UM GRITO ENORME QUE NINGUÉM OUVE por zuleika dos reis


 

 

tarde cinzenta fria dia qualquer anônimo nos calendários sem sombra de dúvida oito de agosto de mil novecentos e noventa e um dezessete horas pontuais trinta minutos nos livros de história final do século vinte primeiro ano da última década os apocalípticos insistindo oito anos para o fim do mundo outros assegurando primórdios da era de aquário enquanto Rubem procura certamente neste instante le mot juste que se encaixe na estrutura de seu texto que não se enquadra em nenhum gênero literário que todos os gêneros literários já morreram e Rubem já faz parte do futuro e quem sabe lá nesse futuro após o fim de tudo as coisas todas degeneradas assim todas misturadas voltem  em NOVAS HIERARQUIAS e Rubem o cientista não mais precise dizer que tudo o que realmente importa é o futuro da espécie mas o tempo não existe nessa tarde cinzenta e fria tão cinzenta e fria assim fria e cinzenta com uma dor de cabeça infinita e tudo o mais de chumbo e quando você l’autre Daniel Aleph aqui sempre comigo e em todo lugar me dizendo que voltou a existir o tempo dos relógios não consigo acreditar NÃO POSSO essa certeza que não posso tritura-me nos cacos da janela embaçada da chuva lá fora fininhas agulhas no sangue saindo pelos poros e eu tenho que ir para o trabalho os alunos esperando para que eu lhes ensine corretos cada passo como se deve escrever um texto bem comportado e todos coordenadora pedagógica diretora inspetor supervisora os pais o sistema todos muito felizes e no fim do ano vão todos aprovados assim felizes para a próxima série mas não saio enquanto você aqui por mim adentro vai me extraindo de suas veias desmisturando do seu o meu sangue gota a gota logo enxurrada separando da sua boca o meu hálito do seu rosto desfazendo traço a traço os traços do meu rosto em seu espelho desfeitas linhas a escorrer do meu espelho e gritamos enorme  grito que ninguém ouve mas estremece os alicerces dos edifícios mas ninguém percebe nos escritórios que tudo desabando e na avenida paulista alguém chuta uma pedra mas os dedos há muito adormecidos e uma palavra pretérita de amor me olha do fundo do quarto com os olhos distantes balança a cabeça numa negativa se levanta da cadeira sai para o corredor sem olhar para os quadros abre a porta de saída  sai para a rua enquanto ouço ouço ouço em algum lugar de mim ouço ouço ouço ouço o último poema do último poeta da TERRA o poema encrencado na mesma palavra no antigo disco de vinil a mesma palavra repetida repetida repetida a palavra a última do último poeta da TERRA  e o último poema não anda não anda não anda como o trânsito agora às seis da tarde na marginal de pinheiros nesse crepúsculo de chuva enquanto sonho impossivelmente você caminhando em direção a algum orelhão para que ninguém possa saber nem ouvir as palavras que você nunca nem agora nem nunca vai me dizer mas  nem mesmo você pode se impedir de pensar se eu nessa hora já saí de casa para dar minhas aulas e se vale a pena atravessar os CINCO CONTINENTES  de si mesmo para em não sabemos que língua me dizer alô e eu me lembro de repente que Ofélia acabou de morrer e Álvaro de Campos deve estar muito preocupado já que agora tudo vai ter que recomeçar para que Fernando Pessoa seja convencido de novo de que não vale a pena escrever novas cartas de amor que todas são mesmo ridículas mas o problema é que todo mundo do lado de lá também já sabe quem foi Ofélia que acabou de chegar sem corpo físico como dizem que se chega neste lugar que chamam de eternidade e lá e aqui já não há quem não tenha lido as tais cartas ridículas e Fernando Pessoa que não sabe mais onde esconder todas as suas caras se fecha na nuvem mais próxima para que mesmo oculto não fique longe demais dessa Ofélia que acabou de chegar se oculta o tempo necessário para que todos os habitantes desse outro TEMPO-LUGAR se distraiam com novas celebridades que estejam a chegar enquanto nós do lado de cá estamos cada vez mais próximos mais próximos mais próximos do século vinte e um se é que ele chega porque Nostradamus afirmou que tudo só vai até mil novecentos e noventa e nove por isso deve haver gente que vai começar a se suicidar desde já e o que era crepúsculo agora já é essa noite da janela não consigo ver a emergir nenhuma estrela mas você quem sabe em algum lugar ainda de si mesmo me espere ainda com aquela mesma estrela no bolso a estrela impaciente dentro do seu bolso mas sabendo que não adianta nada estar assim impaciente e se transforma na bola de gude com que você brincava quando era criança e você que não telefona toma um café expresso pensando em tudo o que poderia ter sido se o mundo fosse outro se a história do mundo estivesse noutro tempo se eu fosse outra se os outros fossem outros e não houvesse tantos e tantos outros e outras fileiras multidões entre você e eu nesta noite em todas as noites e em todas as manhãs e tardes e sábados feriados e domingos e talvez alguns séculos ou pensa coisas muito diferentes que eu penso esteja você pensando os pensamentos que eu jamais poderei ouvir por dentro da sua cabeça e vão crescendo crescendo crescendo na sua cabeça e na minha cabeça até que a bola de gude que é também uma estrela se aconchega mais e mais e mais entre as dobras do seu casaco de veludo e dorme

 

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