PORQUE NÃO CRONICO crônica de hamilton alves

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      Um amigo me encontrou há dias por acaso numa das ruas do centro da cidade. Acostumado de velha data a ver meu nome encabeçando uma crônica nos jornais me perguntou de saída:

                                      – Não tens escrito mais?

                                      – Escrever sempre escrevo; não posso passar sem isso.

                                      – E por que não publicas o que escreves?

                                      – Estou provisoriamente sem jornal.

                                      Aí se referiu a um punhado de cronistas conhecidos, que sempre integraram a galeria dos grandes nomes, que formam em inúmeras antologias,  que, hoje, ainda, são lembrados com saudades.

                                      – Volta a escrever, volta a escrever! – repetiu de certo modo enfático.

                                      Há leitores que de algum modo apreciam minhas ladainhas.

                                      Esse é um deles ou um dos raros freqüentadores de crônicas escritas por mim.

                                      Na verdade, não é que não tenha (ou me falte) jornal. O caso é diferente.  Ao último que me convocou para cronicar impus condições (que não vou dizer quais foram). A editora, velha amiga, não as aceitou, alegando que o jornal não as acolhia por causa de sua linha programática. Tinha que dançar conforme a música estabelecida pelo editor-chefe. Aceitou uma, mas recusou outra. E, por fim, lhe disse:     

                                      – Então, de hoje em diante, não mando mais a crônica.

                                      E assim estamos acertados até hoje,

                                      Disse-me uma série de desaforos, um dos quais foi que eu estava bom mesmo é para voltar a morar nas cavernas, como os homens da pré-história.

                                      Tudo se resumia a uma pequena exigência, que não mudaria em nada a feição do jornal para o qual colaborara já com três ou quatro crônicas. Uma exigência não foi aceita, o dono do jornal sabe o que quer. E por isso achei por bem de pedir meu boné. Ele tem seus direitos, tenho os meus.

                                      Lá estão figurando alguns cronistas que evidentemente não leio nem sei quem são. Nem muito menos quero saber.

                                      Por último, escrevia crônica para um “blog” (volto a outro “blog”, do J. B. Vidal – palavreiros da hora) – que, como se diz, é o último refúgio de um cronista lançado às traças. Ou que a elas se lançou.

                                      Na hora atual é difícil pintar uma crônica dentro da linha clássica conhecida. Ou seja, elaborada com todo os temperos, condimentos ou dentro do melhor figurino, como sabiam fazer os cronistas da velha guarda (daqui e d,além mar).  Cito de passagem um desses, nosso velho cronista ilhéu, Barreiros Filho, um craque no gênero – para não mencionar outros de igual estirpe. Todos conhecem e sabem de quem falo.

                                      Abrem-se os jornais e o que se vê? Ou o que se lê? Tanto em âmbito regional quanto nacional?

                                      O grande time sumiu de campo.

                                      Não há mais ninguém que cultive o belo dom de compor uma crônica no velho e inimitável estilo.

 

 

(março/09)

 

 

 

                                              

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