LIRA DO JUBILO CARNAL por walnice nogueira galvão

No Cântico dos Cânticos, os olhos da amada são como os da pomba, os cabelos um rebanho de cabras, o hálito dela tem a fragrância das maçãs, e o talhe é como a palmeira cujos cachos lembram seus seios, que parecem um par de cabritos, ou gazelas gêmeas.

Um dos livros constitutivos do Antigo Testamento, o Cântico dos Cânticos pode ser considerado como um patrimônio da humanidade. Esse notável poema tem resistido à usura das eras que, no seu caso, se medem em termos de milênios. A exata idade da composição se perde na noite dos tempos. Entretanto, uma das hipóteses mais aceitas, no âmbito de um antigo debate em que opiniões contraditórias abundam, situam-no, com base no exame de suas peculiaridades linguísticas, entre os séculos V e IV antes de Cristo.

Representante da poesia lírica bíblica, honra que partilha com o livro dos Salmos, também conhecido como “Salmos de Davi”, é o único caso de discurso erótico nas Sagradas Escrituras.

Mesmo aceitando a datação acima sugerida, vemo-nos diante de fixação tardia, obtida por uma redação que amalgamou e assentou formas orais anteriores, fenômeno corrente na literatura da Antiguidade. Nesse sentido, fica evidente, sobretudo através da comparação com outros acervos literários, estarmos às voltas com uma compilação de antigas canções nupciais, compostas em honra de uma Noiva e de um Noivo, ambos encarnando o ressurgimento da vida na terra quando a primavera retorna após a esterilidade hibernal. Nas palavras do poema:

Eis que o inverno já passou,
cessaram as chuvas e se foram.
No campo aparecem as flores (…)
Da figueira brotam os primeiros figos

A eclosão da natureza em flores e frutos era então celebrada com ritos propiciatórios, que incluíam a conjunção carnal de casais jovens, vestígios que ainda se encontram nos países europeus nas chamadas “festas de maio”. Nessas, rapazes e moças dançam em torno de um mastro engalanado, representação comuníssima na iconografia medieval e encontradiça em certo tipo de poesia popular da época tida como licenciosa – a dos clérigos vagantes ou goliardos, a exemplo dos afamados Carmina Burana.

O júbilo dos esponsais, a alegria do exercício dionisíaco da sexualidade, comandada pela natureza e responsável pela regeneração dela, aglutina nesse tipo de poesia o cunho profano à elevação sacra. Pois a união, muitas vezes exercida nos próprios campos que objetivava fecundar, podia alçar-se à transcendência de uma hierogamia. Como diz a Amada:

O verde gramado nos sirva de leito!
Cedros serão as vigas de nossa casa,
E ciprestes as paredes.

A musa erótica, por sua vez, é um registro de poesia lírica muito praticada na Antiguidade, e dentre suas espécies conta-se o epitalâmio, como seu nome indica criado para festejar a ocorrência de um matrimônio. Costumava ser entoado por um coro às portas da câmara nupcial. Entre seus cultores gregos encontram-se a famosa poetisa Safo e seu contemporâneo Alceu, ambos do século VI a.C., afora Anacreonte, Teócrito e Píndaro.

Embora o Cântico dos Cânticos seja tradicionalmente atribuído a Salomão, os eruditos acautelam-nos para o fato de que tal autoria é infundada, porque induzida apenas pela presença do nome desse rei no texto, igualmente conhecido como “Cantares de Salomão”. De qualquer modo, o título Cântico dos Cânticos torna-se um superlativo e aponta para a reputação de excelência do poema quando comparado a seus pares, destacando-se dentre os demais.

O que não há dúvida é de que se trata de um poema – ou melhor, uma suíte ou rapsódia de poemas – de amplitude étnica. Assim como há epopéias que fundam uma nacionalidade, a exemplo da Ilíada e da Odisséia para os gregos, ou de Gilgamesh para os babilônios, ou mesmo do Antigo Testamento para o povo hebreu, aqui temos seu poema erótico.

