Arquivos Diários: 2 abril, 2009

SENDO, TERÃO NASCIDO! poema de jb vidal

  

para meus filhos Diego, Gustavo e João Paulo

 

                                                                            

                                                                                                                                  

 

 

 

 

meninos travessos

levados

 

lindos

 

meninos puros

sedentos de viver

 

aprenderão como

 

garotos danados

amores de todos

ingênuos

anjos na rua

 

livres?

 

donos de si

sabem de tudo

e de nada

aprenderão

que é preciso

ser duro

sorrir

tocar as mãos

cavalgar as montanhas

segurar as nuvens

correr sobre os mares

viajar com os pássaros

 

endurecer-se mais

mais amar

fazer o tempo

combater o trovão

adormecer livre

para acordar

 

um novo homem

 

 

 

jb vidal –     (1990)

LUÍS SERGUILHA por jairo pereira

UMA POÉTICA QUE PROVA O SIGNO A FRENTE DO PENSAMENTO

 

 

O arquétipo do poeta pra mim, era e ainda é, a figura de um velho cego falando sem parar sobre o topo de uma montanha. Arauto ou rapsodo!? As palavras correndo na frente do pensamento e tudo num enliado que o próprio discurso vai enliando, tecendo, como uma imensa rede de ditos. Inteligível ou não, de todo o conteúdo lançado ao espaço, parte seria apreendida e muito bem aproveitada. Imagens. Imagens. Sons. Significados… O discurso se impondo, sem preocupação de clarear caminhos, mas apenas por necessidade de existir. Depois de vinte anos, enliado na poesia e seu fazer, me aparece a figura arquetípica de meus sonhos de poeta. O nome: Luís Serguilha, português de Vila Nova do Famalicão. Sua poesia vem em borbotões, tomando tudo, cobrindo de palavras as paisagens internas e externas. Lembra Omeros de Derek Walcott, só que mais mundo interior que exterior. Profundo na pegada. Pancognocedor, a tudo investiga e põe a nu, poeticamente. Uma viagem fecunda, navegar nesse imenso rio de palavras. Rio ou oceano, onde os signos proliferam verdades transfinitas. Interessa além da poesia que se possa analisar, o ser-poeta, Luís Serguilha. Pesquisador incansável de poéticas novas. Amigo íntimo da poesia brasileira contemporânea e seus poetas, com quem vive profícuo diálogo. Uma crítica que se faz além da palavra escrita, além do que no livro é substância e significação, deve realmente centrar-se também no emissor dos signos. O gestor da megapoética, é relativamente jovem, quase sério, no orgulho de poeta que todo português tem, mas amigo e humilde como os grandes de espíritho. Seus livros “A Singradura do Capinador”, “Embarcações”, “Lorosa’e Boca de Sândalo”, “O Externo Tatuado da Visão” e “Hangares do Vendaval”, dão bem a mostra dessa poética livre, auto-criativa, que se expande em signos fortes, instituindo espaços novos. Uma lira prenhe de imagens, metáforas, prolíferas verdades. Mergulhar no oceano poético de Luís Serguilha é conhecer as mônadas originais do dizer, que não se traem, sim espelham as projeções, conquistas do poeta, nos desafios do fazer. Poeta contemporâneo na plena acepção da palavra, Luís Serguilha, quebra o cânone. Inaugura o discurso paradoxal, em espirais ao sabor do espíritho que conhece e tanto mais quer descobrir, conhecer. Há ânsia de procura nas palavras. Ânsia de descobrimento nas imagens atiradas como formigas pra fora do formigueiro. Imagino um poeta brasileiro, com essa fúria do poético, essa avidez de transformar o mundo em palavras, carnavalizar o criado na segunda nathureza, que é a nathureza plena do engendrador, filho do Senhor. O artista que delibera, projeta, constrói e realiza, com os instrumentos possíveis (a sua linguagem) a obra humana. Contraditória, polêmica, essa poética do excesso do “verbo belo” em nosso tempo. Mas cuidado, crianças. Cuidado meninos, versejadores “cocô de cabrito”. No princípio era o caos, a fúria das linguagens. Os precipícios do sem-razão. As falésias de significação. Os turbilhões magmáticos do dizer sem precedentes. Uma poética vulcânica, que ainda ninguém conseguiu destrinchar, decodificar, não pode ser tachada, alinhada, selada na vida de seu tempo. Luís Serguilha, pelo que se vê, está mais preocupado em expor os seus mundos do poético, como lhe vem assim, em borbotões. O panconhecimento de tudo, instituindo o particular. A poesia franca, resultante da abertura de canais com o desconhecido. Infovia da percepção livre. A crítica reducionista, é capaz até de matar o poeta. Matar o verbo em ser. Atirar no passado o que se instituiu com rigor e originalidade. Acredito no sensível, que antecipa os tempos. Acredito nas palavras obrando mundos novos no por aí. Sim, as linguagens tem esse dom, de inovar, inaugurar espaços, em sua nathureza de ser-dinâmico. O poeta Luís Serguilha, como dominador majoritário dos signos de sua criação, finje-se de morto quando convém, e deixa fluir a vida-palavra pro onde quiser. Nesse ato de liberação do discurso, atinge-se o êxtase da criação livre de autor, e muitas inaugurações imagéticas ocorrem. O Luís Serguilha sabe disso e deixa-se estar no processo para o bem da