Arquivos Diários: 5 abril, 2009

DE PARIS crônica de hamilton alves

Quando cheguei aqui nenhuma surpresa. Era como já tivesse vindo muitas vezes a essa cidade, que merece inteiramente o nome de “cidade luz”. À noite, as luzes espocam por toda parte. É um feerismo que, acredito, não se vê em parte alguma do planeta.

                                               Quando saí do Brasil para cá tinha lido não sei onde (creio que foi num livro de ensaio de Kundera) que “Paul Verlaine morreu num hotel modesto de Paris”.

                                               Perguntei ao taxista que me levou do aeroporto a um hotel em Montmartre:

                                               – Você sabe alguma coisa sobre o lugar em que teria morrido Verlaine?

                                               – Não, nada sei. – disse, lacônico.

                                               Como poderia saber? Ou será verdadeira a história que um amigo que morou muitos anos aqui me contou que travou com um garçom de restaurante que tinha um grande conhecimento sobre literatura? E artistas em geral?

                                               O taxista, que entrevistei, parecia desinformado sobre dados a respeito de artistas. Ou de Verlaine em especial. Nada sabia de sua existência.

                                               Meu interesse em Paris é cultural. Nada mais. Conhecer a cidade, os lugares, museus, restaurantes, cafeterias famosos está na linha de meu objetivo. Por onde passaram ou viveram escritores, pintores, músicos, atores – isso procuro afanosamente saber.

                                               De repente, posso conhecer um grande poeta. Achar um livro de sua autoria numa livraria. Um poeta que não chegou ainda à fama. Ou não seja muito cortejado por parisienses. Me proponho a um tetê-à-tête com ele num local qualquer.

                                               De certo, não recusaria um convite desses. Trocaríamos ideias. Me falaria de seu modo de compor ou conceber a poesia; lhe falaria de outro tanto; lhe daria de presente meu último livro  -“Homenzinho na madrugada”, com uma capa belíssima de um grande artista ( assim pouco reconhecido entre nós) – Jair Platt – que se foi deste mundo como chegou – sem nome algum.

                                               Jair era refratário à fama ou à badalação. Era de sua natureza simples e arredia.

                                               Estou já há dias em Paris.

                                               Ainda não encontrei esse poeta. Ou um grande pintor. O que tenho visto de obras de artistas à margem do Sena me parece de pouca ou nenhuma qualidade.

                                               Cadê a grande revelação na poesia ou na pintura?

                                               Obviamente, numa estada curta como essa não vai dar para encontrar esse poeta ou esse pintor com que sonho. Deve andar neutro e esquivo pelas ruas da cidade, sem se fazer notar, como foi o caso mais recente (ou não tão recente assim) de Jacques Prévert, que vivia oculto ou era pouco popular.

Artistas são, de um modo geral, seres estranhos.

                                                – Paris, Paris, Paris… – perdoem-me – há um ligeiro equívoco! Sonhei, certamente, que estava pela primeira vez percorrendo as ruas dessa cidade. Andava em busca do grande poeta ou do grande pintor. Seres que evidentemente não existem mais. Ou se ocultam. Quem é que saberá?

 

 

(março/09)                 

 

 

 

 

Iluminai-vos! por alceu sperança

As crianças se tornam poderosos defensores do Bem quando em seus videogueimes se abalam a dramáticas tentativas de derrotar seus vilões preferidos.

Os adultos também fazem seus jogos. Através das teorias da conspiração, por exemplo, pode-se escolher uma raça (judeus, índios) para atacar como sendo a coisa maldita que nos oprime e ameaça – a nós, a raça pura e honesta, que somos, obviamente, o Bem.

O governador Roberto Requião negou apoio ao presidenciável Geraldo Alckmin, nas eleições de 2006, porque este é “do capeta” e nós, evidentemente, somos do lado de Deus.

Nada diferente do videogueime da piazada: eu sou o bonzinho do Bem e o árabe, o cacique Kretã, o Judeuzão, é o capetão que eu vou combater entre zaps, ziins e pows!

Recebi um e-mail anônimo me alertando para deixar de ser burro e perceber que minha “ideologia” (marxista) foi criada por uma turma de judeuzões do mal. Os mesmos que segundo um tal “Protocolo dos Sábios de Sião”, também desgraçam a nossa vida com tudo que de ruim acontece neste mundo.

Cada um joga o jogo infantil que lhe apetece. Não é preciso teoria da conspiração nenhuma para perceber quem domina o mundo na atual etapa da humanidade: é o capitalismo em sua fase neoliberal, que se expressa de diversas formas.

Aumenta a pobreza. Arrasa o meio-ambiente. Manipula eleições criando dois pólos de disputa que defendem o mesmíssimo programa. Faz o banco lucrar e o mercadinho da esquina quebrar. Promove o desemprego na cidade e não deixa ninguém trabalhar no campo… e vai por aí.

A teoria da conspiração – uma rede de sociedades secretas comandaria todo o mundo há séculos – é um joguinho muito do besta. Geralmente é uma ficção que parte de uma verdade completa – uma data, um fato histórico – e a partir daí se desdobra em meias-verdades até chegar a fantasias inteiras, como a origem extraterrestre, ou seja, desumana, dos “dominadores” (as raças odiadas).

Seria apenas um jogo idiota se não fosse perigoso: ele faz com que o jogador se sinta um simples marionete dessa tamanha rede de dominação racial e política:

“Nada que eu possa fazer em minha comunidade vai afetar essa dominação de judeuzões mauzões descendentes de lagartos extraterrestres. Por isso, o jeito é eu me neoliberalizar de uma vez e ir lá beliscar a minha parte no bolo dessa corrupção toda”.  

O videogueime adulto da teoria da conspiração só tem uma vantagem: como se trata de fantasias amalucadas e mirabolantes, você pode falar mal do inimigão e combatê-lo sem o menor risco, pois ele jamais vai revidar.

Claro, ele é secreto: se aparecer por aí aos tapas com os teóricos da conspiração, vão abrir seu jogo e tornar a brincadeira revelada e chata. Só acontece nos filmes.

Nos videogueimes, as crianças sempre derrotam o Mauzão. Mas no jogo infantil dos adultos, os iluminados inimigos sempre vencem. E ao vencer nos dizem:

“Não adianta lutar contra nós. Nossa rede de segredos e tramas é demais para você, reles mortal! Anda, abandona essa ideologia marxista e caia de vez nas riquezas e maravilhas neoliberais!”

Só que o marxismo não é ideologia, cara-pálida. É um método de análise que todos, do padre ao professor, passando pelo aprendiz e pelo cientista, usam modernamente para qualquer estudo que se faça. E esse jogo, senhor Zorro, apesar de suas pistolas mortíferas, nós já vencemos!


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES (05.04.09) – por juca (josé zokner)


Constatação I (Falando da frágil paz ou dos preparativos das guerras).

Os tratados

Antes solidificados,

Foram abandonados,

Mal falados,

Vilipendiados,

E acabaram liquidificados.

Constatação II (Meio ambiente).

Dizia o jardineiro,

Poetando:

“O pinheiro

Solta grimpas*

Supimpas;

Solta pinhão

Que é uma obra-prima

De formatação

Da mãe natureza

Ou Daquele lá de cima.

Com toda a certeza,

Foi gerado com poesia

Com rima

Que, nos campos,

Naquela era

Havia

Outra atmosfera:

Pirilampos

Piscando;

Sapos coaxando;

Corujas crocitando;

Cigarras cantando;

Grilos

Com seus estrilos.

É, tudo isso,

Toda essa cena,

Algum dia,

Ainda se via.

Pena!

*Grimpa = Ramo do pinheiro.

Constatação III

A freqüência

Naquele bar

É uma indecência,

Disse a solteirona,

Sentada na poltrona,

Olhando pela janela

Do quarto dela.

Só tem homem acompanhado,

Com cara de enfastiado,

Que comigo não daria par.

Constatação IV (Tragédia do cotidiano).

Com o passar do tempo, com o avanço cronológico da idade, os cônjuges continuaram a dormir na cama de casal. Mas havia como uma espécie de muro de Berlim virtual no meio do assim chamado leito nupcial: Ele nem, ao menos, chegava a passar a mão na abundância dela; ela nem chegava a roçar no seu maior patrimônio. Coitados!

Constatação V

Desacato a uma autoridade é quando você não chama:

-Um juiz de meritíssimo;

-Um reitor de magnífico;

-Um cardeal, ou bispo de reverendíssimo;

-Um deputado ou senador de Vossa Excelência, ao invés de nominar, como os franceses, que se reportam a todos os cidadãos, sem distinção, de senhor e senhora.

Constatação VI

Estava num baita dilema,

Sem dúvida um problema,

Queria provar por teorema,

Sem ser apelativo,

Se uma prevaricação

Ajudaria

A reciclar a libido, ou não

O que seria,

Em caso positivo,

Uma excelente solução.

Constatação VII (Poeminha atrapalhado, aloprado sem muito pé e muito menos cabeça).

Constrito,

Depois de ouvir

Um grito

Sair

Da boca do lobo

Ou da boca-de-lobo

Já nem me lembro mais

Ando esquecido demais

Confuso,

Meio bobo,

Obtuso

Será que é o fuso?

Ou o horário de verão

Puxa! Que confusão

Vou ficar é calado

Antes que eu seja internado

Em vários asilos,

Por causa dos meus grilos,

Sem

Que alguém

Tenha pena de mim.

Fim.

Constatação VIII

Rico semeia uma rosa, dos ventos, e colhe uma brisa de pétalas; pobre, semeia uma rosa, dos ventos, e colhe uma tempestade de espinhos.

Constatação IX

Um dos exemplos de humanismo, amizade e paixões do povo italiano é o que se pode encontrar nos livros do escritor Giovanni Guareschi, principalmente naqueles cujos personagens principais são o padre Dom Camilo e o comunista Peppone. Leitura obrigatória, como diriam os críticos.

Constatação X (De dúvidas cruciais).

