Arquivos Diários: 26 novembro, 2008

ENTRE GÊMEOS DESIGUAIS por sérgio medeiros

No dia 28 de novembro, o antropólogo Claude Lévi-Strauss completará 100 anos. Nascido em Bruxelas, de uma família de judeus alsacianos, Lévi-Strauss vive hoje em Paris, onde comemorará seu centenário, pois fez da França sua pátria. Autor de livros fundamentais, como Tristes Trópicos Mitológicas (quatro volumes), Lévi-Strauss é considerado o maior antropólogo vivo e um dos grandes intérpretes da cultura ameríndia, tendo vivido no Brasil, onde estudou a  cultura urbana e indígena do País, a partir de 1935. Para homenagear o célebre etnólogo decidi reler sua obra, ou, pelo menos, um de seus textos fundamentais, que resume suas grandes teses.

       Publicado na França em 1991, o livro Histoire de Lynx (História de Lince), do antropólogo Claude Lévi-Strauss, atrai inicialmente o leitor pelas páginas bem-humoradas, destacando-se o prefácio, onde o autor afirma que seus estudos sobre mitologia indígena se situam entre os contos de fadas e os romances policiais, gêneros considerados fáceis de ler. Por isso ele se surpreende quando reclamam da complexidade de suas análises, embora admita que os quatro volumes que compõem as Mitológicas, publicados entre 1964 e 1971, possam ser difíceis. O fato é que Lévi-Strauss inventou, como os críticos reconhecem, uma nova linguagem para resumir e comparar mitos, um estilo inconfundível que começou a ser forjado nos anos 1950 e cuja verve e frescor perduram na História de Lince, um livro que retoma os anteriores, porém apostando na concisão e na simplicidade da exposição. Pode-se dizer que, nesse livro, Lévi-Strauss reviu toda sua obra e fez uma defesa contundente do método que sempre empregou para analisar os mitos. Clifford Geertz chega a dizer, num estudo sobre a originalidade do discurso antropológico, que “Lévi-Strauss não quer que o leitor olhe através de seu texto: quer que olhe para o texto”, situando-o numa linhagem literária que incluiria nomes como Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud e em especial Proust. Quem freqüentar as páginas dessa obra-prima que é Tristes Trópicos, publicada em 1955, não ignorará sua assombrosa dimensão literária, digna de Mallarmé, caso esse poeta simbolista tivesse vivido na América do Sul, como já se afirmou.    

       Quando a Europa programava as comemorações dos 500 anos da descoberta da América, Lévi-Strauss lançou História de Lince e lembrou, em suas páginas, que houve invasão e destruição, não descoberta. O prefácio bem-humorado termina lamentando a destruição dos povos indígenas e de seus valores e anuncia um dos temas desse livro fascinante: o branco e o índio não seriam irmãos gêmeos? É possível sustentar essa hipótese?

       A “descoberta” do Novo Mundo não teria agitado muito a consciência européia. Ao espanto inicial, nada espetacular, sobreveio certa indiferença, quando a cegueira voluntária do Velho Mundo se sobrepôs à evidência de que a sua “humanidade plena” não representava o gênero humano, mas uma parte dele. Para o século XVI, a descoberta da América teria confirmado, muito mais do que revelado, a diversidade dos costumes, como se nada de absolutamente novo tivesse sido trazido à luz. Outra teria sido, contudo, a reação dos índios quando se depararam pela primeira vez com os europeus recém-chegados ao seu território. Essas duas atitudes opostas são discutidas pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss em História de Lince, onde ele se debruça sobre o papel que os brancos exerceram no imaginário indígena, antes mesmo do efetivo desembarque dos europeus no Novo Mundo.     

       Para falar do nascimento dos gêmeos mitológicos, Lévi-Strauss resume as relações sexuais possíveis entre humanos e não-humanos, numa época em que as fronteiras ontológicas eram porosas e pululavam contatos inusitados no território ameríndio. Nesse sentido, além de conto de fadas e de romance policial, a análise estrutural pode incluir também a narrativa erótica, sempre atribulada e exuberante: certa jovem, por exemplo, que recusou todos os pretendentes, acabou levando uma vida solitária e se resignou finalmente a desposar uma raiz, com a qual teve um filho, que cresceu ao seu lado. À medida que, nesse livro, os diferentes mitos vão sendo apresentados, o leitor se depara com vegetais e animais sedutores e, sobretudo, já nas páginas iniciais, com o lince, um velho pouco atraente que se une a uma moça virgem. O casal vive feliz porque o lince é, na verdade, um rapaz belo e forte. Quem imagina que o príncipe encantado é tema exclusivo da literatura do Velho Mundo será surpreendido, na História de Lince, por uma galeria de heróis bem-apessoados, embora, inicialmente, todos se caracterizem pela má aparência e a idade avançada. Contudo, há sempre uma pele jovem sob a pele encarquilhada, e o feio oculta o belo. Das uniões sexuais entre esses heróis ambíguos (seres sobrenaturais) e moças cobiçadas pelos homens nascem os gêmeos ameríndios.

       Na América do Sul, à época da “descoberta”, os povos indígenas temiam em geral os gêmeos (estes podiam ser mortos ao vir ao mundo), embora eles também fossem venerados, como sucedia entre os incas. Os mitos ameríndios, contudo, parecem se comprazer em apresentar, em todos os rincões do Novo Mundo, nascimentos de gêmeos, filhos do mesmo pai ou de pais diferentes, seja porque a mãe se relacionou com dois homens ou com um homem e um animal. Segundo a tese de Lévi-Strauss, isso poderia ser explicado pelo fato de que o mundo e a sociedade estão estruturados sobre uma série de bipartições. As partes, porém, não são iguais, uma é sempre superior à outra. É o que acontece com os gêmeos míticos: eles são diferentes entre si, um agressivo, o outro pacífico; um forte, o outro fraco; um inteligente e hábil, o outro desajeitado e tonto etc. Tampouco os seios das mulheres são gêmeos idênticos, lembram os mitos: um é distinto do outro, pois o peito das índias é assimétrico.  

       Entre as mais importantes polaridades míticas, Lévi-Strauss destaca a bipartição em índios e brancos. Ele constata que os brancos, logo após sua chegada, foram facilmente incorporados à gênese ameríndia, como se o lugar deles nesse relato mítico já tivesse sido previsto antes da invasão do Novo Mundo. A criação dos índios, afirma Lévi-Strauss, tornava necessário que o demiurgo também criasse os não-índios. O deus civilizador Quetzalcoatl, por exemplo, anunciou que viriam pelo mar, de onde o sol nasce, seres semelhantes a ele mesmo, cuja aparência, conforme acreditavam os índios, era a de um homem grande, branco e de barba longa. Porém, o mesmo e o outro, idealmente gêmeos, sempre se revelaram desiguais nos mitos e na realidade. Esse desequilíbrio era ainda mais forte entre brancos e índios. Ou seja, os gêmeos não são de fato gêmeos, conclui Lévi-Strauss, tudo neles contradiz essa condição. O filho do Velho Mundo e o filho do Novo Mundo entraram inevitavelmente em conflito, o que os mitos já previam. O índios não puderam ficar indiferentes à chegada dos europeus, mas tampouco puderam reverter a seu favor a superioridade numérica. Há um pormenor inquietante nesse conto de horror e mistério, inserido em História de Lince: o incapacidade indígena de opor uma resistência eficaz ao europeu, mesmo quando 20.000 homens armados, por exemplo, se defrontaram, no Peru, com um número inexpressivo de espanhóis. Essa paralisia terá muitas explicações, inclusive a de que o intruso inicialmente foi visto, pelos incas e pelos astecas, e talvez por outros povos, como uma antiga divindade desaparecida, cujo retorno era esperado e anunciado.   

       É possível especular como seriam hoje as sociedades indígenas se o “reencontro”  entre os gêmeos tivesse ocorrido milhares de anos atrás. Depois de percorrer os Ensaios de Montaigne, um europeu imune à “cegueira voluntária” que acometeu os homens do século XVI, Lévi-Strauss lembra, numa nota de rodapé, que o filósofo lamentou que a conquista do Novo Mundo não tivesse se dado no tempo da Grécia ou de Roma, quando as armas respectivas seriam comparáveis e o contato não teria redundado no extermínio dos mais fracos. Esse belo mito, sonhado por Montaigne e recuperado por Lévi-Strauss, não foi ainda narrado por ninguém. Os gêmeos continuam desiguais, sobretudo nesta parte do mundo, como o demonstra a História de Lince.

 

 

 

 

 

 

Sérgio Medeiros traduziu o poema maia Popol Vuh (Iluminuras, 2007), com a colaboração do americanista Gordon Brotherston, e publicou, entre outros, três livros de poesia. Ensina literatura na UFSC. Participará de uma homenagem a Claude Lévi-Strauss no Centro Cultural Arquipélago de Florianópolis, no dia 22 de novembro, às 19 horas, quando lerá seu poema longo “O retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”.