poesia portuguesa contemporânea e universal. Essa action poetic particular de Luís Serguilha, traz Homero na raiz ou confunde-se com a imagem de minhas visões do rapsodo no pico da montanha. Transcendem as sentenças, história e verdades. Estamos aquém do início (nascimento) e além da morte, no transfim a esmo. Inserir-se numa poética que desrespeita o cânone, atropela o próprio contemporâneo quando homeriza o discurso, é perder-se e reencontrar-se na vida e no pensamento. Atirar-se nos redemoinhos dos ditos, pra ver o que se pode haurir dali, dos dínamos ou detratores de significação. Uma aventura (existencial de criação) que assusta pelo megaempreendimento, só pode ser louvada e Luís Serguilha merece atenção. Sua obra constituída pelos muitos livros, dispensa peroração de dúvida de valor. A cobra está morta e o pau repica no chão da lira enthusiasmada. Poucos poetas conhecem como o autor de “A Singradura do Capinador” a poesia que se pratica hoje no mundo. Pode se inferir de tudo que primeiro é um conhecer que se habilita no processo. Depois é o criador, ou ambos juntos, haurindo a poesia que é espelho da alma expansiva do poeta, num arrastão de redes (malhas finas) em mundo interior e exterior. “onde uma categoria de turbilhões procura a eternidade do pântano na ingenuidade da atmosfera/onde o fôlego repercute os mausoléus das enxurradas/o esforço do fogo volátil ordena a indolência calamitosa das árvores”. De “A Singradura do Capinador”, Canto XIII, pg. 59. Vivemos os tempos do pensamento dispersivo. A velocidade das imagens na Net, conspurcando o intelecto. Poetas em sua sina de criadores, obram na palavra a vida. A recusa é regra e injustificada. Poesia não tem editor, preço ou público. Sobrevive dos próprios poetas que se lêem, interpretam e divulgam. O caos e o poético se confundem. Ambos refletem a dinâmica dos mundos em se criando. A missão ou não-missão, sina de poeta, afeita a Luís Serguilha é de enfrentamento de realidades, sentidos. Coragem não lhe falta. Domínio e técnica das linguagens, também não. “Um rio aceso de tigres infinitos é habitado/pelos noivados exaltados dos lenhadores/que enlaçam os escombros das rédeas/solares nas fracções persistentes das clepsidras/trabalhadas desamparadamente/pelos grânulos misteriosos”. HANGAR 15, pg. 131 de “Hangares do Vendaval”. O poeta trabalha com estado de ser e anunciação. Na supermônada pulsante da vida, os signos detentores do conhecimento em alarde. Há uma matriz forte, aparentemente estática, mas ao contrário em plena potência. Dessa matriz invisível, é que o poeta tira a substância preciosa do seu dizer. “As épocas diluídas sobre as entranhas hipnóticas da noite são loucamente/arrastadas pelos acenos unânimes dos pássaros curvilíneos/e os olhos desinvestidos apuram as comunidades dos voos”. De “O Externo Tatuado da Visão”, I, pg. 15. A obra de Luís Serguilha, desafiará críticos e exegetas no tempo e no espaço. Não é um todo que se apreende de primeira, facilmente, como uma poesia de cotidiano, urbana ou rural. Os veios criativos que sustentam essa poética complexa exigem ampla e demorada análise. Complexo no complexo. Os complexos do alto espíritho tomam conta da poesia de Luís Serguilha, prestidigitando o conhecimento, num desafio de especulação ao leitor. Quantos se habilitam a emparceirar os grãos?! Em jAiRo e poeta mezzocrítico de província, não faço mais que cogitar sobre, longe de identificar em detalhes a máquina mantenedora do signos. A poesia brasileira, portuguesa e universal precisa disso, do que não se dá de cara expedito, claro, objetivo. Complexo e poético se confundem. Teias, veios, redes, enliados no próprio enliado. Quem quiser ler calendários, livros de auto-ajuda e manuais de bom comportamento que passe ao largo da obra de Luís Serguilha. “As cartas atléticas das naus elevam-se no nervosismo dos/clarões mastreando o mais breve rito dos apegamentos selvagens/e os andaimes concêntricos do horizonte os arsenais ilegíveis dos pássaros”. De “Embarcações” pg. 151. O poeta é o navegador arbitrário. O navegador das palavras instituidoras do real poético. Tudo tem a ver com o poeta. As imagens de mundos seus, conhecidos na ponta da pena que lavra, e nos experimentos do viver. Arbitrária a navegação se faz quando se colocam antíteses num mesmo barco/valise de significação, e o poeta compõe o que parece impossível. “É no mênstruo dos veios taciturnos/nas pranchas das metrópoles/reaparecidas/que uma sutura da loucura escuta a âncora desenvolvida pelos pianos/fátuos”. In “Lorosa’e – Boca de Sândalo”. A poesia busca o seu lugar, antilugar no mundo. O poeta Luís Serguilha, dá o exemplo de imensos desafios cumpridos. Prova também que a poesia pode mais que a filosofia na inauguração dos novos espaços, sagrações. A poesia contemporânea praticada hoje, contempla acima de tudo o poeta como criador, e não há arte no seu complexo signo-simbólico a exigir mais de autoria. Salve Luís Serguilha na sua coragem, de transformar em arte e sagrado, o produto do ver, sentir, e que a realidade comete o prodígio do desaparecimento.

 

 

jAiRo pErEiRa

Autor de O abduzido, Espirithopéia

e outros. 

AFRESCO – LEDO ENGANO – SOL, AREIA E POUCA SOMBRA / mini contos de raymundo rolim

 

Afresco

 

Era visível o nervosismo da noiva. O padre já não agüentava a demora. Os convidados se abanavam, o calor sufocava. Algumas senhoras tiveram de ser retiradas para o ar fresco e o noivo nunca que chegava. E não veio mesmo. Ahahahahahahahah. E o padre pensava bem quietinho: eh! filho da puta!

 

Ledo engano

 

A orquestra estava afinadíssima. O maestro impecável. Haviam ensaiado até momentos antes. As luzes se apagaram. Os músicos respiraram de forma profunda seguidos pelo maestro que, recém formado e em primeiríssima audição, suava em bicas. As cortinas se abriram e nada. Não aconteceu nada. Absolutamente nada! O teatro era noutro endereço.

 

           Sol, areia e pouca sombra

 

Foi ilusão de ótica ou a miragem era efeito da sede mesmo! Não se sabia pra onde ir, quando, de repente, o deserto pintou-se de verde e um camelo, apenas um, veio e bebeu todo o Nilo. Ah, um crocodilo estava lá. Um! Parece que tinha também um navio cheio de bandeirinhas e os passageiros acenavam felizes. Sob apito, o navio zarpou, carregou o camelo e levou o Nilo atrelado que puxou por gravidade o deserto. O crocodilo veio oferecer os seus préstimos e servir água fresca num cântaro de jade espoliado ao grande Tutankamon. 

A MÃE (conto angolano) por vera lúcia kalaari (Portugal)

 

Esse era o dia em que Saiengue, o soba de Camanongue, esperava a chegada de seu filho único, vindo da cidade.

O rapaz partira há seis anos e agora todos aguardavam o seu regresso: o pai, a velha mãe, a mulher, o filho e a filha. Nesses seis anos nenhum deles o vira e assim cada um o esperava anciosamente.

A cubata erguia-se a certa distância do povoado, longe da única estação, e por isso não podiam saber a hora exacta da chegada. Era uma pequena casa muito limpa, no meio de um extenso mangueiral, alinhado nas margens do rio. Do outro lado erguiam-se verdejantes montanhas que se perdiam em picos altos e nublados. No tempo do frio, o rio corria remansoso e pouco profundo. Mas quando as chuvas chegavam das serranias, as águas cresciam assustadoramente, lamacentas e escuras.

Todos se haviam vestido mais cedo e ficaram sentados pacatamente à espera. Lá estava o velho pai, a barba branca destacando-se no rosto negro e grave. Era um homem respeitado naqueles lugares.

Hoje, porque seu filho único voltava, pusera o seu melhor pano, que comprara há anos na cidade.

Ao lado do velho, sentava-se a mulher, a única que tivera em toda a sua vida, porque havia sido uma boa companheira, dócil e trabalhadora. Numa pedra mais baixa, sentava-se a nora, companheira do seu filho. Segurava uma fita longa de missangas, e seus dedos hábeis iam tecendo um cinto largo de cruzes miúdas, em carmesim. O seu rosto, nem feio nem bonito, denotava a ansiedade febril que a tomava. De vez em quando baixava-se para dizer qualquer coisa à pequenita que lhe brincava aos pés. Mais longe, debaixo de uma grande mangueira, um rapazito esguio tentava colher um fruto dourado. O velho tinha os olhos fitos no rapaz, mas via-se que o seu pensamento estava distante.

A velha mãe virou-se para a nora e perguntou:

-Compraste o peixe na loja do Calonjere?

-Sim, minha mãe, tratei de tudo.

Na obscuridade da porta os seus olhos brilhavam na face escura.

O miúdo escorregou, caíu e começou a chorar desalmadamente. A jovem mulher levantou-se rapidamente e limpou-lhe os calções do pó.

-Cala-te!Teu pai está prestes a chegar e não gostará de te encontrar assim!

O rapaz limpou as lágrimas com as mãos e sentou-se calmamente no capim áspero. O velho olhou o neto, alisou a barba branca e, sorrindo, disse:

-Calomanga ficará satisfeito por ter à sua espera dois filhos como estes.Ele te agradecerá a maneira como trataste seus velhos pais nestes longos anos. Foi um bom dia aquele em que te trouxe para esta casa.

Mal havia acabado de proferir estas palavras, ouviu-se uma voz na curva do caminho. Era bem a voz de que eles se lembravam e que tanto desejavam ouvir, mas agora bem diferente das suas recordações.

-Aqui estou!

A velha mãe uniu as mãos com força sobre o regaço. O velho levantou-se rapidamente do chão. Os passos do recém-chegado ressoavam mais perto, na terra avermelhada. A mulher, que se deixara ficar sentada, de olhos fitos no solo, pôde ver os pés calçados de grossas botas e ouviu-o gritar:

-Meu pai! Mãe!

-Filho…-disse o velho-.

A sua voz tremeu e suavemente começou a chorar. A mãe acercara-se timidamente e tocou no braço do filho.

-Calomanga, estás diferente. Não pareces o mesmo!

-Mãe, seis anos não deixam ninguém na mesma – disse o rapaz numa voz clara e rápida.

Depois, acercou-se da jovem mulher que se mantivera imóvel.

-Então, Fuvuca, estás boa?

-Foi a melhor das filhas para nós,Calomanga-falou o velho.

-Sim?-interrompeu o jovem-.E onde estão os meus filhos?

-Estou aqui…

O pequeno abeirou-se lentamente e olhou aquele desconhecido, de sapatos de cabedal e de calças que eram de um tecido grosso e escuro, uma fazenda dos brancos. Clomanga passou-lhe a mão pelos cabelos ásperos , rindo.

-Então foi nisto que se transformou o pequeno choramingas que deixei?

A jovem mulher olhava-o agora abertamente. Sim! Como estava mudado! Seis anos na cidade haviam modificado seu marido, cheio de juventude e energia. Sentiu-se muito tímida e começou a chorar.

Após uma longa pausa, como se cada um tentasse adivinhar os pensamentos do outro, Calomanga começou a falar. Dir-se-ia que falava apenas para preencher o vácuo que se estendia sobre eles.

-Como é bom estar de volta! É pena continuar tudo tão atrasado!

-Estamos na mesma – respondeu o velho pai, permanecendo um pouco pensativo.

-Pois é…Habituado como estou à cidade, tudo me parece bem diferente – estas últimas palavras foram ditas com um certo ar de troça -.

