Arquivos Diários: 9 novembro, 2008

PATRICK – por hamilton alves

– Moço, quer comprar uma toalhinha? – aproximou-se de mim, que saía de um supermercado, um garoto simpático de mais ou menos onze anos.

                                   – Toalhinha?! Peraí, vou ver se encontro uns trocados…

                                   – Tenho que levar alguma coisa de comer para casa…

                                   – Você não tem pai? Não tem mãe?

                                   – Não.

                                   – O que é feito deles?

                                   – Morreram…

                                    – De que?

                                   – O pai era pintor e caiu de um telhado. A mãe de operação de uma hérnia.                     

                                   – Quem cuida de você?

                                   – Minha avó.

                                   – Você tem irmãos?

                                   – Tenho mais cinco; seis comigo. Cinco meninos e uma menina.

                                   – Você é o mais velho?

                                   – Sim.

                                   – Você estuda?

                                   – Sim.

                                   – Onde você mora com sua avó?

                                   – Em Palhoça. Todos os dias vimos para cá para tentar conseguir dinheiro.

                                   – Como é que vêm.

                                   – De ônibus.

                                   – Vocês pagam o ônibus ou vêm de carona?

                                   – Às vezes, o cobrador nos deixa sem pagar, às vezes não.

                                    – E, quando é o caso de pagar, como fazem?                       

                                   – A gente dá um jeito.

                                   – Que jeito?

                                   – Vem-se a pé?

                                   – A pé?! Numa distância dessas?!

                                   – Nossa casa é perto de São José, não é muito longe.

                                   – Se fosse o caso de querer ficar com você ou levá-lo para a minha casa para lhe cuidar, toparia?          

                                   – Tenho minha avó, gosto muito dela, não quero ficar sem minha avó.

                                   – Tudo bem.

                                   – O senhor não vai levar a toalhinha?

                                   – Não, tente vendê-la à outra pessoa. (Já lhe tinha dado uma boa grana).

                                   – Obrigado.

                                   Seu nome é Patrick, um garoto de onze anos aproximadamente, que já conhece tanta adversidade: sem pais, com cinco irmãos, lutando de forma brutal para sobreviver.

                                   Quantos Patrick vivem em condições semelhantes sem que nos demos conta?

                                   Sumiu rapidamente de meus olhos, sem muita esperança de conseguir mais alguns trocados para levar comida para casa. Até aquela altura, disse-me que não tinha comido nada. Era perto de três horas da tarde.

                                   Que destino estará reservado para Patrick e seus cinco irmãos?

                                   

Riu, mas agora rui a plutocracia – por alceu sperança


 

Costumamos pensar que o Brasil está caído num “mar de lama” e o restante do mundo vive no bem-bom do crime punido e da prosperidade. Mas a incompetência do governo norte-americano para dar uma pronta resposta ao drama de seus excluídos, como se viu no episódio do furacão Katrina, já havia mostrado algo mais além do jardim.

Os espantosos exemplos de gastos fantásticos em guerras e conflitos são coisas corruptas. A vitória do narcotráfico é coisa corrupta. A facilidade para formar de quadrilhas para assaltar o erário é coisa corrupta. Isso acontece agora mesmo em todo o mundo e nem sempre chega ao conhecimento da nossa população mais humilde. Esta, na sua santa ingenuidade, acredita aquele vereador parlapatão e aquele prefeito atrapalhado pela parentada o máximo em matéria de crime contra a humanidade. A raiz de tudo isso é, na verdade, o capitalismo, mãe prolífica das crises e da corrupção.

Vejamos o caso recente da Ucrânia para tecer algumas confrontações com a “lama” brasileira. A querida Ucrânia, que nos deu tantas e tão prezadas famílias, bases para o atual desenvolvimento do Paraná, também não merecia isso. Se no Brasil, digamos, formou-se um governo de “trabalhadores” (esse negócio de “trabalhismo” dar zebra é coisa velha, nem surpreende mais), na Ucrânia se formou um governo de ricos. No país eslavo, os Daniel Dantas e os Marcos Valério da vida não se limitaram a financiar campanhas, mas assumiram eles mesmos o governo e ministérios.

No Brasil foi organizada uma estrutura de poder de pobres trapalhões como Delúbio e Silvinho, financiada por esquemas milionários para servir às suas ambições de poder. Já na Ucrânia os ricos dispensaram os títeres e eles mesmos foram mamar direto nas mirradas tetas do erário. Nos dois casos, as denúncias de corrupção se evidenciaram meras conseqüências das facilidades com que corruptores e corruptos agem. No Brasil, foi pago o tal “mensalão” (na verdade apenas uma variação do conhecido caixa 2 de campanha eleitoral) para garantir o apoio dos políticos à sustentação de uma ruinosa política econômica, fundada no desumano neoliberalismo. Na Ucrânia, os ricos pagaram a eleição e assumiram diretamente as rédeas do governo, sem precisar de intermediários.

O “Correio” da Ucrânia foi a estrutura alfandegária. Vários funcionários do governo dos ricos apareceram envolvidos em “operações corruptas” apuradas pela polícia. Começava a ruir naquele momento o governo da primeira ministra Yulia Tymoshenko, a “heroína da Revolução Laranja”, operação milionária que levou ao poder o presidente Viktor Yuschenko. A “Revolução Laranja” foi vendida como a redenção definitiva da Ucrânia: agora estava escorraçada do poder a “raça” dos pobres, com sua mania de querer um governo para o conjunto da sociedade.

Acreditava-se que a falastrona e bilionária primeira ministra não roubaria e não deixaria roubar, como se diz por aqui, e deu no que deu. Como uma espécie de Jânio Quadros de saias, Dona Bilionária foi demitida depois de sete meses de governo em meio ao fragoroso desmonte de um esquema de corrupção engendrado por funcionários de alto coturno do “revolucionário” governo “laranja” ucraniano.

Por falar em laranja, vamos agora abrir espaço para uma receita de culinária. Não tema: não é a volta da censura.

Ponha na mesma panela democracia, liberdade de imprensa e uma pitada de vergonha na cara. Aí achará, apurando o caldo, aquele homem público que facilitou o enriquecimento de empresas prestadoras de serviço ao Estado. Ao ser posto em pratos limpos, adicione o molho: a investigação de quem colaborou com a ponta corrompida e a ponta corruptora, ou seja, os ingredientes responsáveis por decisões, pareceres, juízos e iniciativas de leis, atos ou contratos administrativos que favoreceram esses interesses. Aí é só servir ao xilindró.

O importante é que, seja rico ou seja pobre, o corrupto receba o fuzilamento que bem merece − moral, é claro. Não ouso pensar em nada mais “radical”, como aquilo que habitualmente se faz com os pobres-diabos ladrões de galinha.

 

 

Alceu A. Sperança – escritor

RUMOREJANDO (Mudança da maior potência do planeta. Esperando) por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Conto mobiliário, curto, pseudo-infantil).

Ela comeu com sofreguidão uva de mesa no colo do namorado, este sentado numa cadeira. Aí ela terminou de comer na cama e eles, depois da comilança, viveram felizes para sempre…

Constatação II

Não se pode confundir pulha com pilha, muito embora quem é pulha sempre pilha os cofres públicos, privados e outros menos cotados. A recíproca não é necessariamente verdadeira, até porque os eleitores brasileiros ficam uma pilha de nervos em ver o número de pulhas que vicejam por aí…

Constatação III

E como poetava o convencido, nosso velho conhecido:

“Ser cobiçado

Ser desejado

Pelas mulheres,

Aqui em Curitiba

Ou seja, lá onde for,

Não precisou ser

Meu desiderato.

Portanto,

Por favor,

De pitibiriba,

Neres.

Pelo menos,

Por enquanto…

Sempre foi de somenos

Importância tal.

Eu nunca fiquei

Estupefato

Com esse ato

Cortejador,

Também

Não prestei

Muita atenção

E deixei,

Simplesmente,

A elas, mais de cem,

A decisão,

A postura opcional

E tudo acontecer

De modo natural,

Essencialmente

Como sempre normal

Tão-somente”.

Constatação IV

Rico tem impressora a laser; pobre, papel carbono; quando muda o salário mínimo, mimeógrafo a álcool.

Constatação V

Uma das obviedades e vade-mécum de quem quer tirar proveito em tudo: “O negócio é sempre ser amigo do rei que esteja, naquele momento, reinando”.

Constatação VI

Pra quem está pensando em investir pra tocar seu próprio negócio Rumorejando, face os tempos novos, sugere os seguintes ramos com o mercado em franca expansão: coletes a prova de bala, alarmes para carros e casas, grades de proteção, cerca elétrica, firmas de segurança de outras firmas de segurança e assim por diante. De nada!

Constatação VII

Não se pode confundir carreata com careta, até porque, dependendo quais eleitores estiverem participando da carreata e a gente for do outro candidato a gente não vai deixar de fazer uma careta, caramunha, carantonha, esgar, momice, trejeito. Tudo de desprezo. A recíproca não é verdadeira, porque pode ser uma carreata que mereça da nossa parte um simples muxoxo.

Constatação VIII

Rico é empírico; pobre, nunca leu um livro na vida.

Constatação IX

Deu na mídia: “Homem preso no Egito por propor troca de esposas na internet

A polícia ordenou a detenção durante quatro dias do funcionário, acusado de apologia da libertinagem”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas pelo jeito a polícia egipcia ainda não ouviu falar em swing…

Constatação X (Teoria da Relatividada para principiantes corinthianos).

É muito melhor estar entre os quatro primeiros na segundona do que entre os quatrro últimos na primeirona.

Constatação XI (Teoria da relatividade para principiantes paranistas).

É muito melhor estar entre os quatro primeiros da terceirona (Valha-me, meu time), do que entre os quatro últimos da segundona.

Constatação XII (De uma dúvida crucial).

Será que a linha do Equador, com esse aquecimento global, ficou desalinhada? Quem souber a resposta, por favor, enviar correspondência para o e-mail desse assim chamado escriba ou através do blog http://rimasprimas.blogspot.com

Constatação XIII

O que se vê,

Hoje em dia,

Na TV

Homem chorando

Não tá escrito por aí

Tampouco no gibi.

Antes não se via.

Estão desmistificando,

O dito do Martinho

Que homem não chora

Quando a mulher

Vai embora.

Ninguém quer ficar sozinho

Nem um minuto sequer.

Constatação XIV (De conselhos úteis).

Se você é vegetariano, ou adepto da comida macrobiótica, não faça proselitismo disso, pois todo proselitista é um chato. Quando não, um cricri. De nada!

Constatação XV

Tá na hora de eliminar a reversão à esquerda, em Curitiba. E para não haver excesso de velocidade nas ruas de sentido único, lombada e lambada de multa aos mais apressados. E já que estamos falando de assuntos de nossa cidade, quem deveria controlar os decibéis, já que parece que ninguém controla.? Quem souber a resposta, etc., etc.