LAURITA MARTEL encontra, ou não, GARCIA DE GARCIA

Garcia de Garcia, meu querido,

Me pergunto se você será o mesmo que conheci a tantos anos atrás, naquela fria e distante fronteira que foi a nossa casa e a nossa ponte para outros mundos. Não vou me alongar, no caso de que você não seja você. Mas saiba que, mesmo passados muitos anos, ainda lembro com carinho de tudo. E com saudades também. Dos bailes, dos namoros, dos livros lidos juntos, dos amigos que se perderam, daquela vida que era só intensidade e que se foi assim, tanto tempo, e tão rápido. E daquela noite inesquecível quando você me salvou do pior de mim. Uma noite fria apesar de ser fevereiro, e de ser sábado de carnaval. Enquanto eu era coroada a rainha do carnaval, uma cigana de lantejoulas vermelhas e douradas, e vi o meu amor, o meu grande amor, grudado numa enfermeira atrás de uma coluna, vestido de zorro, o cretino. Tudo naquele momento deixou de ter sentido, a brincadeira, o meu reinado, os meus planos de fugir com aquele canalha para a capital e deixar pra sempre aquela vida ordinária de interior. Ele, que era o meu salto para o mundo. Desci a escadaria de mármore, as lantejoulas voando, como insetos brilhantes e perversos a me perseguir, o pesado manto vermelho comido pelas traças de outros reinados e sumi. Cetro em riste, sumi do baile, do clube e do centro da cidade. Não fui muito longe não. Você estava sentado no banco da praça e me amparou como se nos conhecêssemos de toda a vida. Nossa vida em comum começou assim, uma crush e a metade de um cachorro quente pra curar a ressaca. E você que não entendia nada, me disse que eu mais parecia uma vadia com aquela roupa, eu disse que era de cigana e você disse que era de cigana vadia então, e começamos a rir os dois. Eu nem lembrava mais desta história, lembrei dos detalhes agora, o gosto da laranja da crush, as suas mãos grandes repartindo o manjar comigo. Tudo voltou agora, enquanto preparo esta mensagem para atirá-la ao mar, numa garrafa incerta e ir em direção a você que não sei se é você. Você me levou para passear pela cidade naquela madrugada fria e me mostrou algumas portas de casas antigas, pé direito muito alto e as mãozinhas de bronze no lugar da campainha.  Você me salvou de mim e das minhas piores ilusões de menina do interior, você guarneceu a minha alma. E quando tirei a fantasia de cigana, foram tantas as coisas que ficaram para trás. Será que você é você? Quando vi o seu nome navegando pelas mesmas águas que eu, agora, passados tantos anos, um estremecimento me arrebatou. Fui tomada de uma saudade estranha, devo dizer. E de uma culpa que nunca me abandonou.

 

Sua Laurita Martel.

 

 

nota do editor: a leitora laurita martel pensa ter encontrado garcia de garcia, depois de muitos anos, através de seu poema FILOSOFIA postado neste site. laurita escreveu esta carta e solicitou que fosse publicada. o editor atendeu considerando o tempo e o reencontro (?).

2 Respostas

  1. talvez seja simplesmente mais um bobo, mas acreditei que foi uma passagem real.
    um dia vivi algo parecido, só que muito mais intensidade.
    Sabe o que é a vida?
    se você não pensa nisso, não sabe viver.
    []’s

  2. Inesquecível Laurita,

    Empezo a acreditar que las cosas não acontecem por acaso ou que haja um regente general sobre todos nossotros, o que não me agrada mucho pois me sinto, quiçás, um marionete de algo invisibile. Te peço desculpas por escrivir mesclado com português e muchas veces errado pois como sabes, e te acuerdas, sou uruguayo e estou em Brasil hace pocos años. Faço grande esforço para escrever em português, já falo bem, por isso estoi escrevendo poesias em português como forma de aprender mejor. Desde aquela vez em que me encontré contigo, a lo mejor, nos encontramos por obra dos deuses mi deseo de vivir em Brasil jamás se apagó. Tinha em meu pensamento um dia encontrar-la. Muchas veces sonhei contigo, de cigana, linda cigana, que ha cometido um único erro o de não ler nuestras mãos e ver nuestro relacionamento cerquita do fim quando imaginávamos que seria eterno. Dias felices! Mucho felices! Te agradeço para sempre. No se sinta culpada de nada. Recordo com muita alegria, ahora más, as vezes em que dava um beso atrás de sua orelha, que tenia um perfume mui hermoso. Recordo também de tudo que escrevistes a cerca de nós, porém o que mais se adelanta a mis pensamientos som las noches…eran o paraíso…el céu, teus dedos longos a mi acariciar la face, mi vontade de morde-la de entrar no teu corpo e encontrar com tu alma e aí si decir-le lo quanto te amava! Mi querida Laurita. No creo que seja verdade que te encontré. Que poderei ver-la, toca-la, besar-la! Diós que estou a decir? Não sei como te encontras ahora. Casada? Soltera? Hijos? Diós no! Pero uma mulher como tu jamás quedaria sem um hombre, caliente como eras, indomable, e com um corpo escultural que atraia las atenciones incluso de mulheres.
    Mi querida Laurita, no me vou estender porque era para ser um comentário apenas me identificando em tu carta “abierta”. Porque hicieste assim? Mandaste publicar nel blog? Estou curioso para saber-lo. Indomable todavia! No vou deixar mi email porque otras pessoas podrán escrever como se fuera tu. No sé como me comunicar contigo particularmente. Vamos pensar una manera. No deixes tu datos aqui em la net.
    Besos y más besos em todas las partes e em la orilla.
    Sempre teu

    Garcia de Garcia

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