Fuvuca sentiu um leve aperto no coração e, silenciosamente, afastou-se.

……………………………………………………………………………………………………….

Calomanga havia distribuído os presentes que trouxera.

A jovem esposa retirara-se para um canto, olhando o marido e os filhos que o cercavam.

-Pai…tenho uma coisa para lhe dizer…

O velho estremeceu e puxou com força a manta que lhe escorregava nas pernas. A fogueira bruxuleava, pondo sombras grotescas nas mangueiras que se erguiam em copas cerradas.

-O pai sabe… – continuou o filho -. Na cidade vêm-se muitas coisas. Já não poderei ficar aqui. Acostumei-me a outra vida. Vim, para levar os meus filhos, para metê-los na escola dos brancos.

Os pequenos começaram aos pulos, a gritarem radiantes.-

-Irei no comboio…Irei no comboio…

A miúda agarrou-se ao pai e perguntou anciosamente:

-Eu também vou?

-Sim, tu vais também – respondeu o pai com energia.

-E Fuvuca? – falou o velho mansamente.

-Bem…ela…pensei mandá-la de volta para o pai. Dar-lhe-ei dinheiro e nada lha faltará.

O pequeno Jamba virou-se para a mãe, os olhos brilhando de satisfação.

-Então irei para a escola! Sempre desejei isso!

Nenhum deles pensava em Fuvuca, reparava na sua expressão. Ninguém notou como ela tremia, a não ser o velho, que continuava sentado, acariciando a barba branca.

Calomanga, radiante com a alegria dos filhos, exclamou:

-Irás para a escola, verás grandes ruas, automóveis , tudo o que nunca viste até agora.

A criança não se pôde conter:

-Quando vamos? Eu quero ir já!

Fuvuca olhou para aquele filho que acalentara ao longo das noites, que bebera do seu leite. Lembrou-se de quando lhe limpava a boca gotejante de leite branco. Era então aquele o seu filho! Este, encontrando o olhar da mãe, confessou, pensativo:

-Sempre quis ir para a cidade, mãe!

Calomanga agarrava a filha, num gesto de posse. Então, a miúda encostando a cara ao pai, olhou, arrogante, para a mãe.

-Está claro que nada te faltará – dirigiu-se o homem para a jovem mulher -.Nunca passarás necessidades.

Fuvuca olhou-o com dignidade, mas ele nem reparou, enlevado como estava com os filhos. E sem que ninguém se apercebesse, a mãe saíu de casa. Sentou-se na pedra onde se sentara por tantos anos com os dois filhos. Num instante pensou no que seria a sua vida dali para o futuro. Sim! Já sabia qual o caminho a tomar. Levantou-se e caminhou silenciosamente para o rio que brilhava ao luar. Ainda ouviu a voz do filho, gritando alegremente:

-E posso também andar de carro?

O velho tinha começado a falar, numa voz triste e implorativa.

A água corria-lhe agora aos pés e sentiu o frio cortante do seu beijo. Lembrou-se por instantes que devia descer rapidamente e lançou-se convulsivamente para a frente. O rio abriu-se para a receber num abraço gélido. Como de muito longe, pareceu-lhe ouvir ainda a voz do filho, repetindo várias vezes, a rir:

-Irei de comboio…Irei de comboio…

Esta voz morreu ao longe e a jovem mãe nada mais ouviu.

As águas fecharam-se novamente e continuaram o seu serpentear tranquilo para o mar.

 

48149foto livre.

 

 

LIRA DO JUBILO CARNAL por walnice nogueira galvão

No Cântico dos Cânticos, os olhos da amada são como os da pomba, os cabelos um rebanho de cabras, o hálito dela tem a fragrância das maçãs, e o talhe é como a palmeira cujos cachos lembram seus seios, que parecem um par de cabritos, ou gazelas gêmeas.

Um dos livros constitutivos do Antigo Testamento, o Cântico dos Cânticos pode ser considerado como um patrimônio da humanidade. Esse notável poema tem resistido à usura das eras que, no seu caso, se medem em termos de milênios. A exata idade da composição se perde na noite dos tempos. Entretanto, uma das hipóteses mais aceitas, no âmbito de um antigo debate em que opiniões contraditórias abundam, situam-no, com base no exame de suas peculiaridades linguísticas, entre os séculos V e IV antes de Cristo.

