Arquivos Diários: 23 novembro, 2008

ASCHENBACH por hamilton alves

Um dos maiores personagens da literatura universal, Gustav Aschenbach, que, numa tarde de primavera do ano de 19…, sai de sua residência, na rua do Príncipe Regente, em Munique (conta o início de “Morte em Veneza”), para um passeio solitário, vive a tragédia de sua vida, paixão e morte numa viagem que empreende a Veneza para repousar de sua tenaz lida de escritor.

Num exemplar dessa novela, que ganhei de um amigo num natal de 1984, – já a tinha lido de outro exemplar que trago comigo de muito tempo – contam-se exatamente 109 páginas, numa edição da “Nova Fronteira”.

Paulo Francis disse, em seu livro de pequenos registros, “O dicionário da Corte”, compilado e organizado por Daniel Piza, que essa pequena mas grandiosa obra, que Visconti levou ao cinema não de forma tão bem sucedida (Aschenbach vira músico em vez de escritor), é a melhor dentre todas produzidas por Thomas Mann.

Li “A montanha Mágica”, “Doutor Fausto” em parte, “Tonio Kroger” e um volume de contos do grande escritor e ainda li “O impostor Felix Krull”, parcialmente também. De todos achei que essa novela ocupa, na obra de Mann, um lugar de destaque, não apenas pelo trabalho literário em si, mas pelo tratamento dado a esse grande personagem, Gustav Aschenbach, que, buscando a paz e o descanso na exuberante cidade italiana, acaba, bem ao contrário, se envolvendo com o inferno de uma paixão avassaladora por um adolescente de beleza rara, Tádzio, que, em vários momentos, até a exaustão, persegue por toda a cidade ou fica fascinado quando de seu aparecimento no salão do hotel, junto com outros membros de uma família polonesa, guiados por uma governanta, de muita distinção.

O episódio de sua fuga de Veneza mal sucedida, quando há o providencial extravio de sua mala, fazendo com que retorne pelo mesmo vapor ao Lido, lhe causa um grande alvoroço de ânimo por só constatar que ali voltaria a se encontrar com o objeto dessa paixão.

A deflagração da peste em Veneza é outro fato que o traz apreensivo em função não de si mesmo mas do jovem belo, Tádzio, por cuja vida começa a se preocupar.

A sua exaltação quando percebe, em certa tarde, que Tádzio tem consciência ou corresponde a essa desmedida paixão, entreolhando-se no cruzamento do hotel, é outro destaque de sua existência tormentosa nessa passagem por Veneza.

E, finalmente, sua morte na praia, sentado numa cadeira, lendo os jornais do dia, acometido do mal oriundo de manifestações da epidemia que se alastra claramente, revelando-se, sobretudo, em medidas preventivas de autoridades sanitárias.

Havia comido, adquiridos numa quitanda, os morangos fatídicos, nos quais se alojara o vírus da doença.

Mas antes que isso ocorresse, deparara-se com Tádzio, cuja silhueta se perdia aos seus olhos, no mar, numa grande distância.

Que paixão é essa, de origem homossexual, perguntam-se os críticos?

Há quem entenda que Aschenbach via em Tádzio a expressão máxima do belo, que jamais conseguiria traduzir na obra de arte. Seria ele, assim, um símbolo da beleza inexprimível. Seja como for, não se deslustra nem se compromete essa novela extraordinária, em que Thomas Mann alcançou uma grandeza literária poucas vezes conseguida.

“Morte em Veneza”, bem ao contrário do título, exulta de vida nessas poucas cem páginas.

SE NÃO ME ARMAR, ME PASSAM FOGO por alceu sperança

Por uma opção de cidadania, ando sempre armado. Esclareço ser para uso exclusivo de defesa. É absolutamente necessário, pois nossa comunidade precisa resistir ao ataque dos bandidos que pretendem invadir nosso território. Comprei armas, não vou negar. São ainda escassas para nossa defesa, mas, considerando as premências de dívidas pendentes, conta da farmácia e do supermercado, temos gasto um bocado em armas e munição.

Sim, porque aquele soldado PM com o revólver na cartucheira, o soldado do Exército a vigiar o Palácio do Planalto, o guarda municipal ao qual algum prefeito irresponsável deu o direito de portar uma arma estão ostentando armas que nossa comunidade comprou. Todas as armas militares, das polícias e das guardas, são nossas, pois pagamos a conta. Estão legal e constitucionalmente postas a serviço de nossa segurança e de nossas famílias de compulsivos/compulsórios pagadores de impostos. Na medida em que essas armas, todas minhas, para minha segurança, já foram pagas por mim, por que haveria de comprar mais uma arma para me defender/atacar?

Certa vez John Lennon viu em outdoor uma odiosa propaganda de revólver mostrando uma freira acariciando o instrumento de morte, anunciado como “uma arma quente”. Logo depois ele compunha uma de suas mais instigantes canções: “Happiness is a warm gun” (“Felicidade é uma arma quente”): “Quando tomo você em meus braços e sinto meu dedo em seu gatilho, eu sei que ninguém pode me fazer mal, porque a felicidade é uma arma quente”. A felicidade, de fato, deveria ser a grande arma que deveríamos empunhar. Não um símbolo de morte, mas de vida plena e produtiva. Entretanto, por ocasião do referendo sobre a venda de armas, bateram à nossa porta dois bandos de chatos querendo nos puxar para seu vão debate: proibir a venda de armas, Sim ou Não?

Incapazes de formular uma legislação adequada para o uso de armamentos, os do Sim acreditam ingenuamente que proibir armas, drogas ou o nazismo vai impedir energúmenos de atirar contra seus semelhantes, vender porcarias que realimentam a dependência química ou usar bastões de beisebol para espancar pobres e mulatos. Os outros, os do Não, deixam de agir para que o Estado cumpra seus deveres, preferindo se armar para resistir aos “bandidos”, julgando bestamente que podem ser mais competentes nesse particular que nosso Exército e polícias.

Os do Sim apostam na “paz” da proibição, os do Não pregam o “arme-se a si mesmo”, a locupletação armada. Um tolo debate, nenhuma nau levando a bom porto. O que deveria ir a referendo, plebiscito ou coisa que o valha é se queremos felicidade, que seria a plena satisfação dos direitos humanos, ou o neoliberalismo, que mantém e amplia a miséria em todos os lugares – todos, pois já vimos, pelas aragens didáticas de Miss Katrina, que os EUA, com armas compradas livremente na loja da esquina, não é a nação feliz e democrática que se acreditava ser. Ali todo mundo compra e tem arma, e no entanto ninguém se sente seguro e protegido.

Meu voto seria Não ao neoliberalismo, pois não quero que o nosso Estado fique desarmado diante dos ataques de rapina promovidos contra ele pelos ricos liberais e “social-democratas” deste País e do exterior. Mas meu voto principal é Sim aos direitos humanos: recuso-me a gastar mais dinheiro na compra de uma arma extra de uso pessoal, embora pretenda comprar muito mais armas para meu Exército e para minhas polícias defenderem minha comunidade.

Felicidade é uma arma quente. Ela – e não trabucos ou metrancas – é que deveria ser objeto de plebiscito ou referendo.

Alceu A. Sperança

Escritor


Rumorejando (Quem sofre de hipertensão ou pressão alta deverá evitar de abastecer gasolina proveniente do pré-sal, perguntando?) por jose zokner (juca)

FÁBULA CONFABULADA (INDIGNA DO GURU MILLÔR).

Numa determinada província chinesa vivia uma família, constituída pelo pai Pas Khu Nyak, a mãe, Yach Neh e o filho Shly Mah Zel. O casal vivia se digladiando porque ambos se achavam o dono da verdade, mais sabidos que o dicionário, doutores sabe-tudo e coisas desse jaez. O patriarca, repetindo o que havia lido na Internet, dizia: “Vou vender a Enciclopédia Britânica, o Dicionário, o Livro de Mao, já que minha mulher conhece e sabe tudo. Inclusive, o que se passa na casa dos parentes e vizinhos. Por sua vez, a mulher fazia troça do marido, dizendo que ele era o professor do professor de D’us. O filho assistia a tudo isso e ficava agastado porque ele se dava conta da sucessão de erros e grosserias que os pais cometiam e que eles, naturalmente, achavam que não. Alguns pouquíssimos exemplos do que os dois cometiam:

-Tocavam o equipamento de som a todo volume;

-Assistiam à televisão também aos domingos;

-Não sabiam jogar truco e tinham raiva de quem sabia;

-Elogiavam o governo;

-Sentavam à mesa sem lavar as mãos;

-Não tinham escova de dentes;

-Compravam, desmesuradamente, no cartão de crédito e a prestação, sem levar em conta os juros das financeiras;

-Faziam visitas sem avisar aos visitados que iriam chegar;

-Levavam álbum de 380 fotografias para mostrar aos visitados da última viagem turística que haviam feito;

-Contavam piadas, uma após a outra, durante horas seguidas;

-Bocejavam ruidosamente e/ou sem tapar a boca com a mão;

Shly Mah Zel, ao contrário dos seus pais, tinha um comportamento ilibado. Além disso, era, sem alarde, um excelente aluno, o que na China não é novidade, porquanto é um povo que também se destaca nos estudos e nas pesquisas, mas isso é outra história que, agora, absolutamente, não vem ao caso.

Shly Mah Zel tinha uma namorada e queria convidá-la para vir a sua casa, a fim de conhecer seus pais e vice-versa. No entanto, protelava com medo que eles iniciassem as intermináveis discussões inócuas, como era de seu malfadado costume. Além, é claro, do mau comportamento do casal.

Um dia, quando não havia mais jeito de protelar o convite, diante da insistência de seus pais, lá foi Shly Mah Zel, mais nervoso do que noiva de antigamente em noite de núpcias, com a sua namorada, cujo nome era Tze Bul Keh, para um jantar em sua casa. A mãe procurou, na sua – dela – ótica, se esmerar não aceitando sugestões já que a ela “ninguém precisava ensinar o que quer que fosse”.

Primeiro foi servido um prato de carne; depois a mãe serviu um prato de peixe. Para o prato de carne foi servido um vinho branco e para o peixe um vinho tinto doce. Todos, em copos de plástico, tirados da cristaleira onde estavam colocados os copos de cristal que Shly Mah Zel não entendeu porque não foram usados. A salada já veio temperada, ao invés de que cada um pudesse temperar a seu gosto, com vinagre, o que foi terrível, pois Tze Bul Keh tinha alergia a tal condimento.

Após um ruidoso arroto de Pas Khu Nyak, foi servida a sobremesa que se constituía de uma salada de frutas onde nadavam pedaços de cebola e as colherinhas de plástico tinham gosto de alho.

É claro que o jantar não terminou sem que o casal não iniciasse uma discussão acerba e azeda que culminou com os dois se retirando do ambiente e voltando para continuar a polêmica em altos brados o que deixou o filho assaz nervoso.

Passou-se algum tempo e os jovens casaram e, evidentemente, Shly Mah Zel e Tze Bul Keh se comportavam totalmente ao revés dos pais do jovem. Pelo que consta, bastante felizes e não se sabe se para sempre porque, como diz o poeta e escritor uruguaio Mário Benedetti, numa de suas antológicas poesias, “Hay tanto siempre que no llega nunca”, mas isso já é uma outra história.

Moral I: Na casa que não falta pão alguns gritam e acham que têm razão.

Moral II: Pelos erros dos outros, o homem sensato corrige os seus. (Oswaldo Cruz).

Moral III: Quem não sai aos seus, degenera (no bom sentido).