Arquivos Diários: 14 março, 2009

VÉSPERA poema de manoel de andrade

 

 

 

Quatorze de março

mil novecentos e sessenta e nove.

É preciso…

é imprescindível denunciar o compasso ameaçador destas horas,

descrever esta porta estreita que atravesso,

esta noite que me escorre numa ampulheta de pressentimentos.

 

Um desespero impessoal e sinistro paira sobre as horas…

O ano se curva sob um tempo que me esmaga

porque esmaga a pátria inteira…

 

Nossas canções silenciadas

nossos sonhos escondidos

nossas vidas patrulhadas

nossos punhos algemados

nossas almas devassadas.

 

Pelos ecos rastreados dos meus versos

chegam os  pretorianos  do regime.

Alguém já foi detido, interrogado,  ameaçado

e por isso é necessário antecipar a madrugada.

 

E eis porque esse canto já nasce amordaçado

porque surge no limiar do pânico.

Meu testemunho é hoje  um grito clandestino

meus versos não conhecem a luz da liberdade

nascem  iluminados pelo archote da esperança

para se esconderem na silenciosa penumbra das gavetas.

 

Escrevo numa página velada pelo tempo

e num distante amanhecer

é que o meu canto irá florescer.

                                                              

Escrevo num horizonte longínquo e libertário

e num tempo a ser anunciado pelo hino dos sobreviventes.

Escrevo para um dia em que os crimes destes anos puderem ser contados

para o dia em que o banco dos réus estiver ocupado pelos torturadores

 

Contudo, nesta hora, neste agora

o tempo se reparte pra quem parte

e um coração se parte nos corações que ficam…

O amanhecer caminha para desterrar os nossos gestos 

para separar  nossas  mãos  e  nossos olhos

e nesta eternidade para pressentir o que me espera

já não há mais tempo para dizer quanto quisera.

 

Tudo é uma amarga despedida nesta longa madrugada

e neste descompassado palpitar,

contemplo meus livros perfilados de tristeza

retratos silenciosos de tantas utopias,

bússolas, faróis, retalhos da beleza.

Aceno a Cervantes, a Lorca, a Maiakovski

mas só Whitman seguirá comigo

nas suas páginas de relva

e no seu canto democrático.

Contemplo ainda os pedaços do meu mundo

nos amigos do penúltimo momento

nas lágrimas de um benquerer

na infância de minha filha

e nesse beijo de adeus em sua inocência adormecida.

 

Nesta agonia…

neste abismo de incertezas…

abre-se o itinerário clandestino dos meus passos.

De todos os caminhos

resta-me uma rota de fuga, outras fronteiras e um destino.

Das trincheiras escavadas e dos meus sonhos,

restou uma bandeira escondida no sacrário da alma

e no coração…

um passaporte  chamado  liberdade.

 

                                           Curitiba, 14 de março de 1969

 

 

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O FATO e o ATO

 

O poema deixou gravada a ansiedade do autor na madrugada de sua fuga do Brasil, em 14 de março de 1969. É o testemunho angustiante de momentos marcados por pressentimentos e pânico. Fala da pátria esmagada pela repressão e pelo intenso patrulhamento político-ideológico que se instalou no país com o Ato Institucional nº. 5, imposto pela ditadura militar em dezembro de 1968. Fala de prisões e interrogatórios e de almas devassadas pela tortura.  Fala de suas canções amordaçadas e, contudo, canta profeticamente para um distante amanhecer em que sua poesia  irá florescer e por isso escreve para um dia em que tantos crimes poderiam ser contados, para  um tempo  anunciado  pelo hino dos sobreviventes. O poema é um doloroso gesto  de despedida  e, ao mesmo tempo,  iluminado pelo brilho da esperança. Dor e esperança ampliadas pela visão e memória dos seus livros perfilados na tristeza, dos amigos dos últimos momentos, nas lágrimas de um benquerer e no beijo de adeus em sua filhinha adormecida. O poeta antecipa poeticamente a madrugada e sai pela porta estreita da incerteza em busca de uma rota de fuga. Leva intactos seus sonhos, uma bandeira escondida na alma e no coração o passaporte da liberdade. Manoel de Andrade deixou o Brasil, alertado da sua prisão iminente pelo conteúdo do seu poema “Saudação a Che Guevara”, escrito em outubro de 1968, e panfletado em universidades e  sindicatos de Curitiba. O poeta deixava o país exatamente numa época em que sua poesia começava a ser conhecida nacionalmente, divulgada em grandes jornais e publicações como a Revista Civilização Brasileira. O poema Véspera consta de seu livro Poemas para a Liberdade, com quatro edições no exterior, em fase final de editoração pela Escrituras, e a ser lançado, em edição bilíngüe,  no próximo 15 de abril no  Espaço Cultural Alberto Massuda, em Curitiba.