Composto em forma de diálogo entre a Amada, o Amado e o Coro, o poema celebra amores numa dicção exaltada e bem pouco camuflada, servindo-se do recurso do paralelismo, ou repetição de uma mesma fórmula sintática na construção do verso, usual na literatura oral, e sobretudo na Bíblia, por suas virtudes mnemônicas.

Parte considerável do encanto do poema decorre da força de suas imagens e metáforas, o mais das vezes inusitadas, fazendo-nos penetrar num outro universo estético, para nós totalmente perdido não fora a Bíblia: vejam-se as análises de Northrop Frye. Para que a estranheza não nos feche as portas à fruição das belezas do poema, vale a pena examinar com mais vagar tais imagens.

O primeiro elemento que salta aos olhos é a equiparação entre o corpo da Amada e um jardim, por sua vez um arquétipo da literatura ocidental. É desse paradigma que emanam diversas metáforas, as quais por sua vez estréiam, embora apenas embrionariamente, logo no Gênesis, livro inicial da Bíblia e, como seu título indica, uma cosmogonia implicada numa narrativa das origens da humanidade. No Gênesis há um jardim, o Éden, presidido por um ser feminino, Eva, mãe de toda a espécie humana, e indissoluvelmente ligada no imaginário àquele jardim. Mais um passo a ser dado e teremos o jardim como metáfora da mulher.

A metáfora é explicitada por inteiro logo de saída: “És um jardim fechado,/ minha irmã e minha noiva” (Cap. 4, 12-16). O vergel onde jorra um manancial se tornaria uma das metáforas seminais da literatura ocidental e, convergindo com a poesia bucólica de Roma, ficaria conhecido como o tópico do locus amoenus (lugar ameno), estudado por E. R. Curtius, gerando farta descendência em várias línguas e literaturas. Se preferirmos a versão latina do Cântico dos Cânticos, falaremos de hortus conclusus (horto concluso), ou o “jardim fechado” supracitado.

Daí decorrem as várias imagens típicas de um povo de pastores e lavradores, que identificam, sucessivamente, a Amada com a rosa de Sharon e com um lírio do vale entre os espinhos que são suas amigas, seus seios com um par de cabritos uma vez e outra vez com gazelas gêmeas. Atribuem-lhe ainda olhos como os da pomba, cabelos como um rebanho de cabras, faces como metades de romã, hálito como a fragrância das maçãs, talhe como o da palmeira (símile retomado em Iracema, de José de Alencar), cujos cachos, tanto quanto os da videira, lembram seus seios. 
Se a correspondência primordial se faz com o Éden, portanto numa esfera paradisíaca onde os frutos da terra medram sem que seja necessário cultivá-los, já outras comparações relevam do propriamente agropastoral, derivando do trabalho humano. Noivo e Noiva são pastores, sendo o Amado uma “macieira entre árvores silvestres”, seu nome mais aromático que os perfumes e suas carícias mais suaves que o vinho. Quanto à Amada, seus dentes são “um rebanho de ovelhas tosquiadas” e o ventre “um monte de trigo,/ cercado de lírios”. O vinho e os perfumes são privilegiados como matrizes de metáforas: 

Tuas carícias são mais deliciosas que o vinho; 
teus perfumes, mais aromáticos que todos os bálsamos. 
Teus lábios, minha noiva, destilam néctar; 
Em tua língua há mel e leite. 
(…) 
Teu umbigo é uma taça redonda: 
não lhe falte vinho mesclado! 

Outra esfera traz imagens da civilização urbana e suas criações, e através delas a comparação com artefatos citadinos: os quadris a colares, o pescoço a uma torre de marfim, as madeixas a fios de púrpura, o nariz à torre do Líbano, culminando com a equiparação da Amada tanto às parelhas das carruagens do Faraó quanto a Jerusalém, capital e sede sagrada do povo hebreu. 

Entremeadas à esfera agropastoril, que era sobretudo a da cultura do povo de Israel, e à urbana, surgem ainda metáforas cósmicas: nelas a Amada assemelhando-se à aurora, à luz, ao sol, às constelações. 