Representante da poesia lírica bíblica, honra que partilha com o livro dos Salmos, também conhecido como “Salmos de Davi”, é o único caso de discurso erótico nas Sagradas Escrituras.

Mesmo aceitando a datação acima sugerida, vemo-nos diante de fixação tardia, obtida por uma redação que amalgamou e assentou formas orais anteriores, fenômeno corrente na literatura da Antiguidade. Nesse sentido, fica evidente, sobretudo através da comparação com outros acervos literários, estarmos às voltas com uma compilação de antigas canções nupciais, compostas em honra de uma Noiva e de um Noivo, ambos encarnando o ressurgimento da vida na terra quando a primavera retorna após a esterilidade hibernal. Nas palavras do poema:

Eis que o inverno já passou,
cessaram as chuvas e se foram.
No campo aparecem as flores (…)
Da figueira brotam os primeiros figos

A eclosão da natureza em flores e frutos era então celebrada com ritos propiciatórios, que incluíam a conjunção carnal de casais jovens, vestígios que ainda se encontram nos países europeus nas chamadas “festas de maio”. Nessas, rapazes e moças dançam em torno de um mastro engalanado, representação comuníssima na iconografia medieval e encontradiça em certo tipo de poesia popular da época tida como licenciosa – a dos clérigos vagantes ou goliardos, a exemplo dos afamados Carmina Burana.

O júbilo dos esponsais, a alegria do exercício dionisíaco da sexualidade, comandada pela natureza e responsável pela regeneração dela, aglutina nesse tipo de poesia o cunho profano à elevação sacra. Pois a união, muitas vezes exercida nos próprios campos que objetivava fecundar, podia alçar-se à transcendência de uma hierogamia. Como diz a Amada:

O verde gramado nos sirva de leito!
Cedros serão as vigas de nossa casa,
E ciprestes as paredes.

A musa erótica, por sua vez, é um registro de poesia lírica muito praticada na Antiguidade, e dentre suas espécies conta-se o epitalâmio, como seu nome indica criado para festejar a ocorrência de um matrimônio. Costumava ser entoado por um coro às portas da câmara nupcial. Entre seus cultores gregos encontram-se a famosa poetisa Safo e seu contemporâneo Alceu, ambos do século VI a.C., afora Anacreonte, Teócrito e Píndaro.

Embora o Cântico dos Cânticos seja tradicionalmente atribuído a Salomão, os eruditos acautelam-nos para o fato de que tal autoria é infundada, porque induzida apenas pela presença do nome desse rei no texto, igualmente conhecido como “Cantares de Salomão”. De qualquer modo, o título Cântico dos Cânticos torna-se um superlativo e aponta para a reputação de excelência do poema quando comparado a seus pares, destacando-se dentre os demais.

O que não há dúvida é de que se trata de um poema – ou melhor, uma suíte ou rapsódia de poemas – de amplitude étnica. Assim como há epopéias que fundam uma nacionalidade, a exemplo da Ilíada e da Odisséia para os gregos, ou de Gilgamesh para os babilônios, ou mesmo do Antigo Testamento para o povo hebreu, aqui temos seu poema erótico.

Composto em forma de diálogo entre a Amada, o Amado e o Coro, o poema celebra amores numa dicção exaltada e bem pouco camuflada, servindo-se do recurso do paralelismo, ou repetição de uma mesma fórmula sintática na construção do verso, usual na literatura oral, e sobretudo na Bíblia, por suas virtudes mnemônicas.

Parte considerável do encanto do poema decorre da força de suas imagens e metáforas, o mais das vezes inusitadas, fazendo-nos penetrar num outro universo estético, para nós totalmente perdido não fora a Bíblia: vejam-se as análises de Northrop Frye. Para que a estranheza não nos feche as portas à fruição das belezas do poema, vale a pena examinar com mais vagar tais imagens.

O primeiro elemento que salta aos olhos é a equiparação entre o corpo da Amada e um jardim, por sua vez um arquétipo da literatura ocidental. É desse paradigma que emanam diversas metáforas, as quais por sua vez estréiam, embora apenas embrionariamente, logo no Gênesis, livro inicial da Bíblia e, como seu título indica, uma cosmogonia implicada numa narrativa das origens da humanidade. No Gênesis há um jardim, o Éden, presidido por um ser feminino, Eva, mãe de toda a espécie humana, e indissoluvelmente ligada no imaginário àquele jardim. Mais um passo a ser dado e teremos o jardim como metáfora da mulher.

A metáfora é explicitada por inteiro logo de saída: “És um jardim fechado,/ minha irmã e minha noiva” (Cap. 4, 12-16). O vergel onde jorra um manancial se tornaria uma das metáforas seminais da literatura ocidental e, convergindo com a poesia bucólica de Roma, ficaria conhecido como o tópico do locus amoenus (lugar ameno), estudado por E. R. Curtius, gerando farta descendência em várias línguas e literaturas. Se preferirmos a versão latina do Cântico dos Cânticos, falaremos de hortus conclusus (horto concluso), ou o “jardim fechado” supracitado.

Daí decorrem as várias imagens típicas de um povo de pastores e lavradores, que identificam, sucessivamente, a Amada com a rosa de Sharon e com um lírio do vale entre os espinhos que são suas amigas, seus seios com um par de cabritos uma vez e outra vez com gazelas gêmeas. Atribuem-lhe ainda olhos como os da pomba, cabelos como um rebanho de cabras, faces como metades de romã, hálito como a fragrância das maçãs, talhe como o da palmeira (símile retomado em Iracema, de José de Alencar), cujos cachos, tanto quanto os da videira, lembram seus seios. 
Se a correspondência primordial se faz com o Éden, portanto numa esfera paradisíaca onde os frutos da terra medram sem que seja necessário cultivá-los, já outras comparações relevam do propriamente agropastoral, derivando do trabalho humano. Noivo e Noiva são pastores, sendo o Amado uma “macieira entre árvores silvestres”, seu nome mais aromático que os perfumes e suas carícias mais suaves que o vinho. Quanto à Amada, seus dentes são “um rebanho de ovelhas tosquiadas” e o ventre “um monte de trigo,/ cercado de lírios”. O vinho e os perfumes são privilegiados como matrizes de metáforas: 

Tuas carícias são mais deliciosas que o vinho; 
teus perfumes, mais aromáticos que todos os bálsamos. 
Teus lábios, minha noiva, destilam néctar; 
Em tua língua há mel e leite. 
(…) 
Teu umbigo é uma taça redonda: 
não lhe falte vinho mesclado! 

Outra esfera traz imagens da civilização urbana e suas criações, e através delas a comparação com artefatos citadinos: os quadris a colares, o pescoço a uma torre de marfim, as madeixas a fios de púrpura, o nariz à torre do Líbano, culminando com a equiparação da Amada tanto às parelhas das carruagens do Faraó quanto a Jerusalém, capital e sede sagrada do povo hebreu. 

Entremeadas à esfera agropastoril, que era sobretudo a da cultura do povo de Israel, e à urbana, surgem ainda metáforas cósmicas: nelas a Amada assemelhando-se à aurora, à luz, ao sol, às constelações. 

A Amada se dirige ao Amado, ou a ele se refere, em declarações cheias de ardor. E profere igualmente o elogio do amor em termos abstratos e que não poderiam ser mais inflamados: 

Porque é forte o amor como a morte, 
e a paixão é violenta como o abismo: 
suas centelhas são centelhas de fogo, 
labaredas divinas. 
Águas torrenciais não conseguirão apagar o amor, 
nem rios poderão afogá-lo. 

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de um dos mais antigos poemas de amor da história da humanidade, e um dos mais belos, deu origem a uma farta linhagem, não só de traduções e adaptações, como de paráfrases e citações. Para o português, contamos com bela edição de 1944, contendo traduções completas de João de Deus, José Benedito Cohen e Jamil Almansur Haddad, com erudita introdução de José Pérez. Antes disso eram lidas as versões novecentistas de Ernest Renan, uma integral, a outra com cortes e explicações. 

Entre nós, um leitor de Renan, Machado de Assis, não desdenhou de escrever um conto chamado “Cantiga de esponsais”. Nele se vislumbra a presença do poema, entrevisto lá atrás como pano de fundo induzido pelo título. O conto passa a contrastar a falta de inspiração do velho músico viúvo – padecendo de bloqueio criador e nem sequer podendo terminar a peça nupcial que começara a compor em sua já remota lua-de-mel – e o enlevo de um parzinho recém-casado, que ele espreita da janela. 

Manuel Bandeira compôs um belíssimo poema dialogado, homônimo ao da Bíblia (“- Quem me busca a esta hora tardia? / – Alguém que treme de desejo.”), recolhido em “Belo belo”. E dentre os mais famosos na nossa literatura é o epitalâmio com que o modernista Oswald de Andrade brinda o amor por sua última esposa, Maria Antonieta d’Alkmin, intitulado bem brasileiramente, ao pôr em cena os instrumentos musicais de uma seresta tocada por chorões, “Cântico dos Cânticos para flauta e violão”. Uma sequência de poemas organizados em ciclo, formando igualmente uma suíte ou rapsódia, composta por várias partes com títulos próprios, mimetiza de perto o modelo bíblico. Aqui, o nome da Amada serve para rimar com a primeira pessoa da voz lírica, em meio a metáforas cósmicas como neste trecho: 

Toma conta do céu 
Toma conta da terra 
Toma conta do mar 
Toma conta de mim 
Maria Antonieta d’Alkmin! 

A atribuição de autoria ao grande rei Salomão, como vimos, decorre apenas do fato de seu nome ser mencionado no texto e de ser referido como poeta na Bíblia. E o único nome de mulher presente é o de Shulamit, ou Sulamita, que é o feminino de Salomão. Para aumentar a confusão, há muitas eras que o verso Nigra sum sed formosa (sou negra mas formosa), como se tornou conhecido na versão latina da Vulgata, transformou-se em mote literário. Assim dando ensejo a que a alusão à cor fosse vista não apenas como o bronzeado advindo da exposição da pastora ao sol, erigindo-se em discutível referência à rainha de Sabá, que era etíope, e a quem se atribuem legendários amores com Salomão. 

Mas essas não são as únicas leituras que o poema permite. Há séculos que outras, mais alegóricas, existem e são tidas em grande conta no corpus exegético de diferentes religiões, tendo gerado milhares de páginas de interpretações. 

Se entre muitos povos o céu é visto como parceiro sexual da terra, sobre a qual se debruça ao abraçá-la, ambos foram frequentemente divinizados enquanto atores de uma hierogamia. Também o Cântico dos Cânticos foi estimado como uma alegoria das relações entre um rei (o Amado) e a coletividade de seus súditos (a Amada), ou então entre Jeová e Israel, sua terra e seu povo. E, na vigência do cristianismo, tornou-se moeda corrente a leitura do poema como um elogio das relações amorosas entre Cristo e sua Igreja. Não poucas Bíblias trazem especificações e notas detalhando essas relações, que ficam no mínimo bizarras num texto de tão alta voltagem erótica. 

Entretanto, uma obra vetusta como essa e justamente considerada como um feito excepcional de poesia só poderia gerar múltiplas interpretações, sem excluir as que ainda se farão no futuro.

 

HAI-CAIS de edu hoffman

fiquei à esmo

 

    tomando cerveja 

 

   comendo torresmo

 

 

=

 

 

                   tempo nublado

 

               as nuvens da solidão

 

                   trazem o frio

 

 

=

 

 

               dos tempos cinza

 

            pássaros machucados

 

               se fizeram vôo

 

 

=

 

 

               chuva de janeiro

 

             vento forte derruba

 

              o topo do pinheiro

 

 

=

 

 

 

               manhã ao vento

 

          na chuva os utensílios

 

            soltam-se de mim

 

CIGARRAS NO APOCALIPSE poema de bárbara lia

Quando o poema emerge,

Estridente,

Emudece o verão

Escurece a primavera

Incendeia o outono

 

 

Poetas são cigarras

No apocalipse

Sempiterno som

Canto que incomoda ecoa

Em muralhas pagãs

Invade corredores

Cola ao som o hortelã

Das festas de antes

Arranca lágrimas cinzas

No silêncio laranja

De Guantánamo

 

 

O som ardido trinca o sol

Escorre gema zelosa

Na chaga das crianças

Da África inteira

Canta a primavera afogada

Da vida ceifada.

 

 

A cigarra segue

No apocalipse sem volta

Anoitece areias de Fallujah

Todas as ruas da Faixa de Gaza

A cigarra cerra o cadavérico olhar

Das meninas da Palestina e do Iraque.

 

 

Cigarras no apocalipse

São poetas em desalinho

Gestados no ventre escuro

Ninfas subterrâneas

Emergem em canto e vôo

Ao som da trombeta

De um anjo sem olhos.