SE NÃO ME ARMAR, ME PASSAM FOGO por alceu sperança

Por uma opção de cidadania, ando sempre armado. Esclareço ser para uso exclusivo de defesa. É absolutamente necessário, pois nossa comunidade precisa resistir ao ataque dos bandidos que pretendem invadir nosso território. Comprei armas, não vou negar. São ainda escassas para nossa defesa, mas, considerando as premências de dívidas pendentes, conta da farmácia e do supermercado, temos gasto um bocado em armas e munição.

Sim, porque aquele soldado PM com o revólver na cartucheira, o soldado do Exército a vigiar o Palácio do Planalto, o guarda municipal ao qual algum prefeito irresponsável deu o direito de portar uma arma estão ostentando armas que nossa comunidade comprou. Todas as armas militares, das polícias e das guardas, são nossas, pois pagamos a conta. Estão legal e constitucionalmente postas a serviço de nossa segurança e de nossas famílias de compulsivos/compulsórios pagadores de impostos. Na medida em que essas armas, todas minhas, para minha segurança, já foram pagas por mim, por que haveria de comprar mais uma arma para me defender/atacar?

Certa vez John Lennon viu em outdoor uma odiosa propaganda de revólver mostrando uma freira acariciando o instrumento de morte, anunciado como “uma arma quente”. Logo depois ele compunha uma de suas mais instigantes canções: “Happiness is a warm gun” (“Felicidade é uma arma quente”): “Quando tomo você em meus braços e sinto meu dedo em seu gatilho, eu sei que ninguém pode me fazer mal, porque a felicidade é uma arma quente”. A felicidade, de fato, deveria ser a grande arma que deveríamos empunhar. Não um símbolo de morte, mas de vida plena e produtiva. Entretanto, por ocasião do referendo sobre a venda de armas, bateram à nossa porta dois bandos de chatos querendo nos puxar para seu vão debate: proibir a venda de armas, Sim ou Não?

Incapazes de formular uma legislação adequada para o uso de armamentos, os do Sim acreditam ingenuamente que proibir armas, drogas ou o nazismo vai impedir energúmenos de atirar contra seus semelhantes, vender porcarias que realimentam a dependência química ou usar bastões de beisebol para espancar pobres e mulatos. Os outros, os do Não, deixam de agir para que o Estado cumpra seus deveres, preferindo se armar para resistir aos “bandidos”, julgando bestamente que podem ser mais competentes nesse particular que nosso Exército e polícias.

Os do Sim apostam na “paz” da proibição, os do Não pregam o “arme-se a si mesmo”, a locupletação armada. Um tolo debate, nenhuma nau levando a bom porto. O que deveria ir a referendo, plebiscito ou coisa que o valha é se queremos felicidade, que seria a plena satisfação dos direitos humanos, ou o neoliberalismo, que mantém e amplia a miséria em todos os lugares – todos, pois já vimos, pelas aragens didáticas de Miss Katrina, que os EUA, com armas compradas livremente na loja da esquina, não é a nação feliz e democrática que se acreditava ser. Ali todo mundo compra e tem arma, e no entanto ninguém se sente seguro e protegido.

Meu voto seria Não ao neoliberalismo, pois não quero que o nosso Estado fique desarmado diante dos ataques de rapina promovidos contra ele pelos ricos liberais e “social-democratas” deste País e do exterior. Mas meu voto principal é Sim aos direitos humanos: recuso-me a gastar mais dinheiro na compra de uma arma extra de uso pessoal, embora pretenda comprar muito mais armas para meu Exército e para minhas polícias defenderem minha comunidade.

Felicidade é uma arma quente. Ela – e não trabucos ou metrancas – é que deveria ser objeto de plebiscito ou referendo.

Alceu A. Sperança

Escritor


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