O CANTAR DO XEXÉU poema de tonicato miranda

nem todo poeta é triste

nem todo palhaço é palhaço

nem toda a música é canção

toda mulher merece um não

milhares de sim, algumas o véu

 

não está em todas tardes a luz

assim como não são

brancas as nuvens sobre mim

hoje a ameaça de chuva está

agarrada no cinza no céu

 

no rádio toca “Você”

de Menescal e Boscoli

no meu peito toca um Rio

onde já fui menos saudade

pois era simples pardal ao léu

 

Curitiba dos anos 80

era Cardoso e sua “troupe

nós por ali como andorinhas ligeiras

de bar em bar, de rua em rua

quase prostitutas de bordel

 

ninguém sente saudades

do que nunca sentiu

mas queria sentir tristeza

de um futuro que não gestei

o coração como cavalos em tropel

 

sentir saudade de mim e de você

o meu corpo dolorido de ausências

dos amigos e dos perigos dos amores

tudo e todos que podem me colocar

como condenado no banco dos réus

 

nem todo poeta é triste

mas palhaço pode ser um dia

quando a tristeza molhar a boca

adoçando a palavra, brotando o gesto

beijando a abelha antes dela moldar o mel

 

nem todo pio na mata

e nos baldios da cidade aberta

vem do bem te vi ou da gralha preta

às vezes vem da andorinha

outras de um simples xexéu

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