RODIN E CAMILLE CLAUDEL – por flávio calazans

 

“Se a religiosidade não existisse, eu teria a necessidade de inventá-la. Os artistas verdadeiros são, em suma, os mais religiosos dos mortais”                       

Rodin, em O misticismo na Arte, capítulo de A Arte.

 

Dia 11 de julho de 1995, terça-feira, Paris amanheceu ensolarada e feliz.

Em uma caminhada sem destino pelas ruas da Cidade-Luz, bebericando nos cafés, visitando as livrarias, cheguei até o Centro Georges Pompidou com sua armação de canos de metal e ao “Quartier de l’Horloge” com a livraria mais “Cult”, a “Fantasmagories”(13, rue Brantome) com vasto acervo sobre artes visuais, Cinema de Autor, TV e Histórias em Quadrinhos de Arte, além de fanzines de vanguarda bem experimentais.

Depois, passeio pelo Metrô, visito a estação Saint Michel, toda verde em estilo Art Noveau, e depois chego a uma enorme mansão com jardins atráz, quase um pequeno bosque, o Museu Rodin (77 Rue de Varenne, Metrô estação Varenne) no Hôtel Biron.

            O movimento e as expressões, toda a emotividade registrada nas estátuas é profundamente comovente, é impossível não repetir o universal clichê “Parecem estar vivas”, pois Rodin congela em um instantâneo tridimensional toda a energia de uma vida e suas contradições.

            Rodin vivia no meio de uma explosão cultural, frequentava seu atelier gente do porte de Alberto Santos Dummont, o brasileiro que voôu em Paris no primeiro avião, o 14-Bis, que Rodin imortaliza em um busto; o mago inglês Aleister Crowley, e todos os literatos, políticos, artistas de um momento de explosão cultural na europa centralizado em Paris; é a época do pintor Cézanne (cujas banhistas e mesas com várias perspectivas inspiram Picasso ao Cubismo), do filósofo alemão Nietzsche e seus aforismos, da música de Debussy (que depois seria namorado de Camille).

            Entre 1887 a 1890 a fama de Rodin explode, junto à aluna-modelo-escultora-amante Camille Claudel, cuja história de amor é inesquecível, do namoro à loucura da mulher abandonada, destruindo as próprias obras como um aborto cósmico, e internada em manicômio até o falecimento.

            O secretário de Rodin, Rainer Maria Rilke, envolvido neste turbilhão cultural anos depois fica nos anais da História da Arte, não só como poeta e crítico literário, como pelo livro clássico, uma leitura obrigatória de todos que amam a arte, o livro “Cartas a um jovem poeta” onde dá lições de vida e de arte a seu correspondende Franz Xaver Kappus, em um processo de anos de missivas, o longo e paciente processo de desenvolvimento da sensiblilidade.

            Para Rilke, de seu longo convívio com Rodin, desnuda-se um artista que ele descreve com carinho, um artista plástico sempre lendo, invariavelmente com um livro nas mãos,  Rodin exercitava uma transformação de sí próprio na escultura, modelando a sí mesmo, corpo e espírito, nas obras; uma arte cujo conjunto é um testemunho-grimório em pedra e metal, um registro das etapas deste processo alquímico, onde a beleza está nas entrelinhas de toda a realidade, e se não a percermos, é por não ter os olhos capazes de maravilhar-se com o encanto do mundo.

             Rodin fala com a linguagem do corpo, sua poesia está no espaçial, não no verbal, uma arte sensual, visceral, fruto das emoções aceitas e assumidas, refinadas, desenvolvidas, sutilmente sofisticadas.

            É o que fala o gravurista-poeta inglês Willian Blake: “Arte é a árvore da vida” referindo-se à cabala, e “Os caminhos dos excessos levam à sabedoria”.

            Também o diz o poeta francês Arthur Rimbaud, na Alquimia do Verbo: “O Poeta se faz vidente por meio de um longo, intenso e racional desregramento de todos os sentidos”.

            Estes excessos, este desregramento dos sentidos é o êxtase místico presente na obra de Rodin e Camille Claudel.

            É preciso estar frente a estas esculturas, andar em torno delas e, em O Beijo, perceber o instante congelado no tempo que antecede em um microssegundo o toque dos lábios dos amantes…sutil e sensível registro de todo o vórtice de sentimentos do primeiro beijo paradoxalmente entre tímido e apaixonado do casal.

            O garbo de Balzac envolto na capa, tão polêmico-como toda obra genial o é-a frorça de Vitor Hugo, as redes de emoções sobrepostas dos Burgueses de Calais, e a beleza das velhas anciãs, enrrugadas em sua dignidade e miséria…mas, acima de tudo..

 

            A Porta do Inferno de Rodin !

 

            Passeando nos jardins do Museu Rodin e saboreando, usufruindo tanta beleza, deparei-me repentinamente com sua gigantesca ”Porta do Inferno”. A emoção estética comove-me até as lágrimas, choro soluçando , profundamente tocado , lamentando por Rodin e por mim mesmo.. .até hoje ainda sinto um nó na garganta ao ver esta porta! Sinto todo o sofrimento das estátuas coladas naquele portal soldado, enormidade fundida em um bloco único; a poesia tenebrosa do monstruoso portal que nunca , jamais poderá ser aberto..eternamente selado..todas as obras inacabadas ou nunca realizadas, todos esboços esquecidos e trancados no inferno criativo de cada artista…o ”salão dos recusados” das idéias rejeitadas no meu inconsciente, retorcidas e injustiçadas, que nunca ninguém vai ver.

            A Porta do Inferno é o Nigredo, a Obra em Negro dos Alquimistas, a noite escura  da alma descrita pelos místicos europeus, a descida ao inferno do herói mítico, Orfeu, Hercules, etc…talvez tudo fosse mera projeção do meu inconsciente..mas, então, o que não seria projeção na vida? Vale a autêntica emoção que tomou todo meu ser, e minha sinceridade em deixar que crescesse até o meu pranto soluçante e convulsivo.

            Acima de tudo, o ”Pensador” observa sem nada poder fazer…a fatalidade cruel de nosso inferno pessoal criativo..quantas obras ainda vou condenar a minha própria porta do inferno? Indubitavelmente, tenho muito mais obras no meu inferno das não-nascidas que as realizadas…quanta dor, agonia eterna das formas mentais que vizualizei e não permití existirem.

            Após visitar por horas o jardim florido e a comovente sala ”Camille Claudel” e deliciar-me com Psiquê estendendo as mãos para um cupido que escapa, com aquelas Fofoqueiras e a magnífica Onda verde com as três meninas encarando a iminente e inevitável tragédia do vagalhão avassalador; tantas lindas miniaturas introvertidas e delicadas em seus tocantes detalhes femininos, intimidade e interiorização, obras que comovem por serem tão pessoais, tão biográficas…é Camille dentro de cada uma, ela retrata sua alma, seus sentimentos, e os expõe a nú como somente um verdadeiro Artista tem a coragem de se expor, um mundo de sensibilidade extrema, um retrato comovente da alma feminina; …só então, depois de uma longa tarde, é que conseguí então controle para voltar à Porta do Inferno e tirar uma coleção de fotos-cicatrizes.

 As enormes esculturas de Rodin poderiam indicar um  caráter extrovertido, social, público-político, com ligações com os poderosos, status, aparências;  mármores pesados, duros, sólidos, gigantescos (segundidade) e seu enquadramento nos cânones das obras públicas agradando as maiorias (nem sempre…) em uma terceiridade, sua amargura e fracasos poderiam estar na “Porta do Inferno” das obras condenadas que todo artista tem nos porões do inconsciente ou do atelier, tudo encabeçado pelo próprio auto-retrato retorcido como o Pensador no umbral.

Ao contrário, as delicadas miniaturas de Camile Claudel mostram sua personalidade introvertida, detalhista, materiais transparentes, fragilidade oculta sob as máscaras sociais de mulher independente; do conjuno das esculturas  e sua cronologia pode-se reconstruir um sintagma de provável culpa e aborto nas faces infantis, de perda do amado nas “psiquês sem cupido” e da perda de auto-estima em medusas , antevendo a catástrofe com as três deusas (moiras-parcas) sob a enorme e inevitável onda prestes a rebentar sobre elas,chegando à internação no sanatório onde falece.

 

Bibliografia:

 FABRE-PELLERIN, Brigitte. Le jour e la nuit de Camille Claudel. France: Lachenal e Ritter, 1998.

 RILKE, Rainer Maria. Rodin. Rio de Janeiro:Relume Dumará, 1995.

 RILKE, Rainer Maria. Poemas e Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Tecnoprint, S.D.

 RODIN, Auguste. A arte: conversas com Paul Gsell. Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1990.

 RODIN, Auguste. Aquarelas e desenhos eróticos.  Bibliothèque de l’image, 1996.

 THE RODIN MUSEUM GUIDE. Laurent, Monique, Paris:Éditions Hazan- Les Guides Visuels, 1994 .

 WAHBA, Liliana Liviano.Camille Claudel: Criação e loucura.  Rio de Janeiro: Record-Rosa dos ventos, 1996.

 WITTKOWER, Rudolf. Escultura. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

6 Respostas

  1. cheguei aqui pq pesquisava a chave – artitas, modelos e amantes – sabia que mais cedo o mais tarde encontraria rodin e camile. eles eram diferentes, o fogo e a água é metáfora que me vem. o feminismo francês num chovinismo invertido pregou ao mundo a idéia de um camille oprimida pelo amante. eles quase se tocam, mas são diferentes. é um empobrecimento do sentido das obras do rodin e camille querer falar em um artista maior e outro menor. é a trágédia da vida, do amor e da paixão, é a moral imperativa do comportamento (vitorianismo embaçando o entendimento). artistas sempre tiveram amantes, suas modelos e suas alunas, renoir, manet, diogo rivera, frida kall, louise bourgeois. e as modelos tiveram seus amantes artistas e professores , muitas vezes mais de um. é assim, o oficio da arte penetra o interior do ser humano que esta pra além desta forma moral monogamica, isso é pequeneses. “pobre camille”, não acho não… viver é uma tragédia e uma comédia, uma locura de lucidez que vista aos olhos de muitas outras vidas ditas saudáveis aproveitou muito mais a dádiva de ter vivido. ser mulher não é facil, mas isso não é culpa do rodin. ele é grande com e sem ela. os artistas querem ser grandes com seus parceiros amorosos, isso é comum, existe um equilíbrio nisso, muito além do status e da vaidade de dizer “sou um artista e consebi esta obra.” termino com um caminho para este entendimento de uma outra mulher que viveu muito parecido com camille e isso não a desagregau ao contrário: simone de beauvoir, “Não se nasce mulher: torna-se”