Foi o concerto para a mão esquerda, de Maurice Ravel, que foi vetado pelos políticos da assim chamada Direita? E foi durante a execução de Os pinheiros de Roma, de Ottorino Respighi, que caíram umas grimpas na cabeça do regente? E, mais ainda, foi na Valsa das flores, de Piotr Ilich Tchaikovsky que a rosa brigou com o cravo, debaixo de uma sacada?

Constatação XI (De uma dúvida crucial via pseudo-haicai).

Mudança de atitude

Da regra do jogo, durante

O seu transcurso, é ilicitude?

Constatação XII

Foi a polva que, no bem-bom, disse pro polvo:

“Bem, isso de agora passar um dos tentáculos

Na minha bun, digo nuca, depois eu resolvo”?

Constatação XIII

Foi o caminhante,

Seguindo a trilha,

Que, de repente,

Apareceu

Numa ilha

E nada mais entendeu?

Constatação XIV (Ah, esse nosso vernáculo).

O rei quando estava sentado no trono lhe deu vontade de sentar no trono e com voz tronante pediu licença à corte e saiu correndo numa velocidade de um mésotron.

Constatação XV

Ela clareou os dentes como soe acontecer com os atores e atrizes globais. No entanto, ela era por natureza azeda, digna de se candidatar a um concurso de Miss Azedume. Jamais, em tempo algum, se permitia um simples sorriso. Quando muito, um amarelo. Rir, então, nem pensar. Quando lhe perguntavam por que nunca ria, até para mostrar os dentes clareados, ela respondia que sim. Que ela ria. Mas, por dentro.

Constatação XVI

Não só o Brasil inteiro ficou triste, compungido, macambúzio com a derrota acachapante da Argentina para a Bolívia. A América Latina inteira também…

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

PALAVRA poema de joão batista do lago

Coisa estranha este fenômeno: Palavra!

Nela tudo se decompõe

Numa razão assimétrica

Incoerente e disfuncional

Para no ato seguinte

Ser toda ela funcional

De toda metafísica que se impõe

 

Não conheço qualquer ser

Que dela não dependa

Nada se lhe escapa

– seja na vida;

seja na morte

 

Tudo dela depende:

Paz e guerra

Homem e mulher

Criança e adulto

Fome e fartura

Miséria e riqueza

Leis e anomia

Patrão e empregado

Trabalho e desemprego

Céu e terra

Deus e diabo…

 

Não há na vida

Nem na morte

Sujeito de tamanha grandeza

Dela tem-se toda verdade

Mas a mentira nela invade

 

Ó, a Palavra!

Reina de todos Poetas

Dela fazem uso os Filósofos

A ela se quedam os cientistas

Diante dela ajoelham religiosos

Na retórica é brinquedo de sofistas

 

Santa e demoníaca é a Palavra!

Desperta amor e ódio

Fere a alma e o espírito como faca de dois gumes

Rasga a carne do verbo

Dilacera corações de amantes (e)

Beija as mãos que apedreja

 

Palavra! Ó tu, meiga e doce Palavra!

Rude e azeda como o fel da ponta da lança

Voraz, caidiça, decrépita e senil

Bela, altiva, nobre e digna

Arrogante, soberba e presunçosa

Sou-te o mais humilde escravo na floresta do discurso

 

Nada – desde a poeira do nada – define-te. Nada!

Explicar-te é todo o mistério

Entender-te é tudo que se deseja

És toda possibilidade do Ser – deus ou diabo –

Habitas no sonho, na realidade e no real

Constróis e desconstróis paraísos e infernos

 

És o símbolo oculto da mandala

De Parmênides a Sócrates

De Platão a Aristóteles

Sânscrita, ó Palavra, tu és

És mestre do hinduismo e do budismo e do tantrismo

És, enfim, a Paidéia de tudo ser

 

TELESCÓPIO poema de solivan brugnara

                    Hei de um dia

                                         transbordar

           que meu coração e um ovo de águia,

                     e livre ver

          mar, estrelas, nebulosas,

                                 qualquer imensidão.

             Pastorear êxodos.

            Cavalgar manadas.

            Beber oceanos.

 Vou arrebentar, inundar, levitar,

       num púlpito qualquer

              rasgar o paletó

                           a camisa

                                  a pele

                                         a alma

                                                  e gritar

                                   voem poemas, estão livres, voem.

 

E leve vou ascender

cair no sentido inverso

da terra para as nuvens.

 

Sim, sim, acredito no improvável,

um dia! um dia!

 As paredes serão neblinas de concreto armado,

 todas as glândulas lagrimais hão de atrofiar por falta de uso

 e as fabricas de fechadura, de grades, de alarmes,

de tudo que prende terão suas ações desvalorizadas.

      

              E então vou apenas fecundar, reencontrar, gargalhar,

                         desconcertar com um tiro de plumas.

               E se morrer de jubilo,

  nunca mais quero ser de carne e alma,

   que ter uma alma e manter um pássaro na gaiola.

            Se puder escolher

                      vou de renascer telescópio

                          ou motor de avião.