Arquivos Diários: 18 novembro, 2008

HOMO SAPIENS poema de manoel de andrade

 

 

 Primo do primata, irmão ou primogênito

por tantas linhas que essa história abarca

nessa ilustre família do passado

diga-nos: afinal quem foi teu patriarca???

                            

Sobrevivente de todos os caminhos

de Neanderthal às passarelas do terror

grego ou troiano, cruzado ou sarraceno

judeu e palestino no ódio e no amor.

                            

Ei-lo chegado dos arraiais do tempo

sem pêlos, ereto e bem trajado

ostentando as etiquetas do progresso 

e o seu orgulho de homem civilizado.

                            

Ei-lo no terceiro passo do milênio

herdeiro da filosofia e da ciência

depositário infiel da lei e da razão

o senhor da guerra e da violência.

                            

Ei-lo no palco da comédia humana

protagonista do escândalo e da inocência    

resignado a gargalhar, chorar, fingir

na incomunicável pantomima da existência.

                            

Ei-lo manequim do orgulho e do egoísmo

trajando sua incômoda  religiosidade

encurralado pela vida e para a morte

tateando tragicamente a eternidade.

 

Ei-lo garimpando as jazidas da ilusão

escravo  do ouro, do poder e da aparência

condenado ao remorso, à dor e à solidão

no tribunal implacável da consciência.  

                            

Ei-lo a dançar no carnaval do mundo

nesse  eterno festim, grotesco e sensual

triste figura de pierrô e colombina

pobre bacante dessa orgia universal.

                                

Ei-lo desvendando os caminhos siderais

ainda que na Terra viva a esmo

imantado aos seus instintos bestiais

incapaz de abrir uma rota pra si mesmo.

                             

Ei-lo arrebatando impaciente o seu bocado  

no gesto cego, primitivo e infantil

disputando a qualquer preço o seu brinquedo

qual uma criança em seu íntimo perfil.

                             

Ei-lo  mafioso, sedutor e corrompido 

traficando em um varejo alucinante

de colarinho branco ou encardido

parceiro inconfessável de um mundo degradante.

                             

Ei-lo a cuspir no prato que comeu

e desse banquete só migalhas restarão

as águas mortas, florestas abatidas

um planeta devastado àqueles que virão.

                             

Promotor da fome e da miséria

com sua elite global e rapinante

vai saqueando a vida dia-a-dia

impassível ante um grito agonizante.

                             

Mas apesar de tudo é o  herói que sonha

pra buscar na utopia a sua glória 

arauto da liberdade, da paz e da justiça

sacrificado nas trincheiras da história.

 

Missionário do amor, da arte e do progresso 

anônimo  na humildade e na grandeza

indiferente aos holofotes do “sucesso”

mora na luz da fraternidade e da beleza. 

                             

Ei-lo enfim  a se arrastar no chão da vida

com a alma manchada por tantos desatinos

milenar caminheiro  da esperança

solitário e sem rumo diante do destino.

                             

Perplexo frente a tantos holocaustos  

ensurdecido ante os canhões da guerra 

fita as estrelas e suspira fundo

sonhando um dia com a paz na Terra.

 

                                 Curitiba, março de 2004

 

 

Este poema consta do livro “CANTARES”, publicado por Escrituras.

SATURAÇÃO NA CAPACIDADE DE EXPANSÃO CAPITALISTA por walmor marcellino

 

“Amigos 25 anos” tem capeado informações e artigos instrutivos, ou meramente ilustrativos quando não ultrapassam meras constatações, às vezes sem uma perspectiva crítica; quer dizer sem tocar o cerne das contradições ou desvelar o antagonismo. Um destes é o de Limites do Crescimento (comentados por Enrique Leff). Questões como a substituição dos insumos correntes e, em conseqüência, dos seus processos produtivos; enfrentam contradita do poder econômico-político nas sociedades e no mundo (com especial destaque para o forte complexo industrial-militar que se mostrou endógeno às estruturas políticas engendradas pelo “capitalismo de vanguarda” nas sociedades imperialistas). Outra relevância é que a saturação produtiva é horizontal e vertical, em reciprocidades, dependentes de tecnologias mutantes e vórticas que não admitem a ilusão de “voltar ao pequeno” (Il Piccolo è bello), não bastasse o poder inalterável de empuxo do próprio capitalismo.

Assim, se não está no horizonte do possível um “consenso” de auto-controle capitalista-imperialista e a extinção, sponte sua, do próprio sistema capitalista de produção, o que se apresenta nesse enigma, de predação da natureza‑saturação do meio humano ambiental, como racionalidade e sua razão política?

István Mészáros em “Produção Destrutiva e Estado Capitalista”, uma parte de seu “Para Além do Capital” (não apenas “Além do Capitalismo”), coloca e debate a transformação da “Destruição Produtiva”, que formou o capitalismo com a transformação de bens naturais para o uso humano, em “Produção Destrutiva” como processo-limite nesse processo de transformação de insumos. O cientista marxista húngaro nos impõe uma análise sistêmica do capitalismo contemporâneo a partir da sua dinâmica concreta de expansão e poder na sociedade contemporânea. Não creio que possa aqui suscitar os temas do antagonismo capitalista com as forças sociais postas na produção, senão remeter os interessados para o estudo de sua magistral obra, que resgata as idéias e o espírito de Karl Marx e adverte contra as simplificações políticas que administram a sobrevida desse sistema de opressão, exploração e destruição que vai sendo mantido por um sistema mundial “jurídico-político” de forças e fomentado pela positividade da estultice “politicamente correta” de dominação das mentes.

Quanto aos caminhos da superação dialética dessa crise incontornável do sistema capitalista, além do forum social mundial de práticas e idéias políticas e da resistência a todas as formas de opressão, exploração e destruição, cada qual encontre sua comunidade organizada e se descubra no processo político com um agir comunicativo, aglutinante.

VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

Atualizado em 12 de setembro de 2008 às 10:46 | Publicado em 12 de setembro
de 2008 às 10:38
por CONCEIÇÃO LEMES
Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão
ensinando a ele? De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, ela foi
baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há
o seguinte trecho:

“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe
mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che
Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de
neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem
contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire,
autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização.
Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico
alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade.
Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que
se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos
senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que
talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado”.

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto
Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha,
em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire,
ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época
Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de
repúdio:

“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo
Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores
de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda
indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista
VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a
leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do
jornalismo crítico.  Não proclama sua opção em favor dos poderosos e
endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo
desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas
as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou
seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo,
não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da
morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou
a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada
e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele
feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o
apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em
favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não
é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por
sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente
para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais
desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem
grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção
política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como
premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para
desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro
reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas
, sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de
distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas
somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas
quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os
participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas
autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da
ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da
Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média
brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria
revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu
a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a
esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e
inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem
vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo,
eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das
crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as
pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia,
gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o
direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de
Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no
caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo
e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar
que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.