A Amada se dirige ao Amado, ou a ele se refere, em declarações cheias de ardor. E profere igualmente o elogio do amor em termos abstratos e que não poderiam ser mais inflamados: 

Porque é forte o amor como a morte, 
e a paixão é violenta como o abismo: 
suas centelhas são centelhas de fogo, 
labaredas divinas. 
Águas torrenciais não conseguirão apagar o amor, 
nem rios poderão afogá-lo. 

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de um dos mais antigos poemas de amor da história da humanidade, e um dos mais belos, deu origem a uma farta linhagem, não só de traduções e adaptações, como de paráfrases e citações. Para o português, contamos com bela edição de 1944, contendo traduções completas de João de Deus, José Benedito Cohen e Jamil Almansur Haddad, com erudita introdução de José Pérez. Antes disso eram lidas as versões novecentistas de Ernest Renan, uma integral, a outra com cortes e explicações. 

Entre nós, um leitor de Renan, Machado de Assis, não desdenhou de escrever um conto chamado “Cantiga de esponsais”. Nele se vislumbra a presença do poema, entrevisto lá atrás como pano de fundo induzido pelo título. O conto passa a contrastar a falta de inspiração do velho músico viúvo – padecendo de bloqueio criador e nem sequer podendo terminar a peça nupcial que começara a compor em sua já remota lua-de-mel – e o enlevo de um parzinho recém-casado, que ele espreita da janela. 

Manuel Bandeira compôs um belíssimo poema dialogado, homônimo ao da Bíblia (“- Quem me busca a esta hora tardia? / – Alguém que treme de desejo.”), recolhido em “Belo belo”. E dentre os mais famosos na nossa literatura é o epitalâmio com que o modernista Oswald de Andrade brinda o amor por sua última esposa, Maria Antonieta d’Alkmin, intitulado bem brasileiramente, ao pôr em cena os instrumentos musicais de uma seresta tocada por chorões, “Cântico dos Cânticos para flauta e violão”. Uma sequência de poemas organizados em ciclo, formando igualmente uma suíte ou rapsódia, composta por várias partes com títulos próprios, mimetiza de perto o modelo bíblico. Aqui, o nome da Amada serve para rimar com a primeira pessoa da voz lírica, em meio a metáforas cósmicas como neste trecho: 

Toma conta do céu 
Toma conta da terra 
Toma conta do mar 
Toma conta de mim 
Maria Antonieta d’Alkmin! 

A atribuição de autoria ao grande rei Salomão, como vimos, decorre apenas do fato de seu nome ser mencionado no texto e de ser referido como poeta na Bíblia. E o único nome de mulher presente é o de Shulamit, ou Sulamita, que é o feminino de Salomão. Para aumentar a confusão, há muitas eras que o verso Nigra sum sed formosa (sou negra mas formosa), como se tornou conhecido na versão latina da Vulgata, transformou-se em mote literário. Assim dando ensejo a que a alusão à cor fosse vista não apenas como o bronzeado advindo da exposição da pastora ao sol, erigindo-se em discutível referência à rainha de Sabá, que era etíope, e a quem se atribuem legendários amores com Salomão. 

Mas essas não são as únicas leituras que o poema permite. Há séculos que outras, mais alegóricas, existem e são tidas em grande conta no corpus exegético de diferentes religiões, tendo gerado milhares de páginas de interpretações. 

Se entre muitos povos o céu é visto como parceiro sexual da terra, sobre a qual se debruça ao abraçá-la, ambos foram frequentemente divinizados enquanto atores de uma hierogamia. Também o Cântico dos Cânticos foi estimado como uma alegoria das relações entre um rei (o Amado) e a coletividade de seus súditos (a Amada), ou então entre Jeová e Israel, sua terra e seu povo. E, na vigência do cristianismo, tornou-se moeda corrente a leitura do poema como um elogio das relações amorosas entre Cristo e sua Igreja. Não poucas Bíblias trazem especificações e notas detalhando essas relações, que ficam no mínimo bizarras num texto de tão alta voltagem erótica. 

Entretanto, uma obra vetusta como essa e justamente considerada como um feito excepcional de poesia só poderia gerar múltiplas interpretações, sem excluir as que ainda se farão no futuro.

 

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