 

CONTEÚDO DAS GRANDES OSTRAS poema de jairo pereira

CONTEÚDO DAS GRANDES

OSTRAS

 

 

dentro das grandes ostras

signos como pérolas embalados

em cálcio e sais

um signo dois signos três signos

não podem matar a vida

nas paredes das grandes ostras

imagens abertas em azuis

reflexos brancos nos cristais

nas mínimas superfícies lisas

seixos minúsculos sobrepostos

algas em fileiras como ciprestes

no núcleo das grandes ostras

gema e sal a mar aberto gema e significado

gema e significante gema e semas

semantemas crispados de sóis submersos.

 

 

O BRASIL DANTESCO por walmor marcellino

 

De vez em quando se fica inteligente; e então nos sacudimos num Deus acuda! O Brasil era um projeto-elite e naturalmente corrupto na medula patrimonialista. Cresceu e se tornou mais… oligarquicamente corrupto; fascistizou-se com a escória burocrático-militar e se tornou monopolisticamente corrupto; democratizou-se capitalisticamente e se manteve estamentariamente corrupto em todas as suas instituições; neoliberalizou-se e social-democratizou-se grandiosamente podre; petetizou-se e se tornou horizontalmente corrupto com a participação de uma nova classe aderindo luminosamente.

Não preciso dizer como estamos; todos sabem, porém costumam justificar suas preferências. E, ao enfatizarem sua ideologia como falsa representação da sociedade em que vivemos, preciso contradizê-los assumindo-me “reacionário” porque averso às habitudes de sujeição política. Para nossa fortuna, a sociedade do espetáculo vez por outra põe a nu a sociedade anônima que manobra a sociedade política.

Nunca se prestara atenção devida em Eugênio Gudin, Otávio Bulhões, Roberto Campos, Delfim Neto, Mário-Henrique Simonsen, Pérsio Arida, Paulo Malan, até que Antônio Palocci, Guido Mântega ofereceram seus préstimos à reorganização burocrática e moral dos negócios de caixa pública… Onde mais do que na chave do Erário está a idéia de cofre, isto é, de que política econômico-financeira estaremos cá a trataire?

Fortuna deles no poder de classe, fortuna nossa no entendimento dos fatos e das coisas que se passam: Paulo Malluf-Pitta, Teresa Grossi-Salvatore Cacciolla, Fernandão-Malan-Dantas-Barros-Lalau, José Dirceu-Marcos Valério, Renan Calheiros e… por aí vai nas “crises” e “episódios políticos”, porém em cada um deles há uma instituição pública, duas ou mais entrelaçadas. O rebote dos escâncaros se dá no sistema político de governo e nos titulares que os encarnam. Por isso, desde a canalha fascista-militarizada à redemocratização, desde José Sarney, Fernando Collor-Itamar Franco e Fernando-Henrique até os padrões Luiz Inácio Palocci Mirelles  Dirceu, as políticas e seus abusos nos vêm assustando; agora em ressalte porque “o PT fora nossa salvaguarda da República”.

Se alguém propõe homenagem a Darly porque se acabou a mitologia Chico Mendes; ao coronel Pantoja porque disciplinou os posseiros; ao fazendeiro Rayfran das Neves Sales porque extinguiu as denúncias exóticas de Doroty Stang; a Fernandinho Beira-Mar porque revelou o escabriado Sérgio Cabral; ao Ministério Público (RS) da Yeda Crucius porque expurgando o MST acaba com a reforma agrária, se estariamos “tão-só” a cuidar-se de pormenores. Afinal Daniel Dantas, Gilmar Mendes, Tasso Gereissati-Agripino Maia-Azeredo-e Luiz Inácio Genro-Jobim estão agora na berlinda. A República não são só “instituições”; são todos esses representativos de ultrafinanças, com as oportunidades do Banco Opportunity e com o Superávit Primário.

O sociólogo Francisco de Oliveira caracterizou magistralmente esse lance na área do jogo: a corrupção brasileira é entrosada, institucional porque estrutural; à direita e à esquerda. Saudações petistas.

Curitiba, 11/8/2008

VOLTAGENS poema de ewaldo schleder

 

 

 

o rastro aparente

do remoto passado

desfaz o caminho

quando volta

e traz nas mãos

um outro destino

 

no apagar das águas

faíscas elétricas 

 pedras nas pedras

alumbram o limbo

do tempo concreto

abissal e breve

 

no fusco das horas

corações se batem

a vida anoitece

eternidade a um passo

assimétrica geometria

 na sombra leve da tarde