Arquivos Diários: 15 março, 2009

PORQUE NÃO CRONICO crônica de hamilton alves

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      Um amigo me encontrou há dias por acaso numa das ruas do centro da cidade. Acostumado de velha data a ver meu nome encabeçando uma crônica nos jornais me perguntou de saída:

                                      – Não tens escrito mais?

                                      – Escrever sempre escrevo; não posso passar sem isso.

                                      – E por que não publicas o que escreves?

                                      – Estou provisoriamente sem jornal.

                                      Aí se referiu a um punhado de cronistas conhecidos, que sempre integraram a galeria dos grandes nomes, que formam em inúmeras antologias,  que, hoje, ainda, são lembrados com saudades.

                                      – Volta a escrever, volta a escrever! – repetiu de certo modo enfático.

                                      Há leitores que de algum modo apreciam minhas ladainhas.

                                      Esse é um deles ou um dos raros freqüentadores de crônicas escritas por mim.

                                      Na verdade, não é que não tenha (ou me falte) jornal. O caso é diferente.  Ao último que me convocou para cronicar impus condições (que não vou dizer quais foram). A editora, velha amiga, não as aceitou, alegando que o jornal não as acolhia por causa de sua linha programática. Tinha que dançar conforme a música estabelecida pelo editor-chefe. Aceitou uma, mas recusou outra. E, por fim, lhe disse:     

                                      – Então, de hoje em diante, não mando mais a crônica.

                                      E assim estamos acertados até hoje,

                                      Disse-me uma série de desaforos, um dos quais foi que eu estava bom mesmo é para voltar a morar nas cavernas, como os homens da pré-história.

                                      Tudo se resumia a uma pequena exigência, que não mudaria em nada a feição do jornal para o qual colaborara já com três ou quatro crônicas. Uma exigência não foi aceita, o dono do jornal sabe o que quer. E por isso achei por bem de pedir meu boné. Ele tem seus direitos, tenho os meus.

                                      Lá estão figurando alguns cronistas que evidentemente não leio nem sei quem são. Nem muito menos quero saber.

                                      Por último, escrevia crônica para um “blog” (volto a outro “blog”, do J. B. Vidal – palavreiros da hora) – que, como se diz, é o último refúgio de um cronista lançado às traças. Ou que a elas se lançou.

                                      Na hora atual é difícil pintar uma crônica dentro da linha clássica conhecida. Ou seja, elaborada com todo os temperos, condimentos ou dentro do melhor figurino, como sabiam fazer os cronistas da velha guarda (daqui e d,além mar).  Cito de passagem um desses, nosso velho cronista ilhéu, Barreiros Filho, um craque no gênero – para não mencionar outros de igual estirpe. Todos conhecem e sabem de quem falo.

                                      Abrem-se os jornais e o que se vê? Ou o que se lê? Tanto em âmbito regional quanto nacional?

                                      O grande time sumiu de campo.

                                      Não há mais ninguém que cultive o belo dom de compor uma crônica no velho e inimitável estilo.

 

 

(março/09)

 

 

 

                                              

RUMOREJANDO (PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.) por josé zokner (juca)

 

Constatação I (Dúvida crucial).

Como é que o estudante que dá, nos calouros, um trote selvagem passou no vestibular já que ele é um perfeito ou imperfeito idiota? Quem souber a resposta, por favor, correio eletrônico para Rumorejando.

Constatação II (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Exemplo de cortina de fumaça

É o cara dissimular que tá no fogo

Por ter tomado muita cachaça?

Constatação III (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É muito desumano

Não importa quem

Entrar pelo cano?

Constatação IV (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É inócuo tentar

A burrice

Otimizar?

Constatação V

A cinquentona*

Na cama virava

Uma irrequieta criança.

Ficava brincalhona

E até se comportava

Com destemperança

*Sem trema, já com a nova ortografia.

Constatação VI (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor, meu caro, ir pro motel no carro da gata do que no carro de um taxista já que sai caro. Dependendo do caso a gata também pode acabar saindo mais caro do que muito carro…

Constatação VII (“Poesia” zoológica).

A caravana seguia

Pelo causticante deserto

No alto, como guia,

Um sol no céu aberto

Os homens e os camelos

Iam calados,

Estes com os pêlos

Que pareciam terciopelos;

Aqueles, ensimesmados.

Pareciam tristes

Mesmo se num oásis parassem

E contassem

Alguns chistes.

Apenas um camelo

Parecia

Ir com desvelo.

Ele sabia

Que a namorada,

Que ele chamava

De Dona Maria,

O esperava

E mergulhado

No seu pensamento

No seu amor devotado

E no compromisso

De um próximo casamento,

Já autorizado pelos pais,

Quase deu uma topada

E também por isso

Ele, ao contrário dos demais,

No coração uma melodia,

Ele sorria

O sorriso da alegria.

Constatação VIII

Não causou perplexidade

A inércia dos governantes

Por sua falta de vontade.

Todos, depois de eleitos,

Com aqueles defeitos

Inclusive pedantes.

Constatação IX (Dúvida crucial. Quem souber, por favor, cartas por correio eletrônico. Obrigado).

O radio ouvinte

E o telespectador

Ouvem propaganda,

Durante a programação

Às vezes vinte

Na maioria balela,

Anda que anda,

Tipo novela

Esta e, às vezes àquela,

Com sofrimento e dor

Até a exaustão.

Esse elo

De ligação

Será flagelo?

Constatação X (Ecos do carnaval que passou).

Resolutamente,

A viúva

Saiu disfarçadamente

E mesmo na chuva

Foi pular o carnaval

Fantasiada

De marsupial

Tão-somente.

Descoitada!

Constatação XI

E como elucubrava aquele sujeito amante do futebol e do carnaval, teorizando: “O carnaval, o futebol e a cerveja sempre ou quase sempre caminham juntos e, indubitavelmente, é uma trinca que faz sucesso. Pelo menos numa excelente combinação de dois a dois. Normalmente, a cerveja participa mais que a outra dupla. Afinal, não é em todo lugar que tem jogo no carnaval. Tenho brasileiramente dito!”

Constatação XII

O nado do alóptero*

Parecia um helicóptero

Ou invés

Do revés?

*Alóptero = que não possui as nadadeiras em posição fixa (diz-se de peixe) (Houaiss).

Constatação XIII

E como dizia aquele herege: “Quem peca vai para o inferno; quem não, vive num”.

Constatação XIV

E como dizia aquele policial: “Perseguir uma idéia é muito mais fácil do que perseguir um facínora”.

Constatação XV (De cenas domiciliares).

O cão,

Sonolento,

Rosnava

De modo insano,

Molestando,

Incomodando

O bichano,

Pachorrento,

Que ronronava

Sob o fogão.

Constatação XVI

Chorava a carpideira,

Derramando tantas lágrimas

Que até parecia uma torneira.

Constatação XVII

Um segredo, na memória, eu lacro,

Mas tem gente que usa de engodo.

De longe, dá pra ver que é simulacro.

Constatação XVIII

“É tão suave a noite”,

Dizia o masoquista,

“Quando ela brande o açoite”.

Constatação XIX

O brilhantismo,

A intensidade do orgasmo

Parecia um paroxismo?

Constatação XX

Sirigaita é o siri que toca acordeom?

Constatação XXI (Ah, esse nosso vernáculo).

Ela por ter soltado a franga no carnaval, cozinhou o galo pra cozinhar a galinha?

Constatação XXII (Dúvida crucial).

Não tem solução é uma frase que somente denota pessimismo ou ela pode ser otimista?

Constatação XXIII

Triângulo escaleno amoroso é quando João ama Maria que ama Pedro que, por sua vez tá de olho no João?

Constatação XXIV

E como concluía o septuagenário: “Broxar é um imoralismo trágico”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

STALINGRADO CORAÇÃO por bárbara lia

 

 

 

Stalingrado coração – sangue e amputações. Cercas de arame com soldados estirados e fuzis cravados ao lado como cruz-metade. Stalingrado coração, esqueletos de casas, nenhuma flor na paisagem, botas rangendo a neve vermelha, silvos, bombardeios, doces lágrimas de adeus. Stalingrado coração, nenhuma alegoria, nada na mesa, nenhum vinho para coroar a noite de amantes, não há amantes. Stalingrado coração repleto de lenços brancos de despedida, repleto de fardas enlameadas, repleto de ausências que ardem em olhos azuis de meninos russos, repletos de saudades lambendo a noite, que não cessa, nem quando o dia arde na neve, que vai ser vermelha, sempre vermelha. Mais uma batalha, mais uma batalha, mais uma batalha, mais um amor que chega para abalar os alicerces, demolir a casa, atirar fogo aos navios, amputar as pernas, tocar uma melodia de canhões, de fuzis engalanados com uma cor vermelha, suástica canina. Esta imortal sanha de nazi, solidão nazista que me segue. Stalingrado coração resiste, para que a solidão não destrua a barreira última e se instale. Solidão vencida, que alguém me conquiste, que este alguém me conquiste, decepe a sede, arranque os alarmes, remova todos os cadáveres, remova a neve devolva vida aos ossos congelados. Stalingrado coração metralhado, rubro, sangra e resiste, e resiste e se prepara, para mais uma batalha, mais uma batalha…