Arquivos Diários: 1 abril, 2009

ESTES VERSOS TE DOU… poema de charles beaudelaire

Estes versos te dou para que, se algum dia,
Feliz chegar meu nome às épocas futuras
E lá fizer sonhar as humanas criaturas,
Nau que um esplêndido aquilão ampara e guia,

Tua memória, irmã das fábulas obscuras,
Canse o leitor com pertinaz monotonia,
E presa por grilhão de mística energia
Suspensa permaneça em minhas rimas puras;

Maldita que, do céu infindo ao mais profundo
Abismo, a mim somente escutas neste mundo!
– Ó tu que, como sombra de existência fátua,

Pisas de leve, sem que aqui jamais te afronte
Nenhum mortal que te suponha amarga, estátua
De olhos de jade, grande anjo de brônzea fronte!

 

BIA DE LUNA – POEMA

bia-de-luna-002

 

amanheço com

cara de espanto


entardeço com

cara de fresta


anoiteço com

cara de sobra.

CENTRO DA CORRUPÇÃO por walmor marcellino

CONSCIÊNCIA E REALIDADE POSITIVA

 

Devo acentuar que o judiciário brasileiro é o valhacouto de todas as corrupções e deformações da vida pública brasileira, através de sua ponte com o interesse privado? Só porque dele se esperam as soluções pelo que assoma em violência social desconforme à convivência em sociedade, ou por ser um poder inamovível e irremediável? Como explicar?

Em corrupção legislativa somos exatamente iguais ao nosso modelo ‑ os Estados Unidos da América ‑, com a diferença de que o grande império incrustou os lobbies empresariais como assessoria parlamentar e o nosso congresso nacional, pudiciosamente, aceita propinas antes das eleições, durante o mandato e depois de deixá-lo; sempre negando que está comprometido “apenas com a atividade econômica”, e também sem alcançar a transparência cínica dos ruralistas e seu pensamento bovino.

Alguém e alguma teoria traduz o encadeamento dos fatos e seu sentido; isso tanto na  mística, como na ciência? Até na necessária interpretação política, em que sua hermenêutica é tarefa que vem sendo delegada ao poder econômico-social.

Um texto de Gilles Delleuze me enevoa a cabeça, no sentido da percepção da nossa realidade política: “… Para nós o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e que lutam deixaram de ser representados, mesmo por um partido, um sindicato, que se arrogariam, por sua vez, o direito de serem a sua consciência. Quem fala e quem age? É sempre uma multiplicidade, mesmo na pessoa que fala ou que age. Somos todos grupúsculos. Já não há representação, há apenas ação, ação de teoria, ação de prática em relações de transição ou de rede”.

No que isso ilustra? Sem que eu lhe atribua mais do que um descortínio psicossocial, nós os remanescentes da pretensa “vanguarda do proletariado” não nos conformamos com o deslocamento dessa hipotética representação política. Somos hoje grupelhos e grupúsculos “bem intencionados ou meramente oportunistas”, porfiando demandas sociais, mas na verdade querendo liderar trabalhadores e massas numa sociedade de classes em difração significativa e com vistas a alguma utopia revolucionária sem objeto real.

Essa dissolução entre nós (os agentes sociais) e as classes, que julgamos representar, não seria parte de um malogro intelectual sob uma multipolaridade de conhecimentos e de situações de vida, que não compreendemos porque neles não estamos efetivamente integrados, por baixo? Ou a “pós-modernidade” da cultura burguesa nos aposentou o presente e seu futuro?

8 FLORES e a CANÇÃO DESESPERADA poema de tonicato miranda

para a mulher amada

e tantas mulheres como você

 

 

 

 

Você,

rosa vermelha

e um punhal brilhante sobre a mesa

do corredor até a mim vem

uma canção desesperada

Você,

um lírio branco

e vinte lírios brancos sobre a mesa

que nada rivalizam ou contêm

dos acordes da canção desesperada

Você,

meu amor perfeito

a caneta e a carta sobre a mesa

tudo a escrever ao meu bem

dentro da canção desesperada

Você,

minha violeta quase preta

há na tarde reflexos sobre a mesa

tudo que o sol vai levar para além

da tarde, junto à canção desesperada

Você,

cacho de acácia

desfolhando-se sobre a mesa

meus dedos tristes, sem

dedilhar pianos na canção desesperada

Você,

um ipê amarelo

pintando o papel sobre a mesa

mesmo vindo a noite qual um trem

embarque-me na canção desesperada

Você,

rosa branca

derramada sobre a mesa

derrame fragrâncias em mim, mais de cem

para perdurar-me nesta canção desesperada

Você,

manacá da serra

decorando meu sangue sobre a mesa

anhagatirão é teu nome também

o branco e a violeta juntos na canção desesperada

 

TM

Curitiba, 29/12/2008.

PEQUENAS CONSTATAÇÕES na FALTA DE MAIORES – por juca (josé zokner) 26/03/09

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

“Tá tudo ruço:

Um papai-noel

No carnaval

E um arlequim

No Natal.

Tá tudo mudado”,

Disse o pinguço

Com a língua enrolada

Pra namorada,

Antes apaixonada,

Agora, esquiva

Não mais compreensiva,

Nem compassiva.

Coitado!

Coitada!

Coitada?

Constatação II

Não se pode confundir plumas e paetês com pumas e patês, porque, como dizia numa novela o personagem do ator paranaense Tony Ramos: “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Elementar, minha gente.

Constatação III

Levou um sopapo

E uma bronca da mulher:

“Não explicou

Nada

Esse batom,

Meio-tom

Marrom

Que a camisa manchou

Só papo.

E pior, furado!

Não sou uma qualquer.

Sou uma fada

E do bem.

Você quer

Ter um harém?”

Coitado!

Coitada!

Constatação IV (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

A inócua retórica

Dos políticos

É histórica?

Constatação V

Ela caprichou

E se produziu.

De nada adiantou.

Continuou com cara

De bugio

Misturada

Com arara.

Coitada!

Constatação VI

Copo vazio

De vinho

Me dá fastio

Me dá brotoeja

Só curável

Com carqueja

E muito provável

Com cerveja,

Onde, claro,

Não falte o raro

Colarinho.

Constatação VII

Não se pode confundir coligido (no sentido de acumulação), com corrigido, mesmo sendo pronunciado por chinês e japonês, muito embora tenha muito político que tem coligido patrimônio em valores tais que dobra triplica ou mais em pouquíssimo tempo, conforme a mídia recentemente destacou, sem que tenha explicado convincentemente a fonte e não ter corrigido na sua – dele – declaração de imposto de renda.

Constatação VIII

O marido,

Pelo ciúme,

Ficou carcomido.

Sentiu o olor

Na mulher

Do perfume

Do seu sócio

“Mas logo o beócio!”*

Aí, melancólico

Rememorou

Que já tinha sido

Um grande amor

E de até bucólico,

Do tipo bem-me-quer

E que virou

Chinfrim.

E, tristemente, pensou:

“Coitado de mim!”

*Beócio = “que ou o que não possui conhecimentos suficientes em determinado domínio; ignorante”. (Houaiss).

Constatação IX (De uma dúvida crucial).

Por que será que há tantos acidentes em minas, na China? Será que um país com tão alta tecnologia, não poderia cuidar de seus mineiros? A explosão com muitas mortes e feridos tem sido uma constante em aparecer na mídia. Será que a China é como certos países em que à vida não se dá o devido valor?

Constatação X

Rico fica enfermo; pobre, doente.

Constatação XI (Poeminha dos tempos medievais).

O cavalo corcoveava

O cavaleiro, na sela,

Se sustentava,

Por aquelas arenas,

Para impressionar

A donzela

Com quem queria

Se casar

Mas ela, isso, não sabia.

Dele, mera ilusão?

Ou apenas,

Falta de comunicação?

Constatação XII

Foi juntar graveto,

No meio de um mato

Que não lhe pertencia

O que caracterizou um furto.

Pelo caminho mais curto,

Usou a hipotenusa,

Mas por um acesso cerrado,

Ao invés do cateto.

Rasgou a blusa,

Que não havia

Saído barato.

Proferiu

Um pequepê

Sonoro

O namorado

Riu

Do fato.

“Você ri e eu choro.

Não me venha!

Tá rindo de quê?

Preciso fazer um fogo

Pra fazer um prato

No forno

A lenha

Com azeite de dendê.

Se não quiser comer

Pode fazer a pista,

Pode já desaparecer

Da minha frente!

E não insista

Em permanecer

Seu corno,

Seu demagogo,

Seu impotente,

Seu transviado”.

Coitado!

Constatação XIII

O assim chamado meu lar

Está na direção

Do avião

Que vai aterrisar.

Como ele tá, ou não,

A fim de me acordar,

Na madrugada,

E eu não posso fazer nada

Ao perder

O sono,

Sem mais poder

Tirar

Uma reles pestana,

E por me sentir no abandono

Me ponho a ler

Os Mário’s Benedetti e Quintana.

Constatação XIV

Ela deu um espirro

Tão alto e profundo

Que ele acordou

Assustado,

Atordoado

Achou

Que era um rugido de leão

Com um tiro de canhão

E o fim do mundo.

Coitado!

Constatação XV

E como dizia a gatona, explicando a Teoria da Relatividade para as amigas principiantes* no assunto: “É muito melhor acordar nos braços do companheiro do que agarrada no travesseiro”.

*Não ficou claro se as amigas eram principiantes na Teoria da Relatividade ou em acordar nos braços de um eventual companheiro, ou, ainda, nos dois casos. Tão logo Rumorejando possa esclarecer tal fato de transcendental importância – não para a Humanidade, mas para elas – dará a conhecer aos seus gentis leitores. Obrigado pela compreensão.

Constatação XVI

Ela sofria

De um desvio:

Se punha a olhar

Para o mar

E dizia

Que era um rio.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br