Arquivos Diários: 6 novembro, 2008

As Nuvens do Curitibano – por tonicato miranda


Dizem que os Curitibanos são casmurros, desconfiados, fazem poucos amigos, sendo muito fechados ao contato com recém-chegados. É tudo verdade. É tudo mentira. Depende sempre! Depende da onde você vem. Depende de como você chega. Depende de quanto tempo você está se aproximando. Os Curitibanos são de fato introvertidos e meio machões. Não machões gaúchos, fanfarrões, mas machão que despreza a mulher apenas para provar que quem manda em casa é ele e não ela. Um machão que não bate, não dá porrada, procura se impor com o olhar. Coisa de alemão, se muito duro; coisa de polaco, se um pouco mais manso.

Dizem que a cidade era chamada Cidade dos Portugueses. Mas isto durou até três quartos passados do Século XIX. Depois, os migrantes a tomaram de assalto e os tropeiros deram lugar aos carroceiros italianos e polacos, estes os últimos a chegarem por aqui. Mas não sabemos se foi por conta da criação; por medo de serem penalizados, com o retorno forçado aos seus países de origem – o fato é que foram muitos os fatores contribuindo para deixá-los casmurros. Os pais e avós dos italianos, alemães e polacos de hoje criaram os filhos com receios de migrantes fugitivos. Não falar e trabalhar era a forma mais comum de se abrigar e estar longe de confusão.

Mas tem outras características que podem ser referenciadas à introspecção do povo curitibano: o clima. Um amigo disse-me que quando chegou aqui, no início dos anos 80 do século passado, passou no seu segundo ano curitibano quase 150 dias sem ver o sol e o céu. Estava literalmente debaixo de um cataclismo nuvioso. Disse que não enloqueceu porque buscou realizar viagens para o interior e também porque teve alta dose de tolerância, pois ainda estava descobrindo a cidade. Mas naquele ano, acho que em 1983, não teve mais do que 120 dias de céu aberto. Não ver o sol, não ver o céu e as estrelas, foi uma experiência para ele antes de tudo triste.

Este meu amigo começou a chamar Curitiba de Curral de Nuvens. E procurou explicações para isto. Uma delas era de que a Serra do Mar, no leste, e a Serra de São Luiz do Purunã no lado noroeste, formam um corredor em direção a São Paulo. Construíram as duas serras um grande funil à passagem das nuvens. Quando as massas frias cruzam os pampas gaúchos e Santa Catarina, atingindo o Paraná, têm de atravessar o Corredor da BR-116 e entrar num brete, estacionando no curral de nuvens. Pode-se dizer que se fixam sobre a cabeça dos locais, para desespero dos migrantes. E os habitantes, sem poder ver o sol, ficam carrancudos e tristes. O meu amigo diz que a ausência do sol em Curitiba pode ser responsável pela grande quantidade de senhoras idosas carecas. O que comprova que o sol representa uma fonte de energia vital à saúde dos cabelos.

Mas deixando as velhinhas carecas de lado sigamos a outra versão diferente do Curral de Nuvens. Uma amiga geógrafa certa feita afirmou que os ventos vindos do norte, fazem uma curva quase na divisa do Paraná com São Paulo e retornam para o norte. As correntes de ventos sulinos, por sua vez, fazem a curva do litoral para o interior, não ultrapassando a fronteira entre os dois estados. Mas esses, segundo a geográfa, seriam os ventos considerados baixos. Os ventos mais altos cruzam esta fronteira e vão para o sudeste, chegando até as faldas do Nordeste Brasileiro. Portanto, nós estamos morando exatamente onde o Vento Faz a Curva. Não é de se estranhar que a expressão “lá onde o vento faz a curva” é um dito tão popular nas conversas dos curitibanos. Embora não seja exatamente aqui que o vento faça a curva, os reflexos das curvas feitas pelos ventos acabam espirrando suas aragens por aqui. E haja nuvem parada sobre a cidade.

Mas de tanto falar no Curral de Nuvens eis que agora, às 15h 20 min, a porteira de São Paulo liberou as nuvens, e como manada desgarrada avançaram em desabalada dando espaço para as do fim saírem da frente e assim surgir o sol. E ele finalmente deu o ar de sua graça. O azul se faz belo como nunca. Obrigado São Pedro Paulista! Obrigado Vaqueiro Breteiro das Nuvens! E viva o Azul! E viva o sol.

Quem sabe não pegue um ônibus e vá até o centro da cidade.

Quem sabe virando para o lado do meu companheiro de assento, eu diga:

__ Bela tarde, hem senhor?

E ele, olhando-me com ar desconfiado, balbuciou um simples e mortal

_ É!

E nada mais vai dizer porque o destino dele é não gostar do calor e da gente alegre e despachada. Lá com seus botões ele deve ter pensado:

“__ Esses estrangeiros. É só abrir um sol de nada e fazer um calorzinho besta que eles começam a ficar falantes e achar que são donos do pedaço. Pelo sotaque ele não é mesmo daqui”.

MEU ENCONTRO COM A CATEDRAL GÓTICA por flávio calazans

Europa, o velho continente, a terra de onde meus ancestrais vieram, em caravelas, construíram o Brasil. Voltando após várias gerações, piso esta terra antiga, respiro seu ar, bebo suas águas, comungo inteiro com todos os sentidos com este continente que é passado e memória, arquétipos do inconsciente coletivo esperam-me incrustrados em cada pedra, cada parede, cada rua dessas cidades mais velhas do que a memória… Cidades cobertas por séculos e séculos de poeira acumulada com sangue, música e artes… Cidades fundadas por celtas, cujos dólmens telúricos foram enterrados pelos templos edificados pelos romanos, e sobre as ruínas destes os cristãos erigiram suas catedrais.

            Templos sobre templos sobre templos… Camadas de deuses empilhados, sobrepostos, enterrados, esquecidos… ruínas carcomidas, orgulhosas de seu passado.

            A catedral é uma igreja, um templo cristão, entretanto, mais do que isso, a catedral é uma obra de arte, uma peça gigantesca que toca-me por todos os sentidos, estou aberto a isso a essas sensações são o que procuro, o reencontro com os sentimentos de meus remotos ancestrais. Religião é religar, reencontrar, amar como ensina Santo Agostinho.

            Andando entre as casas baixas da cidade, por ruas sinuosas, muito ao longe já destaca-se a torre, erguende-se como um dedo apontando ao céu, desta torre gritam o sino, uma nota forte que espalha-se por tudo, faz meu corpo vibrar ao seu ritmo, tingindo toda realidade com a boa nova do tempo.

            A catedral é um relógio, então… Regula a hora de acordar, de almoçar, de ir dormir…

            Chegando frente à catedral, olho para cima mais e mais, até que minha nuca toca as costas e percebo que não tenho mais como erguer o rosto, mas mesmo assim a catedral continua, desafiando-me a superar meus limites de percepção, superar espiritualmente as limitações do meu corpo físico…

            Suas torres tocam as nuvens, convidando-me a escalar com os olhos suas paredes salpicadas de detalhes incrustrados, esculturas que contam mil histórias.

            Salta-me involuntáriamente à memória que catedral significa sede da cátedra, o trono do catedrático, a cadeira do bispo coroado que ali transubstancia o pão e vinho no decorrer da missa, o poder alquímico de transformar o chumbo do pecado no ouro da virtude, sete vícios em sete virtudes cabalísticas.

            O portal parece ser construído para gigantes, sinto-me novamente desafiado a crescer como quando eu era criança e ansiosamente esperava ser gente grande, só que além da metáfora do cresimento físico, a catedral instiga a um crescimento espiritual, subo os degraus um a um, como no ritmo do sino, no ritmo visual das torres, lento e paciente, dando-me tempo para saborear cada sensação física, cada emoção, cada sentimento subliminar que meus ancestrais, aquelas inteligências antigas, nestas pedras escreveram para mim.

            Ao adentrar o portal, a surpresa! A primeira sensação é de escuridão e trevas… densas, negras e até assustadoras, mas de um tremor momentâneo, excitante até, desafiando-me a entrar neste abismo, neste buraco negro, noite escura da alma, nigredo alquímico.

            Por uma eternidade paro, plantado, magnetizado ao piso de granito frio e úmido, essa eternidade é um tempo subjetivo (Bergson), pois no fluxo do tempo exterior a mim a duração foi de nanosegundos… A partir dalí todo o tempo deixou de existir, há apenas o alquímico PRESENTE PERMANENTE, o Zen japonês, o Tao chinês, a meditação aqui e agora.

            Começa um crescendo musical, o ritmo do êxtase místico, estou sentindo a mística da catedral.

            O segredo me toca, pois me deixo ser tocado por ele, é a entrega, a unio mística.

            Entrego-me em confiança, fé, aos pais dos pais dos meus pais que escreveram este livro de pedra para mim e para os filhos dos filhos dos meus filhos no mais distante futuro… Sinto-me um elo de uma corrente, sinto-me tudo e nada… nirvana… liberdade… felicidade… amor!!!

            Não há palavras para descrever o turbilhão, o vórtex de emoções, muito rápidas, intensas, sobrepondo-se umas às outras em um ritmo hipnótico, profundo e arrebatador.

            Por todos os lados há trevas, profundas e um instintivo sonar de morcegos diz que as paredes estão muito longe, que há muito, muito espaço, mais do que eu preciso, parece que há espaço para todos, como se todas as pessoas do mundo pudessem entrar aqui.

            O próprio conceito de espaço deixa de fazer sentido, estou em uma outra dimensão, um plano espiritual onde nossa lógica não mais funciona.

            Ao passear os olhos pela imensa treva, um ponto atrai meu olhar, um arco-íris cruza aquele negrume como um raio descendo do céu, um Fiat Lux, uma alma buscando o pó vermelho, o barro adamah-Adão, para iluminá-lo com um sopro de vida… Sinto que estão contando-me uma história antiga e mística que já ouvi inúmeras vezes, só que agora eu vivencio a história com um espetáculo de sensações.

            Lá no céu de onde brota esse arco-íris colorido está um vitral, ele parece flutuar sobre as trevas, uma fonte de luz multicor, cercado de trevas que ele insiste em vencer, uma mensagem de esperança, um estímulo à auto confiança… Meus olhos são premiados com as cores lindas, centenas de figuras ancestrais habitam o vitral, como se uma humanidade inteira lá me saudasse, abençoasse, convidasse a comungar com eles, estar em sua comunidade.

            Este arco-íris pousa sobre a estátua de um santo incrustrada em uma coluna, destacando-o, ele é um iluminado, um exemplo a se observar, sua vida é sua obra e seus atos são sua mensagem.

            Lembro-me de São Francisco de Assis, da Ecologia, Irmão Sol e Irmã Lua. “Fazei de mim um instrumento de Vossa paz, onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver discórdia, que eu leve a união…”. Uma lágrima escorre pelo meu rosto, desprende-se dos fios da barba e cai em câmera lenta até o chão, observo-a em seu caminho e ela oferece-me a forma de uma flor de prata e cristal ao encontrar-se com o chão cinzento de rocha… Seu som ecoa e sobe pelos meus pés como uma avalanche… estou  hipersensível!

            Este ambiente multiplica cumulativamente minha sensibilidade em progressão geométrica, a cada segundo que passo este cenário abre novas portas da percepção em mim.

            Meus olhos vão se acostumando ao escuro, que parece ir cedendo em camadas, recuando, obedecendo ao meu desejo de ver cada vez mais.

            Então surge o teto, das colunas saem nervuras orgânicas que se encontram na abóboda, a ogiva, o globo sem limite de tamanho que parece flutuar, levitar, por milagre sobre o vazio, uma rocha sólida suspensa no ar.

             Colunas que aparentam fragilidade, finas e delgadas enfileiradas parecem dar a certeza de que não são elas a segurar todo aquele ameaçador peso de rocha sólida, mas paradoxalmente sinto-me em paz, tranqüilo e calmo, com uma fé e certeza de estar seguro alí, de que tantas toneladas de pedra não me ameaçam, nunca desabariam sobre mim..é uma sensação de estar protegido, dentro da ordem do Cosmo, fazer parte disto tudo.

            Uma sensação de paz interior..boa, muito boa sensação.

            Meus olhos continuam acostumando-se ao escuro, sinto-me dentro de uma enorme caverna, e sinto-me envolvido por memórias que não são minhas, volto a tempos do antes, pré-históricos, quando homens da caverna protegiam-se no ventre telúrico da mãe-terra..sou primitivo, inocente, cheio e esperanças e sonhos do meu potencial racial..é um encontro místico com o que há de mais profundo em mim mesmo.

            Gradativamente, os detalhes vão surgindo, revelando-se um a um conforme estou receptivo e pronto para receber as mensagens simbólicas; figuras vão emergindo do mar de sombras no ritmo que meus olhos podem ir apreciando-os, meu ritmo pessoal de crescimento espiritual…parece um ritual de iniciação de uma sociedade secreta, uma escola de mistérios esotérica…o lento lapidar da pedra bruta de pedreiros maçons..o lento cozinhar da via úmida no athanor alquímico do orvalho cozido rosa cruciano, simbologia templária e martinista, o lento abrir das pétalas dos chacras yôgues indianos…

            E o mais surpreendente é que tudo vai ocorrendo no ritmo do meu próprio corpo, na velocidade que eu posso suportar, na medida da minha natureza física, respeitando a capacidade de resistência e meus orgãos sensoriais…pergunto-me que gênios arquitetaram e edificaram esta obra iniciática, este prédio que é um mecanismo mágico? Um templo que é uma melodia de emoções, música pura, melodia e harmonia das esferas pitagóricas, ecoando e reverberando por estes tetos esféricos, estas colunas em arco e estes vitrais de pura luz nestas paredes incrustradas de detalhes de cima a baixo, repletas de capelas laterais, nichos nas colunas, decoração nas bordas e beiradas, cada uma escondendo uma história e convidando à imaginação ou à memória genética e racial dos arquétipos do Inconsciente Coletivo…histórias dentro de histórias como as figuras esculpidas no manto da estátua de um bispo.

            A catedral gótica é um espetáculo estético indescritível.

            A arquitetura é uma das belas artes, e visitar uma autêntica catedral gótica dissipa toda e qualquer dúvida.

            Tamanha é a quantidade de minúcias que sinto-me tomado por uma suave vertigem, pois para onde quer que eu olhe há um coral de vozes ancestrais falando comigo por lindas imagens que pedem para ser saboreadas, um banquete de sabor e saber incomensurável.

            A catedral foi uma obra de arte coletiva, foi sendo construída por várias gerações, aqui trabalharam filhos,pais, avós, bisavós, trabalharam por toda sua vida..séculos de investimento pessoal, financeiro e intelectual, em uma construção ritualística que foi sendo entranhada destes sentimentos e desta energia, acumulando idéias inspiradas e conclusões umas sobre as outras debatidas por filhos, netos e bisnetos sobre a planta desenhada por um arquiteto falecido há 120 anos.

            Uma obra social, coletiva, de autoria colaborada em mutirão por todos, uma legião de artistas fixaram nela as mensagens que julgaram importantes passar para a posteridade, passar para o futuro, a catedral é uma carta de pedra que meus ancestrais enviaram para mim..uma carta aberta com seu amor para as futuras gerações, um patrimônio espiritual aberto pra quem entrar nela, minha herança mística.

            Estonteado pelo vórtice emocional ao ser tomado da consciência da magnitude e do poder da catedral, apóio a mão na coluna mais próxima..a pedra é dura, áspera e porosa, gélida e levemente umedecida ao tato.

            Eis que percebo, pouco a pouco, não mais do que uma suave sensação, que a pedra parece pulsar, como se estivesse viva…e prestando toda atenção focada na pedra logo logo tenho certeza de que a pedra vibra mesmo, como um longo murmúrio, uma oração ou canto gregoriano, um mantra indiano ou oração sufi, um interminável OMMMMMMM como que um eco do Big Bang da explosão da origem do universo, o reverberar das supercordas, o som das esferas de Pitágoras.

            Sinto que a vibração é como uma suave corrente de água passando por um cano, só que muitas, infinitas vezes mais sutil.

            Recordo-me que os dólmens celtas do culto da mãe-terra eram do mesmo granito, e que eram fincados como uma acupuntura telúrica sobre lençóis freáticos subterrâneos, os “onfalus”, ou nós das linhas e meridianos da energia telúrica, linhas-ley, uma sabedoria da religião dos Druidas…e os romanos edificaram seus templos a Ártemis ou Diana sobre os dólmens, e depois os cristãos no mesmo lugar edificaram as catedrais de Nossa Senhora Virgem Maria.

            Concentro-me nas solas dos meus pés, e aos poucos fico consciente da vibração subindo por eles também, do piso de granito em lajotas escuras e claras com um labirinto desenhado no transepto, a vibração brota do chão vindo de baixo, nas catacumbas onde corre por séculos o rio subterrâneo, a correnteza, a água corrente batendo e tremendo ritmicamente, e esta pressão acaricia os alicerces ecoando pelo granito poroso e repercutindo por toda a catedral…e como o corpo humano é mais da metade feito de água esta pusação vai ecoando sutilmente, imperceptivelmente, subliminarmente em um crescendo cumulativo e trepidante por todo o corpo físico.

            É quando um arrepio sobe-me inesperadamente da base da espinha dorsal até a nuca, uma corrente elétrica que arrepia toda minha pele desde as pernas até o topo da cabeça tomando-me de assalto.

            Somente na fração de segundo seguinte é que compreendo a sensação.

             O órgão tocou uma nota, agora na segunda nota musical é que percebo o que ocorre, tem alguém tocando o teclado, e o coral está a postos, vão cantar!

            As primeiras notas parecem preencher todo o espaço, vibrando tanto através do ar como da rocha sólida, ricocheteando nas nervuras cilíndricas das colunas e dançando pelos cantos arredondados das paredes..pois tudo é circular, redondo.

            A melodia desliza e escorre subindo até o centro da abóboda, o ovo gigantesco que flutua no céu, e de lá o som é multiplicado, somado e transformado em uma alquimia da melodia, desfilando e descendo pelos arcobotantes devolvido como uma panacéa universal, o elixir da longa vida, o ouro da pedra filosofal.

            O universo inteiro parece tremer sob a voz do órgão, até a rocha dança, tudo se move (Heráclito “panta rei”), tudo está vivo e pulsante.

            E eu sou parte disto, sinto toda a água do meu corpo vibrar em uníssono com a harmonia do órgão, a voz passa através de mim, ecoando, e minha barriga treme, a bexiga, os rins, a umidade da pele, a gordura líquida, o sangue, a linfa, tudo trepida e dança acompanhando as notações do órgão, até mesmo as lágrimas de meus olhos rolam pelas faces no mesmo ritmo.

            O espetáculo arrebata meus sentidos, a vertigem do enorme espaço introspectivo, os raios de luz colorida dos vitrais, os detalhes esculpidos nas pedras, esta melodia mística, tudo combina-se em uma suave vertigem de transe místico inenarrável, um prazer crescente.

            Alegria de misturar-se a esta força de vida…abandono das memórias passadas, das culpas, arrependimentos e remorsos, do ontem…

            Esquecimento das angústias e planos, sonhos, devaneios e esperanças futuras…

            Só existe este momento, um êxtase do agora, do aqui, do presente permanente de estar vivo, é só o que importa, o milgre da vida…

            E como Willian Blake, vejo o infinito em um grão de areia…será este o sentido da frase:  “o poeta se torna vidente por meio de um longo, intenso e racional desregramento dos sentidos” de que fala Rimbaud?  O caminho dos excessos que leva à sabedoria de Blake? O que o poeta Fernando Pessoa denomina “sentir tudo de todas as maneiras”? Ultrapassar a sí próprio, misturar alquimicamente os impulsos sensoriais além dos limites do possível?

            Re-ligar-se à vida, ser um com tudo o que existe..”En tô pan” -um o todo, comungar com a “Anima Mundi”..

             Serro as pálpebras, e em segundos sinto meu corpo balançar, dançando ao ritmo desta música cósmica..tudo em mim que é líquido parece ondular como um mar, é como se antes eu fosse um lago espelhado de águas paradas, e, neste momento, pela primeira vez uma pedra caísse formando círculos de ondulações, a melodia visual das ondas do mar, movimento, vida espiritual.

            Sinto-me despertando de dentro para fora, expando-me, meus ouvidos tocam tudo, como se eu fosse todo tato pelo som, apalpando e tateando todo o espaço pelo som.

            Não há mais um centro da consciência, não há mais os limites do corpo, eu sou o ar que preenche toda a catedral, e mais até, eu sou a catedral, ela e eu somos um, carne e pedra sem limites, ambos somos uma só matéria, um só corpo..sou barro, granito, pó, água da vida na pia baptismal, orvalho da primavera, brisa, chuvas e marés, sou toda a água do mundo, ondas propagando-se, das nuvens do céu aos maremotos e tsunamis, e sou todo o pó levado pelo vento, areia da praia e pó do himalaia, poeira de estrelas, sou o ritmo das estrelas e a galáxia girando, sou o escuro entre as galáxias e sou muito mais além, em inominavel infinito, indescritível variedade de um só…e sou o som que vibra estas cordas da realidade…

            Não há mais palavras, estou além das limitações da mente, e vivencio experiências que são só minhas, impossível descrever, infantilidade seria sequer tentar.

            Mys em sânscrito é calar-se, daí os termos mistério e místico, é a hora de calar.

            Entendo em meu coração a vivência dos alquimistas, que dizem que a catedral gótica representa os elementos Fogo e Ar, pois ela desperta em mim os outros elementos de Água e Terra, e desta alquima surge o êxtase, a bem-aventurança, a bênção de paz e calma interiores.

            A catedral oferece um transe místico, uma dádiva, um presente cósmico, um dom divino gratuito a qualquer pessoa que se abrir para ela, que desejar sinceramente receber este toque, ser tocada pelo divino.

            Abro meus olhos, agora toda a catedral parece diferente, todas as linhas curvas que antes pareciam direcionar-se a um centro, cada uma das nervuras parece independente..não há mais um centro..minha percepção mudou, todas as linhas seguem para um infinito…a catedral agora me diz que o centro desta circunferência está em toda a parte.

            Não há um único lugar para olhar, para onde quer que eu olhe as linhas escorrem e levam a outras linhas ..meu olhar desliza e passeia “flaneur” em ondas que sobem ao teto e descem por outra coluna, saltitando pelo piso quadriculado até subir pelas pedrinhas coloridas de um mosaico, escorregando pelo afresco do teto até afundar em um vitral de verdes, vermelhos, amarelos e azuis de figuras cheias de vida, subindo até a abóboda para depois descer ao acaso por uma coluna e continuar a dança sem fim da catedral eterna.

            A catedral é cíclica como o tempo celta…Ourobórus, a cobra com o rabo na boca, sem princípio nem fim, eternidade…”Omnia in unum”- tudo em um.

            Sinto um prazer de maravilhar-me com tudo, como uma criança descobrindo a variedade do mundo em um jardim…”o infinito em um grão de areia”…

            Sinto-me abençoado, purificado, livre, feliz, uma alegria única.

            A catedral é um enorme reverberador, uma caixa de som, o som das vozes do coral parece entoar um cantochão, canto gregoriano…mas o intelecto racional já está demasiado ausente para classificar e entender, e a memória passada sem sentido foi esquecida, desapegada…a mente desliga-se para dar espaço a algo maior e mais antigo, mais livre, verdadeiramente natural, vivo.

            O som insistente repercute, vozes humanas lindas cantam um indecifrável latim, e vejo as notas de suas vozes escalando as colunas e paredes pelo ar, crescendo e preenchendo o espaço e encontrando-se com as notas do órgão que vem descendo…e do encontro, do choque dos soms surgem redemoinhos melodiosos, ecos dentro de ecos, turbilhões, vórtices de sinfonias sobrepostas em um beleza complexa.

            E as vertigens do espaço somam-se às vertigens destas soms, em vertigens dentro de vertigens em camadas que nunca sonhei sentir.

            Sensações novas, indescritíveis…acumulando-se umas sobre as outras, tocando-me…despertando partes de mim que antes eu mal vislumbrava, sensações vagas daqueles raros momentos quando estou entre o dormir e acordar, no limiar do sonho, pálpebras entreabertas, vendo dois mundos sobrepostos…

            Imensidões, infinitude..mistério além das palavras.

            A palavra infinito agora não é mais um conceito intelectual lido em livros, é uma experiência de vida, um encontro com DEUS dentro de mim, D-EU-S…

            Um entusiasmo como em pentecostes, a presença do Espírito Santo, o Mana, El, Prana, Kundalini, Ouro Filosofal…impossível tentar descrever..calo-me, há mundos além das palavras, além da mente.

            Eu poderia passar mil séculos aqui dentro desta catedral e meu olhar passaria sempre por caminhos diferentes, únicos, novas combinações, ramdômicas, infinitas, cada qual diferente das outras.

            Deixo-me flutuando neste sentimento de eternidade…aprendendo algo que está muito além das palavras…

            Saboreio este banquete fora do tempo, fora do espaço, fora deste corpo, para então descobrir que o fora está dentro, e estou em mim, assimilando e digerindo estes mundos além da melodia, que brotam no vazio silencioso entre as notas, janelas para um silêncio amoroso de eternidade e paz.

            Não existe mais aquele eu que entrou na catedral, não sou o mesmo que entrou aqui.

            Vi, ouvi e senti como nunca antes…estou diferente, transformado…

            Sinto que é hora de sair..olho o relógio, a missa está apenas começando, percebo, surpreso, que tudo ocorreu em alguns minutos desde que entrei.

            A sensação foi de muitas horas, tudo foi muito intenso, como prometeu Mefistófeles ao Fausto de Göethe, os dias se passam em horas, e em horas vive-se vidas inteiras…o tempo dobra-se sobre sí mesmo  neste campo santo, espaço sagrado de celtas, romanos e cristãos medievais…depósito de sabedoria antiga acumulada.

            Ao sair percebo que a mente reconstitui-se, reconstrói-se pouco a pouco, regenera-se…evanescendo o sentimento de consciência cósmica…mas saio daqui ligado a esta catedral, sei que agora posso, sempre que desejar, voltar para este lugar fora do lugar e tempo fora do tempo, sempre que precisar posso retornar a este êxtase vibrante…

            E isto nada nem ninguém poderá nuca tirar de mim.

            Encontrei aquilo que vim aqui buscar.

            Começo agora.

             

             

            PENSANDO SOBRE  A CATEDRAL

 

            Depois do turbilhão sensorial da catedral sinto que a mente lógica e racional precisa defender-se da sensação de desligamento e impotência a que foi submetida, o ego sente-se ferido e defende-se raciocinando, refletindo, pensando desesperadamente para afirmar sua importância.

            Enquanto caminho a esmo passeando pela vielas do vilarejo medieval que tem o privilégio de ter tamanha catedral, a mente vai divagando sua voz tagarela sem parar, esperneando, não presto atenção, mas isto não a impede de resmungar inteminávelmente, só ignoro-a e concentro-me na minha respiração e nos meus lentos passos.

            A mente resmunga o nome Fulcanelli, o alquimista autor dos livros “Mistérios das Catedrais”e “Mansões Filosofais”, desfila símbolos alquímicos, zodiacais, maçônicos, cabalísticos, etc.

            O conceito de esconder mostrando, colocar todos os segredos preciosos bem a vista, expostos para todos que queiram compreender.

            As colunas e a escuridão metaforicamente simulando o bosque celta dos rituais druídicos, muito além do sentimento de caverna inicial…a mente corrigindo autoritária a verdade de minha intuição…e ao mesmo tempo sentindo-se superior a todas as pessoas que nunca tiveram experiências místicas, arrogante e petulante gabando-se de ser espiritualmente evoluída…

            A porta de entrada aponta para o Ocidente, e ao entrar o fiel caminga passo a passo para o Oriente, o sol nascente, simbolicamente saindo das trevas da ignorância para a luz, a iluminação.

            Quatro paredes são os quatro elementos da matéria e três portais são a trindade cabalística do espírito, a soma de 4+3 é igual a sete, o número mágino da guematria judaica, numerologia do espírito encarnado, “mens agitat molens”.

            A planta da catedral tem o formato de uma cruz, é o Crisol, cruz alquímica, ponto no qual a fervura do forno athanor (a-tanatos, vida eterna) transubstancia chumbo em ouro…entre os braços da cruz o transepto, no piso um labirinto-mandala onde o iniciado enfrenta seu demônio interior: Minotauro, Tifon, Fenrir, Tiamate, Dragão, imperfeição, paixão descontrolada, estabanada, o ódio projetado em seu inimigo, um espelho que reflete aquilo que teme em sí manifestar.

              Na rosácea da direita entra a luz do sol do meio-dia, iluminando o altar com luz branca, o cisne, albredo.

            Já na rosácea da esquerda nunca entra luz, ela é o nigredo, a noite escura da alma, putrefatio, matéria bruta inconsciente.

            Por fim, a rosácea da porta de entrada recebe a luz do sol poente e toda a nave é iluminada do vermelho emocional, é o rubredo, a pedra filosofal.

            O clerestório tem uma fileira de compridas janelas com vitrais multicoloridos, é a cauda do pavão que ilumina as missas das vésperas (6h) e marianas 18h).

            Cada catedral guarda o que a Teologia Dogmática chama de “DÚLIA”, uma Relíquia, um pedaço do corpo de um santo (como Osiris esquartejado, Tiamate, Ymir, Frankenstein, Tiradentes no Brasil), remanescentes da passagem física de um iluminado santo a serem venerados…Em Bolonha há os cadávers de cinco crianças assassinadas a mando de Herodes, a tigela com a qual São João Batista batizou Jesus, as sandálias de Jesus e até maná do deserto de Moisés. Em Chartres há a camisola com a qual a Virgem Maria deu a luz a Jesus na manjedoura. Colônia tem os corpos dos três reis magos (Melquior, Gaspar e Baltazar), mas três dedos deles estão emprestados à cidade de Hildesheim.Pisa tinha a coroa de espinhos com a qual Cristo foi crucificado, mas a penhorou a um banco. Florença tem cabelos da Virgem e ampolas com seu leite que amamentou o menino Jesus.Em Pazzi, no Convento de Santa Maria Madalena havia o feno da mangedoura. Gênova em 1319 teve o Santo Graal mas o hipotecou, manteve o prato sobre o qual Salomé recebeu a cabeça de São João Batista. Muitas igrejas tem os cravos que pregaram Jesus na Cruz, pedaços de madeira da Cruz, etc…

            A mente continua despejando memórias, Carmina Burana, Abelardo e Heloísa, Arte Sacra, Teologia, Direito Canônico, Pastoral Universitária, Santuário, Corcunda de Notre Dame, hagiografias, venda de indulgências, o Burro de Buridan, Santa Joana D’Arc queimada como bruxa pela Inquisição, o bispo Dionísio de Atenas, São Francisco de Assis, Exercícios Inacianos, quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete,  Imitação de Cristo, Galileu Galilei, Salmos diversos e um entulho de leituras, bagagem acumulada, mas não me prendo, deixo a mente divagando seu caleidoscópio, perdida em seus labirintos, presa a sequências lógicas que superei, e sinto a beleza do encadeamento de suas idéias, a lógica agora é um prazer plástico, suas ilusões brliham como um cristal bonito e frágil..

            O intelecto agora é transparente, há outros níveis de prazeres onde não suspeitava antes…a elegância de um fluxograma, a sensibilidade de uma equação aritmética, o sentimento da geometria, a delicadeza da álgebra, o perfume de uma abstração e o sabor de um silogismo.

            Lambendo a lógica.

            A vida invadiu a mente, ruindo as muralhas entre pensar e sentir…”o que em mim pensa está sentido” disse Pascal, e “o que em mim sente está pensando” respondeu Fernando Pessoa.

            A mente gagueja que Vitrúvio equacionou analogias entre as medidas do segmento áureo geométrico entre o corpo do homem e o templo e pedra, regras de proporção…parece que a mente civilizada quer integrar minha experiência, estratégicamente a mente sabe que “se não pode vencê-los, junte-se a eles”, e sobrepõe a imagem mental de um corpo humano à planta baixa da catedral, destacando as glândulas pineal, tireóide, timo, suprarenais, etc …rins sobre confessionários, tireóide e praratireóide sobre os púlpitos, cada ponto com uma função orgânica na comunidade que é o corpo da igreja-eclésia-assembléia.

            Surge a árvore da vida da cabala, as sefirot soprepondo-se, depois os chacras yogues, figuras geomânticas, zodiacais, pantáculos e pentagramas, lendas e literaturas, ciências e artes plásticas, uma miscelânea de ecletismos.

            Usufruo desta avalanche enciclopédica como se fosse o desfile e uma escola de samba no carnaval, a mente é incapaz de explicar o desenho complexo da catedral e de assimilar as sensações físicas que ainda pupulam por todo o corpo que habito, e é diverdido assistir a mente, é como ver as crianças brincando e correndo pelo quintal.

             A mente arrogante e prepotente sem atenção sossega, vai calando-se até um silêncio saboroso, o não-pensar…e neste tempo fora do tempo a catedral envolve-me novamente, a catedral é o mundo, o cosmo inteiro, a existência, o ser.

            A catedral sou eu. Eu sou a catedral.

            Não importa sair ou não da catedral, não faz sentido, tudo é espaço sagrado e momento de prece, oração, além da mente, além do ego.

            Eu sou.

           

 

 

 

O FIM DO REGIME FEDERALISTA? por vicente martins


 

 

Bem que poderia ser Serra versus Lula. Lula versus Serra. Mas a polarização emergente se desenha Aécio versus Lula. Lula versus Aécio. Vejo, nos próximos dois anos, Aécio Neves como a grande ameaça para o Palácio do Planalto. Não estou me referido ao PSDB, agora com menor expressão partidária do que antes da primeira gestão de Lula, refiro-me aos sujeitos atuantes do Partido, em particular Aécio Neves.  Lula não  deve temer o São Paulo de Serra e  sabe que sua consolidação política depende muito  de uma nova relação inergovernamental com Minas Gerais.

 

Falo há anos que vejo, em construção, um novo modelo de federação brasileira. Um olhar aistórico verá a atual crise dos Estados como resultado de um posicionamento isolado de Aécio Neves, uma tensão intergovernamental, com prenúncio de movimento autonomista dos Estados e a gênese de um processo de construção de um novo paradigma para Federação brasileira.

Para alguns analistas governistas, um bate-papo, mais cedo ou mais tarde, entre o governador mineiro reeleito Aécio Neves e o presidente Lula da Silva, garantirá o concerto entre a União e o Estado de Minas Gerais, desde que Minas se ajuste aos determinantes da União.

 

A idéia de a crise dos Estados ser apenas um choque de opiniões políticas reforça a chamada tese da “sobrevivência pela negociação”, ingênua e anacrônica, tendente a congelar ou naturalizar um modelo de Federação exaurido pela estrutura externa, o capitalismo global, e pela conjuntura interna, crise da competência política dos Estados Federados.

 
No Brasil, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios são entidades federativas, mas a União, entre os demais, tende a ser um ente subordinante. A Federação brasileira funciona, na prática, assim: só a União pode legislar sobre tributos e os Estados se limitam a gerenciar os impostos. Logo, a União é política e paradoxalmente mais forte do que os Estados.

O Brasil é, para o Direito Internacional, uma Federação excêntrica. A concentração fiscal da União, legitimada pela Constituição Federal de 1988, tira a liberdade política dos Estados. Afinal, onde não há capacidade legislativa não há liberdade política. Os Estados Unidos e o Canadá há muito tempo descobriram que a práxis da federação significa a descentralização da arrecadação, o que os levou a adotar um sistema de transferências de impostos entre as entidades federativas.

Os Estados Unidos e o Canadá são boas referências de modelo de Federação, não por força jurídica, mas por determinação e fortalecimento dos poderes políticos, particularmente o Legislativo e o Judiciário e da consolidação da sociedade civil como uma instância também política e cidadã.

Se copiamos, em 1889, o modelo jurídico de federação norte-americana para nossa República, por que não copiar também sua práxis? Não é hora de abolirmos o que nos é ficção jurídica e colocarmos em prática o respeito à autonomia dos Estados?

As respostas exigem de nós um olhar histórico do que é o Brasil, de modo a ficarmos expeditos e, em prontidão, não para um guerra ou conflito interestadual, mas para abolirmos o atual modelo de Federação, esgotado por sua crise tributária e fiscal, principal base de sustentação da nossa Forma de Estado.

Não é difícil constatar que nosso modelo de Federação é ainda marcado por uma má distribuição de competências legislativas e está, por isso, exaurido. A União, em se tratando de matérias de ordem econômica, centralizou, extraordinariamente, as competências políticas, o que eqüivale a dizer ter ampliado, de 1891 a 1988, sua capacidade política, legislando, exclusivamente, sobre matérias referentes aos tributos.

A exclusividade competencial é incompatível com a descentralização política, pilar da Federação. A tendência de extinguir esse modelo de Federação é uma necessidade imperiosa da globalização, de um movimento que não admite, no âmbito das Nações, relações de subordinação automática entre os entes intergovernamentais da Federação. Dividir poder político é princípio da Federativo e imperativo da democracia.

À luz do Federalismo, a declaração de moratória de Minas deve ser vista, deixando de lado qualquer especulação subjetiva da felonia mineira, predição de um movimento autonomista dos Estados ou do fim de um modelo federação exaurido pela estrutura do capitalismo global. Não é um visão pessimista ou escatológica da nossa atual Forma de Estado, mas um olhar dialético sobre o processo de construção da Democracia brasileira e do Estado Democrático de Direito, fim último da Federação

Os demais Estados brasileiros que ainda não aderiram à marcha insurgente o farão mais cedo ou mais tarde, por uma injunção de sobrevivência política, em nome de uma resistência governamental em favor do self-government.

Diria mais: os Estados que não aderiram, ainda, ao movimento autonomista simplesmente apostam, dentro de uma perspectiva de democracia eleitoral, na inércia do eleitorado e estão presos às coligações partidárias e à solidariedade ao projeto de governo do PSDB. Se ainda não há pressão social, pensam alguns governadores, ainda há tempo para esperar pra ver no que vai dar esse vaivém federativo.

Certo é que há sinais concretos de esgotamento do atual modelo federativo: moratória, crise fiscal, déficit público, inflação, recessão, instabilidade da moeda, instabilidade política e desemprego estrutural. Se o Brasil está quebrado e o Brasil é a Federação, então a Federação também está desmantelada e alquebrada. Não ha remendo para sua quebreira, senão emenda à sua reforma. Eis um grande desafio histórico para o Congresso Nacional.

Não podemos ser uma Federação porque simplesmente a Constituição Federal de 1988 prescreve, rigidamente, que somos uma união indissolúvel de União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Não existe Federação pronta, inalterável, eterna, a Federação é um processo de construção de autonomia, democracia e auto-sustentabilidade das entidades intergovernamentais. Aliás, neste final de século, não se justifica um paradigma de indissolubilidade para as questões de ordem política, social, jurídica ou ética das nações, federativas ou não. Afinal, uma Forma de Estado não pode está acima do Estado e de sua sociedade política.

Se a Constituição de 1988 não declarasse, nos seus dispositivos, que somos uma República, acreditaríamos que o Brasil é uma Federação? A indagação é apenas pra lembrar que, historicamente, ainda não conseguimos construir um modelo próprio de Federação. Nossa Federação não nasceu de necessidades práticas, mas por obra jurídica.

A moratória mineira resulta de um interesse público, de imperiosa determinação de governo, logo, se deve atualizar a Federação à realidade de seus entes, particularmente os Estados. A moratória não é calote, é prerrogativa de ordem jurídica dos governos estaduais. Portanto, a reação do governo central à declaração de moratória mineira é, no mínimo, anacrônica.

A história de nossa Federação é um rodar cego. No império, quando a assembléia provincial pôs em xeque a centralização política do Imperador, recebeu como resposta a dissolução do poder legislativo e a conseqüente outorga da Carta de 1824. Mais tarde, quando, em 1834, fizemos o Ato Adicional à Carta de 1824, houve desconcentração de prerrogativas legislativas e de encargos administrativos, mas se descartou a descentralização dos recursos públicos, atingindo frontalmente as políticas sociais, particularmente a instrução pública. E as felonias federativas, manifestas nas rebeliões imperiais, também foram duramente abafadas pelo governo imperial.

A história se repete na atual tensão entre Minas e o Palácio do Planalto. Deixando de lado as questões de ordem pessoal entre o presidente  Lula da Silva e o governador Itamar Franco, banais e pequenas, o que justificaria as posições hostis e de alijamento do governo central contra os governos mineiro e gaúcho senão em nome de uma atitude diligentemente conservadora e feudal de resguardar o atual modelo de Federal, iníquo e antidemocrático?

No limiar do novo século, especular a reforma do atual modelo de federação brasileira indicaria a sua extinção? Não devemos pensar que a idéia de abolir um modelo é, necessariamente, condenar a República à desordem política. Pelo contrário, a extinção de um modelo esgotado pode significar a construção de uma Federação efetivamente democrática, isto é, do lídimo e real Estado Democrático de Direito.

Se, para uns, a abolição da Federação pode ter uma feição separatista, tendente à formação de Estados Independentes, não é pertinente transformar nossa Federação centrípeta, centralizadora, em uma Federação centrífuga, efetivamente intergovernamental, unidos pela moeda, pela língua e pelo respeito ao autogoverno de cada Estado?

Não podemos ser uma Federação porque simplesmente a Constituição Federal de 1988 prescreve, rigidamente, que somos uma união indissolúvel de União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Não existe Federação pronta, inalterável, eterna, a Federação é um processo de construção de autonomia, democracia e auto-sustentabilidade das entidades intergovernamentais. Aliás, neste final de século, não se justifica um paradigma de indissolubilidade para as questões de ordem política, social, jurídica ou ética das nações, federativas ou não. Afinal, uma Forma de Estado não pode está acima do Estado e de sua sociedade política.

Se a Constituição de 1988 não declarasse, nos seus dispositivos, que somos uma República, acreditaríamos que o Brasil é uma Federação?. A indagação é apenas pra lembrar que, historicamente, ainda não conseguimos construir um modelo próprio de Federação. Nossa Federação não nasceu de necessidades práticas, mas por obra jurídica. A moratória mineira resulta de um interesse público, de imperiosa determinação de governo, logo se deve atualizar a Federação à realidade de seus entes, particularmente os Estados. A moratória não é calote, é prerrogativa de ordem jurídica dos governos estaduais. Portanto, a reação do governo central à declaração de moratória mineira é, no mínimo, anacrônica.

A história de nossa Federação é um rodar cego. No império, quando a assembléia provincial pôs em xeque a centralização política do Imperador, recebeu como resposta a dissolução do poder legislativo e a conseqüente outorga da Carta de 1824. Mais tarde, quando, em 1834, fizemos o Ato Adicional à Carta de 1824, houve desconcentração de prerrogativas legislativas e de encargos administrativos, mas se descartou a descentralização dos recursos públicos, atingindo frontalmente as políticas sociais, particularmente a instrução pública. E as felonias federativas, manifestas nas rebeliões imperiais, também foram duramente abafadas pelo governo imperial.

A história se repete na atual tensão entre Minas e o Palácio do Planalto. Deixando de lado as questões de ordem pessoal entre o presidente  reeleito Lula da Silva e o governador reeleito Aécio Neves,  , banais e pequenas, o que justificaria as posições hostis e de alijamento do governo central contra os governos mineiro e gaúcho senão em nome de uma atitude diligentemente conservadora e feudal de resguardar o atual modelo de Federal, iníquo e antidemocrático?

No limiar do novo século, especular a reforma do atual modelo de federação brasileira indicaria a sua extinção?

Não devemos pensar que a idéia de abolir um modelo é, necessariamente, condenar a República à desordem política. Pelo contrário, a extinção de um modelo esgotado pode significar a construção de uma Federação efetivamente democrática, isto é, do lídimo e real Estado Democrático de Direito.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.EE