Livros encalhados, crime de lesa-cabeça / por alceu sperança

 

 

 

Por vezes aparece alguém estranhando o grande sucesso da vasta produção de software da Índia. Essa estranheza revela o desconhecimento da realidade daquele pais, que luta para superar seu passado de submissão ao imperialismo travando uma luta tremenda contra a ignorância, através de uma revolução silenciosa: os indianos são, hoje, o povo que mais lê livros no planeta, dedicando 10,7 horas por semana à leitura.

No Brasil, no entanto, mesmo entre os que se julgam alfabetizados, 75% dos nossos compatriotas não sabem ler direito, segundo atestou uma pesquisa do Ibope. Sabe o bê-a-bá, ou seja, aprendeu a juntar uma letra com a outra e a assinar o nome. Já pode votar e se endividar no banco? Então, ótimo! Não precisa mais nada. Esse cidadão do bê-a-bá está longe de entender efetivamente o que lê e sequer sabe, pois não pode ler direito que ler enriquece e por isso continua pobre.

O governo brasileiro até que se mexeu um pouco, ao velho estilo três M (malandro, midiático e medíocre), anunciando o Plano do Livro e Leitura, a criação do Conselho Nacional do Livro e Leitura e a regulamentação da Lei do Livro. Mas a ação oficial, como bem sabemos, é quase nada. Escreveu, não leu, nem os autores leram. Se você confiar cegamente em seus governantes, sem pressioná-los, colherá a mesma frustração de todos aqueles que elegem deputados e esperam que eles arranquem fogo dos céus. É desastroso acreditar, ingenuamente, que estamos dando um cheque em branco para um sujeito apenas por conta de um voto clicado numa urna.

Promover a leitura como elemento essencial à revolução brasileira deve ser uma tarefa de todos nós, de cada escola, cada igreja, cada associação, cada brasileiro que se julga construtor da cidadania e de um país melhor.

Um país que piorou nos últimos dez anos e ficou bem mais burro nos governos tucano-liberal e petista-peemedebista, a julgar por uma pesquisa promovida pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sugerida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): entre 1995 e 2003, o número de livros vendidos no país caiu mais de 40%. Isso apresentou um fenômeno: uma vasta “escala de estoque”, linguagem técnica para o que nos chamamos de encalhe. Neste momento há encalhados, longe do acesso dos sem-livros, algo ao redor de 50 milhões de volumes. E são livros bons, pois as editoras decidiram as tiragens de acordo com seu potencial de consumo.

A mesma pesquisa mostrou que o PIB cresceu 16%, no período indicado, mas o mercado editorial brasileiro encolheu: o número de títulos caiu 13%, o de exemplares editados teve queda de 10% e as vendas, como vimos, despencou mais de 40%. Causas? O povo já não lia, e a partir de 1998 a renda da classe média foi achatada. A dos funcionários públicos em particular vem caindo desde 1994. Se quem não lia continua não lendo e quem comprava livros não compra mais, se o livro, que deveria até ser gratuito, é caro demais em relação à renda do povo, há pouco mais a dizer sobre o emburrecimento geral deste país.

O livro no Brasil chega a custar três vezes mais do que na França. Enquanto os alemães produzem cerca de seis livros por habitante, os editores brasileiros só publicam dois (e mesmo assim temos aquele monumental encalhe). Nosso livro, aliás, é quase três vezes mais caro do que o francês e o japonês. Como o livro brasileiro é caro em relação ao poder aquisitivo do povo, o governo compra livros e os doa aos estudantes (nosso governo é hoje o terceiro maior comprador de livros do mundo). Na China, mesmo sendo o livro muito caro em relação à renda do povo, o governo distribui livros à mancheia, como queria nosso Castro Alves. Chinês só não lê se não quiser. Quase tão pródigo é o governo dos EUA, que compra quatro vezes mais livros para estudantes do que o brasileiro.

Para completar, não será demais repetir a sábia advertência de José Bento Monteiro Lobato (1882–1948): “Um país se faz com homens e livros”. Livros aos homens, portanto

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