A NOITE DA POESIA NO TEATRO GUAÍRA – por manoel de andrade

A NOITE DA POESIA NO TEATRO GUAÍRA

 

                                                                             Manoel de Andrade

 

 

        Em 1965 o Pequeno Auditório do Teatro Guaíra abriu seu palco para um dos mais belos espetáculos de cultura literária já realizados em Curitiba: A Noite da Poesia Paranaense.

        Organizada pelo Centro de Estudos de Jornalismo da PUC, com apoio da Secretaria de Educação e Cultura, seu objetivo era levar a poesia e o poeta a um contato mais direto com o público. O evento teve à frente a brilhante figura da jovem intelectual Lúcia Glück, bem como  Vânia Mara Welte, Nelson Luiz de Oliveira, Diretor Cultural do CEJUC, entre outros.

        O acontecimento colocou sob as luzes da ribalta quatorze poetas entre os quais se encontravam os veteranos Leopoldo Scherner, Helena Kolody, Vasco José Taborda, Otávio de Sá Barreto, Apollo França, Graciette Salmon  e a geração de 60 composta pelos jovens poetas: Hélio de Freitas Puglielli, Sônia Régis Barreto, Maria Inês Hamann, João Manuel Simões, Paulo Leminski, Humberto Augusto Espíndola, Maria de Jesus Coelho e o subscritor deste texto, Manoel de Andrade.

        Com os dois recintos totalmente lotados, o palco se abriu sob a penumbra de uma platéia que assistiu atenta à leitura dos poemas, aplaudindo com entusiasmo cada um dos participantes. Quando o recital terminou, uma imensa ovação repercutiu estrondosamente em todo o ambiente, sustentando sua intensidade por quase três minutos, premiando assim os poetas com um reconhecimento que perenizou na memória de muitos dos presentes a beleza indelével daquele espetáculo de cultura.

        Em 2002, numa carta-documento em que Jamil Snege  honra minha poesia política junto à Comissão de Anistia, o escritor relembra ainda, trinta e sete anos depois, a sua presença naquele fantástico acontecimento cultural.

        Entusiasmados pelo seu grande sucesso, a Comissão Organizadora se propôs a repetir o mesmo espetáculo em 1966, mas encontrou as portas oficiais da Cultura já fechadas e encerradas pela Ditadura Militar, e a imensa noite que se aquartelou sobre a nação, silenciou por vinte anos as  vozes combatentes da cultura, amordaçando o teatro de resistência e emudecendo a oralidade pública da poesia.

 

Um espaço para a poesia

 

      Agora, em 2008, quando nossa memória política tem relembrado tantos fatos desfraldados pelas bandeiras da arte e da literatura na década de 60, dois dos sete poetas sobreviventes daquela Noite de Poesia, Helio de Freitas Puglielli e o autor destas linhas, se reencontram, após 40 anos de saudade, e resolvem reeditar o memorável Recital de 1965. Partilham então a idéia com alguns outros poetas e encontram no entusiasmo de J B Vidal   (João Bosco Vidal) e Marilda Confortin,  os confrades afins para organizar a Comissão de um novo espetáculo. A idéia estava no ar quando recebi, do médico e empresário Cadri Massuda, o convite para organizarmos o evento poético no seu recém inaugurado Espaço Cultural Alberto Massuda, ambiente em que a inteligência, o bom gosto e a criatividade uniram arte, literatura e gastronomia.

       Hoje, numa época em que a indústria editorial retira “cruelmente” a poesia dos seus títulos de mercado; numa época marcada pelo silêncio e a omissão dos órgãos oficiais da cultura em relação ao papel declamatório e social da poesia; numa época em que a oralidade e o tom encantatório da arte poética vai emudecendo; enfim, numa época em que a poesia perdeu sua cidadania literária e os poetas são vistos como esses seres desgarrados e apenas tolerados pelo mundo globalizado, uma voz se manifesta, neste território literariamente descomprometido da iniciativa privada, e nos acena com entusiasmo oferecendo um “palco” para que nós, os poetas, possamos dizer nossos versos. O Espaço Alberto Massuda, com apenas dois meses de vida, já marca a notoriedade do seu território cultural. Agora em agosto  abriu suas portas para dois lançamentos de livros de poesia, oferecendo o coquetel, o belíssimo folder eletrônico do convite e a sua impressão gráfica para ampla distribuição, num raro gesto de solidariedade cultural com os autores. Porem é importante ressaltar que muito além das atividades literárias, da pequena livraria e do espaço áudio-visual para projeção, lançamento de filmes e apresentações teatrais, o local, com seus 3 pavimentos, se destaca, sobretudo, como uma verdadeira Galeria de Arte. Ao longo dos seus 500m² uma parte significativa dos quadros e gravuras de Alberto Massuda está exposta em suas paredes, nichos e painéis.  Todo este acervo, bem como as exposições e o agendamento dos eventos no âmbito das artes plásticas já estão sendo coordenados pelo curador Luiz Fernando Sade.

 

Um  novo Mecenas?

