CIGARRAS NO APOCALIPSE poema de bárbara lia

Quando o poema emerge,

Estridente,

Emudece o verão

Escurece a primavera

Incendeia o outono

 

 

Poetas são cigarras

No apocalipse

Sempiterno som

Canto que incomoda ecoa

Em muralhas pagãs

Invade corredores

Cola ao som o hortelã

Das festas de antes

Arranca lágrimas cinzas

No silêncio laranja

De Guantánamo

 

 

O som ardido trinca o sol

Escorre gema zelosa

Na chaga das crianças

Da África inteira

Canta a primavera afogada

Da vida ceifada.

 

 

A cigarra segue

No apocalipse sem volta

Anoitece areias de Fallujah

Todas as ruas da Faixa de Gaza

A cigarra cerra o cadavérico olhar

Das meninas da Palestina e do Iraque.

 

 

Cigarras no apocalipse

São poetas em desalinho

Gestados no ventre escuro

Ninfas subterrâneas

Emergem em canto e vôo

Ao som da trombeta

De um anjo sem olhos.

 

 

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