VERLAINE crônica de hamilton alves

 

 

 

                            Paul Verlaine foi um dos maiores poetas do século XIX, cujos poemas ainda ressoam, um dos quais com mais freqüência que os demais – “Chanson d’Automne” (ou Canção de Outono), que é de uma beleza fora do comum, pela sua musicalidade e feitura muito bem organizada, contendo os versos e as palavras estritamente necessárias, como se fosse concebido a compasso.

                            Verlaine foi amigo de Rimbaud. Os dois tiveram um envolvimento rumorosíssimo, inclusive no plano da recíproca homossexualidade. Eram dois libertinos em toda a extensão do termo, pouco se lixando para as convenções ou limites impostos pela sociedade da época.

                            Rimbaud, ao que se diz, virou a cabeça do amigo, que era casado e que, com a mulher, em decorrência de tal ligação, viveu momentos difíceis. Até que veio a se consumar quase um crime de homicídio, tendo Verlaine, numa acesa discussão ou conflito com Rimbaud, disparado um tiro de revólver, que por pouco não o atingiu mortalmente. A partir desse episódio, os dois se reconciliaram, mas não foram os mesmos amigos de antes. Até porque Rimbaud, na sua loucura de comportamento, acabou indo para uma cidade da Abissínia, onde, na intenção de enriquecer, ao que se diz, traficou com armas.

                            E a poesia onde ficou?

                            Teve uma única resposta, bem típica de seu temperamento: “à la merde la poésie”.

                            O fim de Rimbaud foi muito triste. Voltou à cidade natal, Charlesville, sendo acolhido pela irmã, que dele cuidou até o fim da vida. Amputou uma perna por essa ocasião. Viveu até os 37 anos. O suficiente para deixar um legado literário dos mais importantes e ricos, como é o caso de “Une saison en enfer”, sobre o qual exegetas dos mais renomados têm feito as mais extravagantes ilações.

                            Deixou poemas imortais, como “Le bateau ivre” (O barco bêbedo), que é vazado em termos extremamente herméticos, que ainda hoje não se conhece o verdadeiro significado. Uns reputam como sendo uma descrição da vida do poeta. Penso que essa interpretação está mais próxima da realidade. O “barco” seria o próprio Rimbaud, em sua difícil trajetória pelo rio em que navega, cheio de empecilhos e obstáculos de toda ordem.

                            Verlaine deixou igualmente sua marca de grande poeta. Seu momento apoteótico foi, sem dúvida, o poema já referido, “Canção de outono”, que, ainda hoje, é dito por inúmeras pessoas em todas as latitudes do mundo e, certamente, foi traduzido para todas as línguas cultas conhecidas.

                            Folheando há dias um livro de ensaios literários, de Milan Kundera, de uma das páginas colhi a seguinte informação: “Verlaine morreu num hotel modesto em Paris”.

                            Talvez tivesse morrido sozinho, sem um companheiro ou companheira (teria se separado da mulher?), com nostalgia de seu grande amigo, Arthur Rimbaud, com quem, afinal de contas, viveu dias marcantes, que passaram à história da literatura, no que ela possui de mais estranho e notável.

                            De quando em quando, para mim mesmo, em circunstâncias as mais imprevistas, recito esses versos de Verlaine:

                            “Les sanglots longs

                              Des violons d,automne

                              Blessent mon coeur

                              D’une langueur monotone”.

 

                              Esta é a primeira estrofe do belíssimo soneto “Chanson  d’automne”.      

 

 

(março/09)

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