “Coração das Trevas”, livro filmado com John Malkovitz e que inspirou Copola no filme “Apocalipse Now”.

 

“Coração das Trevas” de Conrad é um livro que fala da civilização e do instinto, de um inglês caçando marfin no Congo Belga para uma companhia comercial colonialista; Kurtz é um poeta, pintor e musicista (que toca instrumentos musicais), um militar com vocação de cientista e com hobbies artísticos que imerso na selva encontra o mistério da vida; Assim iluminado, como um Buda Guerreiro, é incompreendido e ao falecer sussurra esta frase enigmática, pontifica esta sentença em seu último suspiro, quase um koan japonês, frase que inspira centenas de interpretações pela história da literatura, uma OBRA ABERTA como diria Umberto Eco…

 

Assim, este livro é um incômodo para todos os caucasianos, nós, descendentes de europeus, pois forçosamente nos obriga a reflexões profundas sobre quem somos e qual nosso papel no mundo que estamos construindo… Brennand pontua sua obra de citações e referências deste calibre, desta magnitude, chocando e provocando, obrigando a tomar partido, posicionar-se frente sua obra…como todo verdadeiro artista, Brennand incomoda e instiga, nos transforma com os símbolos entrelaçados e bem costurados de sua obra. Obra esta que fala profundamente a nós, brasileiros frutos  de uma civilização judaico-cristã européia…

 

Em outro mural há uma frase do poeta cego argentino, Jorge Luiz Borges: “Sua imediata obrigação era o sonho”. 

 

No livro “Francisco Brennand por ele mesmo”, página 9, ele próprio fala abertamente do místico domínio do fogo, de misteriosos “senhores do fogo”, e de uma “LINGUAGEM SECRETA” que expressa sentimentos além da capacidade de expressão da linguagem cotidiana,e fala da comunicação criptografada, das mensagens secretas, do sentido oculto dos símbolos, e de mistérios somente compreendidos pelos INICIADOS. ..e na página 13 recorda a visita de IONESCO a este pátio, que declarou desejar encenar uma de suas peças o Teatro do Absurdo neste cenário surreal, transformando o espaço em uma grande casa de espetáculos para óperas, balets e orquestras filarmônicas e sinfônicas, um espaço vivo como eram as Catedrais Medievais, Brennand criou sua própria CATEDRAL.

 

Atração TURÍSTICA de potencial internacional, a “Cateral de Brennand” já foi matéria bilingue da revista de bordo distribuída nos aviões da Varig, a ÍCARO número 172 de dezembro de 1998, ano 15, páginas 34 a 43, com lindas fotos convidando a uma visita turística a quem aprecia as artes, e o jornalista cita Brennand, que conta um caso de senhoras que caminhavam DESCALÇAS por seu pátio das carpas e cisnes (que eu sinto como uma Catedral) para absorver as “ENERGIAS DO SOLO”.

 

O Templo de Brennand toca profundamente a sensibilidade feminina, nenhuma mulher fica indiferente, ou apaixonam-se ou odeiam a obra, um sinal de sua força nos arquétipos femininos, em aspectos SOMBRA do inconsciente, mereceria uma pesquisa mais detalhada de Ginecopsicologia ou Biomidiologia da Arte… 

 

O corpo feminino é especialmente sensível a algumas freqüências de onda vibratória sutil; há uma maior retenção de água na pele, e as coxas e seios são depósitos de tremulante gordura líquida, nos quadris há muita água nos rins, bexiga e útero que reverbera tais ondas telúricas, a Igreja Católica conhece bem estes mistérios, daí os corais de castrati com vozes únicas e a nota musical Trítono ou DIABOLOS, no filme “FARINELLI” vê-se a biografia de um cantor castrado cuja voz em trítonos leva mulheres ao orgasmo; no filme “O rei da baixaria” sobre o radialista Stern o orgasmo da fã sobre caixas de som ilustra esta sensibilidade fisiológica feminina a estímulos vibradores, bem como os showmícios, comícios de Hitler e dos Nazistas ocasionando orgasmos histéricos, e o Trítono é a nota base do HOT JAZZ dos cajuns de Nova Orleans, USA.    

