RÉQUIEM PARA O TREMA poema de cleto de assis (27.out.08)

 

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Treme, trema! É quase chegada a hora de partires.
O rei e sua corte de sábios assim ditaram
e a hora do cadafalso se aproxima.
Treme, porque os tribunais já se fecharam para ti,
não tens mais direito a apelações ou a acentuações.
Também os juízes e monarcas d’além mar
Não tiveram piedade e firmaram suas sentenças.

Se te serve de consolo, recordemos tuas culpas,
tantas vezes levantadas nas querelas contra ti,
estas mesmas em que te recusaste a aportar,
qual ungüento escorregadio.

Mas não te livraste dos qüiproquós.

Lembremos a ambigüidade dos lingüistas que
freqüentam as academias, intranqüilos,
com argüições grandiloqüentes, porém de qüércica acidez,
contra esses dois míseros pontinhos
de que és formado. Todos a gritar:
“Apropinqüemos sua morte!
Averigüemos suas culpas, pois ele não mais agüentará!
À forca com esse delinqüente!”

Mais atrapalhaste que ajudaste.
Chegaste da velha Grécia, via Gália e Lusitânia,
Para simbolizar um buraquinho na gramática.
Aliás, dois orifícios, para que ninguém te confundisse
com o indefectível ponto, de falsa modéstia postado aos
pés das frases, mas sempre a determinar seus fins.
Tu ganhaste o pináculo, acima delas e em cima de gordinhos us,
quase como bolhas de champanha a transbordar da taça.

Mas quantos vestibulandos levaste ao desespero!
Quantos parlamentares enganaste em ambíguos  discursos
plenos de obliqüidades!

Muitas vezes seqüestraste a inteligência de
Poetas, jornalistas, bacharéis e multilíngües mestres,
Que, distraídos, esqueceram de ti e preferiram
Levar-se a sonhos e incompletudes
com teus três tranqüilos irmãos penserosos…

Mais felizes, por certo, foram teus irmãos franceses,
Ainda a cavalgar, qual eqüestres sinais de la grammaire,
sobre muitas vogais e consoantes.

Mas os lusos, que te copiaram dos vizinhos gauleses,
foram os que deram a ti a primeira coroa espinhenta da ingratidão,
ao retirarem-te, há mais de cinqüenta anos,
Da palavra saüdade, na qual sentias tanta vaïdade.

Talvez uma de tuas maiores culpas é a de não seres
amigo do povo inculto, que não vê razões
para andares embarcado no lombo de desmilingüidas lingüiças
e de pingüins de geladeira.
Vieste para dividir,  meu dierético amigo,
e não para unir. E este é um tempo de solidariedade
no qual pouca serventia têm sinais que semeiam confusão,
embora, às vezes, sejas tão elucidativo.

Em ti sinto pena de nossos irmãos autóctones
Que, sem conhecer a língua dos missionários,
Já te pronunciavam em tão belas palavras naturais.
Que será feito, a partir de alguns poucos dias,
Do canto do güyarapuru, que já soa bonito só ao ser nominado?
E os birigüis e sagüis não poderão mais saltar nas árvores e fugir de Anhangüera?

Aproveite, pois, teus últimos dias do verão brasileiro
E das outras estações em que vivem os demais lusófonos,
pois teus dias estão contados.
Pelo menos os de freqüência nas gramáticas e dicionários de Português,
que serão liqüidados nas livrarias por tua culpa,
tua máxima culpa.

Breve virão novos gramáticas e novos léxicos
Para fazer o povo esquecer-te completamente
E começar a mudar algumas palavrinhas onde eras necessário.

Consola-te: nós aqui ficaremos para cuidar das vogais
que recusam a se transformar em ditongos
com a coleguinha do lado, como a u e a i da recém escrita palavra.
E, nos dias que se esvaem, pense que ainda poderás estar conosco
De vez em quando
Em estrangeiras palavras.

Aproveita bem este final de ano e tenha um bom Natal:
a partir daquele dia de graça terás apenas um qüinqüídio de vida.
Requiescat in pace.

Curitiba
27.out.08

 

Uma resposta

  1. Que ótimo, Cleto! Eu ainda não me conformo com a “idéia” de perder o trema… que ideia horrível.

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