Arquivos Diários: 2 novembro, 2008

ABOMINÁVEL LITERATURA crônica da hamilton alves

Ontem, quando o encontrei meio por acaso, atravessando a mesma rua, saindo de uma livraria (logo de onde, dado seu propósito, que me revelou em seguida), seguimos juntos até um bom trecho, trocamos algumas palavras, e, ao fim desse encontro inesperado, confessou-me de bate pronto:

– Abandonei a literatura.

Havia lhe formulado a pergunta sobre o que produzira ultimamente.

Não produzira nada. Acabara se convencendo, embora com uma até admirável obra, sua disposição irrevogável de não escrever mais nada. Quis uma explicação para tão inesperada quão surpreendente decisão.

– Aborreci livros, acho tudo isso uma perda de tempo. Até porque…

Passou próximo de nós um conhecido (ou parente), que lhe tocou no braço. O tal sujeito segredara-lhe algo ao ouvido, para o que revelou certo espanto. Seguiu caminho e nos deixou às voltas com a revelação que me acabara de fazer: “abandonar, por fim, esse maldito ofício das letras” – como se expressou.

– Mas só agora é que você entende de abandonar o belo ofício?

– Belo? Não há nada de belo nas letras. O que há, sim, é tortura e decepção.

Dizia-me que se fosse somar o tempo que despendeu em escrever livros não saberia quantas horas, dias, meses, anos perdera pacientemente em compor seus contos, suas novelas, poemas, etc. Decepção porque nunca fora valorizada sua obra. Seus livros sempre encalharam nas estantes das livrarias. Em casa, continua com numerosos exemplares de velhas edições. É tanto livro que a mulher vive lhe apoquentando o juízo.

– Isso (creio eu) passou a ser uma psicose. É livro por todos os lados. Entro em casa tropeçando em livros, o que só junta barata e traça.

Tentei de alguma maneira convencê-lo de que sua obra, embora fosse razoável que dissesse que ainda não colhera grandes triunfos, era muito considerada. Era citado como um dos melhores dentre os demais. Citei exemplos de escritores renomados que nunca receberam um prêmio, nunca tiveram o trabalho reconhecido, mas que hoje eram lembrados com seus contos publicados em revistas, jornais, até mesmo em antologias.

– Não me iludo mais. – disse-me como se quisesse por sobre o assunto uma pá de cal.

Abraçamo-nos e nos despedimos, não antes que lhe recomendasse que revisse sua posição. As letras muito perderiam com sua decisão.

Segui meu caminho refletindo sobre a confissão súbita do amigo escritor. Teria razão para abandonar, depois de tantos anos, a literatura?

Também eu não tivera crises semelhantes de mandar tudo às favas? Não escrever nem mais um bilhete. Por fim a essa carreira mal sucedida de escrevinhador. “Estou cansado de ser datilógrafo” – disse outro desiludido, Otto Lara Resende.

Bem pensando, o velho escritor tinha lá seus bons motivos de abominar tudo isso.

Lembrei-me de Tonio Kroger, personagem de Thomas Mann, que fora também assolado pela mesma idéia de viver uma vida medíocre, afastado da ambição de tornar-se merecedor dos aplausos do mundo. Ou “viver despercebido como uma sombra parda”, como assinalou, ao fim, como sendo seu maior anseio.

A túnica de Nesso – por alceu sperança

“Dormia a nossa Pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações” (Chico Buarque, Vai Passar)

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Reza a mitologia grega que o centauro Nesso tentava estuprar a bela Dejanira quando foi golpeado mortalmente pelo marido dela − o semideus Hércules. Se estivéssemos no Brasil, nas eleições de 2002, diríamos que o centauro neoliberalismo/PSDB/PFL estuprava a Nação, aumentando fortemente a dívida externa e liquidando o patrimônio nacional à custa de privatizações descuidadas, autoritárias e altamente prejudiciais à população, quando foi golpeado pelo Hércules/PT.

Na mitologia, a morte de Nesso parecia o fim dessa história de estupro. No Brasil de 2002, também pareceu que a vitória do PT seria a morte do centauro neoliberal, ao menos em Pindorama. Mesmo ferido, entretanto, Nesso/neoliberalismo convenceu Dejanira/Nação que para Hércules/PT não a trair, bastava ela presentear o semideus com uma túnica feita de sua pele mágica. Dejanira não desconfiou, porém, que o casaco de pele estivesse envenenado pelo sangue do centauro neoliberalismo/empréstimo/caixa 2/dólares em paraíso fiscal.

O que aconteceu, afinal, com Hércules? Ao vestir a túnica feita com a pele de Nesso, o veneno foi liberado, queimando a pele de Hércules/PT, que começou então a cortar na própria carne: cassava, digo, arrancava pedaços do corpo na tentativa de se livrar da túnica/empréstimo/caixa 2/dólares no exterior. Mas se de fato acontecer com o PT o mesmo que com Hércules, Lula está feito: basta, como Hércules, atirar-se numa fogueira (o colo dos ricos?) para destruir a túnica. Aí será possível ouvir o estrondo de um trovão, em meio ao qual o todo-poderoso Júpiter (Sistema financeiro global? Grande burguesa patrícia?) arrebatará seu filho para o Olimpo, onde, em meio a festas semelhantes aos comícios do passado, com claques e duplas sertanejas, receberá Hebe (a blindagem? Ou, como é deusa da juventude, a aparelhada UNE?) em divino casamento.

Como até agora a tragédia grega da dupla Hércules/Nesso se repetiu em toda a linha para a dupla PT/neoliberalismo, não perca o próximo episódio da mitologia moderna: o PT morrerá envenenado pela túnica de Nessoliberalismo ou acabará nos aposentos da divina Hebe, endeusado pela juventude?

O que ocorre hoje no Brasil é só mais um capítulo de uma novela nada mitológica: a crise do sistema político-institucional, potencializada pelo modelo econômico neoliberal e pela natureza antidemocrática e corrupta do sistema eleitoral, tudo isso agravado pelo enfraquecimento e privatização do Estado e o saque indiscriminado do patrimônio público. O PT rompeu o compromisso com mudanças ao fazer a opção de agir como a malsinada dupla PSDB/PFL. Herdou, de quebra, também a rede de corrupção que já existia, adotando um comportamento igual ao das elites na gestão do Estado e no exercício do poder.

Está tudo preparado: os ricos vão proteger o PT desde que ele mantenha a política neoliberal. Uma dúzia de parlamentares foram cassados e no lugar deles entrou quem, afinal? Nada além de suplentes menos votados, eleitos pelo mesmo, rigorosamente o mesmo sistema eleitoral corrupto e bilionário hoje em vigor. É a grande pizza da década, com o molho light de uma reforminha eleitoral cosmética. Na cabeceira da mesa, a dupla PSDB/PFL (hoje, DEM) esfrega as mãos de contentamento.

Quando fizeram aquele inútil referendo da compra de armas deveriam ter pensando em outro: “Você aceita a continuidade da política econômica neoliberal? Sim ou não?” Claro que seria deselegante, depois do plebiscito, sair por aí dando tiros para comemorar o categórico Não.

Rumorejando (Com a vitória do Massa e do meu Paraná almejando) – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Quando o obcecado, por razões óbvias, sentiu que estava sendo obrigado a se aposentar, evidentemente contra a sua vontade, pensou: “Torna-se mister que eu divulgue meu elevado know-how”. Aí resolveu usar o seu espírito – na opinião dele – altamente altruísta, criando uma escola, para a qual deu o título de Centro de Formação de Amantes. Rumorejando ainda não conseguiu saber se houve muitas matrículas. No entanto, em algumas que ocorreram, os alunos comentaram que adoraram as aulas práticas.

Constatação II

Deu na mídia: “Paraná precisa construir pelo menos mais 15 presídios. Apesar de o número de vagas nas penitenciárias paranaenses ter dobrado nos últimos seis anos, o excedente de presos no estado ainda ultrapassa 14 mil”. Data vênia, como diria nossos juristas, mas Rumorejando acha que o moto perpétuo está inventado: Quando terminarem os 15 novos presídios estiverem prontos, outros tantos serão necessários. E assim por saecula seculorum, até o fim dos tempos…

Constatação III

Não se pode confundir alegria com alergia, até porque o exemplo clássico é o aparecimento repentino da tua sogra, mostrando alegria por sua – dela – vinda, na tua casa e você começa ficar com manchas por todo o teu corpo, por causa da alergia.

Constatação IV

Na homilia

Dom Praxedes,

O padre bonachão,

Instou

A família

A não cometer pecado.

Quando terminou

Teve a impressão

De ter falado

Pras paredes.

Coitado!

Constatação V

A candidata,

Insensata,

Qual um polícia,

Com malícia,

Com irônico jeito

E de modo arbitrário,

Questionou,

A masculinidade

Do adversário.

O eleitor não perdoou

A sua iniqüidade

E ela se ferrou.

Bem feito!

Constatação VI

Na vida,

Talvez bisonha,

Se perde, se ganha.

No futebol,

Chova ou faça sol

Meu time,

Cá da terra

Por mais que se anime

Qualquer partida

Só se ferra.

Constatação VII

Após a lua-de-mel

Persiste

A sensação

Que não existe

Em um lugar qualquer

Algo assim bom

Como uma mulher,

Ou… um plantel.

Constatação VIII

Ela nunca quis

Acompanhá-lo ao motel

Por mais que ele insistisse

Pedisse,

Implorasse,

Chorasse,

Abrindo um berreiro.

Um dia, ela topou

Com pressa, ele se deitou

Na cama com dossel

Enquanto ela foi ao banheiro.

Rapidamente, ele quis

Tomar um cialis,

Cujo efeito apregoado

Era de pouco tempo.

Na pressa, o comprimido

Da sua mão escapou

E caiu no tapete, pois o chão

Não era lambris.

Por mais que procurasse

Não mais o encontrou.

Aí, deprimido,

No desespero ficou

Resolveu achar

Um passatempo.

Pegou, do bolso, um baralho

Que de tão velho tava embolorado

E quando ela despontou,

Toda vaporosa,

Toda charmosa,

Perguntou,

Com os nervos em frangalho:

Qual jogo você sabe jogar?

Coitado!

Constatação IX

O carvoeiro,

Com o rosto todo encarvoado,

Chegou em casa

Ficou branco de tão assustado.

E pelos seus olhos passou um nevoeiro:

A filha no colo do namorado,

Quase nua

E ele com as mãos no seu busto,

Com cara de que estivesse no limbo.

Os dois vendo um filme da Nasa

No qual, fumando um cachimbo,

Naquele instante,

O astronauta estava sentado,

Num pedaço da lua

Que estava na minguante.

Que susto! *

Coitado!

*Não ficou claro se o carvoeiro levou um susto com medo que o astronauta caísse da lua na minguante ou se foi por causa das condições que encontrou a filha, ou pelos dois fatos.

Constatação X

Tentei resolver

Uma equação

Não deu por matemática

Nem por informática.

Aí recorri à gramática,

Mas não deu no particípio

E cheguei à conclusão

Que não havia solução.

A equação insolúvel,

Irresolúvel,

Por princípio,

Se referia

A uma gata,

Ingrata

Que eu a havia

Lançado

Na mídia

E, depois que venceu,

Com perfídia,

Qual um político,

Me esqueceu.

O fato apocalíptico

De ela girar em torno

Do seu próprio umbigo

Me deixou morno,

Prostrado.

Achei, de tudo, o fim

Coitado!

De mim…

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br