pacote. – de jorge lescano

 

 

                                                                                                                                                                           pacote.

A bem da verdade, a designação é tecnicamente incorreta, ou ao menos arbitrária. Trata-se de um saco de papel Kraft, com o nome de um supermercado perfeitamente visível, impresso com tinta azul. Parece-nos que o conceito pacote pressupõe, sugere, talvez requeira, determinadas dobras e barbantes ou fitas com laço ou papel adesivo para prender as abas de tendência triangular. Este não respeita esses requisitos. Mantém sua natureza de saco, reiterada pelo conteúdo que podemos adivinhar na estrutura vagamente cúbica da base. Estreita-se em direção à abertura por uma dobra realizada não de maneira casual, mas respeitando o plissado lateral, que faz do saco um retângulo de papel marrom quando, ainda virgem, repousa junto a outros congêneres na prateleira.
 A dobra, sem violar o plissado original, faz duas abas quase triangulares. Talvez isto crie um certo ar de família com o pacote propriamente dito. O vértice superior das abas vão em direção, ou nascem, impossível determinar com precisão o sentido original, do vinco do plissado; a base do triângulo fica na boca dentada, ou, se preferirmos, recortada à moda de uma onda contínua, acentuada no centro por um corte maior em semicírculo numa das faces, precisamente na qual se encontra impresso o nome da loja. Estas duas abas foram dobradas duplamente no sentido vertical, ou seja, em direção ao fundo do saco, formando uma alça.
 A coisa — hesitamos quanto à sua designação — se encontra no terceiro degrau, a contar de cima, da escadaria de concreto que dá acesso à entrada de um banco. O prédio da instituição financeira está fechado. Estamos na hora do crepúsculo vespertino de um  dia de outono. Confessamos que o objeto em questão foi o responsável pela interrupção de nossa caminhada.
 No primeiro momento — parece-nos que esta atitude é comum à espécie — olhamos em torno do embrulho — que daqui em diante chamaremos pacote —  procurando seu proprietário. Ao não o acharmos, ampliamos o raio de nosso olhar ao redor da escadaria e de nós mesmos. Como não avistamos ninguém na vizinhança, intuímos que o pacote foi esquecido por alguém que por um momento se deteve para descansar. Tal intuição, acrescida pela curiosidade, autoriza-nos a nos considerarmos donos do pacote abandonado.Para confirmar esta nova qualidade, insistimos em olhar em torno procurando seu legítimo proprietário, porém, já com o secreto desejo de não vermos ninguém a quem lhe falte este pacote.  
   Dispomo-nos a nos apropriarmos dele. Provemos o passo acelerado que nos afastará do local, e a concentração mental necessária para vencer o impulso de olhar para trás, denunciando-nos, caso um pedestre trilhe o mesmo caminho que nós. A certeza de nosso próximo gesto faz com que nos demoremos em especulações sobre seu conteúdo.
 A aparência conservada pela base do saco permite imaginar um corpo rígido e, insistimos, vagamente cúbico. A conclusão parece-nos óbvia: uma caixa. A medida que o recheio do pacote solitário ganha altura, perde a rigidez, sugerindo vultos menores, de forma orgânica e de matéria flexível. Pensamos em frutas miúdas e saquinhos de legumes. Talvez um maço de verduras. A caixa é menos previsível, tanto pode conter flocos de trigo como sabão em pó ou facas afiadas. Melhor não nos apressarmos no prognóstico.
 Subitamente nos ocorre que nada impede que o(a) ex-proprietário(a) do pacote tenha usado o saco  para guardar, ou  esconder, objetos  outros que não produtos  de supermercado. O retângulo-cubo
 
poderá ser um cofre ou estojo, os outros volumes algumas peças de pano usadas. Luvas, por exemplo, um par de meias de mulher. Enfim, coisas pequenas, de configurações, pesos e usos variados, dispensáveis no momento em que foram esquecidos ou abandonados.
 A ausência de marcas de outras dobraduras — além do vinco e o plissado — dão ao pacote aspecto de novo. A superfície lisa da face anterior sugere leveza.
 Custa-nos admitir que no interior possa haver algum mecanismo explosivo, programado para entrar em funcionamento quando alguém o toque. Que esconda ninhadas de animaizinhos mortos, retalhos de vísceras ou membros humanos, parece-nos intolerável pelas características externas supracitadas. Contudo, a caixa poderá conter aranhas venenosas vivas. Os volumes moles poderão ser: a) um feto de mamífero em avançado estado de putrefação; b) fezes contaminadas; c) uma substância química de efeitos imprevisíveis sobre o organismo humano; outros (?). Como se vê, material inadequado ao conceito tradicional de pacote. Este termo tem um caráter, não direi aristocrático, mas respeitável, a ponto de merecer seção especial nas lojas; embrulho é mais condizente com os pretensos conteúdos citados. 
 Somos tentados a procurar um policial e duas testemunhas de nossa inocência. Desejamos que o agente da ordem pública proceda ao desvendamento do mistério sob nossas vistas; gostaríamos de convocar a imprensa falada, escrita e televisionada para que noticie o achado bizarro. Ao mesmo tempo, desconfiamos que não seríamos levados a sério. Não é impossível, todavia, que sejamos incriminados. O policial não se deixará envolver num episódio sórdido sem alguma vantagem pessoal.
 Há um momento de fraqueza ou lucidez no qual optamos por nos desentender do pacote. Podemos imaginá-lo só, intacto no terceiro degrau, a contar de cima, próximo da coluna dórica que sustenta a cornija sobre a qual se lê, em letras góticas, o nome da instituição. Sim, urge que nos afastemos das implicações nocivas do seu incomprovável recheio.
 Torna-se necessário, porém, que aproveitemos a passagem de outra pessoa para desentravar os músculos tensos. No momento em que o pedestre se aproxime simularemos consultar o relógio. O gesto será largo e demorado. Precisamos ter a certeza de que foi percebido e interpretado corretamente. Isto é, não como simulação, mas como se de fato olhássemos o relógio pela derradeira vez, antes de desistirmos de uma espera que a esta altura dos acontecimentos se manifesta inútil.
 Talvez seja convincente acender um cigarro. É preciso ter calma e inspirar confiança na moça antes de começar a andar em ritmo e velocidade normais a alguns passos à sua frente. Assoviemos uma valsinha. Não!, tal dança não faz parte do seu repertório, e isto nos tornaria suspeitos. No entanto devemos impedir a todo custo que ela atribua a decisão de abandonarmos nossa atalaia, agora que a noite envolve o local, a uma futura abordagem ou perseguição, intenções totalmente estranhas à autora, bem como ao personagem e à sua sombra.
 A tudo isto se mantém alheio o

 Jorge Lescano

 
Para Daniela Delamare

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: