As Nuvens do Curitibano – por tonicato miranda


Dizem que os Curitibanos são casmurros, desconfiados, fazem poucos amigos, sendo muito fechados ao contato com recém-chegados. É tudo verdade. É tudo mentira. Depende sempre! Depende da onde você vem. Depende de como você chega. Depende de quanto tempo você está se aproximando. Os Curitibanos são de fato introvertidos e meio machões. Não machões gaúchos, fanfarrões, mas machão que despreza a mulher apenas para provar que quem manda em casa é ele e não ela. Um machão que não bate, não dá porrada, procura se impor com o olhar. Coisa de alemão, se muito duro; coisa de polaco, se um pouco mais manso.

Dizem que a cidade era chamada Cidade dos Portugueses. Mas isto durou até três quartos passados do Século XIX. Depois, os migrantes a tomaram de assalto e os tropeiros deram lugar aos carroceiros italianos e polacos, estes os últimos a chegarem por aqui. Mas não sabemos se foi por conta da criação; por medo de serem penalizados, com o retorno forçado aos seus países de origem – o fato é que foram muitos os fatores contribuindo para deixá-los casmurros. Os pais e avós dos italianos, alemães e polacos de hoje criaram os filhos com receios de migrantes fugitivos. Não falar e trabalhar era a forma mais comum de se abrigar e estar longe de confusão.

Mas tem outras características que podem ser referenciadas à introspecção do povo curitibano: o clima. Um amigo disse-me que quando chegou aqui, no início dos anos 80 do século passado, passou no seu segundo ano curitibano quase 150 dias sem ver o sol e o céu. Estava literalmente debaixo de um cataclismo nuvioso. Disse que não enloqueceu porque buscou realizar viagens para o interior e também porque teve alta dose de tolerância, pois ainda estava descobrindo a cidade. Mas naquele ano, acho que em 1983, não teve mais do que 120 dias de céu aberto. Não ver o sol, não ver o céu e as estrelas, foi uma experiência para ele antes de tudo triste.

Este meu amigo começou a chamar Curitiba de Curral de Nuvens. E procurou explicações para isto. Uma delas era de que a Serra do Mar, no leste, e a Serra de São Luiz do Purunã no lado noroeste, formam um corredor em direção a São Paulo. Construíram as duas serras um grande funil à passagem das nuvens. Quando as massas frias cruzam os pampas gaúchos e Santa Catarina, atingindo o Paraná, têm de atravessar o Corredor da BR-116 e entrar num brete, estacionando no curral de nuvens. Pode-se dizer que se fixam sobre a cabeça dos locais, para desespero dos migrantes. E os habitantes, sem poder ver o sol, ficam carrancudos e tristes. O meu amigo diz que a ausência do sol em Curitiba pode ser responsável pela grande quantidade de senhoras idosas carecas. O que comprova que o sol representa uma fonte de energia vital à saúde dos cabelos.

Mas deixando as velhinhas carecas de lado sigamos a outra versão diferente do Curral de Nuvens. Uma amiga geógrafa certa feita afirmou que os ventos vindos do norte, fazem uma curva quase na divisa do Paraná com São Paulo e retornam para o norte. As correntes de ventos sulinos, por sua vez, fazem a curva do litoral para o interior, não ultrapassando a fronteira entre os dois estados. Mas esses, segundo a geográfa, seriam os ventos considerados baixos. Os ventos mais altos cruzam esta fronteira e vão para o sudeste, chegando até as faldas do Nordeste Brasileiro. Portanto, nós estamos morando exatamente onde o Vento Faz a Curva. Não é de se estranhar que a expressão “lá onde o vento faz a curva” é um dito tão popular nas conversas dos curitibanos. Embora não seja exatamente aqui que o vento faça a curva, os reflexos das curvas feitas pelos ventos acabam espirrando suas aragens por aqui. E haja nuvem parada sobre a cidade.

Mas de tanto falar no Curral de Nuvens eis que agora, às 15h 20 min, a porteira de São Paulo liberou as nuvens, e como manada desgarrada avançaram em desabalada dando espaço para as do fim saírem da frente e assim surgir o sol. E ele finalmente deu o ar de sua graça. O azul se faz belo como nunca. Obrigado São Pedro Paulista! Obrigado Vaqueiro Breteiro das Nuvens! E viva o Azul! E viva o sol.

Quem sabe não pegue um ônibus e vá até o centro da cidade.

Quem sabe virando para o lado do meu companheiro de assento, eu diga:

__ Bela tarde, hem senhor?

E ele, olhando-me com ar desconfiado, balbuciou um simples e mortal

_ É!

E nada mais vai dizer porque o destino dele é não gostar do calor e da gente alegre e despachada. Lá com seus botões ele deve ter pensado:

“__ Esses estrangeiros. É só abrir um sol de nada e fazer um calorzinho besta que eles começam a ficar falantes e achar que são donos do pedaço. Pelo sotaque ele não é mesmo daqui”.

5 Respostas

  1. Prezado Mário Roberto Leite Pereira da Silva – UnB 306/69,

    Já lhe escrevi faz tempo, mas você parece não lê seus “e-mails”. Ou quem sabe me passaram o “e-mail” errado. Manda o certo novamente que conversaremos vis-a-vis; bem-te-vi; logo-logo; tetê-a-tetê; no-meio-fio, no-meio-dia; na-meia-noite; antes que a vida acabe. antonmir@gmail.com Este é o meu endereço. Aqui me achas, com certeza, com cerveja, melhor com vinho.

    Tonicato Miranda

  2. Miranda meu Caro,

    Por essas desandanças da vida sempre estamos em caminhos paralelos. Como não gostaria de esperar-te muito, para encontrá-lo só no infinito, faço já desesperançoso mais uma tentativa de contato. Imagino que a tua natureza atribulada e irrequieta, não deixa muito tempo para nada, mas os amigos novos não devem suplantar os velhos, mesmo que estes estejam tão distantes no tempo, no espaço e na cabeça. Assim, devo lembrá-lo que -“existe uma decoração no Alto…um Ilustre Guarda-Chuva preto!” e ele está lá há muito tempo, numa espécie incrível de levitação poética. Antevia, provavelmente, estar encurralado, núbilo, à sorrelfa, enquanto eu, ardi na minha canicular condição piauiense. Minha filha aí pousou por 6 anos e virou Branca-de-Neve obstetra. Um abração do Marão

  3. Tonicato,
    Muito boa sua crônica. Curral de nuvens, foi a melhor metáfora que vi sobre Curitiba. Imaginei todas nuvens em forma de vaquinhas e carneirinhos sendo arrebanhadas do mapa do Brasil e conduzidas sobre Curitiba por um irônico e cruel guardador de rebanhos. E os curitibanos acostumados com com a cara feia do tempo e com a umidade que descola até a sola dos sapatos, enfurnados dentro de casa, agradecidos por não ter que fingir que gostamos de parques, praças, praia, conversa fiada de amigos… amigos? o que é isso mesmo?

  4. Cumprimentos ao autor Tonicato pela boa crônica sobre Curitiba, lançando o conceito de curral das núvens (veramente bene trovato!). Como curitibano nato, posso dizer que nem todo curitibano é curitiboca e bem percebe quanto a cidade é fria, tanto no sentido climático quanto existencial-emocional (fui condenado a ter paciência com minha terra natal… para não virar o cocho…). E, por falar em paciência, compreendo a revolta do João Batista do Lago mas a humanidade é assim mesmo. O bonito é continuarmos querendo que ela seja diferente.

  5. Meu caro poeta Tonicato Miranda.
    Muito boa noite.

    Acabo de ler seu texto extremamente cansado.
    Não da leitura. Não.
    Não do texto em si. Não.
    Mas de saber-me mais um “boi” vivendo num curral do sul. Logo eu que escapei dos currais do nordeste, estes políticos, discricionários, discriminatórios, arrogantes, ditatoriais…
    Estou cansado porque aprendi, aqui e agora, que não me há lugar mais algum, que não me prenda. Todos são, em síntese, uma prisão. E todas essas prisões são anuviadas, para desespero meu.
    Mas para além desse meu dilema de existencialidade, o seu texto revela um satírico sujeito no entorno e nos tornos das oficinas fezedoras de palavras e de verbos que são comidas e comidos ao sabor de um bom vinho quando caminhamos a pé ou quando viajamos no celim duma bicicleta qualquer visitando e revisitando o currais das nuvens em busca de uma palavra amiga, sincera, honesta e desfeita de pedantismos dos senhores donos dos currais.
    A luta contra essa sociedade dona dos currais, meu caro poeta, é que me deixa cansado, pois já não tenho mais o esplendor da juventude para tomar uma peixeira bem afiada ou um facão colin para desafiar os donos dos currais de nuvens ou os seus capatazes.
    Hoje, sobra-me a possibilidade do suicídio como uma facada mortal no coração dessa corja… Mas nem mesmo isto tenho mais coragem de fazer…

    Um grande e fraterno abraço e parabéns pelo seu texto.
    João Batista do Lago

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