O SAPO por hamilton alves

 

 

 

 

                                   Amanheci em cima de uma Vitória Régia. Num laguinho de nada, que nem fazia supor que ali haveria de brotar essa belíssima planta aquática, que dá uma flor tão bonita

                                   – Ó, que é que houve?! – perguntei-me, assustado, no primeiro momento em que me vi transformado num sapo.

                                   Logo percebi que, nessa condição de batráquio, tinha que me virar. Ou me adaptar à nova situação.

                                   Ocorreu-me logo – como não poderia deixar de ser – o problema com Gregor Samsa, que todo mundo conhece: em determinada manhã, vê-se metaformoseado num repugnante inseto. A trabalheira que lhe deu, coitado, para se ajustar à nova realidade foi incrível. Como reconhecê-lo como tal?

                                   Se a metamorfose em sapo tivesse acontecido em casa, entre os meus entes queridos, seria pior. Alguém haveria de querer saber que diabo era esse sapo? Ou de onde veio? Como admitir que um sapo, súbito, surgisse no quarto de dormir? Até que as coisas se explicassem (ou nunca se explicariam) levaria certamente um bom tempo e a todo tipo de indagação.

                                   Em tal situação ou me defrontando com tais pessoas, que sempre me foram tão íntimas, que explicação lhes dar. Não haveria nenhuma, de certo. Era aguentar as pontas transformado, sem saber como nem porque, em sapo.

                                   Mas em cima de uma folha enorme de Vitória Régia não haveria provavelmente ninguém que me aborrecesse. Poderia viver tranquilamente minha nova condição de sapo.

                                   Era de manhã, fazia sol. A primeira dificuldade era saber se me lançava na água. Ou se ficaria empoleirado em cima da folha. Os sapos, como sabido, são seres anfíbios. Tanto fazia mergulhar na água como alcançar a estrada paralela ao laguinho que daria no mesmo. De qualquer modo, não correria risco algum.

                                   Mas o que, no fundo, pretendia era saber se essa mudança duraria por muito tempo.

                                   Não me senti confortado na condição de sapo.

                                   Se, por acaso, encontrasse uma sapa e ela quisesse me paquerar, como lhe explicaria o problema?

                                    – Olhe, o negócio é o seguinte: não sou o sapo que você pensa. Foi uma casualidade… Essas coisas acontecem…

                                   A sapa riria na minha cara? Ou o que faria?

                                   A situação, como se pode ver, não era nada cômoda.

                                   Não tinha a menor experiência de ser sapo. 

                                   Tinha ouvido (ou lido), em “Alice no país das maravilhas”, a transformação de seres humanos em bichos. Tratava-se de um mundo de faz de conta. Meu caso era real.

                                   Resolvi pular n,água.

                                   Nadei até a outra margem.

                                   Notei que um gavião voava por perto.

                                   – E se ele resolver me dar um bote? – ponderei, preocupado.

                                   O pânico tomou-me conta.

                                   O gavião tinha ido embora, não me preocupava mais.

                                   Quando me aprumei em cima de uma pedra, um garoto me apontou um estilingue.         

                                   – Agora estou frito.

                                   Acordei-me, de repente. Suava em bicas.

                                   Fui ao lavatório, ainda meio zonzo. Olhei-me ao espelho. Consultei minha cara. O pesadelo tinha passado, felizmente.                                        

                                  

 

(set/08)

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