Arquivos Diários: 20 março, 2009

O RETRATO OVAL de edgar alan poe

O castelo em que o meu criado se tinha empenhado em entrar pela força, de preferência a deixar-me passar a noite ao relento, gravemente ferido como estava, era um desses edifícios com um misto de soturnidade e de grandeza que durante tanto tempo se ergueram nos Apeninos, não menos na realidade do que na imaginação da senhora Radcliffe. Tudo dava a entender que tinha sido abandonado recentemente. Instalámo-nos num dos compartimentos mais pequenos e menos sumptuosamente mobilados, situado num remoto torreão do edifício. A decoração era rica, porém estragada e vetusta.

Das paredes pendiam colgaduras e diversos e multiformes trofeus heráldicos, misturados com um desusado número de pinturas modernas, muito alegres, em molduras de ricos arabescos doirados. Por esses quadros que pendiam das paredes – não só nas suas superfícies principais como nos muitos recessos que a arquitectura bizarra tornara necessários –  por esses quadros, digo, senti despertar grande interesse, possivelmente por virtude do meu delírio incipiente; de modo que ordenei a Pedro que fechasse os maciços postigos do quarto, pois que já era noite; que acendesse os bicos de um alto candelabro que estava à cabeceira da minha cama e que corresse de par em par as cortinas franjadas de veludo preto que envolviam o leito. Quis que se fizesse tudo isto de modo a que me fosse possível, se não adormecesse, ter a alternativa de contemplar esses quadros e ler um pequeno volume que acháramos sobre a almofada e que os descrevia e criticava.

Por muito, muito tempo estive a ler, e solene e devotamente os contemplei.

Rápidas e magníficas, as horas voavam, e a meia-noite chegou. A posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com dificuldade para não perturbar o meu criado que dormia, coloquei-o de modo a que a luz incidisse mais em cheio sobre o livro.

Mas o movimento produziu um efeito completamente inesperado. A luz das numerosas velas (pois eram muitas) incidia agora num recanto do quarto que até então estivera mergulhado em profunda obscuridade por uma das colunas da cama. E assim foi que pude ver, vivamente

iluminado, um retrato que passava despercebido. Era o retrato de uma jovem que começava a ser mulher.

Olhei precipitadamente para a pintura e acto contínuo fechei os olhos. A

principio, eu próprio ignorava por que o fizera. Mas enquanto as minhas

pálpebras assim permaneceram fechadas, revi em espírito a razão por que as fechara. Foi um movimento impulsivo para ganhar tempo para pensar – para me certificar que a vista não me enganava -, para acalmar e dominar a minha fantasia e conseguir uma observação mais calma e objectiva. Em poucos momentos voltei a contemplar fixamente a pintura.

Que agora via certo, não podia nem queria duvidar, pois que a primeira

incidência da luz das velas sobre a tela parecera dissipar a sonolenta letargia que se apoderara dos meus sentidos, colocando-me de novo na vida desperta.

O retrato, disse-o já, era de uma jovem. Apenas se representavam a cabeça e os ombros, pintados à maneira daquilo que tecnicamente se designa por vinheta – muito no estilo das cabeças favoritas de Sully. Os braços, o peito, e inclusivamente as pontas dos cabelos radiosos, diluíam-se imperceptivelmente na vaga mas profunda sombra que constituía o fundo. A moldura era oval, ricamente doirada e filigranada em arabescos. Como obra de arte, nada podia ser mais admirável que o retrato em si. Mas não pode ter sido nem a execução da obra nem a beleza imortal do rosto o que tão subitamente e com tal veemência me comoveu. Tão-pouco é possível que a minha fantasia, sacudida

da sua meia sonolência, tenha tomado aquela cabeça pela de uma pessoa viva.

Compreendi imediatamente que as particularidades do desenho, do vinhetado e da moldura devem ter dissipado por completo uma tal ideia – devem ter evitado inclusivamente qualquer distracção momentânea. Meditando profundamente nestes pontos, permaneci, talvez uma hora, meio deitado, meio reclinado, de olhar fito no retrato. Por fim, satisfeito por ter encontrado o verdadeiro segredo do seu efeito, deitei-me de costas na cama. Tinha encontrado o feitiço do quadro na sua expressão de absoluta semelhança com a vida, a qual, a princípio, me espantou e finalmente me subverteu e intimidou. Com profundo e reverente temor, voltei a colocar o candelabro na sua posição anterior. Posta assim fora da vista a causa da minha profunda agitação, esquadrinhei ansiosamente o livro que tratava daqueles quadros e das suas respectivas histórias. Procurando o número que designava o retrato oval, pude ler as vagas e singulares palavras que se seguem:

Era uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre. E maldita foi a hora em que viu, amou e casou com o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, tendo já na Arte a sua esposa. Ela, uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre, toda luz e sorrisos, e vivaz como uma jovem corça; amando e acarinhando a todas as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; temendo apenas a paleta e os pincéis e outros enfadonhos instrumentos que a privavam da presença do seu amado. Era pois coisa terrível para aquela senhora ouvir o pintor falar do seu desejo de retratar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente e posou docilmente durante muitas semanas na sombria e alta câmara da torre, onde a luz apenas do alto incidia sobre a pálida tela. E o pintor apegou-se à sua obra que progredia hora após

hora, dia após dia. E era um homem apaixonado, veemente e caprichoso, que se perdia em divagações, de modo que não via que a luz que tão sinistramente se derramava naquela torre solitária emurchecia a saúde e o ânimo da sua esposa, que se consumia aos olhos de todos menos aos dele. E ela continuava a sorrir, sorria sempre, sem um queixume, porque via que o pintor (que gozava de grande nomeada) tirava do seu trabalho um fervoroso e ardente prazer e se empenhava dia e noite em pintá-la, a ela que tanto o amava e que dia a dia mais desalentada e mais fraca ia ficando.

E, verdade seja dita, aqueles que contemplaram o retrato falaram da sua

semelhança com palavras ardentes, como de um poderosa maravilha, – prova não só do talento do pintor como do seu profundo amor por aquela que tão maravilhosamente pintara. Mas por fim, à medida que o trabalho se aproximava da sua conclusão, ninguém mais foi autorizado na torre, porque o pintor enlouquecera com o ardor do seu trabalho e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para contemplar o rosto da esposa. E não via que as tintas que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que posava junto a ele. E quando haviam passado muitas semanas e pouco já restava por fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque nos olhos, o espírito da senhora vacilou como a chama de uma lanterna. Assente a pincelada e feito o retoque, por um momento o pintor ficou extasiado perante a obra que completara; mas de seguida, enquanto ainda a estava contemplando, começou a tremer e pôs-se muito pálido, e

apavorado, gritando em voz alta ‘Isto é na verdade a própria vida!’, voltou-se de repente para contemplar a sua amada: – estava morta.

LIVROS ELETRÔNICOS por marilda confortin (11/2008)

 

 

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Nos últimos dias, andei assistindo palestras e debates sobre “Literatura e as novas mídias”. Os escritores que ouvi, Miguel Sanches Neto, Ricardo Corona, Luci Colin, José Castelo, Daniel Pelizari e João Paulo Cuenca, se dividem entre resistentes, desconfiados e entusiastas das novas mídias.

Eu que tenho um pé na tecnologia e outro na literatura, não me preocupo muito com o tipo da mídia, desde que a palavra continue cantada e decantada em verso e prosa para todo o sempre, amém. Estou adorando essa era multimídia.

Os radicais, afirmam que o livro de papel nunca vai acabar. Engraçado… tenho a leve impressão de ter conhecido alguém assim, quando escrevíamos nas paredes das cavernas. E acho que já li uma afirmação parecida com essa num rolo de papiro na biblioteca de Alexandria. Será que esses escritores ainda usam máquina de escrever para datilografar seus livros? Nada contra. Tem gente que gosta de sofrer.

Os desconfiados, dizem que na internet só tem porcaria e que só usam como fonte de pesquisa. Estranho…usam a internet para pesquisar porcaria? Lêem o que os outros escrevem, mas não permitem que ninguém pesquise seus textos? É, tem gente que acha que o papel garante a qualidade do conteúdo.

Um deles, disse que tem uma relação de fetiche com o livro de papel e por isso não acredita na evolução do livro eletrônico. Eu também pensava assim até que um dia fiz um pequeno teste: Coloquei sobre a mesa o livro “O senhor dos anéis” em papel e a lado dele, um desses aparelhinhos para leitura de livros eletrônicos com o mesmo livro carregado. Pedi para meus filhos escolherem. Deu a maior briga. Ambos queriam o ebook. Lembrei das inúmeras pessoas que procuram as bibliotecas públicas ou empresas que reciclam papel para doar bibliotecas inteiras de seus recém falecidos pais… ai meus queridos livros… nosso fim está próximo.

O livro impresso em papel tem menos de 500 anos. Não vai demorar mais que 30 pra mudar de recipiente outra vez. O mercado editorial está se mexendo, assim como aconteceu com o mercado da música, dos vídeos, da telefonia. E quem não se mexer, está com dias contados. As editoras e distribuidoras que não se espertarem vão falir, mas, os escritores e leitores sairão ganhando porque a tendência é que o acesso aos livros eletrônicos e bibliotecas digitais seja completamente patrocinado por grandes instituições, como já está acontecendo com blogs e sites culturais.

Empresas como Yahoo, Microsoft, Google, eBoockCult, Sony, Amazon, Panasonic entre outras,estão investindo pesado no mercado de livros eletrônicos. Além dos bons e não tão velhos PCs e Notebooks, vários dispositivos específicos para leitura de livros eletrônicos estão sendo desenvolvidos e aperfeiçoados. Alguns modelos já estão a venda com apelos significativos como por exemplo: Compre nosso eBook reader e ganhe 100 livros clássicos de graça; Compre um livro e ganhe U$ 50 para gastar com outros livros; Compre nosso eBook e nós lhe damos serviço gratuito de banda larga sem fio e daí pra fora.

Para quem ainda não leu nada sobre esse assunto, vou mostrar algumas imagens e características desses ainda misteriosos e recém-nascidos dispositivos para leitura de livros eletrônicos.

 

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Os eBook Readers pesam em média 250 gramas, medem aproximadamente 17 cm de altura e15 cm de largura (tamanho de um livro normal), são revestidos por uma capa que imita a capa dura de um livro clássico, a tela é de mais ou menos seis polegadas, feita com uma tecnologia que não cansa nem agride os olhos e só consome energia quando você vira a página. Não precisa desligar o equipamento. É só fechar e largar na cabeceira da cama ou dentro da bolsa como se faz com qualquer livro de papel. Em uso, a bateria dura em média 6 horas. Por enquanto, comportam apenas 50 a 500 livros e possuem vários botõezinhos que fazem coisas interessantes, mas os mais utilizados são mesmo os de virar as páginas, o do índice de livros e o de aumentar o tamanho da letra (para quem já tem vista curta como eu, é ótimo).

 

Para aqueles que gostam de dialogar com o livro de papel interrogando-o, torturando-o com riscos e anotações, os eBooks mais modernos possuem uma canetinha mágica que faz tudo isso sem danificar a página e ainda cria marcadores para retornar às anotações e links para aprofundar a leitura.

 

Para quem viaja muito e fica preso em aeroportos, avião ou ônibus é uma beleza.

 

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Imagine tirar férias e ir para a ilha do mel levando todos os seus livros preferidos? Ou ter que morar numa kitinete ou num quarto de hotel. Não seria bom ter uma imensa biblioteca na cabeceira da cama?

E como é que se carrega esse tal de eBook Reader? Com um cabo USB, igual ao que você usa para copiar arquivos para o pendrive ou descarregar a câmera fotográfica. E onde se compra o aparelho e os livros? Por enquanto, cada fabricante tem seu próprio modelo e sua própria editora. Você entra no site, compra o aparelho e os títulos, paga com cartão e baixa o livro como se fosse uma música, uma imagem ou um novo toque de celular. E o acervo? A Sony tem cerca de 20 mil títulos para venda e oferece mais de 100 gratuitamente. A Kindle anunciou que tem 90 mil títulos. O projeto Gutenberg oferece 20 mil livros eletrônicos de domínio público gratuitamente. Você também pode carregar seus próprios textos ou assinar os principais jornais e revistas. No Japão, já tem até um sebo virtual. E dá para emprestar livros também. Ele se auto apaga quando termina o prazo do empréstimo. E se cair, quebrar, molhar, estraga? Estraga. O livro de papel também estraga se molhar. O celular, a televisão, o notebook também. Mas o conteúdo do livro que você comprou, continua lá, no provedor para você fazer um novo donwload.

É claro que ainda tem muito pouco acervo traduzido para o português, que os dispositivos de leitura custam de 350 a 500 dólares, que os títulos custam de um a quinze dólares, que a indústria do papel vai resistir bravamente e que os escritores estão morrendo de medo do plágio e da pirataria. Mas, a revolução do livro eletrônico está só engatinhando. Tem menos de 10 anos de existência. Antes da metade desse século essa tecnologia estará mais segura, confortável e acessível até para nós, brasileiros. Tem quem aposte que o papel eletrônico ainda vai salvar a floresta Amazônica.

Cansado de ler esse artigo? Que tal pegar seu eBook e se distrair com um jogo ou um filme? Ou rever as fotos da família? Ou colocá-lo embaixo do travesseiro e dormir ouvindo uma música bem relaxante?

Se a evolução dos livros de papel para eBooks é uma coisa boa ou ruim, eu ainda não sei. O que sei é que quem gosta mesmo de ler, vai continuar lendo e escrevendo em qualquer dispositivo, em qualquer lugar, em qualquer tempo.

 

 

*marilda confortin é analista de sistemas.

11/2008.

 

A MÁSCARA DO MAL poema de bertolt brecht

Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal