SENDO, TERÃO NASCIDO! poema de jb vidal

  

para meus filhos Diego, Gustavo e João Paulo

 

                                                                            

                                                                                                                                  

 

 

 

 

meninos travessos

levados

 

lindos

 

meninos puros

sedentos de viver

 

aprenderão como

 

garotos danados

amores de todos

ingênuos

anjos na rua

 

livres?

 

donos de si

sabem de tudo

e de nada

aprenderão

que é preciso

ser duro

sorrir

tocar as mãos

cavalgar as montanhas

segurar as nuvens

correr sobre os mares

viajar com os pássaros

 

endurecer-se mais

mais amar

fazer o tempo

combater o trovão

adormecer livre

para acordar

 

um novo homem

 

 

 

jb vidal –     (1990)

5 Respostas

  1. Concordo, até um certo ponto, com os comentários do João Batista e da Marilda. Quem, quando faz um filho, por acaso ou por querer, tem no pensamento, que esse novo ser será o seu contributo para uma espécie humana futura, melhor do que nós? Concordo que exista, isso sim, esse instinto primitivo de que nem nós próprios nos apercebemos, de dar continuidade à nossa existência na terra. Concordo também que cada minúscula célula de cada ser vivo, contém, milhares, milhões, sei lá bem, de características hereditárias que vão de memórias, traumas, dons, vícios, defeitos, qualidades e
    até taras. Aí, sim, é que entra a verdadeira missão dos pais: Tentar construir esses novos homens, quase super -homens nos novos tempos, para tentarmos, repito, tentarmos, que consigam ser aquilo que nós, por mais que
    tivessemos lutado e esforçado, não conseguimos. Mas mesmo isso é tao complexo, que temos a cada passo exemplo de ”ninhadas”, criadas da mesma forma, pelos mesmos progenitores, no mesmo ambiente, serem completamente diferentes: uns, a conseguir ser aquilo que nós sonhámos ser um dia, em perfeição, em caracter, numa
    palavra, em tudo. E outros a serem tudo aquilo que para nós, sempre constituiria um pesadelo. Como explicar isto?
    Que o nosso papel, afinal, consiste apenas na conservação da espécie. E a partir do momento em que é cortado o cordão umbilical , o novo ser é imediatamente entregue a si próprio e ao seu livre arbítrio. Só deles depende de se transformarem nos filhos a milénios luz de
    nós próprios, em força de caracter, espírito de luta, vencedores, enfim, os criadores dum novo mundo, aquele
    pelo qual lutámos toda a vida, ou a antítese não só disso
    como de nós próprios. Eu acredito na reencarnação. Chamem-me o que quiserem. E acredito, isso sim , que servimos apenas de receptáculos , homem e mulher, cada um no seu papel interveniente, mas quando cada embrião
    chega às nossas mãos, estão apenas a percorrer mais uma etape nessa longa estrada para a plenitude da perfeição. Depende, sim, deles, atingirem tal meta, e do percurso que anteriormente já tenham efectuado.
    Seja este um conceito absurdo, mas é o meu conceito do
    nosso papel nesta vida.

  2. É… eu também acredito que a eternidade se materializa nos filhos…

  3. Tenho comigo a impressão de que nunca morremos quando temos filhos… Aliás, não é só uma impressão é uma certeza. Sei que sou eterno… E o sou exatamente porque tenho filhos.
    Aos meus olhos, o “campo significante” deste poema de JB Vidal concretiza-se exatamente nessa filosofia: a eternidade do ser.
    Não temos filhos para agradar a ninguém… Não temos filhos porque somos homem ou mulher… não temos filhos porque somos machistas ou feministas… não temos filhos para perpetuar a espécie…
    Temos os filhos para nos perpetuar!!! Estranhamente, com isso, perpetuamos a espécie… Mas esta é, em nós, subsumida diante do universo que criamos em cada filho… E assim nos tornamos a imagem e semelhança de Deus… E assim, eternizados nos nossos filhos somos Deus e Diabo!!!
    Mas se olharmos um pouquinho mais atenta e profundamente para o epicentro deste poema de JB Vidal verificamos que nele está implícito o “cadinho” nietzscheriano do poeta que grita ao mundo a supremacia e a superioridade de um possível “super homem” de si:

    “(…)

    donos de si

    sabem de tudo

    e de nada

    aprenderão

    que é preciso

    ser duro

    sorrir

    tocar as mãos

    cavalgar as montanhas

    segurar as nuvens

    correr sobre os mares

    viajar com os pássaros

    endurecer-se mais

    mais amar

    fazer o tempo

    combater o trovão

    adormecer livre

    para acordar

    um novo homem”

    Nesses versos o poeta digladia com o humano de si para se recriar num antihumano, ou seja, num novo homem, por intermédio da sua criação: os filhos – apontando-lhes caminhos que deverão ser trilhados como donos de si e sabedores de tudo e de nada… Não é pois saber tudo e nada o grande mistério de ser um Deus ou um Diabo. É claro que sim! E eis exatamente aqui a magia da procriação: Sei tudo e nada dos meus filhos, super homens de mim que SENDO, TERÃO NASCIDOS esse possível “novo homem”.

    Um grande abraço.
    Parabéns pelo poema.
    João Batista do Lago

  4. Por esta liberdade, lutamos nós toda a vida. Espero que seus filhos, inspiradores deste belo poema , já que passados foram mais de dez anos, tivesses conseguido essa liberdade que você, como pai, almejou para eles.
    Um abraço

  5. Tal pai…, tais filhos. Segurar as nuvens, combater o trovão, viajar com os pássaros. Que seria do homem sem o mágico passaporte da poesia. Vidal, pai coruja, é imprescindível congelar teus cromossomos.

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