 

Brennand construiu a sua “Catedral Pessoal” sobre uma Linha Ley, um alinhamento de energia telúrica vibrante, igual ao do Museu do Ipiranga em São Paulo e de diversas Catedrais européias; lá nos fundos, após as últimas esculturas, há um vale ou campina, pradaria, e ao fundo percebem-se duas colinas, talvez uma falha geológica, exatamente  alinhada com o Templo-Catedral.

 

Brennand  edificou um outro tipo de arquitetura de igreja, um templo cujo teto é o próprio céu aberto, dando uma sensação maior que a de qualquer Catedral européia: o infinito do céu azul do nordeste, e à noite aquele céu estrelado com todas as constelações zodiacais ilustrando a abóboda celeste…impossível não recordar de Barcelona, da Sagrada Família de Gaudi, com suas paredes e sem teto, esta ainda em construção, mas a nossa catedral de Brennand está pronta e acabada, aberta com fé e confiança para os céus e aceitando o que a natureza trouxer, chuva ou sol aceitos sem julgamento, sem mente, vivendo no aqui-agora, o GERÚNDIO QUÂNTICO dos idiomas não predicativos como o nhenhengatu-tupi guarani .

 

Na Catedral de Brennand a luz solar e a exuberante natureza brasileira contradizem a sombra úmida das Igrejas Românicas (Terra e Água) e os arcos reverberantes das Igrejas Góticas (Fogo e Ar).

 

E aqui, Brennand sopra o AR do fole sobre o FOGO do forno cozendo com paciência a ÁGUA com TERRA do barro, transubstanciando, como Senhor do Fogo, a cerâmica sagrada, a cerâmica esotérica, construindo sozinho, peça por peça, uma Catedral que evoca os livros do alquimista parisiense Fulcanelli.

 
Todas as paredes são ricamente decoradas com uma equilibrada e harmônica mistura bem pensada, ponderada, meticulosamente pesada e digerida-reinterpretada de  simbologias  maçônica, rosa-cruz , alquímica, astrológica, heráldica e cabalística, onde onças jaguatiricas e tatus convivem com pelicanos bicando o peito (como na Basílica de Tremembé, Vale do Rio Paraíba , pertinho de Taubaté, terra de Monteiro Lobato, interior de São Paulo, repleta de tais simbologias), ovos rachando para dar a luz mitos vivos, peixes de boca aberta como que engolindo o profeta Jonas brotam aqui e ali no lago de carpas, diversas Vênus –Afrodites,  Gárgulas ao topo da muralha –paredão direito, com o clássico Delta com o olho onisciente do “Grande Arquiteto do Universo”, imagens africanas, sumerianas, incas e astecas, maias e egípcias, e muitos, incontáveis símbolos, uma criptozoologia pessoal, quimeras autorais de Brennand em um bestiário de fazer inveja ao argentino Jorge Luiz BORGES, tudo compondo um cenário indescritível, com uma energia de Pajés (Xamans) com abundantes jacas, cajás, cajús e ingás, mil frutas nordestinas, flora e fauna brasileira em alto-relevo ricamente colorido e esmaltado ou vitrificado brilhante e reluzente.

 

Uma releitura e interpretação personalizada de Brennand , uma PAJELANÇA de terra molhada (argila- adamah em hebraico é terra vermelha molhada, barro, como Adão modelado de barro, como o GOLEM do rabino cabalista de Praga) cozida a fogo lento no forno alquímico ATANOR (a- partícula negativa, e Tanathos, morte, o forno que nega a morte, que busca a eterna juventude, o elixir da longevidade, a fonte de Ponce de Leon que a arte busca em sua ilusão de eternidade) em cerâmicas quase vitrificadas, esmaltadas.

