A MÃE (conto angolano) por vera lúcia kalaari (Portugal)

 

Esse era o dia em que Saiengue, o soba de Camanongue, esperava a chegada de seu filho único, vindo da cidade.

O rapaz partira há seis anos e agora todos aguardavam o seu regresso: o pai, a velha mãe, a mulher, o filho e a filha. Nesses seis anos nenhum deles o vira e assim cada um o esperava anciosamente.

A cubata erguia-se a certa distância do povoado, longe da única estação, e por isso não podiam saber a hora exacta da chegada. Era uma pequena casa muito limpa, no meio de um extenso mangueiral, alinhado nas margens do rio. Do outro lado erguiam-se verdejantes montanhas que se perdiam em picos altos e nublados. No tempo do frio, o rio corria remansoso e pouco profundo. Mas quando as chuvas chegavam das serranias, as águas cresciam assustadoramente, lamacentas e escuras.

Todos se haviam vestido mais cedo e ficaram sentados pacatamente à espera. Lá estava o velho pai, a barba branca destacando-se no rosto negro e grave. Era um homem respeitado naqueles lugares.

Hoje, porque seu filho único voltava, pusera o seu melhor pano, que comprara há anos na cidade.

Ao lado do velho, sentava-se a mulher, a única que tivera em toda a sua vida, porque havia sido uma boa companheira, dócil e trabalhadora. Numa pedra mais baixa, sentava-se a nora, companheira do seu filho. Segurava uma fita longa de missangas, e seus dedos hábeis iam tecendo um cinto largo de cruzes miúdas, em carmesim. O seu rosto, nem feio nem bonito, denotava a ansiedade febril que a tomava. De vez em quando baixava-se para dizer qualquer coisa à pequenita que lhe brincava aos pés. Mais longe, debaixo de uma grande mangueira, um rapazito esguio tentava colher um fruto dourado. O velho tinha os olhos fitos no rapaz, mas via-se que o seu pensamento estava distante.

A velha mãe virou-se para a nora e perguntou:

-Compraste o peixe na loja do Calonjere?

-Sim, minha mãe, tratei de tudo.

Na obscuridade da porta os seus olhos brilhavam na face escura.

O miúdo escorregou, caíu e começou a chorar desalmadamente. A jovem mulher levantou-se rapidamente e limpou-lhe os calções do pó.

-Cala-te!Teu pai está prestes a chegar e não gostará de te encontrar assim!

O rapaz limpou as lágrimas com as mãos e sentou-se calmamente no capim áspero. O velho olhou o neto, alisou a barba branca e, sorrindo, disse:

-Calomanga ficará satisfeito por ter à sua espera dois filhos como estes.Ele te agradecerá a maneira como trataste seus velhos pais nestes longos anos. Foi um bom dia aquele em que te trouxe para esta casa.

Mal havia acabado de proferir estas palavras, ouviu-se uma voz na curva do caminho. Era bem a voz de que eles se lembravam e que tanto desejavam ouvir, mas agora bem diferente das suas recordações.

-Aqui estou!

A velha mãe uniu as mãos com força sobre o regaço. O velho levantou-se rapidamente do chão. Os passos do recém-chegado ressoavam mais perto, na terra avermelhada. A mulher, que se deixara ficar sentada, de olhos fitos no solo, pôde ver os pés calçados de grossas botas e ouviu-o gritar:

-Meu pai! Mãe!

-Filho…-disse o velho-.

A sua voz tremeu e suavemente começou a chorar. A mãe acercara-se timidamente e tocou no braço do filho.

-Calomanga, estás diferente. Não pareces o mesmo!

-Mãe, seis anos não deixam ninguém na mesma – disse o rapaz numa voz clara e rápida.

Depois, acercou-se da jovem mulher que se mantivera imóvel.

-Então, Fuvuca, estás boa?

-Foi a melhor das filhas para nós,Calomanga-falou o velho.

-Sim?-interrompeu o jovem-.E onde estão os meus filhos?

-Estou aqui…

O pequeno abeirou-se lentamente e olhou aquele desconhecido, de sapatos de cabedal e de calças que eram de um tecido grosso e escuro, uma fazenda dos brancos. Clomanga passou-lhe a mão pelos cabelos ásperos , rindo.

