Iluminai-vos! por alceu sperança

As crianças se tornam poderosos defensores do Bem quando em seus videogueimes se abalam a dramáticas tentativas de derrotar seus vilões preferidos.

Os adultos também fazem seus jogos. Através das teorias da conspiração, por exemplo, pode-se escolher uma raça (judeus, índios) para atacar como sendo a coisa maldita que nos oprime e ameaça – a nós, a raça pura e honesta, que somos, obviamente, o Bem.

O governador Roberto Requião negou apoio ao presidenciável Geraldo Alckmin, nas eleições de 2006, porque este é “do capeta” e nós, evidentemente, somos do lado de Deus.

Nada diferente do videogueime da piazada: eu sou o bonzinho do Bem e o árabe, o cacique Kretã, o Judeuzão, é o capetão que eu vou combater entre zaps, ziins e pows!

Recebi um e-mail anônimo me alertando para deixar de ser burro e perceber que minha “ideologia” (marxista) foi criada por uma turma de judeuzões do mal. Os mesmos que segundo um tal “Protocolo dos Sábios de Sião”, também desgraçam a nossa vida com tudo que de ruim acontece neste mundo.

Cada um joga o jogo infantil que lhe apetece. Não é preciso teoria da conspiração nenhuma para perceber quem domina o mundo na atual etapa da humanidade: é o capitalismo em sua fase neoliberal, que se expressa de diversas formas.

Aumenta a pobreza. Arrasa o meio-ambiente. Manipula eleições criando dois pólos de disputa que defendem o mesmíssimo programa. Faz o banco lucrar e o mercadinho da esquina quebrar. Promove o desemprego na cidade e não deixa ninguém trabalhar no campo… e vai por aí.

A teoria da conspiração – uma rede de sociedades secretas comandaria todo o mundo há séculos – é um joguinho muito do besta. Geralmente é uma ficção que parte de uma verdade completa – uma data, um fato histórico – e a partir daí se desdobra em meias-verdades até chegar a fantasias inteiras, como a origem extraterrestre, ou seja, desumana, dos “dominadores” (as raças odiadas).

Seria apenas um jogo idiota se não fosse perigoso: ele faz com que o jogador se sinta um simples marionete dessa tamanha rede de dominação racial e política:

“Nada que eu possa fazer em minha comunidade vai afetar essa dominação de judeuzões mauzões descendentes de lagartos extraterrestres. Por isso, o jeito é eu me neoliberalizar de uma vez e ir lá beliscar a minha parte no bolo dessa corrupção toda”.  

O videogueime adulto da teoria da conspiração só tem uma vantagem: como se trata de fantasias amalucadas e mirabolantes, você pode falar mal do inimigão e combatê-lo sem o menor risco, pois ele jamais vai revidar.

Claro, ele é secreto: se aparecer por aí aos tapas com os teóricos da conspiração, vão abrir seu jogo e tornar a brincadeira revelada e chata. Só acontece nos filmes.

Nos videogueimes, as crianças sempre derrotam o Mauzão. Mas no jogo infantil dos adultos, os iluminados inimigos sempre vencem. E ao vencer nos dizem:

“Não adianta lutar contra nós. Nossa rede de segredos e tramas é demais para você, reles mortal! Anda, abandona essa ideologia marxista e caia de vez nas riquezas e maravilhas neoliberais!”

Só que o marxismo não é ideologia, cara-pálida. É um método de análise que todos, do padre ao professor, passando pelo aprendiz e pelo cientista, usam modernamente para qualquer estudo que se faça. E esse jogo, senhor Zorro, apesar de suas pistolas mortíferas, nós já vencemos!


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