Arquivos Diários: 17 novembro, 2008

HISTÓRIAS DO BRAGA – crônica de hamilton alves

 

 

 

 

 

                                   Não tive a menor convivência com Rubem Braga. Nem sequer cheguei a conhecê-lo, como não cheguei a ter contato com outros mestres da literatura brasileira (especialmente cronistas). Conheci e troquei algumas palavras com Fernando Sabino, Otto Lara Resende, mas não com Paulo Mendes Campos (uma das minhas frustrações irreparáveis pela admiração que sempre tive por Paulo). Mas não com Antonio Maria, que conheci numa fila desorganizada do cinema Metro, em Copacabana. Maria estava a pouca distância de mim. Quando a porta do cinema se abriu, foi aquele rolo compressor, nem permitindo que andássemos com nossas próprias pernas. Só via, no meio das pessoas, erguer-se a cabeça do Maria. Uma velhinha, que me pediu para protegê-la, igualmente foi levada por essa avalanche, sem que nada pudesse fazer por ela.

                                   Por que então intitulo esta crônica de ”Histórias do Braga”? É o seguinte: quando chegou a uma redação de jornal de São Paulo se propôs a escrever crônicas ou se identificou como cronista.

                                   Suponho que, naquela altura dos acontecimentos, a crônica ainda era um gênero pouco cultivado no jornalismo brasileiro ou aparecia pouco em nossa imprensa. Daí que o Braga se candidatasse a ser apenas cronista de jornal pareceria um disparate ou uma coisa inteiramente fora de propósito.

                                   O diretor do jornal (assim se conta) lhe teria dito que havia vaga para redator de fatos gerais (faits divers, como se diz em linguagem jornalística). O Braga bateu pé com todo seu conhecido e propalado orgulho de cronista. Ergueu-se da cadeira e proclamou aos ventos que passavam em volta:

                                   – Só escrevo crônicas!

                                   O diretor (ou seja lá quem tenha sido que o entrevistou nessa ocasião) deve ter achado muito curioso que se apresentasse à redação um jornalista que se propunha a só escrever crônicas e nada mais.

                                   Foi então (conta a história, que pode se resumir ao mito envolvendo o Sabíá da crônica) que o diretor do jornal acatou sua decisão e, a partir de então, lhe reservou uma coluna no jornal para compô-la, que passou a ser semanal, depoisa a diária.

                                   É óbvio que, quando uma pessoa busca um emprego, seja do que for e precisa dele para sobreviver, sua margem de exigência, em geral, cai a zero. Ou não se impõe com tanta determinação.

                                   Braga, por isso, nessa ocasião, poderia ser mais, digamos, contemporizador. Ficaria com a função de redator. Aos poucos, conquistaria o espaço de cronista. Mas no caso dele (conta a lenda, se lenda) impôs de saída sua condição de forma categórica:

                                   – Só escrevo crônicas.

                                   Se o diretor ou quem fizesse suas vezes tivesse, por acaso, o repelido por tal exigência, que pudesse lhe parecer meio estranha, teria perdido de acolher o cronista excepcional que era o Braga, que, na ocasião, encontrava-se na melhor fase de produção do gênero que o consagrou.

                                   Os que o conheceram de perto dizem que era uma de suas marcas – o orgulho. Nunca, em tempo algum ou em nenhuma circunstância, voltou atrás de uma decisão tomada, ainda que lhe custasse caro.

                                    Braga elevou o gênero crônica a um patamar que só havia sido conhecido nos tempos de Machado de Assis. Passou à história das letras deste país escrevendo esporadicamente uma lauda e meia sobre tema qualquer.

                                    Foi tudo que fez na vida..    

 

(Nov/o8)

Rumorejando (Dias melhores, ou, pelo menos, menos piores, aguardando). / por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Emprestando o termo “pila” dos gaúchos).

O dolar oscila,

Sobe e desce.

Mesmo assim,

É tudo igual

E não é um pranto:

O meu real

Desaparece,

Como por encanto,

Ele vive no fim

Sem sobrar um pila,

Sem um tostão furado.

Coitado!

De mim…

Constatação II

Quem nunca leu, pelo menos os livros, Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior e O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho não entende nada de nada. Tenho, sem patriotada, dito.

Constatação III

Exemplo de Exercício de Poder é quando uma pessoa física ou jurídica te adverte, te chama a atenção, várias vezes, que a reunião terá que ser im-pre-te-ri-vel-men-te numa determinada hora e te atende com uma hora de atraso. Outros exemplos são: “Eu quero porque quero é tá acabado”, de pais para com os filhos e da mulher para com o marido e, dificilmente, deste para com aquela…

Constatação IV

Posto

Que a gente

Tem que pagar imposto,

Tributo,

Imposto como obrigação,

Tão somente

E não vê atitude

Pra uma solução

Pra Saúde

E a Educação

A gente fica put, digo resoluto

A tomar

Uma posição

De não votar

Na próxima eleição.

Constatação V

Carcomido pelo ciúme

De ver a vizinha

Com mais um carro,

Todo incrementado,

Ficou que era só azedume

Pôs-se a falar

Abobrinha,

E, para piorar:

A sogra vá tirar

Um sarro:

Que ele só tinha uma bicicleta

E que de tanto pedalar

Poderia se tornar

Um baita atleta.

Coitado!

Constatação VI

Não se pode confundir simbiose, que o dicionário Houaiss dá como “interação entre duas espécies que vivem juntas” com sinistrose, que o mesmo dicionário define comotendência a alardear a iminência de colapsos e perigos terríveis, individuais ou sociais, a vaticinar desastres, ruínas, grandes perdas materiais, catástrofes em empreendimentos, planos econômicos, projetos políticos”, muito embora se as duas espécies que vivem juntas serem humanas tipo genro ou nora com sogra, fatalmente, deverá descambar para a realização efetiva da sinistrose. A recíproca até pode ser verdadeira. Basta ver o que está ocorrendo no mundo com a derrocada da especulação financeira que nada tem a ver com o trabalho produtivo que efetivamente gera riqueza.

Constatação VII

Deu na mídia: “A revista ‘Forbes’ aponta Elvis como artista morto mais rico de 2008”. Taí uma notícia de transcendental importância para as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e, também, para o futuro da Humanidade…

Constatação VIII

Aguarde breve: O “pibe”, como é chamado carinhosamente Maradona pelos hermanos, sendo desmistificado como a maioria dos técnicos em todo o mundo. As exceções como o Felipão e outros são apenas, e não mais que apenas, exceções. Tenho profeticamente dito.

Constatação IX

Lugar-comum é a casa da gente? E quem não tem casa como é que fica? Sem-teto- comum?

Constatação X

A violência que grassa em nosso país gerou a ampliação do termo ‘liquidação’ que anteriormente só se referia às vendas para renovação dos estoques das lojas?

Constatação XI

Semiótica quer dizer que o sujeito só vê as coisas pela metade?

Constatação XII

Para quem acredita em inferno, purgatório e paraíso, acompanhar um enterro de uma pessoa é levá-lo para a sua penúltima morada?

Constatação XIII (Quadrinha para ser recitada no dia das eleições).

Sou um democrata

Meu voto é obrigatório

Meu candidato é psicopata

E vive num consultório.

Constatação XIV (Saudosismo).

Já no fim do jogo entre o Gama e o Paraná, nos descontos, a bola bate na trave do Paraná e, na seqüência, um corner e um pênalti a favor do Paraná que é convertido em gol e o Paraná vence por 2 a 1. Os gols do Paraná foram feitos por zagueiros. No meio da euforia e do “ufa!” dos paranistas, ouviu-se um comentário com ar tristonho e nostálgico de um torcedor: “Já não se fazem atacantes como Izaldo, Casnock e Afinho, do meu velho Ferroviário”.

E- mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

Livros encalhados, crime de lesa-cabeça / por alceu sperança

 

 

 

Por vezes aparece alguém estranhando o grande sucesso da vasta produção de software da Índia. Essa estranheza revela o desconhecimento da realidade daquele pais, que luta para superar seu passado de submissão ao imperialismo travando uma luta tremenda contra a ignorância, através de uma revolução silenciosa: os indianos são, hoje, o povo que mais lê livros no planeta, dedicando 10,7 horas por semana à leitura.

No Brasil, no entanto, mesmo entre os que se julgam alfabetizados, 75% dos nossos compatriotas não sabem ler direito, segundo atestou uma pesquisa do Ibope. Sabe o bê-a-bá, ou seja, aprendeu a juntar uma letra com a outra e a assinar o nome. Já pode votar e se endividar no banco? Então, ótimo! Não precisa mais nada. Esse cidadão do bê-a-bá está longe de entender efetivamente o que lê e sequer sabe, pois não pode ler direito que ler enriquece e por isso continua pobre.

O governo brasileiro até que se mexeu um pouco, ao velho estilo três M (malandro, midiático e medíocre), anunciando o Plano do Livro e Leitura, a criação do Conselho Nacional do Livro e Leitura e a regulamentação da Lei do Livro. Mas a ação oficial, como bem sabemos, é quase nada. Escreveu, não leu, nem os autores leram. Se você confiar cegamente em seus governantes, sem pressioná-los, colherá a mesma frustração de todos aqueles que elegem deputados e esperam que eles arranquem fogo dos céus. É desastroso acreditar, ingenuamente, que estamos dando um cheque em branco para um sujeito apenas por conta de um voto clicado numa urna.

Promover a leitura como elemento essencial à revolução brasileira deve ser uma tarefa de todos nós, de cada escola, cada igreja, cada associação, cada brasileiro que se julga construtor da cidadania e de um país melhor.

Um país que piorou nos últimos dez anos e ficou bem mais burro nos governos tucano-liberal e petista-peemedebista, a julgar por uma pesquisa promovida pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sugerida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): entre 1995 e 2003, o número de livros vendidos no país caiu mais de 40%. Isso apresentou um fenômeno: uma vasta “escala de estoque”, linguagem técnica para o que nos chamamos de encalhe. Neste momento há encalhados, longe do acesso dos sem-livros, algo ao redor de 50 milhões de volumes. E são livros bons, pois as editoras decidiram as tiragens de acordo com seu potencial de consumo.

A mesma pesquisa mostrou que o PIB cresceu 16%, no período indicado, mas o mercado editorial brasileiro encolheu: o número de títulos caiu 13%, o de exemplares editados teve queda de 10% e as vendas, como vimos, despencou mais de 40%. Causas? O povo já não lia, e a partir de 1998 a renda da classe média foi achatada. A dos funcionários públicos em particular vem caindo desde 1994. Se quem não lia continua não lendo e quem comprava livros não compra mais, se o livro, que deveria até ser gratuito, é caro demais em relação à renda do povo, há pouco mais a dizer sobre o emburrecimento geral deste país.

O livro no Brasil chega a custar três vezes mais do que na França. Enquanto os alemães produzem cerca de seis livros por habitante, os editores brasileiros só publicam dois (e mesmo assim temos aquele monumental encalhe). Nosso livro, aliás, é quase três vezes mais caro do que o francês e o japonês. Como o livro brasileiro é caro em relação ao poder aquisitivo do povo, o governo compra livros e os doa aos estudantes (nosso governo é hoje o terceiro maior comprador de livros do mundo). Na China, mesmo sendo o livro muito caro em relação à renda do povo, o governo distribui livros à mancheia, como queria nosso Castro Alves. Chinês só não lê se não quiser. Quase tão pródigo é o governo dos EUA, que compra quatro vezes mais livros para estudantes do que o brasileiro.

Para completar, não será demais repetir a sábia advertência de José Bento Monteiro Lobato (1882–1948): “Um país se faz com homens e livros”. Livros aos homens, portanto