No Forno alquímico, argilas coloridas são misturadas e cozidas pacientemente, e a cerâmica quase-viva destes golens impressiona na família “Adão-Eva-Caim” ao lado do altar com uma cachoeira cheia de mais carpas nadando um balé dionisíaco…

 

Indubitavelmente, não se pode desmentir que o conjunto da obra transpira muita sensualidade, e, se é que haveria algum  erotismo nestas obras, se os totens forem percebidos como falos e as frutas maduras abertas o forem como vulvas, este seria um erotismo sagrado, tantra ou alquimia sexual chinesa, sutil e insinuado, dependendo tanto do ângulo do olhar quanto da intencionalidade do observador; sensual e natural, até inocente, como a sexualidade de nossos ancestrais índios tupinambás, algo pré-cristão, que não poderia nunca ser rotulado de sexual ou muito menos de pornográfico, conceitos inaplicáveis a esta obra de arte…o verdadeiro artista é fiel a si mesmo, em contato com o inconsciente, incompreendido, como demonstram as biografias de um pintor como GAUGUIN ou um poeta como RIMBAUD.

 

 O atelier de Brennand é uma visita sem a qual os templos europeus não fazem sentido, pois este lugar sagrado é o contraponto, a resposta deste nosso continente americano à arquitetura sagrada e arte sacra européias, pois até a “quadradura do círculo” é representada subliminarmente pela mandala central do pátio dos cisnes.

 

Tamanha erudição e riqueza de minuciosos detalhismos, preciosismos, não perde contato com o popular,  pois o traço do desenho de Brennand lembra muito o estilo da Xilogravura de Cordel, da arte popular da madeira entalhada a canivete da Feira de Caruaru, das Carrancas dos barcos do rio São Francisco, mas também com algo de desenho animado e história em quadrinhos da Mídia de Massas do Século XX (cf. Ferraz página 21).

 

Ariano Suassuna considera Brennand uma continuação do escultor mineiro do período Rococó (no Brasil culturalmente insistem em denominar Barroco) o ALEIJADINHO, Suassuna, erudito, cita o Santuário de Congonhas como exemplo de arquitetura de templo do tipo ILUMIARA, anfiteatro ou conjunto-de-lajedos, como o ILUMIARA esculpido pelos antepassados dos índios Carirys no sertão nordestino,  a “Pedra do Ingá” na Paraíba, um lugar de culto e rituais; este conceito arquétipo indígena e rococó de Ilumiara ajuda a mente racional a compreender e classificar o impacto deste templo de Brennand em nosso inconsciente racial brasileiro, o que também explicaria as formas fálicas de obeliscos, pois no centro das Ilumiaras indígenas sempre há um monólito erguido (CF Suassuna apud Klintowitz p.61 e Suassuna apud Ferraz p.44.).

 

O próprio símbolo presente na parede de entrada do museu e repetido pontualmente, como um refrão visual desta canção de cerâmica, da POÉTICA DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA  de Brennand é um arco com uma flecha apontando para cima; clara influência dos cultos africanos, pois é um PONTO RISCADO antigo, símbolo do ORIXÁ OXOSSI, orixá africano protetor dos bons caçadores. 

 

E um busto impressiona, a cabeça de ATENA encerrada em um repressor capacete grego que só permite entrever seus lábios espremidos em bico, é a civilização, a mente racional, retratada prisioneira de seus recalques e perda de espontaniedade .

 

O prédio à esquerda do pátio aberto dos cisnes negros e carpas vermelhas e brancas impressiona pela sobrecarga, constato estupefato que estou em um museu de mil e duzentas esculturas a perder de vista, povoando o depósito como um exército em prontidão ou uma corte só aguardando a música começar para bailar uma valsa ou minueto neste rico saguão.

 

Minha namorada chama minha atenção para Brennand em pessoa, que passa por nós do outro lado do amplo salão a passos rápidos e fortes, impressionante energia focada do homem idoso e alto, com suspensórios coloridos sobre camisa branca, que desaparece entre as colunas de seu museu, perdido da vista, como se fundido as centenas de totens e estátuas da gigantesca exposição.

 

O galpão é enorme e complexo, parece ter naves e capelas internas, evocando outra vez um templo, só que desta vez com um pé direito gigantesco e coberto com teto de vigas nuas, bem industrial, em uma estrutura na qual nos perdemos, recordando a arquitetura iniciática de um LABIRINTO.

 

Vagando a esmo e namorando sem pressa, ambos encontramos um tipo de FORNO que parece um iglu, uma casa, não resistimos a descer os degraus e entrar no único lugar escuro, sem a iluminação constante em todo o conjunto…este lugar fechado tem uma atmosfera densa, viva, como se fora o onfalos, o umbigo de todo este lugar de poder; há cavaletes com quadros inacabados ou sendo pintados, baús, nichos iluminados nas paredes, e sentimos como que entrando no verdadeiro atelier, em um lugar pessoal, privado, como se invadíssemos a intimidade dos processos criativos do artista…como se fosse um útero, um forno atanor, ou uma alcova que convida a um longo e apaixonado beijo…

 

Também há uma piscina vazia com degraus dentro deste edifício, parecendo uma casa de banhos romana ou turca, azulejos azuis em relevo com muitos símbolos…nesta piscina tive a impressão, por um segundo, de estar em um estande de feira de azulejos ou em um portfólio, imaginei se Brennand usaria este museu como uma vitrine de possibilidades para clientes internacionais milionários…pois noutra sala as paredes são forradas do rodapé ao teto de prêmios internacionais, de diplomas e homenagens, de cartas de bienais de arte européias, e centenas de documentos curriculares  emoldurados em vidro, um belo exemplo de MARKETING da ARTE ou de Marketing Pessoal de Brennand como consciente empresário de sua obra de artista.

 

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927 em Recife  (consciente dos arquétipos, comenta a sua reforma da fábrica antiga em atelier –templo comparando-se a outro Francisco, São Francisco de Assis, atendendo a um chamado, missão ou vocação de restaurar a igreja).  Em 1990 representou o Brasil na Bienal de Veneza, Bienal de Barcelona de 1955, Bienal de Punta Del Este –Urugay em 1964; Bienal de São Paulo em 1959;  além de exposições da Alemanha a Portugal, de Sevilha a Londres; ganhou para o Brasil o Prêmio Gabriela Mistral de 1994 conferido pela Organização dos Estados Americanos em Washington USA; e seu curriculum impressionante daria um livro ou um filme.

 

Na estação de Metrô Trianon-Masp, na Avenida Paulista, em São Paulo, Capital, bem no subsolo desta Linha Ley telúrica do coração paulistano, encrava-se um totem fálico de Brennand; um gigantesco e imponente símbolo re-interpretado da literatura árabe, dos Contos das Mil e Uma Noites de Sherazad, é o PÁSSARO ROCA, ave mitológica gigantesca capaz de erguer pelo ar elefantes, um símbolo das potentades do elemento Ar (como alados Anjos, Silfos e Fadas até o garanhão Pégasus) erigida em barro esmaltado e vitrificado, cerâmica moldada nos elementos Terra-Água e temperada pelo elemento Fogo do forno, figura do Ar embaixo da Terra recebendo as faíscas dos trens do metrô e vigiada pelas câmeras de segurança, toda vez que passo pelo PÁSSARO ROCA de Brennand vislumbro desde um Prometeu acorrentado no Tártaro até uma estaca cravada no coração de um vampiro, a força da poética tridimensional de Brennand evoca a cada contemplação mil projeções, inspirando desde elevados  sentimentos religiosos até instigando a sermos audazes como o marinheiro Simbad desafiando os mares desconhecidos de nosso futuro.

 

“O sonho é fundamental ao equilíbrio mental do homem. O homem que não sonha, enlouquece. Da mesma maneira, a ARTE é o sonho das nações (…) Uma nação sem arte, isto é, que não sonha, está gravemente enferma, está fadada a enlouquecer. Um país não se constrói apenas com estradas, pontes, barragens, siderúrgicas; ele se constrói também com as imagens que estão sendo criadas o tempo todo pelos artistas”.  Brennand em um colóquio de arte na Universidade do Texas, em Austin, USA, 1975 (apud Ferraz p.23).

