TAVINHO PAES comenta a MORTE DE FAUSTO WOLLF

COMENTÁRIO:

 Tavinho Paes:

 … é com profundo pesar que retiro isso do baú…

… escrevi isto há 10 anos atrás, no meu primeiro site…
… uma reportagem ao vivo com FAUSTO WOLF, escrita à moda cibernética…
… a quem interessar possa!

quem tem mêdo de Fausto Wolf?
por: TAVINHO PAES
publicado no http://www.cultLinkClub.com.br – 1997

…que estamos vivendo tempos muito difíceis, todo mundo sabe.
O problema é que ninguém quer (ou pelo menos está se esquivando) se incomodar com isso para não discordar da maioria e ter, como castigo, que andar por aí falando sobre o assunto com cabos eleitorais do PT, do PSTU, do PCdoB, etc…

A recessão e o desemprego, associadas à celeuma institucional do planalto (onde cada partido quer tirar proveito da situação para figurar bem nas próximas eleições) estão minando lenta e paulatinamente as esperanças dos brasileiros, além de estar levando muita gente à bancarrota, à loucura e ao crime. Isto quando não estão matando de fome e indignação a gente humilde que nosso hino garante que tem braço forte e não foge à luta e/ou prostituindo crianças em nome da Indústria do turismo, para a qual nossa vocaçào tem sido constantemente citada na esplanada dos Ministérios.

O dinheiro está emperrado e armazenado nos ativos fictícios das empresas.
Como é do conhecimento geral, os ricos (que apoiam este o lado selvagem do modelo econômico do Real através de institutos corporativos como a FIESP) não pagam suas contas nem seus impostos (a caixa 2 tem mas recursos que todos os Fundos de pensão juntos) e cagam solenemente para quem as cobram, pois conhecem a prática legal dos embargos (para as quais os desembargadores deveriam dedicar seu tempo de serviço) e contratam advogados hábeis em manter os Processos Cíveis e/ou Penais andando a passo de tartaruga.

Os intermediários, atingidos por tabela, repetem o exemplo de seus suzeranos e também não coçam o bolso para pagar os salários de seus serventes.

Na ponta, os comerciantes e produtores são obrigados a demitir para manterem suas metas orçamentárias e de faturamento, além de compensar a depreciação de suas máquinas e garantirem algum investimento para não perder capacidade competitiva frente aos importados (que, a partir deste lindo empréstimo de U$D 41,5 bilhões negociado pelas malas dos Malans, vão chegar à nossa casa com liberdades e incentivos fiscais inimagináveis).

A bruxa está solta e os economistas dando as cartas num jogo em que as fichas já foram distribuidas a quem tem competência para apostar.
Temos que encapsular grossos supositórios à seco.

O discurso neo-liberal e as medidas planejadas pelos guarda-livros que tomaram conta da economia globalizada no país estão invadindo nossos lares como os marcianos entrevistos no famoso programa de rádio de Orson Welles.

Somos levados a acreditar que a queda da bolsa de Tóquio é capaz de criar sérios problemas para a economia doméstica de um padeiro em Roraima, um dono de botequim em Tocantins, e… até mesmo do dono da boca-de-fumo de uma grande favela na periferia de São Paulo é atingido pela variação da Bolsa da Malásia.

O simples fato da Rússia ter peitado o mundo e declarado uma moratória de prazo indeterminado, afetou a vida das empregadas domésticas de Pernambuco, dos garçons de um bar na favela da Rocinha e dos catadores de siri dos manguezais do Rio Sergipe.

Se, na Indonésia, um banqueiro, cujo banco não tem filiais por aqui, falir, o emprego dos bóias-frias paranaenses estará ameaçado; os porteiros dos prédios à beira-mar, em Fortaleza, terão que renegociar seus salários; os comerciantes que aderiram ao Imposto “SIMPLES”, da SEBRAE, terão suas alíquotas exponencialmente aumentadas e sua atividade micro-empresarial fadada ao transtorno de recorrer a demissões para evitar a falência.

Resultado: está todo mundo duro, tentando manter a pose e fazendo o possível para untar o ânus com manteiga e aguentar a trôlha com o que resta de digninade e vergonha na cara.

1. o parlatório

Tais considerações não são exatamente minhas, embora tenha eu sido seu instrumento na redação e na divulgação de suas teses e idéias. O que estou colocando no ar são temas apontados pelo escritor Fausto Wolf, uma das melhores cabeças críticas do nosso jornalismo, no reservado segundo piso do Restaurante Florentino (Leblon-Rio) – uma espécie de Piantella carioca, onde, além de políticos, é frequentado por grandes jornalistas, artistas, poetas etc… Nesta noite, Chico Caruso lançava um livro com cartuns realizados durante a primeira gestão do re-eleito Fernando Henrique. Muitos acharam que ele exagerou; a seu fígado, atormentado pelo whisky 12 anos da boca-livre, produziu bílis em excesso. Havia uma festa em volta da mesa em que Fausto exibiu sua língua de fogo…

Fausto Wolf tem uma obra literária que, queiram ou não queiram, lhe garantiria confortavelmente uma cadeira na Academia, se este fosse um de seus alvos e desejos em vida. Entretanto, lutando contra uma ponta de faca afiada pelo analfabetismo e pela arrogância dos fisiológicos que se instalaram definitivamente no poder (público e privado) Fausto suporta sua amargura e sua decepção com a postura de um leão.

Não é um imbecil, não tem saco para carolas, não engole sapos e, ao contrário dos que tentam diminuí-lo, taxando-o de bêbado, não bebe para esquecer; muito pelo contrário: cada dose de whisky que ele toma o torna mais arguto e raivoso, o que, para um homem inteligente como ele, se torna um perigo para os contempladores da ideologia do “foda-se os outros desde que eu leve o meu” praticada com sadismo e competência pelo lumpesinato pequeno-burguês transmutado em classe média que povoa a nação.

Naquela noite feliz, remando contra a maré, Fausto levantou a cruel hipótese de que estamos vivendo numa “Ditadura” cínica e fantasmagórica, com bases firmemente cravadas nos “furos” da Constituição-Cidadã de 88, cuja maioria de leis que deveriam favorecer as aclamadas e legítimas exigências que a esquerda supunha ser próprias do povo humilhado ficaram dependendo de regulamentação através de leis ordinárias a serem votadas no Congresso e no Senado; o que, em consequência, propiciou a política das Medidas Provisórias e aos acordos de gabinete que governam o país dos anões-do-orçamento desde então.

Neste sentido, Fausto é brilhante em denunciar que vivemos à merçê uma “Democracia de Gabinete” e uma “Ditadura Neo-Liberal de Medidas Provisórias”, contra as quais o povo só pode se defender através de seus representantes; o que, diante da manipulação das eleições (transformadas em instrumentos de uma política de mercado à mercê das agências de publicidade e lobbies empresariais) não é grande coisa, afinal, não temos nenhum grupo de ninjas no Congresso que resista e não sucumba à maracutaia patrocinada pelos “jetons” e “propinas” empresariais de Brasília.

2. A Lista do Fausto

Para quem estava no bar disposto a se divertir, o anunciar de uma desgraça soou pesado e fora de contexto, mas, horas depois, refletindo sobre o que nos falou o poderoso articulista, creio que todos devem ter surpreendido suas consciências incomodadas com os fatos levantados por ele.

Observando com olho de lince as entrelinhas da crise nacional, Fausto Wolf identifica paralelismos da situação atual com as angústias dos tempos da repressão.
Segundo ele, por exemplo, a “tortura” amplamente realizada por membros das corporações militares envolvidas diretamente com o Poder Executivo usurpado pelo Golpe de Estado de 64, hoje em dia, assim como a maioria dos serviços bancários, foi terceirizada para o próprio cidadão.
Cabe a ele auto-torturar-se sem piedade.
Veja bem as frases que anotei dele nesta noite:

– Não há mais necessidade de choques elétricos (bastam os choques econômicos);

– Não vão mais precisar enfiar coisas nos genitais das guerrilheiras (basta deixá-las tentar a vida na prostituição ou ver suas filhas à mercê da tara de estrangeiros nas melhores praias do país);

– Não se fazem necessários os paus-de-arara (basta o sujeito se pendurar em dívidas com agiotas, cartões de crédito, cheques especiais e esperar que eles mandem seus cachorros virem cobrar – na maioria dos casos, mandam ex-policiais afastados da tropa por crimes que a Justiça Militar ou anistiados pela lei que muitos lutaram para voltarem do exílio e nunca mais irem às cadeias por lutar pela democracia: tudo em nome do boa imagem da corporação que se deixou de julgar com procedência);

– Não é preciso lobotomizar os líderes das esquerdas (basta monitorá-los através dos próprios movimentos que eles resolvem articular e infiltar em suas hostes traficantes de armas e drogas; ou então, basta arranjar empregos públicos para eles, com bom salário e pouco tempo para se dedicarem à militância que, em menos de um semestre ele mesmo se condena e submerge decadente à primeira crise de alcoolismo);

– Não é preciso matar e esconder os cadáveres em cemitérios clandestinos (basta se expor ao poder dos que utilizam serviços de matadores de aluguel, se misturar aos esfomeados do Triângulo da Seca; ou, simplesmente, ter que levar a família para viver entre os caciques do narco-tráfico que mandam nas favelas das grandes cidades)…

Outras coisas também ficaram claras no discurso impiedoso de Fausto: a “Censura”, por exemplo, não acabou.
Hoje, está maquiada e estabelecida pela manutenção dos baixos índices de alfabetização e as baixas notas dos provões universitários.

O ôba-ôba que tomou conta da classe média levou à marginalização a grande maioria das pessoas que pensam e discutem problemas considerados “baixo-astral” pelo lumpesinato que corteja e baba-ovos das elites encasteladas.

Ninguém censura a notícia de que o PROER emprestou dinheiro a canalhas de sobrenomes alegóricos e salvou da cadeia gente como os donos do Banco Nacional e do Econômico. O que está veladamente interdito é a expressão indignada de quem assiste o este carnaval de grosserias e é levado a ter que contemplar passivamente o imbroglio, aceitar passivamente que os beneficiados destas grandes maracutaias continuem merecendo o padrão de vida que conquistaram furtanto os outros e esquecer um assunto que, até segunda ordem, não é da sua alçada.

Reclamar ou tratar destes assuntos pode torná-lo indesejado nas rodas sociais modernas: corre-se o risco de ser considerado um “chato” por amigos e parceiros de boemia, mais interessados no ânus da Tiazinha do que em papao de política.

Fausto Wolf não afirma que estamos com mordaças na boca, mas garante que, na maré de atitudes elegantes protocolada pelo sociólogo Fernando Henrique, tornou-se vital se portar com discreção absoluta quando a discussào chegar aos assuntos políticos, bem como permanecer fiel ao ponto-de-vista de quem usa antôlhos e acredita que, apesar do sacrifício exigido, a nação sairá vitoriosa num futuro tão próximo quanto o da descoberta da vacina contra a AIDS.

Naquela noite de festa, apesar de ter sido um tanto desagradável, Fausto Wolf traçou uma série de comparações entre os anos de chumbo do Regime Militar e os atuais anos de Democracia Lacaniana (o termo é dele):

– O que chamávamos de “Imperialismo”, por exemplo, foi tranquilamente substituido pelo conceito de “franchising” e tornou-se responsável por uma série de bons negócios avidamente desejados por emergentes (ninguém percebe, discute ou reconhece a drenagem das riquezas nacionais por trás desta fachada de oportunidades profissionais).

– O PMDB deixou de ser “histórico” para oferecer à História gente como Sarney, Inocêncio de Oliveira, Itamar Franco…

– A guerrilha, quando não está disciplinada pelas doutrinas do MST (aliás, única rebeldia digna de respeito em ação no país) saiu do Araguaia e levou sua luta armada aos morros, substituindo armas soviéticas (comunistas) por tecnologia israelense e norte-americana…

– Até o Miguel Arraes acabou se misturando com o Maluf, no caso dos precatórios (mais uma bandaleira que não deu em nada).

– O “hippie” perdeu a guerra para o “yuppie”…

3. quem tem mêdo de Fausto Wolf?

Quem ousaria chamar publicamente Fernando Henrique Cardoso de Filho da Puta?

Quem seria este mal-educado, de mal com a vida e sem capacidade de crescer com as inúmeras e maravilhosas oportunidades criadas pela moeda forte que ele nos doou como um ícone de sua saúde política?
Quem tem peito e fôlego para encarar a máquina de comunicação político-social do governo, cujos tentáculos vão da Rede Globo às redações dos principais jornais?
Quem acredita mesmo que, ficando na sua, deixando o barco correr sem se comprometer com nada, vai herdar um país como o prometido pela campanha do re-eleito e seus pares?

Quem tem coragem para agir e pensar como Fausto Wolf?

veja a notícia: AQUI

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