LAURITA MARTEL escreve a segunda carta para GARCIA de GARCIA.

Meu querido,

Não sabes como me alivia saber que não guardas nenhum rancor. Eu era uma menina ainda quando você me encontrou e eu também guardo as melhores lembranças daquelas noites. Mas eu não podia ficar, aquele lugar era muito pequeno para mim, a minha alma precisava de expansão, eu precisava de experiências novas, descobrir quem eu era. Depois do nosso encontro, já tive muitos amores estrangeiros, e hoje acho que todos eram uma espécie de retorno ao que tínhamos sido e vivido. Um estrangeiro, um homem que vinha do mundo, com as mãos cheias de histórias. E aquele idioma que me ensinava palavras novas, que me nomeava de outros jeitos, E a sua voz, quente, doce, rouca, que eu não esqueço. Que bom que você decidiu viver no Brasil, mesmo não sabendo onde você está, agora sinto que estamos mais próximos, muito embora eu nunca tenha me sentido longe de você. Você esteve dentro de mim todos estes anos, era com a nossa experiência que eu comparava todas as demais. Era com você e com a força que você me transmitia que eu comparava todo o resto. Eu também não planejei a escrita de uma carta, era pra ser um comentário, mas acho que me entusiasmei e decidi contar um pouco de mim pra você. Não vou enviar o meu endereço particular. Vamos nos comunicar assim, se você concordar. Vivo um momento difícil no meu casamento, com um homem que merece todo o meu respeito. Mas agora, não é dele que quero falar, é de nós. Estou tomada pela saudade, imantada com as lembranças daquilo que sei que foi o melhor de mim. Que maravilha você lembrar do meu corpo de mulher jovem, que maravilha ouvir você me chamar de indomável. Foi com você que aprendi sobre isso, meu querido, que o meu corpo ansiava por experiências que respondiam aos anseios da minha alma. A última noite em que estivemos juntos foi um marco na minha vida. Você me ensinado com seu corpo, que eu era a dona do meu corpo, e que com você eu tinha espaço e lugar para crescer, para ser eu mesma. Indomável, quente, carinhosa, arrebatada. E perfumada, para encantá-lo. Meu Deus, que saudade de nós, meu querido, que saudades de mim. Mas é claro que não sou mais a mesma. Me sinto como a personagem daquele filme que diz que é muito jovem pra ser velha e muito velha pra ser jovem. Indomável sempre, saiba. E pronta para você, da maneira, que for, nem que seja esta, através das palavras. Para onde vamos agora? Me conduza nesta dança, me leve com você. Desta vez eu não vou fugir.

Sua Laurita Martel.

 

se o leitor(a) quer saber mais sobre o caso:

primeira carta de Laurita Martel: AQUI

resposta de Garcia de Garcia: AQUI

4 Respostas

  1. Pedro Henrique
    É fantástico como você é um homem tão aberto! Que se passou consigo, para ser tão adoràvelmente romântico? Já desceu à categoria dum bicho que acasala quando necessita?
    Espero que seja um indivíduo só, porque conviver consigo
    deve ser…um barato! Mas nem tudo está perdido! Quem sabe se um dia, ao virar duma esquina, não encontre a mulher (ou
    homem) que lhe diga mais qualquer coisa, que lhe transmita
    algo mais, do que o primitivo desejo do acasalamento, num
    motel, como você diz, ou até numa esquina (como as matilhas de cães que encontramos tantas vezes atrás duma fêmea com cio?). Lamento que a vida nunca lhe tivesse proporcionado a
    mulher que você se calhar esperava. Mas talvez um dia isso ainda venha a acontecer e aí preencherá esse vazio tão amargo que deixa transparecer. Boa sorte, amigo e faça o favor de ser feliz.

  2. acho muito feminino este desejo de romance e melação, na verdade, a intimidade de cada um nem deveria ser exposta desta maneira na net, quem quiser ficar se esfregando que vá prum motel, ora bolas! é isso que eu acho.
    pedro henrique setembrine.

  3. minha muito querida vera lucia,
    nem eu mesma sabia o quanto minha alma ansiava por retormar esta interlocução que já parecia perdida, nem eu mesma sabia, que, mesmo não sendo mais jovem, podia sentir novamente este encantamento, reavivar este fogo que foi intenso um dia, minha vida mudou, sou outra e me sinto perdida como uma adolescente tardia, mas feliz, inteira, leve, e ansiosa, é claro. Obrigada por suas palavras tão amigas, receba o abraço afetuoso da
    Laurita Martel.

  4. Felizes daqueles (ou daquelas) que têm ainda alguém a quem
    dirigir uma carta de amor. E se isso acontece, que se aproveite
    esse pedaço de papel branco, como que se de uma tela se tratasse, para ali pintar todos os reflexos de um arco-íris imaginário em que se tornam as nossas almas. É bom escrever e receber cartas de amor! Genuínas cartas de amor! Confessar, a esse mensageiro mudo, toda a força da nossa paixão, todas as dores que choramos, enfim, toda uma torrente de sentimentos que muitas vezes não temos coragem
    de expressar. Por isso, uma carta de amor é mesmo… uma
    confissão íntima de uma ainda mais íntima paixão!
    Gostei imenso desta. Espero ler mais missivas destes colaboradores.

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