  2. Por Camille Claudel guardo em meu coração um carinho todo especial. Estive em Paris e de repente me deparei com uma porta fechada (as portas das moradas típicas de Paris…) e nela uma placa – Atelier Camille Claudel. fiquei tão pasma e quis fotografar – mas deixei-me levar adiante com aquela porta na memória.
    Agora, inexplicavelmente encontro o meu nome (secreto) no cabeçario deste comentário… Estava buscando na internet o atelier do Quai de Bourbon…
    Camille você revive no meu coração.
    Helena

  3. A mulher que sempre esperou….!A escultora que escupiu com o féu!
    Oh ,assim como tantas outras Camilles e Marias.Camille, as vezes penso que estou aqui para fazer justiça ás mulheres.Para contribuir para que seu talento de escultora seja reconhecido.Você amou demais o homem que escolheu.Você amou a vida a natureza…Minha querida Camille você só não permitiu se amar…A pressão social, os preconceitos ainda hoje não nos deixam ser nós mesmas.Ficamos com medo de viver intensamente nossas escolhas..De forma apaixonada retomo hoje sua trajetória de vida e paixão.Quero ressaltar seu talento e sua garra.Sou uma psicóloga apaixonada pelo meu trabalho e você me ajudou no processo de reflexão que tenho que aprender. Também a me amar cada vez mais…e ser feliz assim amando , sem depender do amor do outro, com o outro fico ainda mais feliz, porém sem ele continuo a caminhada ……parabéns a nós mulheres que amamos demais!!!!!!!!!!.Peço a Deus por você Camille Claudel .”Escultora por todos os séculos dos séculos .Amém”….obrigada por você existir no meio de nós.

    1. Continuava a caminhada encerrada num manicómio??????????????????????????????
      Garanto-lhe que não ia longe
      Pense mais e escreva menos

  4. Oh Camille, as vezes penso que estou aqui para fazer justiçaÀs mulheres.Para contribuir para que seu talento de esculltora seja reconhecido.Você amou demais o hnem que escolheu.Você amou a vida a natureza…Minha querida Camille você só não perimtiu se amar…A pressão social, os preconceitos ainda hoje não nos deixam ser nós mesmas.Ficamos com medo de viver intensamente nossas escolhas..De forma apaixonda retoma hoje sua trajetória de vida e paixão.quero ressaltar seu talento e sua garra.Sou uma psicóloga apaixonado pelo meu trabalho e você ajudou no processoa de reflexão de que tenho que aprende também a me amr cada vez mais…e ser feliz assim amando , sem depender do amor do outro, com o outro fico ainda mais feliz, poré sem ele continuo a caminhada ……parabéns a nós mulheres que amamos demais.Peço a Deus por você Camille Claudel .”Escultora por todos os séculos dos séculos .Amém”

  5. Camille, uma mulher e tanto

    Embora rejeitada, em sua época, como artista, simplesmente porque era mulher e apaixonou-se por um homem casado, Camille Claudel, deixou sua marca e sensibilidade em muitas obras eternas, inclusive em sua colaboração com o mestre Auguste Rodin. A Porta do Inferno, citada no post de Flávio Calazans, recebeu um pouco de seu talento, sempre voltado para o rude escultor francês, assim como os Burgueses de Calais, que ainda passeiam, qual taciturnos fantasmas de bronze, pelo jardim do velho Hôtel Biron.
    De certa maneira, Camille Claudel (ou Modemoiselle C., como a chamava, discretamente, seu amante Rodin) foi mais intensamente artista que seu mestre. Muitas de suas obras foram destruídas por ela mesma, no auge dos delírios paranóicos. O que se pode ver, no Museu Rodin, são apenas 15 obras tardiamente reunidas por Rodin e colocadas, por sua orientação, em uma sala especial. Mas são inigualáveis.

    Irmã de Paul Claudel – intelectual extremamente religioso, convertido ao catolicismo, mas que pouco ou nada fez para evitar sua internação em um manicômio por trinta anos, até sua morte – Camille foi, além de artista, uma mulher que não se curvou aos preconceitos da época.

    O cinema fez sua homenagem a ela, em 1988, com um filme de Bruno Nuytten. Se Calazans não o viu ainda, com certeza também soluçará ao assisti-lo. Gérard Depardieu interpreta o escultor e a bela Isabelle Adjani se transforma maravilhosamente em Camille, além de co-produzir a obra. Um poema cinematográfico, que narra a vida, paixão e morte lenta dessa mulher extraordinária. Um dos mais belos filmes que já vi.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: