Arquivos Diários: 30 agosto, 2008

A HERANÇA DOS JOGOS DE PEQUIM por marcelo barros

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta

Os Jogos Olímpicos em Pequim chegaram ao fim. Grande parte da humanidade se pergunta que herança para o futuro da humanidade deixa esta Olimpíada. Durante dias e dias, os jogos ocuparam nossas televisões e jornais. Órgãos da imprensa que, no começo pareciam apoiar um boicote à China, por causa do desrespeito aos direitos humanos, se renderam ao lucro que lhes era proposto. Os apoteóticos espetáculos oferecidos na inauguração e no encerramento dos jogos mostravam um mundo aparentemente unido. Parecia que as guerras deram lugar às competições esportivas. A humanidade inteira se tornava criança ou adolescente que vibra e torce por seus atletas.

 Por trás dos palcos e das arenas, a realidade é mais complexa. A China mostrou uma força que vai muito além dos estádios. Governos e empresas se puseram de acordo em proporcionar pão e circo às massas e, assim, dissimular a realidade cruel que, nos mais diversos países, infesta a vida cotidiana das pessoas, no campo e na cidade.

 Jogo do faz de conta

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores, da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta nestes dias. Mesmo durante os jogos, no dia 8 de agosto, as forças armadas da Geórgia, apoiadas e financiadas pelos Estados Unidos, atacaram a província da Ossétia do Sul, que ficou sob o protetorado russo. Imediatamente, a Rússia atacou por terra, ar e mar, o território da Geórgia, que não contou como o apoio esperado de Bush e, hoje, chora pelo menos dois mil mortos e vinte mil desabrigados. Os analistas internacionais estão convencidos de que é iminente um ataque de Israel contra o Irã e o revide dos países árabes contra Israel e contra os Estados Unidos que o patrocinam. Na Europa, o Parlamento aprova uma lei racista e cruel contra os migrantes. E durante os jogos olímpicos, todo mundo faz de conta que nada disso existe.

 Exemplo de paz

De fato, desde o começo de sua história, a vocação dos jogos olímpicos é servir à relação entre os povos e contribuir para a convivência amiga entre a juventude dos mais diversos países. A chama olímpica que percorre a terra inteira apela para a paz e para o diálogo entre as diferentes culturas e raças. No colorido das bandeiras, na pluralidade dos hinos nacionais e no brilhantismo dos homens e mulheres que se consagram aos mais variados esportes, transparece um olhar positivo e amigo para toda a humanidade. A herança mais profunda destes jogos deveria ser a de que os conflitos internacionais e regionais podem sempre ser resolvidos como se acertam as regras e se dão as partidas amigáveis entre as diversas equipes de atletas.

 Grande negócio

Infelizmente, a mistura entre esporte e comércio, assim como entre esporte e políticas governamentais é cada vez mais tenebrosa. As equipes precisam de patrocínio e as empresas as apóiam. Os governos querem se identificar com os seus países e seus atletas. O problema é que, além de fazerem dos jogos vitrines dos seus produtos, incentivam nos esportes um aspecto que este já continha, mas não tão exacerbado como agora: o espírito de competição e de concorrência. É quase inevitável que os jogos tenham incentivado mais ainda o culto ao corpo sarado, ao ser humano máquina. Nos mais diversos esportes, acabaram, de alguma forma sugerindo ou inculcando o ideal do mais forte, mais ágil, mais capaz e mais bem sucedido.

 Em seu famoso livro Educação após Auschwitz, o filósofo alemão Theodor Adorno destaca a necessidade de se evitar na formação cultural dos jovens a promoção à virilidade, ao “ser duro” e à indiferença à dor do outro, elementos comuns em vários esportes de competição. “Quem é rigoroso consigo mesmo não tem dificuldade de sê-lo com os outros, dando continuidade ao ciclo da violência”. Ele recorda como na Alemanha nazista o ideal do homem ariano, belo e forte, culminou no extermínio de milhares de deficientes físicos, deficientes mentais e idosos.

 Por seu caráter internacional e sua história tão rica, os jogos olímpicos não mereceriam esta crítica. Se, no passado, eles foram usados por regimes ditatoriais, (em 1936 na Alemanha nazista, em 1980 em Moscou, como em 1968 na Argentina da ditadura militar), compete a todos nós que eles sejam resgatados. Sua herança deve ser a da convivência plural e do internacionalismo e não a competição e o elitismo corporal. É preciso que eles nos apontem para a vida e não para a ilusão.

Na carta aos coríntios, Paulo alude aos jogos, ao lembrar que todos correm, mas um só ganha a taça. Nós, espirituais, devemos correr de forma que todos ganhemos, não uma taça corruptível, mas a coroa imperecível da vitória divina (1 Cor 10).

 

Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais: Dom Helder Câmara, Profeta para o nosso Tempo. Ed. Rede da Paz, 2006  – Brasil de Fato.

                              foto livre. ilustração do site.

LIVROS SOBRE HIROSHIMA e NAGASAKI poema de solivan brugnara

                                  

                        

 Quero livros                           

 Que deixe quem ler bêbado,

                   e  que viciem

        e sejam cheios de propagandas  subliminares.

  Quero livros vasodilatadores,

            que causem priapismo, 

e se picotar suas páginas de para fazer um cigarro de maconha.

Quero livros que dividam o mundo.

 Livros que sejam excomungados,

 que matem Deus

e que Deus e revide escrevendo seu terceiro livro.

 Livros com sabor de carne

 para serem devorados por leões.

Livros que entrem como fantasmas dentro dos computadores.

 Livros sobre Hiroshima e Nagasaki.

 Livros nasçam em pés da marula e macieira

e que os livros vermelhos floresçam nas papoulas.

Livros que tenham cheiro de cio e cartões de crédito.

Que façam as mulheres se masturbarem.

   Livros venham em formato de falo

  vibrem e que suas letras façam vezes de espermatozóides e fecundem

 úteros.

 Livros que gritem, que se aumente o volume das letras

 até elas deixarem os olhos surdos.

 Quero livros que alucinem quem se atrever a lamber suas páginas.

Que seja pego no antidoping pela substâncias deixadas pela leitura no sangue.

 Livros pretos que voem com urubus.

 Livros que explodam quando aberto.

 Quero livros cheios de veneno,

 e só passar a ponta do dardo na capa, pegar a zarabatana

 e sair para matar macacos na selva da Venezuela.

Livros que possam ser transplantados no lugar dos corações e rins,

 e que se coma suas letras amargas com arroz.

AO REVÉS poema de delinar pedrinho matuczak

 

Combinado amor e sentimento de abandono

 

Surge uma grande confusão no âmago, na razão e na relação a dois

 

Uma declaração as avessas, um reclame de amores rejeitados

 

(Se eu não estivesse com ela sua amiga beijaria você agora)

 

É,  mais apesar do desamparo momentâneo e eterno da Monaliza, eu a tenho com devotamento irrepreensível

 

Desamparar desamparou

 

Entender não entendeu

Quis você…, de pronto não veio

 

Concebes por acaso que fui contrario as suas expectativas

 

Divertido isso, tive a mesma impressão

 

Proponho uma saída, assumamos cada um nosso quinhão de irresponsabilidade

 

Não acertei onde almejei

 

Puno-me agora, autoflagelo-me

 

Será que não te chegas

 

Ou só te contentaras a ver a alma deste ser fora de seu invólucro que se encontra presentemente

 

Soube da queixa e não cogitou outra questão a não ser a fugidia traição

 

Neste trialogo só um alguém pode se sentir em desalento

 

Me senti primeiro

 

 

DISTÂNCIAS poema de altair de oliveira

 

 

Pudesse, eu seria doce

e, se desse, desde o começo

de sede, eu viesse cedo

relendo o seu endereço.

 

E fosse avesso do avesso,

azul do tanto que houvesse

ousasse um gesto de gesso

num beijo gosto de festa.

 

E  nunca mais me esquecesse

feliz em todas as espécies…

Por mais que a vida nos perca

e a morte esperta nos pesque.

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

CLICHÊ poema de deborah o’lins de barros

 

Eu queria ser aquela

metamorfose ambulante…

…mas estou presa eternamente

no paradigma de uma geração

quase interessante.

 

carioca

coca-cola

chiclete

pipoca e guaraná

RG, CPF, CLT, GLS

cigarro depois do almoço

esquerdismo aguado

internet banda larga

orkut…

faculdade trancada

(por falta de capitalismo suficiente)

comédia romântica norte-americana

…entediante

ainda não entendo filmes

inteligentes…

 

Me dê alguns anos e me transformo

na borboleta filosófica de Raul,

ou num kafkiano inseto alucinante.

Queria ser aquela metamorfose,

Mas não passo de um mero

clichê ambulante…