APCA por zuleika dos reis


 

 

 

                   Começou no ônibus, numa segunda-feira, a partir da conversa entre dois sujeitos sentados no banco lateral ao meu. Ouvia-lhes as vozes, sem prestar atenção às palavras, nesse estado meio sonambúlico em que alguns ficam quando estão sós, mas acordei subitamente com a decodificação da tal sigla e do endereço: Rua Independência, 520. Ouvira mesmo o que ouvira, de dois sujeitos comuns, às 9 da noite, assim, sem código ou senha? Em casa descobri que há, só na Capital e adjacências, dez ruas Independência, quatro da Independência, uma travessa e ainda três praças com o mesmo nome. Depois de muita procura lá estava, na lista de endereços da Zona Sul: APCA, Rua Independência, 520. Informaram-me que os encontros acontecem todos os sábados, às 16 horas. Nenhuma solicitação de qualquer dado pessoal.

                   Sábado, quatro da tarde. Atravesso a sala e entro no auditório onde já estão, pelo menos, umas sessenta pessoas. O coordenador chama-se Carlos, nos dá as boas-vindas, explica-nos os objetivos de tais reuniões e que seus princípios são os mesmos que norteiam o trabalho dos irmãos da A.A. Lê-se, no quadro negro, ao fundo: Posso viver minha vida somente um dia de cada vez, lembrando-me de que não tenho domínio sobre a vida de ninguém, a não ser sobre a minha própria. Carlos esclarece, antes de encerrar sua fala, que no primeiro sábado de cada mês, as reuniões são divididas em duas partes: a inicial, para depoimento dos ingressantes; a segunda, após breve intervalo, para realização de palestra sobre tema de interesse geral e, finalizando o encontro, atividade de integração dos novatos entre si e com os membros veteranos.

                   O primeiro depoimento nos vem de um senhor baixo e atarracado, calvo e corado, jeito de português dono de armazém. Logo me dou conta do clichê.

                   “Sou líder de um grupo dos sem-terra e minha companheira, que pertence à liderança das mulheres, acabou de receber um convite para posar nua na Playboy. O cachê é alto, quase tão bom quanto ela e com o dinheiro dá pra gente comprar uma bela casa aqui na Zona Sul, quem sabe até na Vila Mariana. Só que alguns dos companheiros não aceitam, alegam que o Sistema sempre agiu assim para neutralizar a ação revolucionária. Embora constituam minoria, tais companheiros têm ainda certo poder de influência. Retruquei que isso não passa de discurso ideológico da década de cinqüenta o qual, já desde muito antes do fim do Socialismo, não funciona mais. Não adianta, eles não arredam pé, dizem que se cedermos a esse jogo seremos considerados traidores e expulsos do Movimento. Não somos traidores, compreendem? Só é a nossa chance real de termos um teto e todo mundo sabe que a Sorte não bate na mesma porta duas vezes.”

                   Cala-se e nos encara, esperando uma reação qualquer. Não vem nenhuma, e então cede lugar ao próximo, homem jovem de bela aparência, mas com uma corcunda respeitável.

                   “Fico pensando num leque de soluções, por enquanto fechado: colocar carpete na sala, tradicional ou de madeira, recusar-me a sair de casa sob qualquer pretexto, ficar trancado no escritório, todos os dias, até alta madrugada, sumir cada fim de semana, ou separar-me da mulher. Minha mulher é, sem comparação, a coisa mais linda que jamais Deus pôs sobre a face da Terra e ao natural, senhores. O problema é que ela quer sair todas as noites e muito bem vestida, não importa para onde. Sempre concordo, apesar de exausto. Meu drama é que, entre o banho e o derradeiro retoque no cabelo, passam-se várias horas. Enquanto espero, vou contando os tacos do assoalho na sala de jantar. Não superei ainda a marca dos 2734, porque a sala é grande e com muitos empecilhos como a mesa, as cadeiras, os vasos… sobretudo os próprios tacos, por se revezarem nas posições horizontal e vertical, tudo isso dificultando, de modo extraordinário, a contagem que recomeço do zero na noite seguinte.”

                   Tive vontade de sugeri-lhe a Odisséia, à guisa de catarse, mas faltou-me coragem.

                   Linda mesmo é a jovem que neste momento se dispõe a falar. Olhos cor-de-outono – sei lá por que me ocorre esta imagem – mini-saia, meias pretas, batom e unhas vermelhas.

                   “Meu problema, com uma única exceção aos oito anos, é com os presentes. Não, não com vocês, sou bastante sociável. Já se detiveram alguma vez sobre os papéis com que se embrulham os presentes? O brilho, a magia, a sedução que oferecem? É sempre uma dupla agonia: por um lado, o olhar ansioso das pessoas, na expectativa da minha reação e por outro, o conhecimento de que nada, absolutamente nada que esteja dentro pode ser comparado àquela beleza primeira. E há comemorações demais, aniversário, Natal, Ano Novo, Páscoa, amigos secretos. À medida que cada festa se aproxima aumenta-me a angústia, e logo vem chegando a hora de outra.”

                   Que belas meias pretas!

                   A pessoa agora diante dos olhos é a antítese perfeita da anterior. Senhora de meia idade, ancas e seios fartos, ar de boa dona de casa e ainda melhor cozinheira. Diz, apenas: “Minha ampulheta está com defeito.”

                   Sob a estranheza geral, Carlos solicita-lhe que continue. Ela conclui com um peremptório não.

                   O que me ocorre imediatamente, e creio que a todos os demais, é que tal metáfora (só pode se tratar de metáfora, a não ser que “ampulheta” se reporte àquele pequeno ícone que aparece no computador e, nesse caso, basta chamar um técnico) se relacione a algum problema de natureza hormonal, a disfunções de menopausa, período sempre difícil na vida da mulher. Mas, e se a palavra em questão se refira a algo mais complexo, que ultrapasse a esfera individual? O tom solene com que foi pronunciada a frase e a própria palavra “ampulheta”, confere alguma legitimidade a esta terceira hipótese.

                   O próximo depoimento vem de um senhor sorridente de uns setenta e cinco anos, de terno, colete cinza, chapéu… a portar a elegância clássica dos que passeavam no centro de São Paulo quando a cidade ainda era a terra da garoa, dos saraus e de Mário de Andrade. Logo às primeiras palavras, percebe-se que é um dos membros veteranos.

                   “Estou aqui para lhes dizer que, afinal, conheço bem cada uma das páginas da minha vida, a qual me parece inteiramente satisfatória, uma vez superadas todas as antigas dúvidas. Venho para me despedir e para me colocar inteiro à disposição dos senhores.Terei imenso prazer em recebê-los no meu coquetel amanhã.” Cita o local e o horário, volta a sentar-se, cercado pelos aplausos e pelos tapinhas nas costas.

                   Atordoado por agudo e um tanto injustificável sentimento de decepção, penso: Também aqui? Como é possível?

                   Uma nova depoente já nos fita, por cima de seus óculos.

                   “Tenho trinta e cinco anos, sou funcionária do Estado e do Município. Não me lembro de qualquer página anterior nem me preocupam as vindouras. Minha função mais importante é ler o Diário Oficial, ainda que atenda também à portaria, ao telefone. Trabalho doze horas por dia, com duas de intervalo para o almoço, incluindo o tempo para me locomover entre ambas as repartições. Faço plantão um sábado por mês. Estou tranqüila, porque não há incompatibilidade entre os cargos que ocupo, afinal é preciso viver sempre dentro da Lei. Qualquer dúvida quanto a nomeações, demissões, promoções, cursos de reciclagem, qualidade total, decretos do Prefeito e do Governador, aposentadorias, inquéritos administrativos, é comigo mesma. Todos dizem que tenho excelente caligrafia. Por sinal, devo tirar um abono amanhã, para ir ao oculista.”

                    Uma pena que Gogol já tenha escrito a tua história, com o elemento fantástico que, para teu mal, talvez jamais chegues a experimentar.

                   Este parece um cientista-mirim. Doze anos, no máximo, e também usa óculos.

                   “Não estou aqui por minha causa, mas por causa do meu pai. Para facilitar-me as pesquisas, solicitei-lhe a compra de um computador. Ele assim o fez e tudo ia bem até que me pediu umas aulas para, segundo suas próprias palavras, “aposentar a velha máquina de escrever”. Sou filho temporão, meu pai tem sessenta e nove, é professor aposentado há muitos anos e, de uns meses para cá, começou a escrever crônicas. Já lhe dou aulas há uma semana e o velho ainda apresenta dificuldades para movimentar o mouse, quanto mais para digitar e salvar textos no Word. Descobriu que não tem controle motor e está com um terrível complexo de inferioridade. Quero muito ajudar meu pai, senhores, mas confesso que não sei bem o que fazer.”

                   Já este outro deve ser vendedor, talvez pela maleta, quem sabe pela precisão dos gestos e do olhar, que parece dirigir-se a todos e a cada um ao mesmo tempo. Também pode ser político.

                   “Há uma coisa que não consigo compreender e que me incomoda diariamente nas livrarias aonde vou por necessidade de ofício. Por que o formato dos livros continua retangular, desde o tempo de Gutenberg? Por que não pode haver livros redondos? Na literatura infantil até que venho observando algumas tentativas de inovação, mas na literatura para adultos… E agora, com bibliotecas inteiras à disposição via Internet, meu sonho parece de vez impossível, porque as telas dos computadores são tão quadradas – permitam-me o desvio conceitual – tão quadradas quanto a tela da TV. Num mundo onde todas as rodas são redondas, por que tudo se torna cada vez mais quadrado, a começar pelos livros?”

                   Ninguém arrisca resposta para sua inalienável questão.

                   Carlos intervém:

                    – Alguém gostaria de fazer o último depoimento de hoje, antes do intervalo para o café?

                   O rapaz alto e magro, cabelos negros e desgrenhados, fica em silêncio nos olhando… nos olhando…

                   “Eu já fui poeta…” e abarca toda a sala com expressão do mais absoluto desamparo.

 

 

 

                   Tento me aproximar da garota cujos presentes não podem ser abertos, é impossível. Vários sujeitos esparsos têm a mesma idéia e chegam primeiro. Ocorre-me que, há dez anos, jamais teria perdido uma corrida dessas. Agora cinco metros e com barreiras… Sem outra alternativa, ponho-me a percorrer a multiplicidade de cabeças, à procura, talvez, dos indivíduos do ônibus. Não os vejo, sua função deve ter sido apenas a de passar a deixa. Quem sabe, foram ao cinema. Só me resta circular pela sala e ouvir as conversas.

                   “… viajou uma semana sem deixar nada na geladeira… nem imagine comigo nas férias passadas… minha namorada tem doze anos e aparelho nos dentes… o tempo parou às seis da tarde durante oito dias… me deixou plantado no meio de uma frase durante um mês… ainda não sei o que fui fazer em Paris… será que esses encontros vão ajudar mesmo… esperar… esperar… esperar… nenhuma brisa… nada… ninguém… a terra é de todos… esse é papo do sem-terra… e se ficarem sabendo… claro que já sabem… deve haver vários aqui… aquele de paletó marrom parece um deles… as últimas estatísticas… filial em Nova Iorque… não gosto do modo como venho falando… ele ainda não percebeu… o meu anda meio cismado… já chegamos à nona página… ainda não sei a cor dos meus olhos… reparou Roberto, tudo parece coisa do mesmo autor, com alguma leitura mas iniciante, sem dúvida. Artur, se surgissem de novo um Quincas Berro D’Água, um Augusto Matraga, um Rosendo Juárez, uma Bola de Sebo… você concorda que prefeririam permanecer para sempre onde estão?”

                   Atraído por estas frases completas em tal contexto, custo a lhes compreender o significado, assim como a natureza dos indivíduos que as acabam de pronunciar. Assombra-me minha lentidão. Como se puderam fundir tão rápido os dois mundos dentro de mim? A colocação desse Roberto… Se eu estivesse inserido em uma estrutura perfeita, de linguagem sem fraquezas nem balbucios, toda plena de si mesma e contendo cada um dos meus pensamentos, atos, fatos, ainda que terríveis, até mesmo mortais e assim, completo, me tornasse para sempre conhecido, sem a necessidade de qualquer gesto autônomo, desde a primeira página até a última, preferiria abdicar de tal paraíso por destino ignoto? Agora, se eu fosse apenas um esboço… o papel abortado, no saco de lixo, faria a tentativa de existir pelo meu próprio esforço, no mundo exterior dos homens, até a vala onde todos as coisas e seres formam o mesmo húmus.

                   Acordo para o vazio ao redor. Todos já voltaram para o auditório.

                   Certa vez, há mais de vinte anos, publiquei um livro de contos. Depois, foram infinitas noites sem dormir, porque era um livro ruim, demasiado ruim. A partir daí, nunca mais ousei mostrar qualquer palavra a ninguém, apesar dos textos se acumulando nas gavetas.

                   Acabo de sair da Associação de Personagens de Contos Anônimos. Saio, felizmente ileso, na verdade menos do que desejava. Ocorre-me, por acréscimo, que ainda venha responder a processo pela apropriação indébita de uma sigla, o título deste conto (?) fato do qual acabo de me dar conta. A gargalhada pelo trocadilho idiota espanta as pessoas na calçada. Será que há algo mais importante no mundo do que diverti-las por um momento?

 

 

 

 

                   Olhos cor-de-outono, mini-saia, meias pretas, batom e unhas vermelhas. O acaso fez com que a reencontrasse alguns meses depois, já nem me lembrava mais daquele conto. Laura é muito mais do que um esboço, é a criatura que pretendo manter a meu lado e, para isso, só lhe dou presentes ao natural, exatamente como se mostram nas vitrines das lojas, nas prateleiras das livrarias, nas bombonières, onde quer que estejam, límpidos, lúcidos e nus de qualquer invólucro. Afinal, apenas eu conheço o único modo de torná-la feliz.

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