 

 

Bibliografia:

 

FERRAZ, Marilourdes. Oficina cerâmica Francisco Brennand; usina de sonhos. Recife: Associação de Imprensa de Pernambuco, 1997.

 

FERNANDEZ CHILI, Jorge. La cerâmica esotérica; curso de filosofia cerâmica. Buenos ires: Condor Huasi [c1993]. 447p.

 

Francisco Brennand por ele mesmo. Recife: Fundarpe –Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1995.

 

KLINTOWITZ, Jacob. Francisco Brennand: mestre do sonho. São Paulo: Laserprint, 1995.

 

PASTRO, Cláudio. Guia do espaço sagrado. 2. ediçõ, São Paulo: Loyola, 1999, 262 p.

  

COMO LIDAR COM A BAIXA FREQUÊNCIA ESCOLAR por vicente martins

 

 

Como as escolas públicas e privadas podem lidar com a infreqüência escolar, especialmente quando alunos e docentes faltam às horas-aula ou têm baixa freqüência aos dias letivos?  Na jornada escolar, que entendimento devemos ter do período letivo? No presente artigo, pretendo responder as duas questões acima levantadas a partir das concepções sobre a freqüência interpretadas à luz da Constituição Federal(1988) e da Lei de Diretrizes e e Bases da Educação Nacional(LDBEN), a Lei 9.394. promulgada em 1996.

  Comecemos, então, pelo artigo 206, da Constituição Federal(1988). Entre os diversos princípios enumerados no referido artigo, o primeiro refere-se à igualdade de condições para o acesso e permanência dos alunos na escola. Mais adiante, no artigo 208, o legislador, ao tratar sobre o dever do Estado com a educação,  determina que o mesmo será efetivado mediante várias garantias de acessibilidade à escola,  estabelecendo, como competência do Poder Público o recenseamento dos educandos no ensino fundamental, e outras ações como a de fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola (§ 3º). Estas prescrições da Constituição Federal migraram, ipsis litteris, para a LDBEN.

O conteúdo do § 3º do artigo 208 da Constituição Federal é reproduzido, em 1996,  no artigo 5º da LDBEN. A Lei reafirma que cabe ao Poder Público zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola. Portanto, aqui o dispositivo é mais aplicável para diretores, coordenadores e professores das redes estadual e municipal de ensino, enquanto agentes do poder público e, como os estabelecimentos privados de ensino seguem as orientações nacionais, o zelo pela freqüência é uma tarefa também dos pais ou responsáveis.

A infrinqüência de professores e alunos aos estabelecimentos de ensino, aqui entendida como falta de freqüência às horas-aula ou a baixa freqüência aos dias letivo, fere, portanto, os ditames legais da Constituição Federal e da sua legislação correlata, a LDBEN.

         No artigo 12,  inciso VII, da LDBEN, cabe aos  estabelecimentos de ensino informar aos pais, responsáveis ou, mesmo aos alunos, quando na maioridade, sobre sua  freqüência e seu rendimento acadêmico, bem como sobre a execução da proposta pedagógica ou projeto pedagógico do  estabelecimento de ensino.

Ainda no referido artigo 12, inciso III, cabe as instituições assegurarem o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas. Como sabemos, nos estabelecimentos de educação escolar, existem dias letivos e horas letivas ou horas-aula, duas categorias importantes do chamado período letivo. Por hora-aula, devemos entender o espaço de tempo estipulado para o desenvolvimento de uma aula, isto é o período em que o professor desempenha atividade docente com os alunos, em grupo ou individualmente. Em geral, a duração de cada Hora-aula é de 50 minutos.

No âmbito da jornada escolar, o dia letivo pode ser tomado como em duas acepções: a primeira, como de trabalho escolar efetivo. Isto quer dizer, como prescreve a LDBEN, que o dia letivo não compreende aqueles reservados às provas finais ou resultados de recuperação. Uma segunda acepção compreende que o dia letivo é aquele em que os alunos ocupam seu tempo em atividades relativas ao desenvolvimento do currículo, na escola ou fora dela (visitas, excursões ou viagens, desde que devidamente planejadas. Assim, quando o professor vai à escola, mesmo não ministrando horas-aulas, está ministrando (observe que estou repetindo o verbo no gerúndio) seus dias letivos.

Quanto à freqüência ou infreqüência escolar dos docentes, o que se deve entender, enfim, nesse particular, é que a freqüência no âmbito escolar deve ser entendia como sinônimo de assiduidade, isto é, se efetiva, legalmente, quando o  docente: 1)  se faz presente constantemente no estabelecimento de ensino. 2)  não falta às suas obrigações; e 3)   se aplica, outrossim, quando o docente executa com tenacidade as suas tarefas acadêmicas (ensino, pesquisa, extensão, administração). Em substância, ser assíduo, ao pé da letra, como se pode sugerir da forma latina “assidùus”, é o docente está sempre presente, em corpo e espírito no estabelecimento de ensino.

O artigo 12, no seu inciso IV, diz que cabe às instituições de ensino a incumbência de velar (aqui, o verbo significa “cuidados, proteção a; tratar de, interessar-se, dedicar-se, zelar, proteger”) pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente (PTD).Grifaria o pronome cada para dizer que é da incumbência do estabelecimento de ensino interessar-se e zelar pelo PTD de cada docente.

 No caso das universidades, vale destacar o que prescreve o artigo 47 da LDBEN, em referência à educação superior,  referindo-se o ano letivo regular, ao determinar que é obrigatória a freqüência de alunos e professores, salvo no caso da educação a distância.

Assim, a freqüência é obrigatória, particularmente nos seguintes casos:  1)  quando se refere a uma obrigação imposta por  Lei, no caso a Lei 9.394 (LDBEN) e 2) no caso de pressão moral da comunidade universitária (docentes, alunos e funcionários).  Como imposição de Lei, no caso a LDBEN,  em geral, os docentes têm  obedecido efetivamente à Lei à medida que cada profissional de educação escolar cumpre, conforme sua carga horária de trabalho,  a tarefa de ministrar os dias letivos e hora-aulas.

No tirante à pressão moral, o que nos leva a evocar aqui uma questão de ordem ética, a verdade é que maioria dos docentes, em sala de aula, busca oferecer boas condições de ensino aos nossos alunos, de ofertar à comunidade um ensino de qualidade, um ensino voltado à aprendizagem do aluno, esforço traduzido, eticamente, como um caráter imperativo, na relação interpessoal professor-aluno que se impõe à consciência de cada profissional de educação escolar,  sem a necessidade de coerção física ou terrorismo psicológico por parte dos gestores escolares, diretores ou coordenadores dos estabelecimentos de ensino.

Uma última palavra é a seguinte: é papel dos estabelecimentos de ensino, quanto à freqüência dos docentes às aulas, tomar, sempre, como guia de acompanhamento profissional, o que prescreve a LDBEN, diretriz importante para o trabalho escolar. O artigo da 13, da LDB, diz, entre as incumbências dos docentes (a rigor, os professores com cargos públicos ou contratados segundo as normas trabalhistas da CLT) está a de  ministrarem “dias letivos e horas-aulas estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, avaliação e ao desenvolvimento profissional”.

Fora do ordenamento jurídico, especialmente o do parâmetro estabelecido pela LDBEN, qualquer instituição de ensino, pública ou privada, municipal ou estadual ou federal,  que negue o princípio de liberdade de ensinar do docente e a liberdade de aprender do aluno estará fora da lei, em desobediência civil.

Numa exegese simples, significa que os docentes devem ministrar  os dias letivos, dentro ou fora do estabelecimento de ensino,  com ou sem a presença dos alunos, como no caso do tempo de preparação para suas atividades didáticas em sala de aula. De outro modo, aos docentes deve ser assegurada a tarefa de ministrar horas-aula, dentro ou fora também dos estabelecimentos de ensino, sendo que, neste caso, unicamente nesta situação, com a presença obrigatória dos alunos.

 

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.