-Então foi nisto que se transformou o pequeno choramingas que deixei?

A jovem mulher olhava-o agora abertamente. Sim! Como estava mudado! Seis anos na cidade haviam modificado seu marido, cheio de juventude e energia. Sentiu-se muito tímida e começou a chorar.

Após uma longa pausa, como se cada um tentasse adivinhar os pensamentos do outro, Calomanga começou a falar. Dir-se-ia que falava apenas para preencher o vácuo que se estendia sobre eles.

-Como é bom estar de volta! É pena continuar tudo tão atrasado!

-Estamos na mesma – respondeu o velho pai, permanecendo um pouco pensativo.

-Pois é…Habituado como estou à cidade, tudo me parece bem diferente – estas últimas palavras foram ditas com um certo ar de troça -.

Fuvuca sentiu um leve aperto no coração e, silenciosamente, afastou-se.

……………………………………………………………………………………………………….

Calomanga havia distribuído os presentes que trouxera.

A jovem esposa retirara-se para um canto, olhando o marido e os filhos que o cercavam.

-Pai…tenho uma coisa para lhe dizer…

O velho estremeceu e puxou com força a manta que lhe escorregava nas pernas. A fogueira bruxuleava, pondo sombras grotescas nas mangueiras que se erguiam em copas cerradas.

-O pai sabe… – continuou o filho -. Na cidade vêm-se muitas coisas. Já não poderei ficar aqui. Acostumei-me a outra vida. Vim, para levar os meus filhos, para metê-los na escola dos brancos.

Os pequenos começaram aos pulos, a gritarem radiantes.-

-Irei no comboio…Irei no comboio…

A miúda agarrou-se ao pai e perguntou anciosamente:

-Eu também vou?

-Sim, tu vais também – respondeu o pai com energia.

-E Fuvuca? – falou o velho mansamente.

-Bem…ela…pensei mandá-la de volta para o pai. Dar-lhe-ei dinheiro e nada lha faltará.

O pequeno Jamba virou-se para a mãe, os olhos brilhando de satisfação.

-Então irei para a escola! Sempre desejei isso!

Nenhum deles pensava em Fuvuca, reparava na sua expressão. Ninguém notou como ela tremia, a não ser o velho, que continuava sentado, acariciando a barba branca.

Calomanga, radiante com a alegria dos filhos, exclamou:

-Irás para a escola, verás grandes ruas, automóveis , tudo o que nunca viste até agora.

A criança não se pôde conter:

-Quando vamos? Eu quero ir já!

Fuvuca olhou para aquele filho que acalentara ao longo das noites, que bebera do seu leite. Lembrou-se de quando lhe limpava a boca gotejante de leite branco. Era então aquele o seu filho! Este, encontrando o olhar da mãe, confessou, pensativo:

-Sempre quis ir para a cidade, mãe!

Calomanga agarrava a filha, num gesto de posse. Então, a miúda encostando a cara ao pai, olhou, arrogante, para a mãe.

-Está claro que nada te faltará – dirigiu-se o homem para a jovem mulher -.Nunca passarás necessidades.

Fuvuca olhou-o com dignidade, mas ele nem reparou, enlevado como estava com os filhos. E sem que ninguém se apercebesse, a mãe saíu de casa. Sentou-se na pedra onde se sentara por tantos anos com os dois filhos. Num instante pensou no que seria a sua vida dali para o futuro. Sim! Já sabia qual o caminho a tomar. Levantou-se e caminhou silenciosamente para o rio que brilhava ao luar. Ainda ouviu a voz do filho, gritando alegremente:

-E posso também andar de carro?

O velho tinha começado a falar, numa voz triste e implorativa.

A água corria-lhe agora aos pés e sentiu o frio cortante do seu beijo. Lembrou-se por instantes que devia descer rapidamente e lançou-se convulsivamente para a frente. O rio abriu-se para a receber num abraço gélido. Como de muito longe, pareceu-lhe ouvir ainda a voz do filho, repetindo várias vezes, a rir:

-Irei de comboio…Irei de comboio…

Esta voz morreu ao longe e a jovem mãe nada mais ouviu.

As águas fecharam-se novamente e continuaram o seu serpentear tranquilo para o mar.

 

48149foto livre.

 

 

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