Arquivos Diários: 21 novembro, 2008

JOÃO BATISTA DO LAGO comenta em OFERTÓRIO/DOR poema de jb vidal

 

Comentário:joao-batista-do-lago-0081

 

O (A)PARTO DO POETA

Ofertório-dor é um desses escritos que só ocorrem de 10 mil em 10 mil anos. É um parto de dor apartado de si. É um parto de tanta dor, que dói na alma de qualquer vivente que dele venha tomar conhecimento… e lê-lo… e senti-lo… e deixar-se conduzir num parto apartado do ser que se pretende por alguma via encontrar o centro do divino.

Esta poesia de JB Vidal é um levante contra o ser e o não-ser.
Paradoxal inferição que me ocorre, pois, logo ele, que se pretende para além de si, grita seu inferno dantesco de forma tão pungente que se nos revela a oikós onde se “instalou nessa podridão”, ou seja, neste espaço
tempo de nossas existências, que na síntese é a presencialidade do ser no poeta que tenta se organizar no interno centro do divino do seu exílio caótico.

Já nesta primeira estrofe ele se nos oferece a dor após rasgar com
violência anti-humana o seu centro do divino, isto é, arromba com
violência o seu útero eterno sem pai e sem mãe e deblatera o mais
recôndito do seu inferno existencial, como se quisesse ampliar neste
nascer-se as vozes de Nietzsche e Kierkegaard.

Mas o mais genial desta poesia são as duas estrofes centrais, onde o
autor se nos revela todos os tecidos e fibras que fazem parte do
corpo-útero, espermas e óvulos, símbolos e sons, discursos e
proselitismo retórico, forma e conteúdo, deste poema que deixa de ser
fala para se transformar em linguagem, onde atinge, aí sim, o centro do
divino e se faz sujeito… e se constrói, aliás, se reconstrói num
lamento em sujeito-sujeito, uma espécie de deus ou lúcifer, que grita o
tempo inteiro para dizer: “eu existo; eu sou… e só eu sou”. De certa
maneira há aqui um kantianismo infantil, mas exuberante porque nos faz,
de fato, pensar. E pensar não é coisa de humano, mas de anti-humano ou
de antideus ou antidemônio. Permita-me, o poeta, repetir aqui esses
belíssimos versos:

soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’alma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu

quero então oferecer
esta dor maior  que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação

Já o ofertório-dor propriamente dito, ou seja, a última estrofe, aos
meus olhos, é uma construção inconclusa. Mas penso que aí reside a
maldade-bondade da oferta deste poeta deus-demônio de si, que tem a
coragem de si rasgar e de si parir como o caos que faz e constrói
sujeitos do ser. Ei-la:

ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer

MARILDA CONFORTIN comenta em OFERTÓRIO/DOR poema de jb vidal

 

Comentário:marilda-confortin-0021

 

Nessas horas, entendo quando você diz que ainda não estamos escrevendo o que realmente sentimos… não podemos deixar passar…quando tudo morre e só a dor sobrevive é preciso escrever sobre essa dor por mais dolorido que seja. É preciso escrever sobre o amor enquanto se está amando por mais tolo que parece ser.  É Vidal, é preciso escrever como realmente sentimos… quando eu crescer, quero ser como você.
Beijo e boa semana

 

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ZULEIKA DOS REIS comenta em OFERTÓRIO/DOR de jb vidal

 

COMENTÁRIO:copia-de-zuleika-dos-reis-foto-co-2-zuka-06-de-janeiro-de-2008

 

Tocante, tão profundamente tocante que não encontro palavra a dizer diante deste Ofertório-Dor.  Caríssimo Vidal:você desceu fundo demais pelas raízes do humano e subiu fundo demais às inferas dos sacro-ofícios .”Ofereço a dor da ânsia divina de morrer”, um dos mais belos versos que já li, verso de uma beleza e de um alcance indizíveis.

Zuleika.

 

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CLETO DE ASSIS comenta em CAMILLE, UMA MULHER E TANTO

Comentário:                        cleto-de-assis-foto-dele
Camille, uma mulher e tanto

Embora rejeitada, em sua época, como artista, simplesmente porque era mulher e apaixonou-se por um homem casado, Camille Claudel, deixou sua marca e sensibilidade em muitas obras eternas, inclusive em sua colaboração com o mestre Auguste Rodin. A Porta do Inferno, citada no post de  Flávio Calazans, recebeu um pouco de seu talento, sempre voltado para o rude escultor francês, assim como os Burgueses de Calais, que ainda passeiam, qual taciturnos fantasmas de bronze, pelo jardim do velho Hôtel Biron.
De certa maneira, Camille Claudel (ou Modemoiselle C., como a chamava, discretamente, seu amante Rodin) foi mais intensamente artista que seu mestre. Muitas de suas obras foram destruídas por ela mesma, no auge dos delírios paranóicos.  O que se pode ver, no Museu Rodin, são apenas 15 obras tardiamente reunidas por Rodin e colocadas, por sua orientação, em uma sala especial. Mas são inigualáveis.

Irmã de Paul Claudel – intelectual extremamente religioso, convertido ao catolicismo, mas que pouco ou nada fez para evitar sua internação em um manicômio por trinta anos, até sua morte – Camille foi, além de artista, uma mulher que não se curvou aos preconceitos da época.

O cinema fez sua homenagem a ela, em 1988, com um filme de Bruno Nuytten. Se Calazans não o viu ainda, com certeza também soluçará ao assisti-lo. Gérard Depardieu interpreta o escultor e a bela Isabelle Adjani se transforma maravilhosamente em Camille, além de co-produzir a obra. Um poema cinematográfico, que narra a vida, paixão e morte lenta dessa mulher extraordinária. Um dos mais belos filmes que já vi.

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