HOMO SAPIENS poema de manoel de andrade

 

 

 Primo do primata, irmão ou primogênito

por tantas linhas que essa história abarca

nessa ilustre família do passado

diga-nos: afinal quem foi teu patriarca???

                            

Sobrevivente de todos os caminhos

de Neanderthal às passarelas do terror

grego ou troiano, cruzado ou sarraceno

judeu e palestino no ódio e no amor.

                            

Ei-lo chegado dos arraiais do tempo

sem pêlos, ereto e bem trajado

ostentando as etiquetas do progresso 

e o seu orgulho de homem civilizado.

                            

Ei-lo no terceiro passo do milênio

herdeiro da filosofia e da ciência

depositário infiel da lei e da razão

o senhor da guerra e da violência.

                            

Ei-lo no palco da comédia humana

protagonista do escândalo e da inocência    

resignado a gargalhar, chorar, fingir

na incomunicável pantomima da existência.

                            

Ei-lo manequim do orgulho e do egoísmo

trajando sua incômoda  religiosidade

encurralado pela vida e para a morte

tateando tragicamente a eternidade.

 

Ei-lo garimpando as jazidas da ilusão

escravo  do ouro, do poder e da aparência

condenado ao remorso, à dor e à solidão

no tribunal implacável da consciência.  

                            

Ei-lo a dançar no carnaval do mundo

nesse  eterno festim, grotesco e sensual

triste figura de pierrô e colombina

pobre bacante dessa orgia universal.

                                

Ei-lo desvendando os caminhos siderais

ainda que na Terra viva a esmo

imantado aos seus instintos bestiais

incapaz de abrir uma rota pra si mesmo.

                             

Ei-lo arrebatando impaciente o seu bocado  

no gesto cego, primitivo e infantil

disputando a qualquer preço o seu brinquedo

qual uma criança em seu íntimo perfil.

                             

Ei-lo  mafioso, sedutor e corrompido 

traficando em um varejo alucinante

de colarinho branco ou encardido

parceiro inconfessável de um mundo degradante.

                             

Ei-lo a cuspir no prato que comeu

e desse banquete só migalhas restarão

as águas mortas, florestas abatidas

um planeta devastado àqueles que virão.

                             

Promotor da fome e da miséria

com sua elite global e rapinante

vai saqueando a vida dia-a-dia

impassível ante um grito agonizante.

                             

Mas apesar de tudo é o  herói que sonha

pra buscar na utopia a sua glória 

arauto da liberdade, da paz e da justiça

sacrificado nas trincheiras da história.

 

Missionário do amor, da arte e do progresso 

anônimo  na humildade e na grandeza

indiferente aos holofotes do “sucesso”

mora na luz da fraternidade e da beleza. 

                             

Ei-lo enfim  a se arrastar no chão da vida

com a alma manchada por tantos desatinos

milenar caminheiro  da esperança

solitário e sem rumo diante do destino.

                             

Perplexo frente a tantos holocaustos  

ensurdecido ante os canhões da guerra 

fita as estrelas e suspira fundo

sonhando um dia com a paz na Terra.

 

                                 Curitiba, março de 2004

 

 

Este poema consta do livro “CANTARES”, publicado por Escrituras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: