DE PARIS crônica de hamilton alves

Quando cheguei aqui nenhuma surpresa. Era como já tivesse vindo muitas vezes a essa cidade, que merece inteiramente o nome de “cidade luz”. À noite, as luzes espocam por toda parte. É um feerismo que, acredito, não se vê em parte alguma do planeta.

                                               Quando saí do Brasil para cá tinha lido não sei onde (creio que foi num livro de ensaio de Kundera) que “Paul Verlaine morreu num hotel modesto de Paris”.

                                               Perguntei ao taxista que me levou do aeroporto a um hotel em Montmartre:

                                               – Você sabe alguma coisa sobre o lugar em que teria morrido Verlaine?

                                               – Não, nada sei. – disse, lacônico.

                                               Como poderia saber? Ou será verdadeira a história que um amigo que morou muitos anos aqui me contou que travou com um garçom de restaurante que tinha um grande conhecimento sobre literatura? E artistas em geral?

                                               O taxista, que entrevistei, parecia desinformado sobre dados a respeito de artistas. Ou de Verlaine em especial. Nada sabia de sua existência.

                                               Meu interesse em Paris é cultural. Nada mais. Conhecer a cidade, os lugares, museus, restaurantes, cafeterias famosos está na linha de meu objetivo. Por onde passaram ou viveram escritores, pintores, músicos, atores – isso procuro afanosamente saber.

                                               De repente, posso conhecer um grande poeta. Achar um livro de sua autoria numa livraria. Um poeta que não chegou ainda à fama. Ou não seja muito cortejado por parisienses. Me proponho a um tetê-à-tête com ele num local qualquer.

                                               De certo, não recusaria um convite desses. Trocaríamos ideias. Me falaria de seu modo de compor ou conceber a poesia; lhe falaria de outro tanto; lhe daria de presente meu último livro  -“Homenzinho na madrugada”, com uma capa belíssima de um grande artista ( assim pouco reconhecido entre nós) – Jair Platt – que se foi deste mundo como chegou – sem nome algum.

                                               Jair era refratário à fama ou à badalação. Era de sua natureza simples e arredia.

                                               Estou já há dias em Paris.

                                               Ainda não encontrei esse poeta. Ou um grande pintor. O que tenho visto de obras de artistas à margem do Sena me parece de pouca ou nenhuma qualidade.

                                               Cadê a grande revelação na poesia ou na pintura?

                                               Obviamente, numa estada curta como essa não vai dar para encontrar esse poeta ou esse pintor com que sonho. Deve andar neutro e esquivo pelas ruas da cidade, sem se fazer notar, como foi o caso mais recente (ou não tão recente assim) de Jacques Prévert, que vivia oculto ou era pouco popular.

Artistas são, de um modo geral, seres estranhos.

                                                – Paris, Paris, Paris… – perdoem-me – há um ligeiro equívoco! Sonhei, certamente, que estava pela primeira vez percorrendo as ruas dessa cidade. Andava em busca do grande poeta ou do grande pintor. Seres que evidentemente não existem mais. Ou se ocultam. Quem é que saberá?

 

 

(março/09)                 

 

 

 

 

Uma resposta

  1. Hamilton:

    Creio que não poderei ajudá-lo a achar O Pintor e O Poeta destes nossos tempos, embora existam muitos artistas que, por certo, mereceriam reconhecimento ainda em vida. Porém, nossos tempos são diferentes e já não se venera a arte como antigamente. Mas talvez
    possa auxiliar a localizar o derradeiro teto de Verlaine, que passou seus últimos anos trocando de pousada entre modestos hotéis e hospitais.

    Até onde pude pesquisar, nas biografias mais ou menos completas do poeta maldito, não foi exatamente em um hotel que ele morreu. Seus últimos anos foram disputados por duas prostitutas – Philomène Boudin, mais conhecida como “Esther”, e Eugènie Krantz, a
    “Nini-Mouton”. Entre tapas e beijos, as duas alternaram sua atenção a Verlaine durante alguns anos, e o poeta morou em vários hoteis (du Midi, Royer-Colard, des Nations, de Lisbonne, de Rennes e des Mines), alguns dos quais em companhia de Philoménne, até que ele descobriu que ela havia roubado suas economias. Viveu parte do tempo com Eugènie nas casas onde ela morou, primeiro na rua Saint-Victor, depois no numero 15 da rua Descartes e também no número 39 da mesma rua. Consta que foi nesse último endereço que ele passou a viver com sua amiga em fevereiro de 1895, até o dia 8 de janeiro de 1896, quando faleceu.

    Quantos aos outros mistérios (das artes) equacionados em sua bela crônica, nada sei. e, como você mesmo pergunta:quem saberá?

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