 

         Quem é esse empresário que aprendeu com o pintor Alberto Massuda, a sensibilidade e a paixão pela arte? Que conservou cuidadosamente, desde muitos anos, o imenso acervo de telas e desenhos de seu pai falecido no ano 2000!? Em 2004, publica o livro de Gravuras “Alberto Massuda e o Surrealismo Paranaense”. Em 2006 reuniu, pacientemente, todos os manuscritos e fragmentos com os poemas do pintor e nos revelou o seu lado literário, publicando os “Poemas de Alberto Massuda” . Em 2007 reúne 116 gravuras e outros trabalhos inéditos do artista e publica “Alberto Massuda – Gravuras”. Neste ano de 2008, seu sentimento de gratidão pela memória paterna e sua sensibilidade pela arte  reúnem  a pintura e a poesia na moderna arquitetura de um velho casarão tombado no Centro Histórico,  transformando uma casa em ruínas no mais belo recanto de cultura de Curitiba. A obra iniciada em 2005 cobrou um investimento de um milhão de reais para realizar avançado projeto, onde as linhas coloniais partilharam sua beleza com o estilo contemporâneo.

        Mas quem é afinal o cidadão Cadri Massuda? Professor da UFPR, médico humanitário e empresário de sucesso na área de medicina de grupo, foi recentemente escolhido pelo Governador do Estado para dirigir o recém-inaugurado Hospital de Reabilitação do Paraná, justamente pela sua competência e o trabalho voluntário de muitos anos como Diretor da Associação Paranaense de Reabilitação. Para aqueles que, além do médico, conheciam-no apenas como um apaixonado visitante dos museus do Brasil e da Europa, surge agora, pela imagem de um grande empreendimento, o inusitado protetor da cultura em Curitiba. Seria um novo Caius Mecenas, um outro Lourenço Médici? Aquele patrocinando, sob o Império de Augusto, a poesia de Horácio e de Virgílio, e este, na Florença renascentista, a arte de Michelangelo. Ressalvadas, é óbvio, as justas proporções históricas e culturais, vamos dar as boas vindas ao Dr. Cadri. Quem sabe as razões da sua solidariedade para com a cultura venha de um homem que conheceu as grandes dificuldades que o próprio pai, como artista, teve que passar para sustentar seus sonhos e conquistar o seu espaço num contexto cultural tão adverso. Venha de um homem cuja real fortuna está no coração e no espírito porque pagou seu curso de medicina e ajudava a sustentar a família, vendendo artesanato nas feiras dominicais do Largo da Ordem. De qualquer maneira, a vida lhe abriu muitas portas e o material que se veiculou pela imprensa escrita, falada e eletrônica, dizem da importância do seu melhor “negócio”. Reportagens, releases, artigos, entrevistas, opiniões e comentários dando destaque à sua inauguração, prenunciam que o Espaço Cultural Alberto Massuda, na Trajano Reis, 443, se apresenta, na atualidade, como o melhor endereço para se provar o mais requintado “cardápio” de cultura e culinária da Cidade. Acreditamos que o “ESPAÇO” veio para ficar e quem está por trás de tudo isso já não poderá mais disfarçar sua anônima sensibilidade e nem esconder sua invejável modéstia, reveladas agora pela realização dos seus próprios ideais de beleza.

 

A 1ª Semana da poesia paranaense

 

          Com a participação de cerca de 20 poetas, da Capital e do Interior, a 1ª SEMANA DA POESIA PARANAENSE se realizará nos dias 23, 24 e 25 de setembro e espera que o seu sucesso seja o aval para que os órgãos oficiais de cultura, municipais e estaduais possam colocar o evento como um fato cultural na agenda anual da Curitiba..  Além dos quatro poetas que integram a Comissão –Hélio de Freitas Puglielli, Marilda Confortin, J B Vidal (João Bosco Vidal) e Manoel de Andrade — já confirmaram presença os poetas Leopoldo Scherner  — participante da Noite da Poesia em 65 — Adélia Maria Woellner, Walmor Marcelino, Bárbara Lia, Jairo Pereira, Roza de Oliveira, João Batista Lago, Solivam Brugnara, Maria da Graça Stinglin, Nei Garcez, José Carlos Correia Leite, Philomena Gebran, Daniel Faria, Sergio Pitaki e Lucrecia Welter. As noites de poesia serão nos dias 23 e 24 e a leitura do perfil literário de cada poeta será feita pela apresentadora Laís Mann. O programa se encerra na noite do dia 25, com o coquetel de lançamento coletivo de  livros de poesia, onde estarão autografando os poetas Jairo Pereira, Roza de Oliveira, Bárbara Lia, Solivan Brugnara, Lucrécia Welter, Adélia Maria Woellner e Sergio Pitaki.

 

2 Respostas

  1. Sim, sou eu. Que saudade daquela noite encantadora. Ela deixou marcas fundas e uma inabalável crença na poesia. Gostaria de entrar em contato com você. Estou em São Paulo, onde leciono (PUC/SP). Meu e-mail é sregis@terra.com.br. Abraço grande. Grata pela lembrança, Sônia Régis

  2. Gracias por este tema

    Tome ventaja tiene mucho

    Y doy las gracias a los que en este sitio

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